Enquanto isso, companhias em má situação financeira seguem com dificuldades de cumprir com suas obrigações
“O setor [sucroenergético] vive um momento diet. Cogeração, biogás, aumento de capacidade de destilação: é tudo, menos açúcar”. A fala de Pedro Fernandes, diretor de agronegócio do Itaú BBA, reflete a situação do setor de açúcar e etanol, que está mais focado em produtos que não o adoçante, o qual vem remunerando cada vez menos os usineiros.
Durante o terceiro encontro Agro e Pauta, ocorrido na última quinta-feira (21), em São Paulo, profissionais do banco se reuniram para apresentar detalhes e perspectivas dos mais diversos setores do agronegócio, inclusive o sucroenergético.
O tema principal tratado pelos analistas foi a disparidade do setor – que, apesar de não ser novidade, está intensificada e se reflete cada vez mais nos indicadores das usinas. Em análise feita pelo banco com 60 sucroenergéticas, correspondendo a mais de 400 milhões de toneladas de moagem de cana, é possível notar a heterogeneidade dos resultados.
O estudo divide o setor em quatro grandes grupos, dos mais capitalizados aos com mais dificuldades financeiras.
No texto completo, saiba mais sobre as perspectivas do Itaú BBA para cada um destes grupos que compõem o setor sucroenergético.
“O setor [sucroenergético] vive um momento diet. Cogeração, biogás, aumento de capacidade de destilação: é tudo, menos açúcar”. A fala de Pedro Fernandes, diretor de agronegócio do Itaú BBA, reflete a situação do setor de açúcar e etanol, que está mais focado em produtos que não o adoçante, o qual vem remunerando cada vez menos os usineiros.
Durante o terceiro encontro Agro e Pauta, ocorrido na última quinta-feira (21), em São Paulo, profissionais do banco se reuniram para apresentar detalhes e perspectivas dos mais diversos setores do agronegócio, inclusive o sucroenergético.
O tema principal tratado pelos analistas foi a disparidade do setor – que, apesar de não ser novidade, está intensificada e se reflete cada vez mais nos indicadores das usinas. Em análise feita pelo banco com 60 sucroenergéticas, correspondendo a mais de 400 milhões de toneladas de moagem de cana, é possível notar a heterogeneidade dos resultados.
O estudo divide o setor em quatro grandes grupos, dos mais capitalizados aos com mais dificuldades financeiras.
Até a safra 2013/14, de acordo com Fernandes, a diferença entre os grupos não era tão grande. O grupo A, com melhor performance financeira, tinha dívidas de R$ 80 por tonelada. O restante do setor, por sua vez, devia um pouco mais do que isso e tinha uma geração de caixa entre 10% a 15% menor. “Existia uma performance razoavelmente próxima entre esses grupos”, completa.
Porém, na safra 2018/19, a distância entre os grupos aumentou consideravelmente. “Quando a gente olha o número macro, este é um setor que anda de lado há cinco safras. Mas quando a gente divide esses quatro grupos, vemos performances muitos díspares”, observa.
Segundo o diretor, na safra analisada, o grupo A aumentou a geração de caixa de R$ 30 para R$ 45 por tonelada e baixou a dívida, o que demonstra que são companhias com grande escala e ativos diferenciados, capazes de permanecer resilientes mesmo em cenário de preços adversos. No total, são 12 empresas do Centro-Sul neste grupo, que moeram 139 milhões de toneladas de cana em 2018/19.
Já os componentes do grupo B – saudável, mas com um desempenho inferior – estão com os seus ativos bastante elevados operacionalmente e fazendo investimentos necessários. Ele é constituído por 29 empresas, que moeram 159 milhões de toneladas de cana na temporada e que geram cerca de R$ 40/t. Apesar de saudáveis operacionalmente, elas têm uma liquidez menor que a dos players do grupo A, além de um endividamento entre R$ 120/t e R$ 130/t.
“Vemos com certa preocupação os grupos C e D, nos quais há mais de 200 milhões de toneladas. Eles estão devendo entre R$ 160/t e R$ 180/t, na média, e não têm a geração de caixa necessária para fazer investimentos na recuperação de canaviais e na melhoria de mix”, explica Fernandes.
Com isso, enquanto os grupos A e B têm produtividades elevadas, acima das 90 toneladas de cana por hectare, o valor para as demais companhias está muito abaixo da média do Centro-Sul. “Essa performance operacional está tão distante que a gente começou a ficar preocupado com a saúde do grupo C”, detalha o diretor.
Investimentos dos grandes
A expectativa do Itaú BBA é que os players dos grupos A e B continuarão o processo de retomada dos investimentos nesta e na próxima safra.
A base para a perspectiva é que, entre as temporadas 2017/18 e 2018/19, estas empresas investiram 9,5% a mais, passando de um montante total de R$ 6,3 bilhões para R$ 6,9 bilhões. Voltando o olhar apenas para o grupo A, o indicador foi de 16,7% na mesma comparação – passando de R$ 2,4 bilhões para R$ 2,8 bilhões.
“Há uma série de projetos anunciados que ainda não se refletiram no balanço das companhias”, acrescenta Fernandes. Conforme o diretor, investimentos em etanol de milho e biogás, por exemplo, devem impactar o balanço e a geração de caixa destas companhias em breve.
Esta projeção é para empresas que têm capacidade de aumento de moagem e uma receita adequada por tonelada de cana moída. Contudo, o diretor ressalta que boa parte do setor não consegue manter o nível de investimento, tendo parte do ativo se deteriorando ano a ano.
Recuperação judicial não gera recuperação real
Fernandes ainda afirma que não enxerga os processos de recuperação judicial como causa ou efeito da deterioração do setor, pois eles têm a ver com situações específicas. “Alguns entram [em recuperação judicial], outros ficam em default, mas não entram e também não pagam suas contas”, exemplifica, lembrando que essa situação pode se estender por muitos anos.
“A gente tem uma série de empresas que estão no grupo D e não estão em recuperação, mas já viraram zumbis do que foram”, considera. Neste cenário, as empresas veem sua moagem e área de canavial caindo ano a ano, com dificuldades de pagar pelos arrendamentos.
Ainda assim, o diretor não acredita que a saída judicial seja a mais adequada. “A gente não tem nenhum caso, no setor do agronegócio ou fora dele, de alguém que tenha se recuperado com a recuperação judicial, salvo os casos nos quais houve troca de controle”, explica Fernandes.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana