BASF
Usinas

Investidores temem nova onda de calotes


Bloomberg - 27 jan 2015 - 08:53 - Última atualização em: 27 jan 2015 - 11:18

Após sofrerem dois calotes de usinas de açúcar e álcool do Brasil em menos de um ano, investidores do mercado de dívida estão mais temerosos do que nunca de que outros tomadores do setor possam seguir pelo mesmo caminho.

Apenas em janeiro, os US$ 300 milhões em bonds da Tonon Bioenergia, com vencimento em 2020, perderam 19 por cento e atingiram o menor valor de comercialização desde a emissão — 0,484 centavos para cada dólar —.

As notas para 2019 da USJ Açúcar e Álcool também derreteram e são negociadas pela metade do valor de face.

O setor está cambaleando depois que a forte queda nos preços internacionais do açúcar, a pior seca em décadas e o controle sobre o preço da gasolina no Brasil sangraram as usinas.

No começo do mês, o Grupo Virgolino de Oliveira deixou de pagar cerca de US$ 7,3 milhões em juros sobre parte de sua dívida após anunciar que busca um acordo com os credores para reestruturar suas obrigações.

Em março do ano passado, a Aralco deu calote nos detentores de seus US$ 250 milhões em bonds após fazer apenas um pagamento de juros.

Desde 2011, 47 usinas de etanol e açúcar fecharam e cerca de 70 estão em recuperação judicial, segundo dados da Unica, entidade que representa as usinas de cana-de-açúcar.

“O setor como um todo está com problemas”, disse Carlos Gribel, diretor de renda fixa da Andbanc Brokerage, por e-mail. “Os preços dos bonds indicam grandes chances de calotes”.

Rodrigo Aguiar, CEO da Tonon, afirmou que a empresa continuará a honrar sua dívida. Segundo o executivo, a empresa realizou um pagamento de US$ 14 milhões em juros das notas de 2020 na sexta-feira, 23.

“Os investidores ainda estão muito reticentes”, disse Aguiar, por telefone, de Bocaina, São Paulo. “Eles estão olhando para as empresas do setor como se todas fossem iguais”.

Percepção momentânea

“A depreciação nos bonds do setor sucroenergético reflete a percepção dos investidores internacionais acerca do momento que o Brasil atravessa e das perspectivas para o segmento de produção de açúcar, etanol e energia”, afirmou a USJ, por e-mail, em resposta a perguntas sobre a desvalorização de seus bonds. “A queda não tem relação com a performance operacional ou financeira do Grupo USJ”.

Pressionados após anos de excedentes de produção em todo o mundo, o preço internacional do açúcar caiu 11,5 por cento, em média, no ano passado, para o nível mais baixo desde 2008. Enquanto isso, o preço do etanol se manteve deprimido pela decisão do governo de subsidiar a gasolina, por meio da Petrobras, em um esforço para controlar a inflação. Com a gasolina mais barata, a fatia dos carros flex abastecidos com etanol caiu de 82 por cento, em 2009, para 36 por cento, em 2014, segundo a consultoria do setor Datagro Ltda.

“Todo mundo no mercado odeia o setor de açúcar neste momento”, disse Revisson Bonfim, analista para mercados emergentes da Sterne Agee Leach, em Nova York.

O governo anunciou no dia 19 um aumento da PIS/Cofins e a volta da cobrança da Cide sobre a gasolina, alimentando a aposta de que os preços subirão na bomba, abrindo caminho para um aumento da demanda por etanol.

Embora a decisão seja positiva para as usinas, o setor continuará a enfrentar dificuldades devido à escassez de crédito para refinanciamento das dívidas, ao baixo preço do açúcar e às incertezas em relação ao clima, disse Alexandre Garcia, analista sênior da Fitch Ratings.

A Fitch dá uma nota B para o crédito da Tonon, cinco níveis abaixo do grau de investimento, o que reflete um alto risco de calote.

“Este é um ano desafiador para o setor”, disse Garcia, de São Paulo.

Gerson Freitas Jr., da Bloomberg