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Pecege analisa os custos de produção e a rentabilidade de 69 usinas em 2020/21

O gasto médio para a produção da cana foi de R$ 9.184,60/ha, 7,5% a mais que em 2019/20; despesas industriais, administrativos, com vendas e bioeletricidade também cresceram

NovaCana 26 min de leitura

De maneira geral, as usinas sucroenergéticas do Centro-Sul brasileiro não têm motivos para reclamar no que diz respeito a rentabilidade da temporada 2020/21, ainda que tenham experimentado custos mais altos.

Em um ciclo permeado por altos e baixos, o setor saiu de um ‘céu de brigadeiro’ para um ‘mar de incertezas’ a partir de abril, em um cenário especialmente motivado pela pandemia de coronavírus. No fim da safra, o panorama foi positivo e “até melhor” do que se esperava no início, conforme relata o professor João Rosa, que atua como gestor de novos projetos do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege).

Durante o evento Expedição Custos Cana, Rosa relembrou como a temporada se desenhou promissora, com o açúcar tendo recuperação de preço no início de 2020, além de redução da taxa básica de juros, fator favorável para um setor com alto valor relacionado aos seus ativos. A estes elementos se somavam, ainda, as expectativas positivas do primeiro ano do RenovaBio.

Entretanto, em abril, houve uma virada: o início da pandemia e das restrições de mobilidade social foram somados ao conflito entre Rússia e Arábia Saudita que fez o petróleo chegar a preços negativos. Além disso, o atraso na aprovação das reformas e a desvalorização do câmbio também contribuíram para um panorama desfavorável.

Ainda assim, os bons preços do açúcar, a recuperação do etanol vista ao longo do ano e as receitas com cogeração auxiliaram no resultado de uma temporada que teve, também, a colaboração dos créditos de descarbonização (CBios) e dos subprodutos. Além disso, Rosa observa que as chuvas vistas no começo de 2020 aumentaram a produtividade agrícola e a qualidade da matéria-prima. Tudo isso, segundo ele, atenuou o impacto do crescimento nos custos de produção contabilizado pelas usinas.

“Tivemos recorde na produção de açúcar e margens econômicas expressivas. Na média, mais para uns e menos para outros, foi uma safra de boa rentabilidade”, resume.

“Foi um ano desafiador em termos de custos, mas foi muito bom em termos de preço, algo que veremos com outra intensidade nesta temporada [2021/22]. O custo vai aumentar em uma grande proporção, mas com preços melhores”, João Rosa (Pecege)

Confira, na versão restrita para assinantes, gráficos e análises sobre:

- Custos das usinas na produção de cana-de-açúcar em 2019/20 e 2020/21;
- Custos das usinas no processamento industrial em 2019/20 e 2020/21;
- Custos das usinas na produção de bioeletricidade em 2019/20 e 2020/21;
- Despesas gerais, administrativas e com vendas das usinas em 2019/20 e 2020/21;
- Custos e rentabilidade dos CBios em 2020/21;
- Dispersão dos gastos das usinas em cada etapa – das mais eficientes a menos eficientes;
- Rentabilidade geral do açúcar e do etanol em 2019/2020 e 2020/21;
- Custos com arrendamentos em 2020/21;
- Indicadores técnicos médios das usinas analisadas em 2019/20 e 2020/21.

De maneira geral, as usinas sucroenergéticas do Centro-Sul brasileiro não têm motivos para reclamar no que diz respeito a rentabilidade da temporada 2020/21, ainda que tenham experimentado custos mais altos.

Em um ciclo permeado por altos e baixos, o setor saiu de um ‘céu de brigadeiro’ para um ‘mar de incertezas’ a partir de abril, em um cenário especialmente motivado pela pandemia de coronavírus. No fim da safra, o panorama foi positivo e “até melhor” do que se esperava no início, conforme relata o professor João Rosa, que atua como gestor de novos projetos do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege).

Durante o evento Expedição Custos Cana, Rosa relembrou como a temporada se desenhou promissora, com o açúcar tendo recuperação de preço no início de 2020, além de redução da taxa básica de juros, fator favorável para um setor com alto valor relacionado aos seus ativos. A estes elementos se somavam, ainda, as expectativas positivas do primeiro ano do RenovaBio.

Entretanto, em abril, houve uma virada: o início da pandemia e das restrições de mobilidade social foram somados ao conflito entre Rússia e Arábia Saudita que fez o petróleo chegar a preços negativos. Além disso, o atraso na aprovação das reformas e a desvalorização do câmbio também contribuíram para um panorama desfavorável.

Ainda assim, os bons preços do açúcar, a recuperação do etanol vista ao longo do ano e as receitas com cogeração auxiliaram no resultado de uma temporada que teve, também, a colaboração dos créditos de descarbonização (CBios) e dos subprodutos. Além disso, Rosa observa que as chuvas vistas no começo de 2020 aumentaram a produtividade agrícola e a qualidade da matéria-prima. Tudo isso, segundo ele, atenuou o impacto do crescimento nos custos de produção contabilizado pelas usinas.

“Tivemos recorde na produção de açúcar e margens econômicas expressivas. Na média, mais para uns e menos para outros, foi uma safra de boa rentabilidade”, resume.

“Foi um ano desafiador em termos de custos, mas foi muito bom em termos de preço, algo que veremos com outra intensidade nesta temporada [2021/22]. O custo vai aumentar em uma grande proporção, mas com preços melhores”, João Rosa (Pecege)

Nesse sentido, o Pecege realiza análises parciais e de fechamento do ciclo sobre os custos de produção das usinas sucroenergéticas do Centro-Sul, aliando dados de gastos e indicadores de safra e rentabilidade. O instituto também produz estudos similares considerando produtores independentes de cana-de-açúcar e as usinas do Norte-Nordeste.

No levantamento mais recente envolvendo o Centro-Sul, a amostra pesquisada pelo Pecege englobou oito estados brasileiros e 38 grupos, correspondendo a 69 unidades agroindustriais responsáveis pelo processamento de 189,53 milhões de toneladas de cana, ou seja, 31,3% da moagem da região na safra 2020/21.

Rosa destaca que o período de entressafra considerado pela análise foi entre novembro de 2019 a março de 2020; já o período de safra, quando são coletadas as informações de moagem, foi entre abril e novembro. “São meses de referência. Se a usina adianta ou atrasa [a moagem], isso é considerado”, completa. Com isso, os custos totais já incluem o efeito da entressafra, com manutenções.

Em comparação com o estudo dos gastos inerentes ao ciclo 2019/20, a amostra mais recente foi menor. No ano anterior, foram considerados 42 grupos econômicos, representando 80 unidades agroindustriais, que moeram 212,6 milhões de toneladas, ou 37,1% do total do Centro-Sul no período.

O Pecege ainda destaca que o documento divulga uma média setorial, entretanto, é preciso considerar que as usinas brasileiras têm enorme disparidade técnica e econômica.

Tratos culturais de cana soca superam CTT

O custo médio para a produção da cana-de-açúcar, conforme levantado pelo Pecege, foi de R$ 113,08 por tonelada, um aumento de 1,1% no comparativo com 2019/20, de R$ 111,82/t. Considerando o custo por hectare, o valor fechou em R$ 9.184,60, alta de 7,5% ante os R$ 8.548,00/ha da safra anterior.

Segundo Rosa, o custo caixa entre 2019/20 e 2020/21 ficou semelhante, pois não foi contabilizado o impacto da pandemia nos períodos de coleta. Os eventuais aumentos de custos em reais por hectare, segundo ele, foram parcialmente amenizados pela maior produtividade do canavial e pela melhoria de qualidade da cana.

Além disso, de acordo com o relatório do Pecege, houve uma inversão de um padrão histórico: os custos com tratos culturais de cana soca superaram os de corte, transbordo e transporte (CTT).

“Historicamente, o CTT era a operação mais onerosa e representava a maior parcela da composição do custo de produção de cana-de-açúcar. Entretanto, nas últimas safras, os tratos culturais vêm se sobrepondo e adquirindo maior relevância, indicando maiores níveis de investimento, com auxílio de tecnologias, em um manejo eficiente do canavial”, completa o documento.

Em 2020/21, os tratos culturais de cana soca tiveram um crescimento de 16,3% nas despesas, passando de R$ 2.229,84/ha para R$ 2.592,74/ha. Segundo Rosa, houve uma maior pressão dos preços dos insumos, mas ele pondera: “Isso vai muito do perfil empresa, se ela antecipou a compra ou deixou para comprar depois, na pandemia”.

Dentro desta categoria, os custos com insumos foram os que mais cresceram, 13,5% no comparativo entre as safras – o valor foi de R$ 1.325,15/ha para R$ 1.504,63/ha. Os gastos com máquinas vieram em seguida, com ampliação de 8,6%, ainda que tenham um peso menor do que os insumos.

Já na categoria CTT, os dispêndios cresceram em 5,5%, saindo de R$ 2.141,74/ha para R$ 2.252,03/ha. Os gastos com corte, que são os mais elevados dentro do grupo, atingiram R$ 705,62/ha na média de 2020/21, enquanto na temporada anterior foram de R$ 826,41/ha; ou seja, houve uma queda de 14,6% neste quesito.

Um fator que impactou nos custos produtivos foram os gastos com arrendamento. Segundo o Pecege, isso aconteceu em função do aumento no preço da cana dado pelo Consecana-SP. Assim, o valor passou de R$ 1.380,43/ha para R$ 1.524,75/ha, alta de 10,5%.

Entretanto, considerando o valor por tonelada de cana, houve uma redução de pouco mais de 1% no sistema de colheita. Isso foi motivado, de acordo com Rosa, pela maior produtividade dos canaviais e pelos preços mais baixos do diesel na janela de colheita.

pecege custos usinas cana 20210709

Na formação de canavial – valor que fica de fora do custo operacional efetivo e é contabilizado como depreciação –, o gasto médio foi de R$ 1.856,24/ha, um aumento de 4,8% ante os R$ 1.770,59/ha de 2019/20. O plantio, etapa de maior custo para a formação de canavial, teve alta de 3,9%, saindo de R$ 929,10/ha para R$ 965,22/ha. Já preparo do solo e tratos culturais da cana planta sofreram ampliação de 5,1% e 7%, respectivamente.

Outro item incluso nas depreciações, os gastos com maquinário sofreram o maior aumento do grupo, de 40,1%. Segundo Rosa, nesta etapa a pressão veio do preço do diesel e da mudança e da manutenção dos maquinários, com a inflação de itens como pneus, lubrificantes e peças de reposição.

Ainda assim, de acordo com o relatório do Pecege, os insumos atenuaram a alta. Durante o período em que ocorreu a formação de canavial (entressafra de 2019/20), o preço internacional dos insumos químicos agrícolas se encontrava em um patamar mínimo. “Por mais que tenha sentido o impacto da desvalorização cambial do período, o custo despendido com insumos foi relativamente estável ante o levantamento da safra anterior”, explica o relatório.

Desempenho variável entre as usinas

Além de detalhar os gastos médios das usinas avaliadas, o Pecege também dividiu a amostra estudada em grupos de desempenho, a fim de visualizar o quanto os custos poderiam variar dentro de cada etapa. O grupo “A” é o das usinas mais eficientes e, portanto, o que alocou menos capital na etapa em questão; já o “D” é o das companhias menos eficientes.

No caso dos custos de produção da cana-de-açúcar, os gastos com preparo do solo variaram entre R$ 1.610,96/ha, no melhor desempenho do grupo A, e R$ 3.810,70/ha, no pior desempenho do grupo D. Ou seja, os custos da unidade mais ineficiente foram 136,5% superiores aos da mais eficiente.

Segundo o relatório do Pecege, além do movimento de alta do diesel no período, houve crescimento da proporção de áreas de expansão, o que gera mais custos. A participação destas terras no preparo de solo aumentou de 11,2% para 13,2% na safra 2020/21.

Já os custos com plantio, que refletem a média ponderada dos plantios convencional, mecanizado e meiosi, variaram entre R$ 3.746,70/ha e R$ 7.799,37/ha – sendo o primeiro 108,2% superior ao segundo. A operação de maquinário também encareceu a etapa assim como o preço da muda.

“Neste sentido, os dispêndios de plantio foram pressionados pelo aumento do preço do açúcar total recuperável (ATR). Ainda que tenha havido expansão do plantio por meiosi, o que tende a desonerar as contas de maquinário, o resultado líquido foi uma ligeira elevação ante a safra anterior”, detalha o documento.

pecege custos usinas desempenho cana 20210709

Nos tratos culturais da cana planta, os impactos foram semelhantes, com os gastos variando entre R$ 1.218,48/ha e R$ 3.097,92/ha. Já nos tratos culturais da cana soca, os montantes dispensados tiveram uma dispersão de R$ 1.712,04/ha a R$ 3.348,53/ha.

De acordo com o relatório, as variações significativas, chegando a até 95,6%, ocorreram porque a política de compra das usinas avaliadas muda consideravelmente. “Dada a instabilidade do preço dos insumos entre os anos de 2019 e 2020, os custos de cana soca das usinas não apresentaram movimentos uníssonos”, detalha. Adicionalmente, houve elevação nos custos com maquinário agrícola.

Já nas operações de CTT, os valores variaram 83,3%, de R$ 19,67 por tonelada a R$ 36,06/t. Mas, diferentemente dos estágios de formação e tratos de cana soca, estes gastos foram beneficiados pela redução no preço do diesel devido ao colapso do mercado internacional de petróleo em 2020.

“Em meio à pandemia, mesmo com uma forte desvalorização cambial, o preço do combustível fóssil se reduziu significativamente durante o período de colheita, melhorando, assim, os indicadores de custo associados a ele”, pontua o documento.

Além disso, as chuvas de abril a dezembro de 2020 na região Centro-Sul ficaram 96,5% abaixo da média histórica. A estiagem ao longo do período de colheita, de abril a novembro, melhorou a performance e a disponibilidade operacional, fato que acelerou o ritmo das operações de CTT e, consequentemente, da moagem.

Por fim, o arrendamento demandou mais aportes devido ao maior custo da matéria-prima, ainda que tenha havido redução marginal do valor médio dos contratos em toneladas de cana por hectare. Os gastos oscilaram de R$ 942,47/ha a R$ 2.637,85/ha, uma dispersão de 179,9%.

Aumento no processamento industrial

Os custos de processamento industrial contabilizados pelo Pecege representam os valores necessários para produção de açúcar e etanol. Em 2020/21, a média foi de R$ 21,57/t, um aumento de 4,3% no comparativo com os R$ 20,63/t de um ano antes.

De acordo com o relatório, estes gastos tiveram impactos antagônicos. Por um lado, houve um aumento da matéria-prima a ser processada, ampliando o nível de utilização da capacidade instalada das usinas. “Dada a representatividade dos custos fixos no processamento industrial, a elevação da moagem apresenta reflexos de minoração no custo médio apurado”, destaca.

Entretanto, por outro lado, houve aumentos nos insumos químicos, combustíveis e lubrificantes e materiais de manutenção devido à ampliação do preço internacional dos componentes e a desvalorização cambial. O relatório conclui: “De forma geral, o movimento de alta compensou o efeito de escala dado pela elevação da moagem, o que implicou em aumento marginal do custo nominal da operação industrial”.

pecege custos usinas industria 20210709

A operação foi a que mais onerou dentro nos custos de processamento industrial. Em 2020/21, estas despesas somaram R$ 14,87/t, montante 9% acima dos R$ 13,64/t da safra anterior. Dentro desta categoria, o maior gasto foi com mão de obra, R$ 5,11/t, mesmo valor de um ano antes.

O relatório do Pecege esclarece que a estabilidade vista na etapa ocorreu porque a elevação da moagem compensou o aumento salarial dos funcionários industriais, que ficou abaixo da inflação acumulada no período. Além disso, o documento aponta que o número de colaboradores se manteve, com um valor médio de 1,1 funcionários a cada 10 mil toneladas de cana.

Ao mesmo tempo, foi registrada uma variação de 300% no valor gasto com mão de obra entre as usinas, indo de R$ 2,48/t a R$ 9,92/t. “A quantidade de funcionários por usina varia de forma significativa, pesando o nível de automação da planta, o tipo de produto final gerado e a escala de moagem”, detalha.

Já com os insumos industriais, a oscilação foi de R$ 1,35/t a R$ 7,32/t – eles divergem significativamente, conforme o Pecege, segundo o mix da usina.

A elevação desses custos ante a safra anterior ocorreu principalmente pelo crescimento dos insumos químicos, combustíveis e lubrificantes e sacarias e embalagens. As categorias tiveram problemas em suas cadeias produtiva no decorrer de 2020, além de terem o preço impactado pela desvalorização cambial. O mix mais açucareiro também pressionou os gastos com sacarias e embalagens.

pecege custos usinas desempenho industria 20210709

Na categoria de manutenção, o segundo maior gasto dentro da operação industrial, o custo aumentou no comparativo com a safra anterior, especialmente pela elevação do preço dos materiais utilizados no processo. Com menor impacto, também houve crescimento nos dispêndios com serviços terceirizados.

Entre as usinas consultadas, estes gastos variaram de R$ 1,58/t a R$ 6,83/t. “Vale ressaltar que os custos de manutenção industrial dependem, sobremaneira, da idade da planta e da política da usina no que se refere à manutenção preventiva”, completa o documento.

Já as demais despesas industriais oscilaram entre R$ 0,33/t e R$ 2,76/t. De acordo com o Pecege, houve aumentos nos custos inerentes à gerência industrial, o que abrange toda a estrutura administrativa de apoio à produção. O incremento foi mais do que suficiente para compensar a queda no montante gasto com serviços terceirizados administrativos para a indústria.

Gastos administrativos e com vendas também crescem

Outro aumento pode ser observado nos gastos com despesas gerais, administrativas e com vendas. O custo médio saiu de R$ 13,17/t na safra anterior para R$ 16,59/t em 2020/21, elevação de 26% entre as duas temporadas.

O Pecege identificou três fatores como os principais motivos de ampliação. Um deles foi o aumento de gastos com mão de obra administrativa – os custos com mão de obra em geral cresceram 42,7%, de R$ 3,47/t para R$ 4,95/t. O instituto ainda acrescenta que houve ligeira elevação do número de funcionários na ala administrativa e corporativa (que inclui os funcionários das áreas de apoio administrativo, das diretorias e da presidência), de 1,4%, totalizando 0,43 funcionários para cada 10 mil toneladas na média de 2020/21.

Outra ampliação ocorreu nos custos com serviços terceirizado, que aumentaram 18%, passando de R$ 2,55/t para R$ 3,01/t.

Por fim, os gastos vinculados à logística dos produtos finais – ou seja, custos portuários, embarques e fretes – também oneraram mais. Na contabilização do Pecege, a categoria, que também inclui comissões e capatazias, foi a mais representativa no total e teve um incremento anual, de 19%, passando de R$ 5,32/t para R$ 6,33/t.

Já a logística foi onerada especialmente pelo mix mais açucareiro ante a safra anterior. “Com a desvalorização cambial do período e o aumento da cotação do açúcar no mercado internacional, grande parte da produção do adoçante foi destinada à exportação, o que pressiona os custos portuários, de embarque e fretes”, detalha o documento.

pecege custos usinas SGA 2 20210709

Segundo o Pecege, as despesas gerais e administrativas oscilaram entre as usinas analisadas, indo de R$ 3,43/t e R$ 17,25/t. Já os gastos com vendas foram de R$ 1,84/t a R$ 11,49/t.

Bioeletricidade estável

A energia é outro importante produto das sucroenergéticas, garantindo uma receita extra para as empresas. Entretanto, no ciclo 2020/21, a bioeletricidade acabou rendendo ligeiramente menos às usinas do que na temporada anterior. O Pecege estimou separadamente os custos da bioeletricidade exportada, uma vez que a consumida pela própria usina está embutida nos custos de fabricação do açúcar e do etanol.

Entre 2019/20 e 2020/21, o custo médio cresceu 31,7%, passando de R$ 3,50/t para R$ 4,61/t. Dentre os principais gastos, esteve o classificado como “outros custos” que onerou R$ 2,37/t, um aumento de 64,6% ante os R$ 1,44/t de um ano antes. Esta categoria inclui despesas com tarifas e transferências, aluguel da rede de energia, mão de obra, logística interna de insumos e insumos químicos.

Já o preço médio da comercialização saiu de R$ 11,50/t para R$ 11,68/t, um aumento de 1,6%. Com isso, a margem de lucro por tonelada diminuiu de R$ 7,99/t para R$ 7,06/t.

De acordo com o Pecege, os custos operacionais de cogeração, especialmente os com mão de obra e manutenção, foram abrandados pelo aumento da moagem nas usinas, assim como pela elevação marginal do teor de fibra no comparativo com 2019/20.

“Os dois fatores aumentam a quantidade de bagaço processada, o que auxilia na diluição dos custos fixos da planta de cogeração. Adicionalmente, reduzem a necessidade de compra de biomassas de terceiros para cumprimento dos contratos de fornecimento de energia elétrica”, reitera o documento.

pecege custos usinas bioeletricidade 20210709

O Pecege ainda declara que, mesmo que o chamado Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) tenha oscilado em 2020/21, o valor médio recebido pelas usinas analisadas pelo instituto foi mais do que suficiente para cobrir o custo.

De acordo com a pesquisa, as unidades do Centro-Sul amostradas tiveram produtividade elétrica de 68,01 kWh/t, além disso, comercializaram cerca de 63% da bioeletricidade produzida. Do total exportado, 51,5% foi no âmbito do mercado regulado e 11,4% no mercado à vista. Além disso, a cogeração gerou uma margem econômica de 60,5%, em média.

Entretanto, o Pecege destaca que o desempenho foi bastante disperso entre as unidades analisadas, com a variação da eficiência energética entre as plantas sendo o fator de maior disparidade. Neste caso, os gastos oscilaram entre R$ 27,45/t e R$ 140,79/t, uma variação de 412,9%.

Receita com CBios ainda é pequena

A temporada 2020/21 foi a primeira que contou com a participação dos créditos do RenovaBio, os CBios, nos resultados das usinas. O Pecege verificou, a partir da sua amostra, que a receita bruta foi de R$ 42,82 por título, enquanto a líquida foi de R$ 31,22.

“Embora neste momento seja um valor marginal, ele representa um incremento na geração de caixa das usinas sucroenergéticas e poderá ser utilizado para viabilizar novos projetos, em especial aqueles que versem sobre maior eficiência energético-ambiental”, pontua em relatório.

Considerando gastos médios de R$ 2,48 por crédito, o mesmo que R$ 0,169 por tonelada de cana, o lucro líquido foi de R$ 28,74 a cada CBio, gerando uma margem líquida das negociações de 67,1%. “Tal nível de rentabilidade evidencia que a venda de créditos de carbono pode se tornar um vetor importante na geração de caixa das usinas, assim como incentivar os investimentos em melhoria da eficiência energético-ambiental”, completa.

O relatório ainda destaca as inseguranças quanto ao andamento do programa em relação à pandemia de coronavírus. “No fim de outubro de 2020, o ativo atingiu sua maior cotação e, a despeito das oscilações, apresentou tendência de redução até o fim da safra, de modo que, entre 15 de junho de 2020 e 31 de março de 2021, o preço médio do CBio negociado na B3 foi de R$ 40,85”, relembra o instituto.

pecege custos usinas CBios 20210709

Entre as usinas que participaram do estudo, houve uma oscilação de gastos entre R$ 0,37 a R$ 4,44 por CBio. O Pecege completa que os valores variaram conforme escala de produção das unidades, já que os custos incorridos com a certificação tendem a ser diluídos por maiores produções.

Rentabilidade dos produtos

Dentro da amostra de usinas analisada pelo Pecege, todos os produtos ofereceram rentabilidade, com margem econômica positiva, em 2020/21. Mesmo que a pandemia tenha gerado uma previsão de consumo negativa para o setor, o comportamento favorável dos preços ao longo da temporada e a desvalorização cambial geraram, de acordo com o instituto, “um dos melhores momentos do setor sucroenergético em termos de rentabilidade”.

O relatório pontua que o maior destaque foi o açúcar: o produto ganhou mais espaço no mix das unidades no período e foi comercializado a melhores preços. Com isso, as usinas migraram significativamente sua produção para se beneficiarem da condição de mercado.

A comercialização do açúcar VHP garantiu uma margem econômica de cerca de 19%, com preço médio de R$ 1.460,22/t. Já o açúcar cristal teve uma margem ainda maior, de 26,4%, e foi vendido em média, por R$ 1.544,31/t.

Na temporada anterior, as margens haviam sido negativas em 1,9% para o cristal e 0,2% para o VHP, demonstrando a virada no desempenho do produto entre uma safra e outra. Os preços subiram, respectivamente, 32,6% e 31,4% no mesmo comparativo.

pecege custos usinas rentabilidade acucar 20210709

Do lado do etanol, o início da safra assustou os produtores, uma vez que a pandemia gerou uma forte redução no consumo e no preço do produto. Ainda assim, o valor teve um progressivo aumento, acompanhando a recuperação do preço do petróleo e o cenário de desvalorização cambial. Estes fatores resultaram em elevados preços da gasolina no mercado interno, de acordo com o Pecege.

“Devido à maior lentidão na recuperação do preço do etanol frente ao ocorrido com o açúcar, houve uma menor rentabilidade do biocombustível. Porém, todos os produtos registraram ganhos em termos de geração de caixa e apresentaram margens econômicas positivas”, detalha o relatório de custos.

O hidratado demonstrou uma margem econômica de 12,6% em 2020/21, tendo sido comercializado a R$ 1.957,21 por metro cúbico, em média; já o anidro rendeu 16,4%, sendo vendido a R$ 2.166,08/m³. No ciclo anterior, as margens haviam sido de 11% para o hidratado e de 14,3% para o anidro.

pecege custos usinas rentabilidade etanol 20210709

O documento ainda acrescenta que os “efeitos singulares” vinculados à pandemia também se evidenciaram na rentabilidade do etanol para outros fins, que teve sua demanda elevada de forma abrupta por conta das maiores necessidades de higienização. Isso gerou um certo alívio, ainda que pequeno, nos impactos negativos iniciais da crise sanitária.

Rentabilidade favorável – na média

A safra 2020/21 foi de margens econômicas “expressivas” para as usinas com boa organização financeira, segundo o Pecege. Com isso, o instituto acredita que os resultados podem ser suficientes para destravar projetos que diversifiquem o portfólio.

“É algo essencial para reduzir a imprevisibilidade no que tange à apuração de receitas. Sendo assim, espera-se que os grupos sucroenergéticos invistam de maneira mais significativa em projetos como a produção de biometano, levedura seca, bioplástico e outras iniciativas que podem expandir ainda mais a atuação do setor”, analisa o documento.

A rentabilidade total avaliada pelo Pecege considerou a produção de açúcar, etanol e bioeletricidade (custo agroindustrial), geração de CBios e a receita vinda da venda de subprodutos.

Nos custos, a matéria-prima foi a que mais onerou as usinas, atingindo R$ 109,29/t; ela foi seguida do processamento industrial, onde foram gastos R$ 21,57/t. Já as despesas gerais, administrativas e com vendas somaram R$ 16,59/t, o terceiro maior gasto. Os custos totais ficaram em R$ 152,23/t, aumento de 7,5% no comparativo com 2019/20, quando eles somaram R$ 141,66/t.

Já as receitas foram, em média, de R$ 177,96/t com açúcar e etanol, de R$ 11,68/t com cogeração e de R$ 3,42/t com a soma dos CBios e dos subprodutos, totalizando R$ 193,06/t. O resultado representa elevação de 22,1% ante os R$ 158,12/t de um ano antes.

Com isso, enquanto em 2019/20, o lucro foi de R$ 16,46/t, ele chegou a R$ 40,83/t em 2020/21, uma ampliação de 148%.

pecege custos usinas lucro 20210709 linha

O Pecege ainda pondera que a área agrícola não foi afetada diretamente pelos efeitos da desvalorização cambial e do aumento do preço internacional dos insumos no cenário após o início pandemia, uma vez que a entressafra contabilizada no relatório foi a de 2019/20.

Além disso, a produtividade mais elevada ajudou a atenuar certo aumento de custos da matéria-prima própria. Com isso, ainda que tenha havido pressões pontuais sobre os custos, houve “certa estabilidade” nos gastos em relação à safra anterior.

“A estabilidade dos custos agrícolas é extremamente importante em um cenário em que a matéria-prima representa 83,5% do custo de fabricação de açúcar e etanol (isto é, soma do custo de matéria-prima e do processamento industrial). Neste sentido, ainda que os custos industriais e as despesas gerais tenham se elevado ante a safra anterior, o efeito líquido no custo total foi diluído”, detalha o relatório.

Indicadores técnicos

Conforme apresentado por João Rosa, os três indicadores de qualidade da cana própria melhoraram: a produtividade subiu de 76,46 toneladas por hectare para 81,22 t/ha (+6,2%); o ATR cresceu de 134,75 quilos por tonelada para 137,82 kg/t (+2,3%); e, consequentemente, as toneladas de açúcar por hectare aumentaram de 10,30 para 11,19 t/ha (+8,6%). Isso ocorreu mesmo com os canaviais estando um pouco mais velhos, com o aumento da idade média de 3,60 para 3,71 (+3,1%).

De acordo com o instituto, a melhoria se deu por conta de três fatores: maiores investimentos no canavial; condições climáticas favoráveis na época de plantio, ou seja, entre janeiro e fevereiro de 2020; e alterações das práticas realizadas no canavial, como priorização da colheita inicial de canaviais mais jovens, expansão do plantio por meio de meiosi e a redução do plantio de cana de doze meses devido à seca.

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Ainda segundo o Pecege, a participação da cana própria caiu 4,6 pontos percentuais, de 65,8% para 61,2%. “É uma tendência do direcionamento da matéria-prima para a mão de produtores, mas não para a mão de pequenos produtores, e sim para os mais estruturados”, detalha Rosa.

Já o valor dos arrendamentos, calculado por hectare, ficou estável na média entre as duas últimas temporadas, não sentindo os efeitos mais recentes de competição com os grãos. Houve uma queda de 1,6% no valor, de 17,05 toneladas por hectare para 16,78 t/ha. Já considerando o preço em reais por hectare, ele subiu 10,5%, de R$ 1.380,43 para R$ 1.525,75 t/ha. “Basicamente, isso é explicado pelo preço do ATR, que aumentou”, completa Rosa.

Os custos de produção foram impactados justamente pelos preços elevados do ATR: considerando o Consecana-SP, a alta foi de 18,3%, passando de R$ 0,658 por quilograma para R$ 0,778/kg. Isso pressionou os gastos agrícolas, por conta dos arrendamentos, e o custo da matéria-prima, devido ao aumento do preço pago pela cana de terceiros.

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Nos indicadores de produção industrial, o nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) superou 90% na temporada 2020/21, ficando 5,5 pontos percentuais acima dos 84,9% da temporada anterior. Isso se deu especialmente pelo aumento da quantidade de matéria-prima disponível e pela redução do período de colheita que, por sua vez, foi motivada pela seca. Com isso, houve diminuição do downtime industrial de 16,5% para 13,7% (-2,8 p.p.).

Entretanto, o encurtamento da temporada também resultou em maiores perdas industriais, saindo de 8% para 10,6% no comparativo safra a safra. Um dos motivos apontados por Rosa é que o parque industrial pode ter sido mais forçado em determinados momentos, usando 100% da capacidade instalada, prejudicando um pouco a qualidade. Ainda assim, com mais cana sendo moída e elevação do teor de fibra, houve um pequeno aumento da produção de bioeletricidade.

O rendimento na produção de energia passou de 67,75 quilowatt-hora por tonelada para 68,01 kWh/t, alta de 0,4%. Com isso, a exportação de energia cresceu 2,8%, de 41,70 kWh/t para 42,85 kWh/t.

Entretanto, de acordo com Rosa, o que acabou impactando os custos de forma mais determinante foi o perfil de produção entre açúcar e etanol. Comparativamente à temporada anterior, 2020/21 foi bem mais açucareira, com 46,7% da matéria-prima sendo destinada ao adoçante contra os 38,5% do ciclo anterior, uma diferença de 8,2 pontos percentuais.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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