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FS, Tereos e Bioenergética Aroeira já emitiram mais de US$ 800 milhões em títulos verdes

Estudo da Climate Bonds Initiative apresenta detalhes das transações e potencial das empresas brasileiras ligadas à bioenergia nas emissões sustentáveis

NovaCana 19 min de leitura

A captação de recursos por empresas brasileiras de açúcar e etanol vem ganhando cada vez mais pluralidade. Ainda que a entrada na bolsa de valores fique restrita a poucas companhias, as transações de debêntures incentivadas e de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), por exemplo, vêm crescendo exponencialmente e cada vez mais grupos realizam emissões.

Além disso, o mercado brasileiro de títulos verdes, criado em 2015, também está conquistando espaço. Neste caso, as empresas precisam se comprometer com metas e ações sustentáveis para ter crédito no mercado.

A categoria de uso da terra é a segunda mais financiada no país, levando em conta todos os papéis ligados à sustentabilidade, e a liderança na emissão destes títulos é do setor de papel e celulose. Entretanto, as companhias de agricultura e bioenergia vem demonstrando um “apetite crescente” por produtos financeiros sustentáveis.

Considerando as captações ligadas à agricultura, de acordo com o documento, o setor de bioenergia somou US$ 832 milhões a partir de três empresas e sete emissões, consolidando-se como o segundo segmento com os maiores investimentos. “A parcela de emissões de bioenergia no Brasil está crescendo na categoria de energias renováveis, embora o espaço ainda seja dominado pelos setores eólico e solar”, destaca o relatório.

A campeã foi a FS Bioenergia, com cinco papéis enquadrados como verdes até fevereiro de 2021, totalizando US$ 698 milhões. Na sequência, a Tereos obteve US$ 105 milhões e a Bioenergética Aroeira chegou a US$ 29 milhões.

Quatro tons de verde

Ainda segundo o relatório, nos últimos dois anos, estes papéis vêm recebendo diferentes designações, como verdes, sustentáveis, vinculados à sustentabilidade e de transição. Em sua análise, a CBI – que gerencia o maior banco de dados de títulos verdes do mundo – examina como o mercado brasileiro de dívida sustentável está se desenvolvendo no setor de agricultura, que inclui a produção agrícola e pecuária, produção alimentar, florestas e bioenergia.

Dos quatro rótulos de emissões apresentados, as empresas do setor de bioenergia realizaram transações em dois: verdes e vinculados à sustentabilidade.

  1. Os títulos verdes são definidos como recursos direcionados a projetos ou ativos verdes e que são elegíveis com benefícios ambientais
  2. Os papéis sustentáveis são os recursos canalizados para projetos e ativos verdes e sociais, com benefícios socioambientais
  3. Os vinculados à sustentabilidade não dependem de um uso específico dos recursos, mas estão vinculados a compromissos ambientais, sociais e de governança (ESG) explícitos e baseados em um cronograma predefinido
  4. Os títulos de transição se referem ao uso de princípios ESG com cronograma predeterminado e a empresa deve estar alinhada ao Acordo de Paris, permitindo a transição em direção a uma economia de baixo carbono

Confira, na versão exclusiva para assinantes, os detalhes das emissões de empresas ligadas ao setor sucroenergético e o potencial das emissões de companhias de bioenergia

A captação de recursos por empresas brasileiras de açúcar e etanol vem ganhando cada vez mais pluralidade. Ainda que a entrada na bolsa de valores fique restrita a poucas companhias, as transações de debêntures incentivadas e de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), por exemplo, vêm crescendo exponencialmente e cada vez mais grupos realizam emissões.

Além disso, o mercado brasileiro de títulos verdes, criado em 2015, também está conquistando espaço. Neste caso, as empresas precisam se comprometer com metas e ações sustentáveis para ter crédito no mercado.

A categoria de uso da terra é a segunda mais financiada no país, levando em conta todos os papéis ligados à sustentabilidade, e a liderança na emissão destes títulos é do setor de papel e celulose. Entretanto, as companhias de agricultura e bioenergia vem demonstrando um “apetite crescente” por produtos financeiros sustentáveis.

Dentre os temas ligados à agricultura, de acordo com o documento, o setor de bioenergia somou captações de US$ 832 milhões a partir de três empresas e sete emissões, consolidando-se como o segundo segmento com os maiores investimentos. “A parcela de emissões de bioenergia no Brasil está crescendo na categoria de energias renováveis, embora o espaço ainda seja dominado pelos setores eólico e solar”, destaca o relatório.

A campeã foi a FS Bioenergia, com cinco papéis enquadrados como verdes até fevereiro de 2021, totalizando US$ 698 milhões. Na sequência, a Tereos obteve US$ 105 milhões e a Bioenergética Aroeira chegou a US$ 29 milhões.

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Quatro tons de verde

Ainda segundo o relatório, nos últimos dois anos, estes papéis vêm recebendo diferentes designações, como verdes, sociais e sustentáveis, vinculados à sustentabilidade e de transição. Em sua análise, a CBI – que gerencia o maior banco de dados de títulos verdes do mundo – examina como o mercado brasileiro de dívida sustentável está se desenvolvendo no setor de agricultura, que inclui a produção agrícola e pecuária, produção alimentar, florestas e bioenergia.

Dos quatro rótulos de emissões apresentados, as empresas do setor de bioenergia realizaram transações em dois: verdes e vinculados à sustentabilidade.

  1. Os títulos verdes são definidos como recursos direcionados a projetos ou ativos verdes e que são elegíveis com benefícios ambientais
  2. Os papéis sustentáveis são os recursos canalizados para projetos e ativos verdes e sociais, com benefícios socioambientais
  3. Os vinculados à sustentabilidade não dependem de um uso específico dos recursos, mas estão vinculados a compromissos ambientais, sociais e de governança (ESG) explícitos e baseados em um cronograma predefinido
  4. Os títulos de transição se referem ao uso de princípios ESG com cronograma predeterminado e a empresa deve estar alinhada ao Acordo de Paris, permitindo a transição em direção a uma economia de baixo carbono

O estudo da CBI contempla em mais detalhes títulos e empréstimos com rótulos verdes e sustentáveis realizados entre maio de 2015 e fevereiro de 2021, já que estes são os que financiam projetos e ativos de agricultura brasileiros. Ainda assim, emissões com rótulos vinculados à sustentabilidade e de transição também foram citadas, uma vez que estão se popularizando no país.

Bioenergia presente desde 2020

Ainda que a securitizadora Ecoagro tenha estruturado o primeiro título verde com certificação da Climate Bonds Initiative, a fim de financiar a produção de biocombustíveis em 2019, questões de mercado brasileiro não permitiram que a transação se efetivasse.

Com isso, em 2020, a FS Bioenergia lançou o primeiro título efetivamente emitido no mercado para a ala bioenergética. “Nos últimos dois anos, várias emissões foram feitas por empresas de biocombustíveis. A maioria das emissões – cerca de 57% – recebeu o rótulo verde, e as 43% restantes, o rótulo vinculado à sustentabilidade”, detalha o relatório.

Entretanto, não é apenas o etanol de milho que vem sendo financiado pelas emissões verdes, mas também o etanol vindo da cana e a cogeração. Outros usos expressos pelo relatório são para processamento e industrialização de matérias-primas ou a cobertura de despesas operacionais como custos com plantio, biomassa e outros produtos agrícolas.

Os indicadores definidos para os instrumentos financeiros relacionados à sustentabilidade no ramo da bioenergia focam na redução das emissões de gases do efeito estufa e do consumo de água, no aumento de cana certificada, no crescimento da transparência e na retração da pegada de carbono. A FS Bioenergia é a principal emissora, com cinco transações, totalizando US$ 698 milhões.

O relatório ainda acrescenta que existe a expectativa de que as emissões de bioenergia aumentem no Brasil nos próximos anos, com diferentes rótulos e mecanismos, uma vez que o país é um dos grandes produtores e exportadores de biocombustíveis.

De acordo com o documento, há oportunidades para realizar aportes tanto na produção de matéria-prima quanto na criação de novas unidades e expansão das existentes. Conforme outra publicação da Climate Bonds, existe um potencial de US$ 30,6 bilhões para serem aplicados em bioenergia.

“A produção de bioenergia está alinhada aos compromissos climáticos do país e à descarbonização do setor de transportes. O desafio constante para o setor é continuar a manter e comunicar suas normas de sustentabilidade, especialmente para lidar com as preocupações globais sobre usos concorrentes da terra (combustível versus alimentos), biodiversidade e desmatamento”, aponta o documento.

O relatório ainda afirma que o zoneamento agroecológico foi essencial na consolidação da produção de biocombustíveis no país.

Além disso, a publicação expressa que, embora a eletrificação nos transportes seja considerada a melhor solução para a Europa e para os Estados Unidos, existem projeções que apontam uma entrada significativa dos carros elétricos leves no Brasil somente a partir de 2035.

“Isso destaca a importância dos biocombustíveis para a descarbonização dos transportes, considerando que 78% dos veículos leves no Brasil são flex fuel, e que esse número deve atingir 90% até 2030”, detalha o relatório.

As emissões verdes do setor

Conforme o documento, já ocorreram quatro emissões dos chamados títulos verdes vinculadas ao setor de açúcar e etanol no período analisado. Três delas, vieram da FS Bioenergia, grupo com duas usinas localizadas em Mato Grosso, sendo um CRA e dois títulos.

O CRA verde inaugural foi no valor de R$ 210 milhões (o equivalente a US$ 39 milhões), emitido em fevereiro de 2020, por meio da Gaia Securitizadora. Os recursos foram aplicados no financiamento da produção, comercialização, processamento e industrialização de milho, além da biomassa de eucalipto e outros produtos agrícolas.

Outro foi no valor de US$ 550 milhões, em dezembro de 2020. De acordo com o relatório, o interesse no investimento superou em 1,8 vez as expectativas; os valores também estão sendo aplicados nas mesmas áreas que a do CRA emitido. A transação, conforme a FS, tem prazo de vencimento de cinco anos e teve o banco Morgan Stanley como coordenador.

Esta foi a primeira emissão da FS no mercado internacional, mas ela estava prevista para setembro de 2019; na ocasião, ela foi suspensa com a alegação de piora nas condições do mercado. No comparativo com a captação feita em dezembro de 2020, houve uma redução no prazo e aumentos nas garantias e na taxa.

O fato da companhia ser desconhecida no mercado internacional também motivou o adiamento. A divulgação dos resultados da empresa, de acordo com o presidente da FS, Rafael Abud, fez com que o mercado ganhasse mais confiança na emissão uma vez que os investidores têm em mente um histórico negativo ligado às empresas brasileiras que trabalham com etanol de cana-de-açúcar.

O segundo título foi em um volume financeiro menor, de US$ 50 milhões, realizado em janeiro deste ano e com foco em capital de giro. De acordo com a FS, a oferta também foi coordenada pela Morgan Stanley tendo quase seis vezes mais demanda do que o valor pretendido, ou seja, quase US$ 300 milhões. Ainda conforme a companhia, os títulos têm vencimento em cinco anos após a data da emissão.

Todas as transações tiveram a opinião de uma segunda parte, o que, segundo o documento da CBI, significa que elas cumpriam o formato de uso de recursos alinhados aos princípios para títulos verdes.

“É importante reconhecer seu alinhamento aos critérios de bioenergia do Climate Bonds Standard, especialmente no que diz respeito aos limites de emissões de gases de efeito estufa e aos impactos relativos a mudanças no uso da terra e segurança alimentar”, detalha o relatório.

Uma quarta emissão verde veio da Bioenergética Aroeira, grupo com uma usina localizada em Tupaciguara (MG), e que captou R$ 150 milhões por meio de um CRA. A transação ocorreu em dezembro de 2020 por uma instituição não financeira.

O CRA verde recebeu uma opinião de segunda parte, de acordo com o relatório, e teve sua captação usada em investimentos e custos operacionais para a produção e refino de biocombustíveis e em projetos de cogeração. “Embora o CRA verde não tenha sido certificado, ele estava alinhado aos critérios de bioenergia do Climate Bonds Standard, considerados boas práticas de mercado”, pondera o documento.

De acordo com reportagem do Valor Econômico, a oferta teve grande demanda por parte dos investidores, o que reduziu o custo da operação financeira ao piso estimado no lançamento. A operação foi coordenada pelo banco Alfa e atraiu diversos perfis de investidores.

Financiamentos vinculados à sustentabilidade

Os títulos e empréstimos com o rótulo vinculado à sustentabilidade são recentes no mercado brasileiro, com o primeiro emitido em 2019. De lá para cá, o volume financeiro alcançou um acumulado de US$ 5 bilhões.

“O rótulo associado à sustentabilidade vem ganhando popularidade entre emissores e mutuários por oferecer mais flexibilidade no uso de recursos, principalmente para fins gerais”, completa o documento. Do total de 15 transações feitas até então, oito delas ocorreram em 2020 e somaram um volume financeiro de US$ 1,7 bilhão. Até fevereiro deste ano, de acordo com o relatório, já havia cinco títulos no mercado, somando US$ 3,2 bilhões.

Aproximadamente 67% dos títulos vinculados à sustentabilidade foram emitidos internacionalmente e o restante no mercado interno. Oito das 15 transações foram empréstimos; o prazo médio de todas as emissões é de dez anos.

Das 15 transações, somente cinco tiveram uma opinião de segunda parte e todas foram emitidas no exterior. “Isso aumenta a preocupação sobre a falta de transparência em instrumentos vinculados ao desempenho, especialmente porque os recursos não são vinculados a ativos específicos. São necessárias orientações e educações adicionais para garantir que as revisões externas sejam consideradas uma parte integral dos títulos e empréstimos vinculados à sustentabilidade, como é o caso dos títulos verdes”, acrescenta o relatório.

No setor, a FS foi a responsável por duas emissões nesta categoria, sendo um Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI). O título, lastreado em ativos, teve o valor de R$ 139 milhões (US$ 26 milhões) e foi realizado em junho de 2020 sob a coordenação do banco Credit Suisse. De acordo com o documento, este foi o primeiro título vinculado à sustentabilidade do mercado de capitais brasileiro. Caso a companhia atinja as metas inerentes ao rótulo, a sobretaxa pode ser reduzida em 0,21%.

Também em junho de 2020, a empresa realizou um empréstimo vinculado à sustentabilidade que somou R$ 180 milhões (US$ 33 milhões) junto ao Santander. Este, por sua vez, foi o primeiro feito em moeda nacional.

Ambos os instrumentos então vinculados a três indicadores de desempenho: maior transparência no relatório de sustentabilidade da empresa e obtenção do selo Global Reporting Initiative (GRI); obtenção da certificação de títulos verdes da Climate Bonds Initiative; e permanência entre os dez produtores de biocombustíveis com menor pegada de carbono no programa RenovaBio. Se esses itens forem cumpridos, a taxa do empréstimo pode ser reduzida em até 0,15%, chegando a CDI mais 6,65%.

Já a Tereos, companhia com sete usinas no Brasil, todas localizadas no estado de São Paulo, fez um empréstimo dentro desta categoria em junho de 2020. A emissão ficou ligada ao setor de florestas e não ao de bioenergia. Considerado pela empresa o primeiro financiamento sustentável do setor sucroenergético brasileiro, foram levantados US$ 105 milhões em uma transação realizada por uma instituição não financeira.

O valor foi usado para amortizar dívidas e dar suporte às exportações de açúcar da companhia. “O empréstimo inclui uma redução da margem da taxa de juros se as metas de sustentabilidade forem cumpridas pela empresa, o que pode levar a uma economia de US$ 100 mil a US$ 150 mil por ano”, detalha a Climate Bonds. A linha de pré-pagamento de exportação (PPE) tem prazo de cinco anos, de acordo com o divulgado pela empresa, e teve os bancos ING e Natixis como coordenadores de transação e de sustentabilidade.

A Tereos ainda se comprometeu a cumprir quatro metas de desempenho: retração anual de 3% das emissões de gases de efeito estufa por tonelada de cana processada; redução anual de 5% do consumo de água por tonelada de cana processada; aumento de 5% da cana certificada; e melhora na classificação ESG.

Conforme divulgado pela companhia em maio deste ano, a Tereos emitiu mais de R$ 1 bilhão em financiamentos verdes na temporada 2020/21 sendo, segundo ela, a que mais realizou esse tipo de transação no período dentro do setor sucroenergético.

Soma-se ao empréstimo de US$ 105 milhões, um financiamento verde obtido pela Tereos com a Proparco, braço da agência francesa de desenvolvimento, no montante de US$ 30 milhões. “O valor será investido na construção de unidades de produção de biogás, que permitirão à Tereos reduzir as suas emissões de CO2, continuando na jornada de se tornar uma empresa com uma pegada de carbono ainda mais negativa, bem como nas instalações para tratamento de água residual”, afirma a companhia. O empréstimo, firmado em março de 2021, tem dois anos de carência e prazo de amortização de 12 anos.

Uma terceira emissão também foi realizada em março: um CRA no valor de R$ 347,8 milhões. A operação foi caracterizada como um CRA verde pela Sitawi, organização pioneira no desenvolvimento de soluções financeiras para impacto social. As transações não constam no relatório da CBI, uma vez que este considera emissões somente até fevereiro de 2021.

Os recursos, de acordo com a Tereos, serão destinados à aquisição de cana-de-açúcar para a produção de etanol, estimulando o uso de biocombustíveis na matriz energética e a consequente mitigação de emissão de gases do efeito estufa. Com prazo de cinco anos, a emissão contou com os bancos UBS BB, BTG Pactual e XP Investimentos como coordenadores e a FG/A como assessoria financeira. A emissão foi realizada pela Vert.

Títulos sustentáveis e de transição

Ainda que, até então, não haja emissões do setor sucroenergético entre os títulos sociais e sustentáveis, eles vêm ganhando espaço e representam 15% do mercado. “Embora os primeiros títulos sustentáveis de emissores brasileiros só tenham sido emitidos em 2020, o mercado cresceu rapidamente e quase quadruplicou de volume – de US$ 412 milhões para mais de US$ 1,6 bilhão até o final de fevereiro de 2021”, detalha o relatório.

A maior parte das emissões brasileiras com temas sustentáveis foram domésticas, totalizando 88%, e os 12% restantes foram internacionais. Já em 2020, 80% das emissões, ou quatro transações, foram domésticas e uma quinta emissão foi internacional, assim como o total de duas emissões realizadas em 2021 até o momento. Considerando esses sete títulos, 22% foram emitidos em reais, totalizando R$ 363 milhões e o restante, 78%, em dólares, somando US$ 1,3 bilhão.

A categoria uso da terra foi a que representou a maior parte das transações com rótulo sustentável, acumulando 33% do total do período analisado; seguida pelo financiamento de recursos hídricos, com 25%. Já a categoria energia renovável, foi responsável por 10% do total.

Cinco das sete emissões foram feitas por instituições não financeiras. De acordo com o relatório, os títulos sustentáveis seguem crescendo em emissões no Brasil. “Como a maioria dos rótulos ligados ao tema incorpora objetivos ambientais e sociais, eles oferecem uma gama mais ampla de usos de recursos elegíveis, sendo mais adequados para alguns emissores”, detalha.

Já os títulos de transição são bastante recentes, tendo ganhado força nos últimos três anos. Ainda assim, a emissão destes papéis segue modesta: em 2020, apenas dois títulos foram emitidos, totalizando U$S 169 milhões. “Isso também se deve à necessidade de um debate mais amplo no mercado sobre a definição de rotas de transição confiáveis”, completa o documento. Seguindo a linha dos outros rótulos, o prazo das emissões fica entre cinco e dez anos.

Considerando o volume de transações, o uso da terra é a categoria mais financiada, seguido de energia. As opiniões de segunda parte também estiveram presentes em todos os títulos de transição emitidos no Brasil até então.

Potencial a ser destravado

Em outro relatório, de 2020, chamado “Destravando o Potencial de Investimentos Verdes para Agricultura no Brasil”, a CBI afirma que existe um potencial de investimento de US$ 163 bilhões até 2030 em títulos verdes para os setores de uso da terra (que inclui agricultura, pecuária e florestas) e energias renováveis, que inclui bioenergia. Este potencial é ainda maior quando são considerados outros rótulos possíveis.

A Climate Bonds também fez uma publicação, em agosto, dos seus critérios para a agricultura com o propósito de orientar o mercado sobre projetos e ativos elegíveis. Segundo o documento, o maior apetite pelos chamados “rótulos temáticos” demonstra o aumento das transações envolvendo financiamentos nas áreas de agricultura, bioenergia, floresta e pecuária e a publicação dos critérios se deu especialmente pela previsão de expansão em emissões de títulos que aportem estes setores.

Além disso, a CBI afirma que há potencial para CRAs Rotulados, que são títulos lastreados em ativos, além de outras oportunidades ofertadas por bancos que estejam reformulando seus portfólios de empréstimos agrícolas sustentáveis.

Brasil é líder em títulos verdes na América Latina

Considerando todos os rótulos e setores, o mercado brasileiro de dívida sustentável teve um crescimento considerável nos últimos sete anos, acumulando US$ 10,8 bilhões no período. Os títulos e empréstimos verdes, especificamente, representam 84% desse mercado.

Este crescimento, aliás, deu ao Brasil o título de país com o maior mercado de títulos verdes da América Latina. De acordo com o estudo, 2017 foi o ano de recorde em emissões, atingindo US$ 2,5 bilhões por meio de nove títulos. Após uma queda em 2018, no ano seguinte foram 21 títulos emitidos e, em 2020, 17 títulos e três empréstimos. Em 2019 e 2020, as emissões chegaram a US$ 2 bilhões em cada ano.

A maioria das transações verdes são domésticas, em moeda local, totalizando 76% do todo entre maio de 2015 e fevereiro de 2021. De acordo com a CBI, as emissões brasileiras têm prazo médio de cinco a dez anos, principalmente as maiores – cerca de metade está nesta faixa. “As emissões com cinco anos ou menos e aquelas de 10 a 20 anos representam os outros 50%. Apenas seis títulos foram emitidos com prazos de mais de 20 anos (dois de papel e celulose, três de energias renováveis e um de transmissão)”, completa.

Boa parte das transações são avaliadas externamente por, em geral, opiniões de segunda parte e pela Certificação do Climate Bonds Standard.

“Seguindo a tendência global, as energias renováveis constituem a categoria de uso de recursos mais ‘popular’, respondendo por 45% do mercado local”, explica relatório da CBI, seguida pela categoria uso da terra, que corresponde a 27%. As emissões ligadas à transporte, edificações, indústria, água e resíduos, somam um volume acumulado de 28% do total.

Além disso, as instituições não financeiras são as emissoras mais recorrentes, abarcando 69% do absoluto de transações de títulos verdes no Brasil, ou seja, 52 dos 58 títulos atingindo um montante de US$ 6 bilhões.

Outros emissores possíveis são: bancos de desenvolvimento, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); entidades apoiadas pelo governo; e securitizadoras, que geram os chamados títulos lastreados em ativos (Asset-Backed Security). Nesse último caso, exemplos do setor foram a FS Bioenergia, com uma emissão no valor de US$ 39 milhões, e a Bioenergética Aroeira, com uma transação de US$ 29 milhões.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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