Financeiro

USJ entra em recuperação judicial; dívidas somam cerca de R$ 2 bilhões

Plano de pagamento envolve venda de fazendas e de participação na SJC Bioenergia, além do repasse de precatórios; restante do valor teria carência de dez anos


NovaCana - 17 ago 2021 - 09:03

Ao mesmo tempo em que convocou acionistas para uma reunião em que será discutida a recuperação judicial do grupo e de suas empresas controladas, a USJ apresentou um pedido na justiça de Araras (SP), onde está localizada sua usina. A sucroenergética ainda detém participação de 50% na SJC Bioenergia, com duas unidades em Goiás.

Em decisão publicada ontem, 16, pelo juiz Matheus Romero Martins, da 2ª Vara Cível, a empresa Laspro Consultores ficou encarregada de fazer a avaliação das companhias e verificar a regularidade dos documentos apresentados.

De acordo com reportagem publicada pelo Valor Econômico, o documento foi protocolado na última quinta-feira, 12, e inclui uma proposta de pagamento acordada com a maioria dos bondholders, com quem a USJ tem dívidas de cerca de R$ 2 bilhões.

Segundo a petição entregue à justiça, a crise é “momentânea e pontual” e o cenário do setor envolve uma “perspectiva otimista”, dada a recuperação dos preços do açúcar e do etanol. A USJ está sendo representada pelo escritório Thomaz Bastos, Waisberg e Kurzweil Advogados.

O documento ainda traz o resultado de negociações diretas feitas com o equivalente a 89% dos detentores de títulos emitidos pela USJ. O plano de pagamento envolve a venda de três fazendas e da participação da USJ na SJC Bioenergia, além do repasse do valor de dois precatórios referentes a ações contra o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Um terceiro precatório, ainda pendente de decisão judicial, também pode entrar no acordo.

Em relação às fazendas, o plano estipula a manutenção de contratos de arrendamento com a USJ, garantindo o cultivo de cana para as usinas do grupo. Já quanto à SJC Bioenergia, a Cargill – que detém 50% de participação – teria concordado em não exercer seu direito de preferência sobre as ações da USJ.

Estas ações, entretanto, levantariam o equivalente a R$ 1,5 bilhão e não seriam suficientes para liquidar a dívida total da USJ. A proposta da sucroenergética envolveria pagar o valor restante após um período de carência de dez anos. O valor seria amortizado por meio de dividendos operacionais e, caso não seja quitado em 30 anos, com até 5% de ações da USJ, sem direito a voto.

Segundo a apuração realizada pelo Valor Econômico, a perspectiva é que, depois que o plano de pagamento for votado em Araras, a companhia entre com um pedido equivalente nos tribunais de Nova York.

Histórico de calotes

Esta não é a primeira vez que a USJ enfrenta dificuldades para o pagamento aos credores. Em 2015, uma análise da agência de classificação de risco Standard & Poor’s – hoje, S&P Global Ratings – apontava um crescente risco de calote por parte da sucroenergética. Nos meses subsequentes, os temores apenas cresceram, passando a ser reportados também pela Fitch Ratings.

Em maio de 2016, a USJ deixou de efetuar o pagamento de juros remuneratórios referentes a notas com vencimento em 2019. Após negociações com credores, entretanto, a companhia conseguiu estabilizar a situação. Ainda assim, sua estrutura de capital foi classificada pela S&P como “insustentável”.

Nos anos seguintes, Fitch e S&P voltaram a tratar sobre os riscos da empresa e a iminência de futuros calotes. Desde novembro de 2019, a Fitch mantém a classificação RD (inadimplência restrita). Esta nota está apenas um degrau acima do último patamar, onde estão companhias que deixam de arcar com suas obrigações fiscais e abrem processo de falência.

De acordo com o Valor Econômico, em abril deste ano, o UMB Bank entrou com uma ação contra a USJ para execução de R$ 1,9 bilhão, após a sucroenergética não ter feito pagamentos referentes a notas seniores com vencimento em 2023. Estes títulos, emitidos em 2019, faziam parte de uma negociação com credores e substituíam outras notas, com vencimento em 2021.

NovaCana
Com informações do Valor Econômico