Alessandro Gardemann fala sobre empreendimentos em parceria com Coopcana, Raízen e Cocal, além de explorar a viabilidade do biogás no setor
O biogás vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil e, além de poder ser extraído dos substratos resultantes da indústria, dos resíduos sólidos urbanos (RSU) e do esgoto, também pode ser obtido por meio de resíduos da agropecuária.
Segundo a nota técnica Panorama do Biogás no Brasil 2020, produzida pela Cibiogás e publicada em março deste ano, das 638 plantas de biogás em operação no país, 503 ou 79% delas produzem o gás sustentável por meio de resíduos agropecuários. Entretanto, em volume de biogás, elas correspondem a apenas 11% do total anual, sendo RSU e esgotos as fontes responsáveis por 73%; os 16% restantes vêm da indústria. Somadas, todas as matérias-primas geraram, em 2020, cerca de 1,83 bilhão de normal metro cúbico do produto.
Uma das fontes com potencial de exploração e que pode destravar o crescimento produtivo do biogás são as biomassas e subprodutos da cana-de-açúcar: a vinhaça, a torta de filtro, o bagaço e a palha são os protagonistas desta história, ganhando usos para além da adubação e fertirrigação dos solos dos canaviais. Com eles, é viável fazer a biodigestão para extrair o biogás a ser convertido em biometano – vendido ou usado na frota da própria usina – ou a energia elétrica a ser usada, negociada e exportada para a rede de distribuição.
A Geo Energética é uma das empresas brasileiras que trabalha com soluções para a implementação de unidades de biogás, por meio de um processo biotecnológico, e atua especialmente no setor sucroenergético.
A primeira unidade da empresa começou a operar em 2012 e fica junto da usina da Cooperativa Agrícola Regional de Produtores de Cana (Coopcana) em São Carlos do Ivaí (PR). Ela acaba de ter sua capacidade instalada ampliada de 4 para 10 megawatts de potência. Outro empreendimento é uma planta piloto de produção de 1,5 mil Nm³ por dia de biometano que está passando por processo de ampliação para 12 mil Nm³ diários.
Além disso, a Geo Energética também possui uma joint venture com a Raízen, a Raízen Geo Biogás. A parceria rendeu uma planta geradora de energia a biogás anexa à usina Bonfim, em Guariba (SP), que moe até 5 milhões de toneladas de cana por ano. A unidade, considerada uma das maiores do mundo, tem 21 megawatts de capacidade instalada e funciona tanto com torta de filtro quanto com vinhaça. De acordo com o divulgado pela gigante sucroenergética, foram investidos R$ 153 milhões na planta.
A Geo também tem um projeto para produção de biometano em andamento com a Cocal, junto da unidade do grupo localizada em Narandiba (SP). Neste caso, um investimento de R$ 139 milhões será direcionado para uma unidade capaz de produzir 33,5 milhões de Nm³ de biogás anualmente, tanto com vinhaça quanto com torta de filtro. Além disso, há potencial para expandir a produção com a biodigestão da palha, conforme expresso pela empresa.
A planta terá uma potência de 10 MW equivalentes, sendo 5 MW de geração de energia elétrica, possibilitando a exportação de até 33,3 mil MWh de energia ao ano. Em relação ao biometano, a capacidade diária será de 24 mil Nm³, podendo chegar a quase 8,9 milhões Nm³ anualmente. Uma parcela será injetada na rede da GasBrasiliano, outra vai substituir o diesel na frota da usina e o restante será distribuído com gás comprimido. De acordo com a Geo Energética, o projeto é o primeiro do mundo com um gasoduto de distribuição exclusivo de gás natural verde.
Para a produção, serão utilizados anualmente 1,5 milhões de metros cúbicos de vinhaça, 135 mil toneladas de torta de filtro e 10 mil toneladas de palha. A unidade deve começar a operar já no próximo mês, beneficiando as cidades paulistas Narandiba, Presidente Prudente e Pirapozinho.
Ainda segundo a Geo Energética, a empresa vai implementar outros três projetos em 2022. O CEO da companhia, Alessandro Gardemann, concedeu uma entrevista exclusiva ao NovaCana detalhando os atuais empreendimentos e trazendo a visão da companhia em relação ao potencial das sucroenergéticas na geração de biogás, alternativas viáveis e a evolução do hidrogênio verde.
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O biogás vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil e, além de poder ser extraído dos substratos resultantes da indústria, dos resíduos sólidos urbanos (RSU) e do esgoto, também pode ser obtido por meio de resíduos da agropecuária.
Segundo a nota técnica Panorama do Biogás no Brasil 2020, produzida pela Cibiogás e publicada em março deste ano, das 638 plantas de biogás em operação no país, 503 ou 79% delas produzem o gás sustentável por meio de resíduos agropecuários. Entretanto, em volume de biogás, elas correspondem a apenas 11% do total anual, sendo RSU e esgotos as fontes responsáveis por 73%; os 16% restantes vêm da indústria. Somadas, todas as matérias-primas geraram, em 2020, cerca de 1,83 bilhão de normal metro cúbico do produto.
Uma das fontes com potencial de exploração e que pode destravar o crescimento produtivo do biogás são as biomassas e subprodutos da cana-de-açúcar: a vinhaça, a torta de filtro, o bagaço e a palha são os protagonistas desta história, ganhando usos para além da adubação e fertirrigação dos solos dos canaviais. Com eles, é viável fazer a biodigestão para extrair o biogás a ser convertido em biometano – vendido ou usado na frota da própria usina – ou a energia elétrica a ser usada, negociada e exportada para a rede de distribuição.
A Geo Energética é uma das empresas brasileiras que trabalha com soluções para a implementação de unidades de biogás, por meio de um processo biotecnológico, e atua especialmente no setor sucroenergético.
A primeira unidade da empresa começou a operar em 2012 e fica junto da usina da Cooperativa Agrícola Regional de Produtores de Cana (Coopcana) em São Carlos do Ivaí (PR). Ela acaba de ter sua capacidade instalada ampliada de 4 para 10 megawatts de potência. Outro empreendimento é uma planta piloto de produção de 1,5 mil Nm³ por dia de biometano que está passando por processo de ampliação para 12 mil Nm³ diários.
Além disso, a Geo Energética também possui uma joint venture com a Raízen, a Raízen Geo Biogás. A parceria rendeu uma planta geradora de energia a biogás anexa à usina Bonfim, em Guariba (SP), que moe até 5 milhões de toneladas de cana por ano. A unidade, considerada uma das maiores do mundo, tem 21 megawatts de capacidade instalada e funciona tanto com torta de filtro quanto com vinhaça. De acordo com o divulgado pela gigante sucroenergética, foram investidos R$ 153 milhões na planta.
A Geo também tem um projeto para produção de biometano em andamento com a Cocal, junto da unidade do grupo localizada em Narandiba (SP). Neste caso, um investimento de R$ 139 milhões será direcionado para uma unidade capaz de produzir 33,5 milhões de Nm³ de biogás anualmente, tanto com vinhaça quanto com torta de filtro. Além disso, há potencial para expandir a produção com a biodigestão da palha, conforme expresso pela empresa.
A planta terá uma potência de 10 MW equivalentes, sendo 5 MW de geração de energia elétrica, possibilitando a exportação de até 33,3 mil MWh de energia ao ano. Em relação ao biometano, a capacidade diária será de 24 mil Nm³, podendo chegar a quase 8,9 milhões Nm³ anualmente. Uma parcela será injetada na rede da GasBrasiliano, outra vai substituir o diesel na frota da usina e o restante será distribuído com gás comprimido. De acordo com a Geo Energética, o projeto é o primeiro do mundo com um gasoduto de distribuição exclusivo de gás natural verde.
Para a produção, serão utilizados anualmente 1,5 milhões de metros cúbicos de vinhaça, 135 mil toneladas de torta de filtro e 10 mil toneladas de palha. A unidade deve começar a operar já no próximo mês, beneficiando as cidades paulistas Narandiba, Presidente Prudente e Pirapozinho.
Ainda segundo a Geo Energética, a empresa vai implementar outros três projetos em 2022. O CEO da companhia, Alessandro Gardemann, concedeu uma entrevista exclusiva ao NovaCana detalhando os atuais empreendimentos e trazendo a visão da companhia em relação ao potencial das sucroenergéticas na geração de biogás, alternativas viáveis e a evolução do hidrogênio verde.
Quais são os requisitos que uma usina sucroenergética precisa ter para iniciar a implementação de uma planta de biogás em seu parque industrial?
O biogás é bonito, pois é viável em qualquer escala. Não tem tamanho mínimo para viabilidade de projetos de biogás. O mais importante é escolher a tecnologia e o modelo de negócio corretos. Tem que ter vontade de fazer. Os resíduos são múltiplos – vinhaça, torta de filtro, palha –, tudo isso pode gerar biogás, tem muita oportunidade.
Como as sucroenergéticas podem se tornar mais eficientes para a produção de biogás?
O biogás tem diversas opções, podendo gerar energia elétrica e biometano, que é o gás natural equivalente. Ele pode substituir o diesel na usina, ser vendido no mercado, injetado no gasoduto, transportado com caminhões: tem muito para ser feito nesse sentido. Então, é necessário usar as tecnologias corretas, fazer isso com investimento eficiente e valorizar ao máximo o gás. Uma molécula de metano, ou seja, gás natural renovável, vale muito hoje. A empresa precisa fazer algo que agregue valor. As usinas têm a oportunidade de fazer produtos nobres e têm que ter certeza de que estão maximizando isso de acordo. Eu fico um pouco incomodado quando as pessoas pegam o biogás, que pode substituir o diesel, e querem queimar isso na caldeira. É uma solução de baixa eficiência e que desestimula projetos. É preciso ser um fornecedor confiável de qualidade e de quantidade de biogás. Esse é o grande segredo.
É mais vantajoso para a usina converter o biogás para biometano ou para energia elétrica exportada na rede?
Eu, particularmente, gosto muito da solução que faz os dois, a hibridização, que gera gás e energia elétrica na mesma planta. Vejo que este é o futuro do negócio. Um pouco como o próprio setor [sucroenergético], que faz açúcar e etanol, aqui temos o gás e a energia. São dois produtos e a capacidade de vender os dois e escolher o melhor preço, fazer essa arbitragem, é essencial e importante.
Pensando no biometano, quando a conversão da frota para utilização do biocombustível vale a pena para a usina?
Eu entendo que não pode haver uma obrigatoriedade de conversão. É uma oportunidade de descarbonizar, reduzir emissões, ter previsibilidade de preços. Diferentemente do diesel, que sobe e desce toda hora, o biometano tem um preço que pode ser estável no longo prazo com a tecnologia disponível hoje. Só que tem toda uma logística a ser desenvolvida, uma cadeia de fornecedores. A migração da frota precisa ir de acordo com as soluções logísticas que forem surgindo.
Além da energia elétrica e do biometano, é possível obter o etanol de segunda geração dos resíduos advindos da cana-de-açúcar. É uma possibilidade lucrativa, vale a pena investir?
Não sou especialista. Temos uma sociedade com a Raízen só na área de biogás, mas entendo que a molécula descarbonizada vai ter prêmios. E o sucesso do E2G, principalmente da Raízen, está se mostrando. Eles conseguiram vender isso na Europa, em contratos de longo prazo, com prêmios interessantes e que remuneram bem. É muito mais opção. A beleza do setor da cana-de-açúcar é que quanto mais opções você der para a cana, melhor é. Tem energia elétrica, etanol de primeira geração, açúcar, E2G, biogás. Quanto mais opções, mais eficiente pode ser essa planta, mais opções têm de monetizar, melhor é a pegada de carbono e, com isso, o conjunto da obra vai ficar mais competitivo. Construir esses “bioparques” eleva a produtividade agrícola e a integração.
E sobre o hidrogênio verde, que é um produto mais caro de ser obtido. Como é possível reduzir os custos e torná-lo vantajoso?
O hidrogênio verde é um futuro cada vez mais próximo. Todo muito acreditava nele para daqui 30 anos e, agora, é para dez ou oito anos. É uma realidade. A Europa, especialmente, está investindo muito, quer aplicar 50 bilhões de euros nos próximos anos em hidrogênio verde. Nos Estados Unidos, a mesma coisa. E a China também está investindo. Vai se criar um mercado mundial de hidrogênio verde. Mas principalmente a Europa, que tem a tendência de ir só por uma rota de produção de hidrogênio verde, por eletrólise de água. Por lá, em alguns momentos do dia, eles têm excesso de energia elétrica e esse é um jeito de armazenar isso e transformar em outros produtos.
O hidrogênio verde deve chegar aqui também?
No Brasil, nós temos essa beleza. Na verdade, o etanol, o biogás e o biometano nada mais são do que fontes de hidrogênio, cachos de hidrogênio renováveis. É possível usar isso em uma célula combustível para rodar um carro elétrico a hidrogênio, que é uma solução de etanol e biogás. Além disso, 95% do hidrogênio fóssil produzido no mundo é feito a partir de uma tecnologia chamada reforma de metano, que é cozinhar o metano sob alta pressão e que nada mais é que o gás presente no biogás. É possível integrar isso e fazer uma nova rota brasileira integrando a tecnologia usada no gás natural fóssil com o gás natural renovável, inclusive usando as plantas atuais que produzem hidrogênio e que têm várias no Brasil.
No Plano Safra 2021/22 foram destinados R$ 5 bilhões para a linha de crédito do Programa ABC (agricultura de baixo carbono), com limite de crédito coletivo de até R$ 20 milhões para geração de energia elétrica a partir do biogás e do biometano. Como as usinas podem se beneficiar deste recurso?
É mais uma fonte de financiamento a um juro interessante, o que incentiva a descarbonização e que, especialmente para o biogás, foi ampliado. Lutamos muito para essa ampliação, pois é possível fazer projetos mais eficientes. O biogás no Brasil tem uma escala única e que não é natural fora do país, especialmente por conta da cana-de-açúcar. Então, as nossas plantas têm que ser maiores, mais eficientes. Por isso, essa ampliação do limite do ABC é tão importante.
Você já comentou sobre a joint venture da Geo Energética com a Raízen, a Raízen Geo Biogás. Como se deu essa parceria e quais frutos ela tem dado?
Em 2016, nós ganhamos juntos o leilão de venda da energia elétrica nova com a unidade Bonfim, localizada em Guariba (SP). Essa planta foi inaugurada no ano passado e nós temos essa joint venture desde 2018. Tem sido um grande sucesso, inauguramos e estamos operando. Estamos trabalhando junto com a Raízen há seis anos e contribuímos bastante tanto com a tecnologia quanto com o modelo de negócio. A Raízen tem bastante interesse em ampliar a joint venture, tem escopo para transformar isso em uma realidade. Entendemos que há muita demanda para compra de biogás. Uma parte dos recursos do IPO irá para investimento em biogás [nota da edição: segundo o prospecto disponibilizado pela Raízen à CVM, há a possibilidade da companhia chegar a 39 plantas até 2030/31]. A Raízen com certeza definiu isso como um futuro a ser explorado e tem mais projetos para serem desenvolvidos.
Como está o andamento do projeto com a Cocal para produção de biometano e a posterior distribuição do biocombustível? Qual foi a participação da Geo Energética nesses processos?
Estamos superanimados. A planta já está em período de startup e começa a operar em agosto. Diferentemente da Raízen, que produz só energia elétrica, este é um projeto de biometano e energia elétrica, é um modelo híbrido. A planta está quase pronta, está linda. É um grande projeto de referência para o Brasil. E o conceito de um gasoduto em um sistema isolado é maravilhoso, levando gás para uma região que não teria, ainda mais gás verde, além de poder ser replicado inúmeras vezes no Brasil. Isso mostra que grupos familiares e diversos perfis de usinas têm condições, vontade e possibilidade de investir nisso. Cria-se uma estrutura descentralizada, de dutos próximos aos consumidores, e lá na frente, quando se tem o consumo, é possível integrar a malha toda. Veja que interessante: que tipo de indústria pode ter interesse em se localizar na região de Presidente Prudente (SP) e está interessada em ter uma oferta de gás verde? Abre todo um mundo de novas possibilidades.
O potencial de produção da planta é de 24 mil Nm³ por dia de biometano (quase 8,9 milhões de Nm³/ano). Qual é o volume de resíduos necessário para chegar em tal produção?
Esta é uma usina de mais ou menos 2,5 milhões de toneladas [de moagem de cana por ano]. Lá, já tem mais uma geração de energia elétrica de 35 GWh por ano. Vamos processar 130 mil toneladas de torta de filtro e 1,5 milhão de metros cúbicos de vinhaça. Só para esse gás, teremos 9 milhões de Nm³ [de biometano], o que corresponde a, aproximadamente, 22 mil litros de diesel por dia ou 8 milhões de litros por ano.
Existe um projeto em parceria entre GasBrasiliano e Zeg Biogás que irá possibilitar a conexão de dutos com até 140 sucroenergéticas fornecendo, em um dia, 1 milhão de Nm³ à rede. Como a empresa enxerga projetos como esses?
Isso é um desdobramento do projeto que começamos na região de Presidente Prudente, com a própria Cocal. Em São Paulo, temos cerca de 150 unidades sucroenergéticas e é possível fazer um duto ao lado de cada uma delas. Tem muito potencial e temos que explorar. Para precificarmos ou vendermos o gás no preço que achamos que deve ser vendido, temos que garantir um gás firme, 365 dias por ano, que pode ser armazenado e que pode ser gerado quando necessário. Esse é o sucesso dos projetos da Cocal e da Raízen, que é quando se usa a torta de filtro também. A torta de filtro pode ser estocada e a planta pode operar o ano inteiro. Isso muda completamente a condição de venda do gás, garantindo fornecimento todos os dias do ano. Não pode ser intermitente como a energia solar e a eólica, que você não tem certeza de quando vai gerar, precisa ter certeza. Por isso, é tão importante usar a palha e a torta de filtro como matéria-prima, só com a vinhaça é difícil conseguir isso. Ter opções é importante. Fazer biogás de vinhaça é superlegal, mas, na minha opinião, isso precisa ser integrado com outros resíduos para garantir o ano inteiro.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana