Tecnologia

“A digitalização transformou a estratégia do negócio”, diz Ricardo Mussa, CEO da Raízen


Forbes - 03 mai 2021 - 09:28
Líder da empresa de energia quer ficar de olho nas demandas globais por descarbonização

Com um possível IPO no horizonte, a empresa integrada de energia Raízen reforça o foco em tecnologia e inovação para apoiar o desenvolvimento de novos produtos e serviços, ampliar sua atuação em mercados internacionais e atender aos anseios de organizações globais por descarbonização.

Em entrevista à Quem Inova, o CEO da empresa, Ricardo Mussa, falou sobre como a tecnologia avançada tem ajudado a empresa a responder a necessidades do mercado. Além disso, a companhia, uma das maiores produtoras de cana de açúcar no mundo e licenciada da marca Shell no Brasil, usa a inovação aberta para antecipar potenciais demandas ao longo de sua cadeia produtiva e a criação de ofertas ainda inexistentes em seus segmentos de atuação.

“A cada safra, investimos em inovação de portfólio, com novos produtos, otimização de processos, melhoramento de maquinários, dentre outras inovações que agregam ainda mais ao nosso modelo de atuação único e irreplicável e nos permitem olhar adiante, na busca por elevar a atuação da companhia a um patamar de protagonismo na transição energética e de redefinir o futuro da energia”, aponta o executivo.

Do campo ao posto, o aprimoramento contínuo em tecnologia é uma prioridade para a empresa, em frentes como energia renovável, com o uso de inteligência artificial para apoiar a tomada de decisão e aprimoramento do balanço energético e eficiência na cogeração de energia. Esta atuação abrange biocombustíveis, bioeletricidade, biocombustíveis avançados e bioprodutos, área que inclui duas das grandes apostas da empresa, o biogás e o etanol de segunda geração (E2G).

A empresa do grupo Cosan também faz uso intensivo de tecnologia em iniciativas para aprimorar sua cadeia de distribuição, que envolve uma frota de cerca de 3,3 mil caminhões e mais de 4 mil motoristas de empresas prestadoras de serviços responsáveis pelo transporte de combustíveis que percorrem, aproximadamente, 250 milhões de quilômetros por ano, o equivalente a 500 mil viagens Rio-São Paulo.

“A complexidade da operação necessária para atender aos desafios geográficos impostos pela capilaridade da distribuição executada pela companhia gerou a necessidade da criação de uma solução assertiva, em que a tecnologia tem papel fundamental para monitorar o volume de ações típicas desta operação”, detalha o CEO.

Para melhorar as rotas e fluxos de distribuição, aumentar a segurança para as transportadoras terceirizadas e reduzir custos com a realização de mais viagens com o mesmo veículo, a Raízen implementou o Programa de Excelência Operacional Logístico, conhecido internamente como ONE. O sistema é conectado à torre de abastecimento e programação de São Paulo, tem uma célula estratégica em Piracicaba (SP) e funciona de forma integrada com áreas como infraestrutura e operações da empresa, realizando a gestão em tempo real do ciclo da frota rodoviária das operações primárias.

Outra área em que o investimento em tecnologia e inovação se manifesta na empresa de energia é o segmento de marketing e serviços, que inclui a atuação no posto de gasolina. Iniciativas nesta frente incluem o aplicativo para pagamento de combustíveis Shell Box, lançado em 2016, que atende ao aumento no uso de transações sem contato desde o início da pandemia, e agrega prêmios, promoções, descontos e pontos Smiles.

“Esses movimentos reforçam a importância de definir estratégias estruturadas para reconhecer oportunidades, com o objetivo de desenvolver soluções e tecnologias que possam beneficiar negócios e conectar as estratégias da Raízen com as demandas impostas por um mundo em constante transformação”, ressalta o executivo. “Acreditamos que o foco na eficiência é uma das formas de aumentar a competitividade, consistência e protagonizar nossa participação nos setores em que atuamos”.

Internacionalização

A venda da tecnologia para a produção do etanol de segunda geração dominada e aperfeiçoada pela companhia para outros países está entre os principais objetivos estratégicos da Raízen. Segundo Mussa, o E2G se diferencia pela utilização dos subprodutos da cana, permitindo melhor aproveitamento da matéria-prima ao elevar a capacidade do etanol em até 50% utilizando a mesma área plantada, e possibilita que mercados globais possam ser atendidos em sua amplitude, uma vez que a empresa é um dos únicos players no mundo operando em escala comercial.

“O desafio de superar gargalos tecnológicos e transformar o produto em uma plataforma confiável, já é reconhecido tanto no mercado nacional como internacional”, destaca o CEO, citando parcerias no Brasil com empresas como O Boticário, que inicialmente previa o fornecimento do E2G para alguns itens de perfumaria e evoluiu neste ano para o uso em 100% da linha de fragrâncias da empresa a partir do etanol celulósico da Raízen. O produto foi rebatizado pela marca como EcoÁlcool, para facilitar o entendimento do consumidor quanto à sustentabilidade do produto.

Para além do mercado nacional, a Raízen atualmente fornece o E2G para o mercado europeu e norte-americano, principalmente na Califórnia, região em que empresas e consumidores buscam produtos mais sustentáveis. Segundo Mussa, a tecnologia de baixo carbono também apoia empresas globais no cumprimento de suas metas de descarbonização.

“Devemos pensar e agir globalmente quanto às questões que envolvem descarbonização e, na Raízen, estamos instituindo mecanismos para acelerar uma economia de baixo carbono de maneira integrada. Para o futuro próximo, a proposta é vender a tecnologia”, detalha o executivo. “Dessa maneira, ganharemos também em função dos royalties e, por sua vez, os clientes contarão com uma solução renovável em suas operações”.

A empresa tem acompanhado uma grande demanda global por energia limpa, segundo Mussa, e a Raízen está em uma posição vantajosa por ter dominado esta tecnologia e a elevado a um patamar que permite à empresa atender os anseios de descarbonização do mercado.

“O fato deste biocombustível ter capacidade elevada em comparação a produção de etanol comum é um dos fatores para sustentar a expansão operacional do produto em escala global, como fonte limpa de energia”, diz o CEO, acrescentando que a pegada de carbono atual do E2G em uma unidade integrada é 30% menor do que a pegada média do etanol brasileiro produzido a partir de cana-de-açúcar.

Oxigenando ideias

Ainda sobre a internacionalização da Raízen, o hub de inovação Pulse deve trazer uma importante contribuição. Lançado em 2018 e baseado em Piracicaba, ele se tornou peça importante na estratégia de inovação da empresa, segundo Mussa, trazendo a perspectiva de monitoramento e geração de negócios considerando o ecossistema de inovação mundial, já que as conexões da empresa não estão restritas ao Brasil.

De acordo com o executivo, o centro desempenha um papel de “oxigenação de ideias” dentro e fora das operações da companhia. “Com [o Pulse], conseguimos maior conexão de empreendedores com o setor produtivo, sendo possível a troca de experiência entre aqueles que buscam soluções para toda a cadeia produtiva,” aponta.

Atualmente, o hub colabora diretamente com o desenvolvimento de um grupo de mais de 38 startups e mais de 70 projetos piloto foram conduzidos com estas parceiras em diversas áreas da empresa, além de diversos contratos comerciais. “Essas empresas estão inseridas em um setor fundamental para o país, desenvolvendo projetos que impulsionam ainda mais o agronegócio brasileiro e demais frentes”, diz Mussa. “Esta cocriação é uma oportunidade ímpar de integrar diversas jornadas em um ecossistema único como o da Raízen”.

No radar do Pulse estão certas disciplinas e setores com maior maturidade fora do Brasil, como empresas de tecnologia aplicada ao varejo, as chamadas retailtechs. Por outro lado, o CEO da Raízen nota que o avanço do setor de tecnologia aplicada à agricultura, o agtech, com foco na cultura da cana de açúcar – produto cuja relevância no setor agrícola é muito maior no Brasil do que em outros países – desperta o interesse de empreendedores brasileiros por desenvolver soluções para esta matéria-prima mais do que em outros ecossistemas como Estados Unidos, China ou Israel.

“Sempre apostamos no valor da fonte renovável, por isso saímos na frente, mas acreditamos que com o mundo e a sociedade também cobrando das corporações uma agenda robusta de sustentabilidade, matérias-primas como a cana-de-açúcar ganharão maior interesse por parte dos empreendedores e fundos de venture capital”, prevê o executivo, ressaltando que o Pulse tem evoluído junto com o aumento da maturidade do ecossistema local.

O CEO ainda nota que o contexto do último ano mostrou a importância da resiliência, agilidade e assertividade para a reinvenção dos negócios. Para ilustrar seu ponto, Mussa nota que a perspectiva anterior da empresa, de que a automação de processos e uso de inteligência artificial para controle avançado viria em um futuro próximo, tornou-se realidade no último ano.

“Nosso processo de colheita, por exemplo, vem evoluindo de maneira contínua, e atualmente é quase 100% mecanizado, exceto em localidades onde não há possibilidade de entrada de maquinário por conta da geografia”, diz o executivo, ressaltando que as circunstâncias da pandemia aceleraram a demanda por maior rendimento, mas também mostraram que a tomada de decisão mais ágil e assertiva garantirá a sustentabilidade dos negócios a longo prazo.

“[Tecnologias digitais] definitivamente transformaram a estratégia do negócio e, com elas, buscamos atingir uma maior digitalização nas operações em campo, do canavial ao posto, suprindo a demanda por tecnologia junto aos nossos parceiros e fornecedores, entendendo os novos hábitos de consumo, levando experiência aos clientes e apostando que esses movimentos conversam diretamente com a agenda do futuro”, finaliza.

Angelica Mari


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