Rafael Abud fala sobre a expansão do setor, o mercado de milho no Brasil, os planos da companhia e a desistência – por enquanto – da entrada na bolsa de valores
Na ativa desde 2017, a FS Bioenergia foi uma das primeiras companhias a apostar na produção de etanol totalmente a partir do milho. Até então, estavam em operação apenas usinas que aproveitavam a entressafra da cana-de-açúcar para utilizar o grão e manter sua produção durante todo o ano. Mas a FS foi além, estabelecendo a sua primeira planta na cidade de Lucas do Rio Verde (MT) e tendo o milho como matéria-prima principal.
O presidente da FS, Rafael Abud, explica que o projeto começou muito antes da instalação da usina, em 2013. A iniciativa foi motivada por estudos que mostravam que o estado de Mato Grosso tinha um alto índice de crescimento na produção do grão e um aumento relevante da demanda por etanol, com a alta comercialização dos veículos flex.
“Existia a oportunidade de pegar essa matéria-prima e agregar valor, produzindo biocombustível, atendendo a demanda crescente e ainda fabricando produtos de nutrição animal. Essa foi a tese de onde nasceu a FS”, relata.
Além do etanol, a empresa também aposta nos produtos de alta fibra e proteína secos (DDGS) e úmidos (WDG), advindos do processamento do milho. De acordo com Abud, estes coprodutos adicionam volume ao nível de produção da FS: “Eles têm um papel importantíssimo na rentabilidade e no resultado da companhia, para nós é um produto tão relevante quanto o próprio etanol”.
Atualmente, além da unidade de Lucas do Rio Verde, a FS Bioenergia possui uma segunda planta em Sorriso, também no Mato Grosso. Ambas as unidades passaram por processos de ampliação e hoje operam em sua total capacidade. Na última safra, elas produziram 1,4 bilhão de litros de etanol anidro.
Mas este é apenas o começo da expansão. Abud conta que a empresa já adquiriu terrenos com licença ambiental em quatro outros munícipios no mesmo estado. O plano da empresa é alcançar o patamar de produção de mais de 4 bilhões de litros de anidro por ano, quando todas as seis unidades estiverem em pleno funcionamento.
Além disso, a empresa também tem planos de diminuir suas emissões de carbono. No programa RenovaBio, a planta de Lucas do Rio Verde tem a segunda maior nota para o etanol anidro e a quinta maior no hidratado, mas seu nível de elegibilidade é de 32,05%. Já a unidade de Sorriso, que está se certificando no programa, deve estrear com 84% de elegibilidade, segundo a empresa.
A FS também tem planos de se tornar a primeira usina com pegada de carbono negativa, com um sistema de captura e estocagem de CO2, que está passando por fase de estudo de viabilidade. Segundo o presidente da companhia, se tudo ocorrer conforme planejado, o projeto poderá iniciar a operação até dezembro de 2023.
Em entrevista exclusiva ao NovaCana, o presidente da FS Bioenergia conta mais sobre a trajetória da empresa, perspectivas do mercado de milho e planos para o futuro da companhia.
Na ativa desde 2017, a FS Bioenergia foi uma das primeiras companhias a apostar na produção de etanol totalmente a partir do milho. Até então, estavam em operação apenas usinas que aproveitavam a entressafra da cana-de-açúcar para utilizar o grão e manter sua produção durante todo o ano. Mas a FS foi além, estabelecendo a sua primeira planta na cidade de Lucas do Rio Verde (MT) e tendo o milho como matéria-prima principal.
O presidente da FS, Rafael Abud, explica que o projeto começou muito antes da instalação da usina, em 2013. A iniciativa foi motivada por estudos que mostravam que o estado de Mato Grosso tinha um alto índice de crescimento na produção do grão e um aumento relevante da demanda por etanol, com a alta comercialização dos veículos flex.
“Existia a oportunidade de pegar essa matéria-prima e agregar valor, produzindo biocombustível, atendendo a demanda crescente e ainda fabricando produtos de nutrição animal. Essa foi a tese de onde nasceu a FS”, relata.
Além do etanol, a empresa também aposta nos produtos de alta fibra e proteína secos (DDGS) e úmidos (WDG), advindos do processamento do milho. De acordo com Abud, estes coprodutos adicionam volume ao nível de produção da FS: “Eles têm um papel importantíssimo na rentabilidade e no resultado da companhia, para nós é um produto tão relevante quanto o próprio etanol”.
Atualmente, além da unidade de Lucas do Rio Verde, a FS Bioenergia possui uma segunda planta em Sorriso, também no Mato Grosso. Ambas as unidades passaram por processos de ampliação e hoje operam em sua total capacidade. Na última safra, elas produziram 1,4 bilhão de litros de etanol anidro.
Mas este é apenas o começo da expansão . Abud conta que a empresa já adquiriu terrenos com licença ambiental em quatro outros munícipios no mesmo estado. O plano da empresa é alcançar o patamar de produção de mais de 4 bilhões de litros de anidro por ano, quando todas as seis unidades estiverem em pleno funcionamento.
Além disso, a empresa também tem planos de diminuir suas emissões de carbono. No programa RenovaBio, a planta de Lucas do Rio Verde tem a segunda maior nota para o etanol anidro e a quinta maior no hidratado, mas seu nível de elegibilidade é de 32,05%. Já a unidade de Sorriso, que está se certificando no programa, deve estrear com 84% de elegibilidade, segundo a empresa.
A FS também tem planos de se tornar a primeira usina com pegada de carbono negativa, com um sistema de captura e estocagem de CO2, que está passando por fase de estudo de viabilidade. Segundo o presidente da companhia, se tudo ocorrer conforme planejado, o projeto poderá iniciar a operação até dezembro de 2023.
Em entrevista exclusiva ao NovaCana, o presidente da FS Bioenergia conta mais sobre a trajetória da empresa, perspectivas do mercado de milho e planos para o futuro da companhia.
A FS Bioenergia de Lucas do Rio Verde (MT) foi a primeira usina de etanol a usar apenas milho, começando sua produção ainda em 2017. Mas quando essa história começou?
Nós começamos a conceber esse projeto em 2013, quando os acionistas fundadores da companhia enxergaram um potencial no estado do Mato Grosso, que vinha em uma rota muito crescente de produção de milho e adotando tecnologias de ponta, conseguindo desempenhar cada vez melhor na safrinha. Ainda assim, sobrava muito milho, o produto tinha baixa liquidez e a infraestrutura para transportar o grão era mais precária, seja em estradas e até mesmo na capacidade portuária. Isso fazia com que o preço fosse bastante deprimido no estado. Ao mesmo tempo, você vinha com uma perspectiva de crescimento de demanda de etanol no Brasil, com cada vez mais veículos flex sendo comercializados. Foi vista uma oportunidade de pegar essa matéria-prima e agregar valor produzindo etanol e produtos de nutrição animal. Essa foi a tese de onde nasceu a FS Bioenergia.
As usinas em operação receberam investimentos para expansão ainda em seu primeiro ano de atuação. Essa estratégia de inaugurar uma unidade já pensando em expandir alcançou os resultados esperados?
A gente começou com essa primeira planta em Lucas do Rio Verde (MT), mas desde aquele momento já havia uma visão de expansão e crescimento de capacidade. A ideia era continuar investindo na medida que a gente se consolidasse no mercado e que se provasse a nossa tese de que produzir etanol a partir do milho no Mato Grosso era rentável, com a região crescendo em produção de milho e no mercado de etanol. Com isso, começamos as obras da nossa primeira unidade no início de 2016 e inauguramos em junho de 2017; já foi uma planta toda pensada para expansão de capacidade. Chegamos ao final do primeiro ano e tomamos a decisão de duplicar a unidade. E antes mesmo da conclusão da expansão em Lucas do Rio Verde, iniciamos a construção da nossa segunda planta, em Sorriso (MT), que também teve sua capacidade ampliada logo depois da inauguração e iniciou as operações com a nova expansão agora em março de 2021.
“Além da trajetória de expansões, existe um plano para outras unidades. Já temos terrenos e projetos licenciados em quatro outras cidades do Mato Grosso: Primavera do Leste, Campo Novo do Parecis, Querência e Nova Mutum”, Rafael Abud (FS Bioenergia)
As unidades têm apresentado o resultado esperado, principalmente considerando esta fase inicial das operações?
Nós temos colhido resultados acima do esperado. Nossa visão lá atrás era em outro contexto de mercado, tinha uma dinâmica de preço de milho e de etanol bem diferentes. Agora, há um novo mercado de nutrição animal a partir do milho, que a gente desenvolveu do zero. Teve um aprendizado durante esse período, de formação e criação deste nicho. Temos performado bastante acima das nossas expectativas iniciais e é por isso que a gente continua investindo fortemente em expansão. Realmente temos colhido resultados maiores do que a gente imaginou no começo do projeto.
Quais as principais vantagens e desvantagens do modelo full adotado pela FS Bioenergia em relação às usinas flex?
Eu não vejo muitas vantagens ou desvantagens entre uma e outra. No caso da flex, já existe uma planta de cana-de-açúcar e a empresa decide adicionar a capacidade de processamento de milho. Hoje, para você tomar uma decisão de fazer uma planta desta do zero, é necessário passar por um estudo de viabilidade da cana separado do milho, entender se vale a pena o investimento. Então, a flex é uma forma de aproveitar ativos existentes e passar a trabalhar com outra matéria-prima. Já construir uma planta nova de etanol de milho, como é o nosso caso, é um modelo que atende melhor a nossa expectativa e está mais alinhado com o nosso projeto. A gente entende que é o modelo mais eficiente para a região.
Ainda sobre o milho, a FS declarou no passado que negocia o grão a preços fixos e mantém grandes estoques para produção. Vocês seguem com essa estratégia?
Nós negociamos o milho de várias formas. O mercado, de maneira geral, compra o milho antecipado. É do interesse das grandes tradings garantir a disponibilidade do produto e uma programação de exportação. Nós também fixamos antecipado porque é do nosso interesse garantir a disponibilidade física do milho para operar durante o ano inteiro e ter visibilidade dos nossos custos. Para o produtor também é vantajoso, porque ele precisa travar o custo de fertilizantes, químicos e sementes com antecedência; esse preço varia em função de dólar e safra. Então, o produtor também tem a cultura de vender antecipado para poder compatibilizar esses custos ou trocar o milho por insumos, no caso de operações de barter. É uma forma que o mercado atua em comercialização de milho que não é exclusiva. Mas a FS tem a sua estratégia específica, claro. É uma questão de como definimos nossas políticas e ações comerciais. De maneira geral, compramos com antecipação e também durante a safra. Com essa lógica, garantimos o produto para poder operar 355 dias por ano, então, precisamos segurar e carregar esses estoques.
O senhor tem perspectivas de quebras de contrato por conta dos problemas atuais com a safra de milho?
Tem muita especulação sobre a quebra de safra e, realmente, foi um ciclo bastante desafiador para o milho em vários locais do Brasil. Mato Grosso, em relação aos demais estados do Brasil, foi o que menos sofreu impacto com secas e geadas, assim, ele perdeu menos produção. Hoje, a gente já recebeu praticamente a totalidade do nosso milho físico dentro dos nossos armazéns. Tivemos casos muito pontuais, diria irrelevantes ou imateriais, de situações de não entrega ou de potencial de negociação. Recebemos todo o nosso milho normalmente.
E como está a fixação para a próxima safra?
Na safra que está se encerrando agora, já compramos 100% da nossa demanda faz algum tempo; toda a nossa necessidade de milho até a próxima colheita está assegurada. Para o ano que vem, temos avançado em cerca de 40% da nossa fixação de milho que vai ser colhido em junho 2022. E já começamos a fazer negócios também para o ano seguinte. Começamos [a comprar o grão] com 24 meses de antecedência.
Então, mesmo com este contexto, o total de biocombustível produzido pela FS ficou dentro do esperado?
Estamos constantemente aumentando nossa produção. Vamos produzir bem mais do que no ano passado, quando acionamos a capacidade produtiva. Foi inaugurada a fase três da planta de Sorriso e estamos sempre ganhando eficiência e trabalhando para maximizar nossa produção, então, este ano a gente vai produzir próximo de 1,5 bilhão de litros de etanol, entre anidro e hidratado, versus 1,1 bilhão de litros do ano passado. A quebra da safra de milho para nós não atrapalhou em absolutamente nada o nosso programa de produção deste ano.
A pandemia do coronavírus diminuiu consideravelmente a demanda por etanol. Isso afetou de alguma forma o planejamento estratégico do produto para a FS? Até que ponto o etanol foi realmente lucrativo para a empresa?
Quando começou a pandemia, a primeira onda atingiu os mercados de combustíveis de maneira mais relevante nos meses abril, maio e junho do ano passado, que é o nosso primeiro trimestre fiscal. Naquele período, a gente sentiu – o mercado todo sentiu – uma queda da demanda, em função das pessoas ficarem mais em casa e todas as medidas restritivas. Com o baixo consumo e a queda do petróleo, o preço do etanol caiu muito, mas a FS continuou produzindo normalmente. Quando comparamos o nosso custo de produção de um litro de etanol com produtores de cana-de-açúcar ou com os produtores flex, nós temos uma despesa bastante inferior ante a média da indústria, o que nos permite gerar resultado positivo mesmo diante de cenários mais baixos de preço de etanol. Foi isso o que aconteceu naquele momento, até porque a gente tinha um estoque de milho bem precificado, mas parte desse resultado positivo, vem de nossos produtos de nutrição animal.
“Os coprodutos da fabricação de etanol têm papel importantíssimo na rentabilidade e no resultado da companhia. Para nós, são produtos tão relevantes quanto o próprio etanol”, Rafael Abud (FS Bioenergia)
Mato Grosso é um grande produtor de milho, o que facilita as operações de uma usina de etanol a partir do grão. Ainda assim, a questão do transporte do biocombustível para outros estados foi questionada no começo das operações do setor. Como a FS tem lidado com essa questão logística?
Nós consideramos que Mato Grosso está em uma localização bastante estratégica para atender o país todo. Temos um volume relevante do nosso etanol indo para mercados que normalmente são mal abastecidos. A FS está em grandes mercados, como Manaus, Belém e outras capitais e centros urbanos da região Norte, então, este é um mercado importante para nós. Atendemos também o próprio Mato Grosso e aí é uma logística local. Mas a maior parte do nosso etanol vai para o Centro-Sul do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e outros estados. Usamos todos os modais logísticos, de modo que isso não é um gargalo para nós. A FS faz a gestão ativa, operando com caminhões, barcaças na bacia hidrográfica do Amazonas, duto na região de São Paulo e Rio de Janeiro e ferrovias. A gente tem um contrato grande a partir de Rondonópolis (MT), que entrega etanol direto em Paulínia (SP); usamos até navios para atender o Nordeste. Hoje, a FS está em uma posição central para poder atender vários mercados de etanol no Brasil com eficiência logística. Claro que são distâncias grandes e o país ainda tem muito a evoluir do ponto de vista de infraestrutura, mas a gente consegue operar muito bem.
Na safra 2019/20, a FS vendeu 516,56 milhões de litros e na 2020/21, 1,11 bilhão. Quais são as expectativas para o ciclo 2021/22? Poderia comentar também por unidade (Lucas do Rio Verde e Sorriso)?
Estamos operando na capacidade atual das nossas unidades. Lucas do Rio Verde produz 550 milhões de litros de etanol anidro por ano; e Sorriso, 850 milhões de litros. Isso dá 1,4 bilhão de litros de anidro. Como a gente ainda faz uma parte relevante de hidratado adicionando a hidratação após a produção do anidro, este volume acaba subindo um pouco, depende do mix. Este ano, a gente projeta vender mais de 1,4 bilhão, algo próximo de 1,45 bilhão, com as duas plantas.
A produção de etanol de milho aumentou em 2020 mesmo com a retração do total produzido no país devido à pandemia. Como o senhor vê o cenário atual do setor?
A redução de demanda por conta da covid-19 foi bem pontual, aconteceu na primeira onda. A partir de julho do ano passado, o mercado já começou a se recuperar, a ponto de terminamos o ano com uma demanda muito pouco abaixo na comparação anual, cerca de 10% menos. Este ano, aumentou bastante a demanda pelo biocombustível, mas o lado da oferta ficou restrito: vai ter menos etanol como um todo porque as usinas de cana estão direcionando a matéria-prima para produzir o máximo possível de açúcar. E ainda teve uma quebra na safra de cana em função da seca e da geada, reduzindo bastante a capacidade de moagem do setor sucroenergético. Por isso, o país vai ter menos etanol disponível para comercialização; não é mais uma questão da covid, pois a demanda está forte. A verdadeira questão é a falta de disponibilidade de cana-de-açúcar para o etanol.
Como isso deve impactar as usinas de etanol de milho?
O que a gente tem visto é o crescimento da produção de etanol de milho – ainda bem. De certa forma, estamos conseguindo suprir este espaço aberto pela quebra da safra de cana-de-açúcar. Claro que o impacto disso vai ser muito maior do que o etanol de milho vai poder compensar em termos de oferta, mas é um setor que está em franca expansão. Existem novos projetos, não só da FS, e o setor vai continuar crescendo.
A FS realizou financiamentos verdes, vinculados a metas ambientais, para a expansão da unidade Sorriso e também para refinanciar dívidas contraídas com credores internacionais. Como o senhor avalia o endividamento atual da empresa?
Enquanto estávamos investindo na construção das nossas plantas foi aplicado muito capital; a unidade Sorriso foi um investimento de R$ 2 bilhões. Nós atingimos o pico de alavancagem da história da companhia pouco antes de iniciar a operação da fábrica de Sorriso, ficou acima de 5 vezes. Em menos de um ano, desalavancamos para algo próximo de 2 vezes. No nosso resultado do 1º trimestre fiscal deste ano, a alavancagem era de 1,5 vez. Então, já estamos bem desalavancados, em um nível que consideramos muito saudável para a companhia e estamos bastante satisfeitos com a posição atual.
Como foi o refinanciamento da FS?
O processo de refinanciamento e de alongamento das nossas dívidas, basicamente, foi um reperfilamento do nosso endividamento. O principal movimento foi a emissão dos nossos green bonds, em dezembro do ano passado. Emitimos US$ 550 milhões de dívidas verdes no mercado internacional e, depois, reabrimos com mais US$ 50 milhões em janeiro. Hoje, temos a renegociação desses títulos de US$ 600 milhões e, com a quantidade de endividamento de longo prazo da companhia, este foi o principal movimento de reperfilamento do nosso débito. De lá para cá, estamos desalavancando com a geração de caixa da companhia.
No começo deste ano, a FS declarou estar próxima de realizar a sua oferta inicial na bolsa de valores (IPO), esperando obter cerca de R$ 1 bilhão, valor este que seria destinado a construção da terceira planta de etanol de milho. Como está o andamento deste processo? Quais são os planos atuais e futuros em relação à bolsa de valores?
Tivemos conversas com o mercado e fizemos um pedido de registro de oferta pública no início do ano, mas acabamos não levando essa oferta adiante. Neste momento, continuamos acompanhando o mercado em busca de alguma oportunidade, mas não estamos em nenhum processo formal ou estruturado de oferta pública. Isso foi uma iniciativa para a qual não demos continuidade. Vamos continuar crescendo com recursos próprios, geração de caixa da companhia. Se houver uma oportunidade para buscar recursos de mercado de ações vamos considerar novamente, mas isso não faz parte do plano agora.
O plano da FS Bioenergia é ter ainda mais usinas de etanol de milho no Mato Grosso. Como está o andamento das próximas plantas? Qual é a expectativa de produção quando todas estiverem em pleno funcionamento?
Temos terrenos adquiridos e com a licença ambiental emitida em Primavera do Leste, Campo Novo do Parecis, Nova Mutum e Querência, quatro municípios aqui do Mato Grosso. E estamos estudando qual será a nossa terceira fábrica. A ideia é expandir para estas localidades ao longo do tempo; não vamos fazer tudo de uma vez, nem teria como. Ainda não podemos precisar uma data, mas poderemos chegar no patamar de produção de 4,8 bilhões de litros por ano quando todas as unidades estiverem implantadas e em sua capacidade máxima.
A usina em Lucas do Rio Verde obteve boas notas com o programa RenovaBio, mas com uma elegibilidade inicial de 12,5% devido ao rastreio de produção do milho; este ano, o valor subiu para 32,05%. Como a elegibilidade pode melhorar nos próximos anos?
A maior dificuldade foi no rastreio [da origem da matéria-prima]. Temos usado dados primários para poder confirmar nossa nota, que no ano passado era a melhor do programa, no caso da planta de Lucas do Rio Verde. Pretendemos manter as nossas notas entre as mais altas porque é uma característica do nosso modelo de produção, com baixas emissões de carbono. E estamos mirando em 90% de elegibilidade em todas as nossas plantas. Lucas do Rio Verde começou com 12,5%, já subiu para mais de 30% e, no ano que vem, deve subir significativamente mais. Sorriso, nossa outra planta, já passou por consulta pública e teve elegibilidade de 84%.
Qual a importância do RenovaBio para as usinas de etanol de milho atualmente?
Eu acho que o RenovaBio é um programa de grande importância para o Brasil, pois visa acelerar a transição energética, incentivando fontes renováveis de baixa emissão de carbono a longo prazo e em detrimento das opções fósseis. É um grande programa para o futuro do país, super alinhado com o que o mundo está buscando agora. Ele impacta positivamente as usinas de etanol de milho, as de cana e as de biodiesel, então, basicamente todo os produtores de biocombustível têm uma perspectiva de longo prazo para poder continuar investindo em ciência e capacidade produtiva, acelerando a transição energética.
Recentemente, a FS declarou que vai investir R$ 250 milhões para ter a primeira usina com pegada de carbono negativa do país, a partir de um sistema de captura e estocagem de CO2. Como está o andamento deste projeto? Quando será o começo das operações?
Esse é um projeto super inovador. A ideia é, basicamente, pegar o CO2 emitido no processo fermentativo do etanol, que é um carbono de alta pureza, comprimir e injetar em poços profundos, estocando em formações rochosas porosas que podem reter este gás, ao invés de emitir para a atmosfera. É uma tecnologia dominada em outras aplicações e indústrias, já conhecida. Pretendemos com isso reduzir as nossas emissões de carbono para um patamar negativo. É um projeto bastante audacioso e que pretendemos conduzir nos próximos anos. Neste momento, estamos terminando os estudos de viabilidade técnica e de engenharia. Já fizemos toda a coleta de dados sísmicos do local para fazer o perfil geológico da região onde está a nossa planta. Com isso, a gente consegue avançar na engenharia do poço de estocagem e da bacia onde vai ser estocado esse CO2. Assim, estamos na fase de análise da viabilidade técnica e econômico-financeiro. Eu diria que, dentro de seis meses, estaremos em condições de tomar uma decisão para avançar na construção ou não do projeto. Se tudo correr bem, pretendemos estar operando até dezembro de 2023.
Giully Regina – NovaCana