Alavancagem elevada, liquidez fraca e fluxo de caixa neutro são as perspectivas da agência. RenovaBio, superávit global, priorização do etanol e mercados de açúcar protegidos influenciam
A Fitch Ratings, agência de classificação de risco mais envolvida com o mercado sucroenergético brasileiro, não poupou franqueza em seu último relatório sobre as perspectivas para as usinas em 2019 e mostrou que o setor deve se preparar para dificuldades.
Para começar, as usinas terão que conviver com uma alavancagem maior neste ano do que em 2018, especialmente graças aos ainda baixos preços do açúcar e às fracas moedas locais. Além disso, a liquidez seguirá apertada para os players do setor.
“Dependendo dos preços da gasolina, o mercado de etanol pode ser um vetor do crescimento do setor”, detalha o documento. Por outro lado, se os preços do combustível fóssil estiverem baixos, as companhias precisarão realizar cortes de custos, sem investir em expansões, a fim de aumentar a geração de fluxo de caixa livre.
“A lenta recuperação dos preços internacionais do açúcar e a falta de opções de financiamento continuarão representando obstáculos para empresas em dificuldades financeira”, expressa o relatório.
Com isso, a Fitch espera que o cenário trave o número de elevações de ratings, aumentando a disparidade no setor no Brasil.
Para a análise, foram observados fatores como a trajetória de preços internacionais de açúcar, além da posição de hedge dos emissores no próximo ano, apetite de investimento dos bancos, preços da gasolina e tendências de demanda do etanol, dada a implementação do RenovaBio. Além disso, também são levados em conta o desempenho agrícola, volumes de cana moída, volatilidade cambial e os efeitos sobre fluxo de caixa e alavancagem.
Confira, no texto completo, os detalhes da análise da Fitch, além de gráficos e tabelas com:
- Perspectivas de ratings projetadas para 2019
- Desempenho de fluxo de caixa projetado para 2019
- Liquidez projetada para 2019
- Alavancagem média projetada para 2019
- Preços de açúcar, taxa de câmbio e preços do hidratado na refinaria
- Perspectivas para quatro players do setor
A Fitch Ratings, agência de classificação de risco mais envolvida com o mercado sucroenergético brasileiro, não poupou franqueza em seu último relatório sobre as perspectivas para as usinas em 2019 e mostrou que o setor deve se preparar para dificuldades.
Para começar, as usinas terão que conviver com uma alavancagem maior neste ano do que em 2018, especialmente graças aos ainda baixos preços do açúcar e às fracas moedas locais. Além disso, a liquidez seguirá apertada para os players do setor.
“Dependendo dos preços da gasolina, o mercado de etanol pode ser um vetor do crescimento do setor”, detalha o documento. Por outro lado, se os preços do combustível fóssil estiverem baixos, as companhias precisarão realizar cortes de custos, sem investir em expansões, a fim de aumentar a geração de fluxo de caixa livre.
“A lenta recuperação dos preços internacionais do açúcar e a falta de opções de financiamento continuarão representando obstáculos para empresas em dificuldades financeira”, expressa o relatório.
Com isso, a Fitch espera que o cenário trave o número de elevações de ratings, aumentando a disparidade no setor no Brasil.
Para a análise, foram observados fatores como a trajetória de preços internacionais de açúcar, além da posição de hedge dos emissores no próximo ano, apetite de investimento dos bancos, preços da gasolina e tendências de demanda do etanol, dada a implementação do RenovaBio. Além disso, também são levados em conta o desempenho agrícola, volumes de cana moída, volatilidade cambial e os efeitos sobre fluxo de caixa e alavancagem.
Ratings congelados
A Fitch enxerga que haverá manutenção dos ratings, ou afirmações das notas, em 90% da carteira composta pelas sucroenergéticas na América Latina. Já os outros 10% são classificados com CCC+ ou abaixo por conta de fatores específicos.
No Brasil, os rebaixamentos podem ocorrer por empresas que não renovaram os canaviais em 2018 e tampouco fortaleceram a sua liquidez.
A discrepância das classificações dentro do setor, segundo o analista sênior da Fitch Claudio Miori, irá aumentar em 2019, tendo emissores ainda mais focados na produção de etanol.
A disparidade já é um ponto amplamente discutido pelo setor e comprovada por indicadores como os divulgados pela FG/A no final do ano passado.
“Empresas com estratégia eficiente de hedge do preço de açúcar e baixo custo de caixa devem reportar fluxo de caixa livre (FCF) de positivo a neutro. O acesso a linhas de crédito de longo prazo deve permanecer limitado para a maioria dos produtores de açúcar e etanol”, reitera Miori.
Dentre as empresas listadas no relatório, a Raízen Energia apresenta nota BBB com perspectiva estável. Os fatores que podem levar ao rebaixamento da nota são uma elevação da alavancagem ou redução da importância dos negócios da Royal Dutch Shell para a empresa. Além disso, é improvável que haja aumento da classificação a curto prazo, devido à volatilidade inerente ao setor.
Para a Jalles Machado também há pouca possibilidade de elevação da nota devido às limitações de financiamento também inerentes ao setor. A empresa tem nota BB- e perspectiva estável.
Em situação mais negativa está a USJ Açúcar e Álcool, com nota CCC+ e riscos de refinanciamento persistentes, o que torna improvável o aumento do rating a curto prazo. A Biosev, com nota B+, é a única dentre as empresas brasileiras elencadas no relatório que tem possibilidade de elevação com FCF neutro ou positivo ou com a obtenção de um menor custo de caixa.
Alavancagem em alta e liquidez fraca
Em uma análise dos indicadores financeiros das empresas do setor, a Fitch vê um fim de safra (2018/19) com players mais alavancados do que em 2018 por conta da menor quantidade de cana moída, dos preços baixos do açúcar e da desvalorização frente ao real, além de uma chamada “disciplina de investimento” em 2018 por parte daqueles que injetam dinheiro no setor.
A redução das dívidas também fica travada devido à manutenção de um FCF negativo na maioria dos emissores.
Já a liquidez segue discrepante e limitada entre os emissores. Com isso, os bancos seguirão seletivos na liberação de crédito, se concentrando em empresas bem geridas. “Os mercados do Brasil e do exterior não são uma opção viável para a maior parte do setor, o que impõe obstáculos a emissores com dificuldades financeiras”, destaca o documento.
O que permanece de neutro a ligeiramente positivo é o fluxo de caixa, porém, contando com um cenário de pleno uso da capacidade de produção e clima satisfatório. A contribuição virá da alta capacidade de produzir etanol e possibilidade de realizar cogeração. A produção de energia foi considerada uma “luz do fim do túnel” por Juliano Merlotto, da FG/A. Segundo o profissional, entre as companhias com maior capital para investir, a cogeração teve uma maior prioridade em relação à média do setor.
Além disso, empresas com estruturas competitivas de custos de caixa também poderão se beneficiar dos preços do etanol mais atrativos. Além disso, os preços baixos do açúcar podem ser compensados pela ausência de investimentos em expansão.
Ficarão com fluxo de caixa no vermelho os players que, segundo a Fitch, são ineficientes e tem custo de caixa alto e canaviais menos produtivos.
Fatores que determinam o cenário
Conforme o relatório, o RenovaBio será o principal catalisador do crescimento da demanda e da produção de etanol no país e “encoraja a conversão de cana em etanol, no lugar do açúcar, no futuro”. Com isso, a política aumentará a sustentabilidade do setor a médio e longo prazos, bem como a lucratividade. Além disso, poderá reduzir a exportação de açúcar, sustentando os preços internacionais do adoçante. Em 2019, no entanto, o RenovaBio ainda não deve estar em vigor.
No Brasil, a competitividade do etanol hidratado deve melhorar dados os altos valores internacionais do petróleo e desvalorização da moeda local. “A Fitch acredita que há pouco espaço para alta dos preços do etanol brasileiro em 2019, apesar do crescimento da demanda, pois a esperada queda das cotações do petróleo deve reduzir os impactos positivos de um real desvalorizado sobre os preços da gasolina”, aponta o documento.
Para a consultoria, os preços do barril de petróleo ficarão em US$ 65 com câmbio a R$ 3,90, em 2019.
Outro ponto de disrupção são as reformas e as liberalização de políticas vinculadas ao açúcar em grandes produtores mundiais como Tailândia, Índia e União Europeia, que podem pressionar os preços internacionais de açúcar positivamente a longo prazo.
O valor da commodity pode ficar abaixo do custo marginal dos produtores de baixo custo por conta do apoio governamental oferecido nestes países por meio de cotas de importação e subsídios à produção.
Além disso, um superávit global de açúcar para 2018/19 menor do que se esperava, além de clima adverso e proliferação de pragas em algumas regiões da Índia, também influenciam nas perspectivas da Fitch. Na Europa, as condições climáticas e a maior rentabilidade oferecida por outras culturas deverão reduzir a área dedicada ao plantio de beterraba.
No Brasil, o custo caixa de produção de açúcar não será menor do que 15 centavos de dólar por libra-peso para a temporada 2018/19, ante a média de preços esperada de U$ 13 por libra-peso.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana