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Valmor Schaffer: “Recuperação judicial de produtor pode tirar o apetite das tradings”


O Estado de S. Paulo - 30 jul 2019 - 08:01
Valmor Schaffer, presidente da Cofco International Brasil, diz que há planos para investir US$ 200 milhões no país

A possibilidade de o produtor rural sem cadastro no Registro Público de Empresas Mercantis entrar com pedido de recuperação judicial e o tabelamento do frete, que aumentou o custo do transporte rodoviário no Brasil, são os principais desafios apontados pelo executivo à frente da Cofco International Brasil.

A subsidiária brasileira é fruto de uma longa história, que começou em 1949, ano que foi fundada a Cofco China, uma das maiores empresas de alimentos do mundo. Em 2014, a estatal chinesa se associou a várias entidades, entre elas o fundo soberano de Cingapura e o IFC, que é do Banco Mundial, e formou a Cofco International.

No mesmo ano, adquiriu a Noble e a Nidera, duas empresas com habilidade como tradings e alguns ativos. A Noble era forte no Brasil, com quatro usinas de cana-de-açúcar, uma fábrica de óleo de soja e outra de biodiesel em Rondonópolis (MT) e alguns silos no interior. Três anos depois, aconteceu a fusão das companhias que deu origem à Cofco International Brasil.

A reportagem do Caderno Agro, do jornal O Estado de São Paulo, entrevistou Valmor Schaffer, presidente da companhia no Brasil, para saber os planos da gigante chinesa para a subsidiária brasileira. Segundo ele, há US$ 200 milhões para investir no País nos próximos dois anos e o valor pode ser ainda maior, dependendo da qualidade dos ativos. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Quais as principais commodities para a subsidiária brasileira?
Soja, milho e açúcar. Depois vem o café e algodão. Este ano devemos exportar por volta de 9,5 milhões de toneladas de soja e milho. Somos também o maior embarcador de soja para a China.

Vocês têm planos de investimentos para o Brasil?
Chegamos muito próximos de fazer aquisições no Brasil, mas elas pararam por questões de negociação. Continuamos olhando as oportunidades de infraestrutura, que podem ser portos, mais relacionadas a transportes e, definitivamente, armazenagem, onde já temos investindo nos últimos anos. (A empresa desembolsou US$ 30 milhões por quatros silos no Mato Grosso nos últimos dois anos e meio). Temos também US$ 200 milhões delegados para investimentos, mas pode ser mais ou menos; depende da qualidade dos ativos que identificarmos.

O foco em armazenagem são as novas fronteiras?
São as regiões pouco ocupadas. Não temos a intenção de entrar em áreas tradicionais, já saturadas. A Cofco tem intenção de investir, tem aprovações pré-investimento, mas ela só vai dar o próximo passo se fizer sentido econômico, se tiver retorno sobre o capital investido.

Os portos do Arco Norte estão na mira?
Não, porque temos contrato logístico de longo prazo no Norte, principalmente com a Hidrovias do Brasil. Esses contratos nos tiram a necessidade de fazer grandes investimentos naquela região. A gente pensa mais em investir nas áreas tradicionais, de Santos para baixo. Temos uma preocupação com investimentos mais sensíveis nas áreas ambientais. Se você observar, o foot print da Cofco no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) é bem pequeno, porque existe muita sensibilidade naquela região; são áreas que estão sendo abertas agora. As fronteiras que são estratégicas para nós são as do Mato Grosso. Só temos um armazém em Tocantins hoje. De Goiás para cima, qualquer investimento só será feito após ser resolvida a questão ambiental.

A Cofco acabou de obter US$ 2,1 bi de empréstimo atrelado à sustentabilidade. Como funcionará isso?
Sim, a Cofco fez um acordo com bancos e, conforme atinge certos níveis de sustentabilidade, a taxa de juros cai. Conseguimos negociar com a matriz para que os ganhos obtidos com essas taxas de juros sejam reinvestidos em sustentabilidade. A ideia é uma retroalimentação, com mais capital envolvido para fazer um trabalho mais abrangente na área.

Qual a posição da Cofco sobre a tabela do frete?
A tabela de frete nos preocupa, porque tira a previsibilidade de preços futuros. A gente comprava, antecipadamente, duas safras, o produtor podia fazer o hedge de longo prazo para a proteção dos custos. O tabelamento trouxe a comercialização para curto prazo. É o pior dos mundos para o produtor. O frete deveria ser discutido pelo mercado e não de forma mandatória, porque tudo que contraria o mercado, com o tempo para de funcionar.

Além do frete, tem algum outro desafio?
O setor está preocupado com a questão da recuperação judicial do produtor rural pessoa física, que está avançando no congresso. As tradings financiam entre 18% e 35% da necessidade dos produtores no Brasil. Sempre tivemos no produtor pessoa física uma certeza de que não teríamos surpresas com ele. Analisaríamos o crédito, ele traria as garantias e ofereceríamos o financiamento. Obviamente, isso [a recuperação judicial] pode tirar o apetite do setor em financiar os produtores.

A peste suína africana impactou a demanda chinesa por soja?
Até o momento, temos fluxos normais de embarque dentro daquilo que prevíamos, considerando que um determinado volume, no início deste ano, saiu dos Estados Unidos e algum volume continua saindo de lá.

E a disputa entre EUA e China…
O Brasil ganhou espaço, a guerra comercial nos permitiu fazer um volume em 2018. Na Cofco, tentamos adequar nossa operação às mudanças de mercado sejam elas promovidas pela oferta e demanda ou por questões geopolíticas.


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