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Distância entre usinas cresce ano a ano: finanças do setor estão cada vez mais heterogêneas

Desequilíbrio entre as usinas de açúcar e etanol evidencia que as finanças sucroenergéticas não vão bem – e que a média não representa um cenário real

NovaCana 8 min de leitura

Um setor heterogêneo e com um gap cada vez mais evidente: de um lado, empresas com as contas em dia e de olho em possíveis investimentos; do outro, as companhias com dificuldades extremas nas finanças.

Essa é visão sobre as sucroenergéticas dada pelo gerente sênior de relacionamento do banco holandês Rabobank, Manoel Pereira de Queiroz. Ele faz o diagnóstico do setor sucroenergético pelo prisma dos investimentos – ainda existentes, mas cada vez mais escassos.

Durante palestra realizada no último dia 4 de setembro, no NovaCana Ethanol Conference 2018, Queiroz apresentou algumas conclusões sobre a saúde financeira das usinas brasileiras, levando em conta captação de recursos, financiamento e endividamento das usinas.

O respaldo das informações veio do conhecimento de causa do banco, que tem US$ 4,2 bilhões em ativos no mercado de açúcar e etanol – destes, US$ 2,1 bilhões estão no Brasil, país onde atua há 25 anos.

Segundo o profissional, a dívida líquida do setor desalavancou na média. Em 2017/18, ela foi de R$ 125 por tonelada de cana. O número se refere a um estudo feito pelo banco com uma amostragem de 35 usinas, as quais representam cerca de 50% da moagem brasileira e pouco mais de 300 milhões de toneladas. A análise também foi ampliada para a perspectiva histórica, com valores corrigidos pela inflação.

Na reportagem a seguir, veja um aprofundamento nos tópicos:

- Desigualdade do setor: gap do endividamento
- Capacidade de solvência das usinas
- Liquidez das companhias sucroenergéticas
- Em busca de crédito – financiamentos públicos e privados e emissão de CRAs
- Fusões e aquisições no setor sucroenergético
- Consolidação do setor e perspectivas para o futuro

Um setor heterogêneo e com um gap cada vez mais evidente: de um lado, empresas com as contas em dia e de olho em possíveis investimentos; do outro, as companhias com dificuldades consideráveis nas finanças.

Essa é visão sobre as sucroenergéticas dada pelo gerente sênior de relacionamento do banco holandês Rabobank, Manoel Pereira de Queiroz. Ele faz o diagnóstico do setor sucroenergético pelo prisma dos investimentos – ainda existentes, mas cada vez mais escassos.

Durante palestra realizada no último dia 4 de setembro, no NovaCana Ethanol Conference 2018, Queiroz apresentou algumas conclusões sobre a saúde financeira das usinas brasileiras, levando em conta captação de recursos, financiamento e endividamento das usinas.

O respaldo das informações veio do conhecimento de causa do banco, que tem US$ 4,2 bilhões em ativos no mercado de açúcar e etanol – destes, US$ 2,1 bilhões estão no Brasil, país onde atua há 25 anos.

Segundo o profissional, a dívida líquida do setor desalavancou na média. Em 2017/18, ela foi de R$ 125 por tonelada de cana e, em 2016/17 foi de R$ 124/t, ante indicadores de R$ 138/t e R$ 148/t nas duas safras anteriores.

NEC Queiroz Rabobank 1 amostra 05092018

Os números se referem a um estudo feito pelo banco com uma amostragem de 35 usinas, as quais representam cerca de 50% da moagem brasileira, pouco mais de 300 milhões de toneladas. A análise também foi ampliada para a perspectiva histórica, com valores corrigidos pela inflação.

NEC Queiroz Rabobank 2 divida 05092018

Por outro lado, Queiroz acredita que a visão da média não oferece o diagnóstico real da situação financeira das usinas. “Não existe apenas um setor, mas vários dentro de um, o setor é muito heterogêneo”, alerta.

Com a amostra dividida em quatro partes iguais é possível observar que 25% dos grupos está bem abaixo da média, com dívidas entre R$ 33 e R$ 107 por tonelada de cana. No outro extremo, há usinas com débitos entre R$ 154 e R$ 245 por tonelada de cana.

NEC Queiroz Rabobank 3 divida quartil 05092018

Outro ponto que mostra a heterogeneidade do setor é a estrutura de capital. O banco usou como base de cálculo a relação entre o patrimônio líquido e o ativo total, que é quanto do capital do acionista está financiando a usina.

Com isso, a solvência (capacidade de cumprir os compromissos com os recursos do patrimônio) também se recuperou na média, passando de 26% e 28% entre as duas últimas safras fechadas. Porém, a abrangência da solvência também é grande, evidenciando a diferença entre os players do setor e que se amplifica da safra 2013/2014 em diante. No último ano, as usinas registraram resultados no intervalo entre -50% e 50%.

NEC Queiroz Rabobank 4 estrutura capital 05092018

Um terceiro índice, considerado pelo palestrante como um dos mais importantes, é a liquidez. “O que quebra uma empresa é a falta de liquidez”, considera, e completa: “[Uma companhia] consegue liquidez com um colchão de caixa perfeito ou com o alongamento das dívidas, mantendo-as sempre a longo prazo. Se você tiver menos débitos de curto prazo ou mais caixa, tem uma liquidez maior”.

Os números apresentados repetem a conclusão vista nos demais indicadores: nas safras mais recentes houve uma pequena recuperação de liquidez, ficando em 1,3% em 2017/18, mas há uma distância evidente entre o maior e o menor ponto.

NEC Queiroz Rabobank 5 liquidez 05092018

“Parte da amostra paga mais do que duas vezes a sua dívida financeira de curto prazo e outra parcela não consegue pagar nem 40% da sua dívida de curto prazo”, pontua Queiroz.

Mercado bancário sem apetite

De acordo com o gerente, o mercado bancário está muito concentrado e parte dos bancos possui limites de investimento setorial. O pensamento geral é manter os ativos, mas melhorar a qualidade com operações de melhores garantias e margens, além de mais seguras.

“Os bancos têm feito provisionamentos nos últimos anos e, com isso, o apetite fica muito mais seletivo”, expressa, e complementa: “Dinheiro no mercado bancário tem, mas ele está para quem pode e demonstra maior capacidade de pagamento”. Dessa forma, o acesso a crédito das sucroenergéticas em piores condições se torna ainda mais restrito.

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Além disso, com empresas com alta capacidade de tomar recursos em contraste com outras sem este potencial, surge um cenário de deterioração que pode se agravar a depender dos resultados das eleições, segundo Queiroz.

O subsídio público, conforme o palestrante, também está cada vez mais raro e o Rabobank crê que os investimentos virão de fontes privadas. Por outro lado, o crédito privado também está seletivo, com poucos bancos estrangeiros com apetite de investir no país.

A possível saída é a emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) – papéis que tiverem uma evolução em valor e em número de projetos no setor. Mesmo tendo um leve retrocesso devido à queda da taxa Selic (atualmente em 6,50%, após um pico de 14,25% que durou até outubro de 2016), que fez com que a atração do investidor por renda fixa diminuísse, o banco vê os CRAs como boa alternativa ao longo dos anos conforme o mercado de capitais se desenvolve.

Segundo os dados expostos na apresentação, até agosto de 2018, R$ 1,9 bilhão em CRAs foram emitidos para empresas relacionadas ao setor sucroenergético – o maior valor foi para a BR Distribuidora, que emitiu R$ 961,8 milhões em títulos. Entre as usinas, a São Martinho foi responsável por R$ 500 milhões, enquanto Batatais e Coruripe emitiram R$ 200 milhões cada.

Consolidação do setor

Manoel de Queiroz ainda comenta que não há uma consolidação do setor por meio de fusões e aquisições, ou seja, os ativos têm ficado nas mesmas mãos. Das últimas seis M&A que ocorreram, três foram usinas adquiras como Unidades Produtoras Independentes (UPI) por meio de ativos já estressados e em recuperação judicial – Triálcool, Vale do Paranaíba (ambas do grupo João Lyra) e Unialco.

 

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O gerente ainda cita a compra de duas usinas do grupo Tonon, também em recuperação judicial, realizada pela Raízen. Nesse caso, as usinas adquiridas estão localizadas em áreas próximas a outras unidades da Raízen, que foram desativadas devido à escassez de cana-de-açúcar. Dessa forma, o número de unidades em operação do grupo se manteve o mesmo.

NEC Queiroz Rabobank 7 fusões aquisições 05092018

“Constatamos que não tivemos crescimento em moagem no centro-sul, mas tivemos a cana mudando de mão”, aponta Queiroz. De acordo com ele, nas últimas cinco safras, não houve operações de fusão e aquisição, mas sim de consolidação de canaviais, uma tendência que atualmente estaria perdendo a força.

“Ao invés de expansão há uma consolidação silenciosa, o que deve continuar ocorrendo, mas talvez esteja perdendo força. Não nos surpreende se o mercado andar para trás com o pressionamento dos preços”.

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Perspectiva de futuro e as dificuldades do RenovaBio

Para o futuro do setor, o palestrante considera a ação regulatória importante, acreditando ser necessária uma política de preços muito clara para a gasolina.

Queiroz, contudo, acha pouco provável que o setor de etanol consiga atingir uma produção adicional de 18,7 bilhões de litros em 10 ou 12 anos, conforme estimado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) para o RenovaBio. “Há uma limitação financeira. Não considerando o ganho com etanol de milho ou novas tecnologias, precisamos de, pelo menos, 230 milhões de toneladas a mais de cana”, considera.

Para isso, segundo o palestrante, seria preciso mais 46 greenfields de 5 milhões de toneladas cada, dentro de um prazo menor que dois ciclos de cana. “Consideramos muito improvável isso acontecer. Acreditamos no crescimento a longo prazo do setor no Brasil, mas temos um problema estrutural no meio do caminho e precisamos encontrar soluções para isso”, conclui.

Neste ponto o governo, através da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), apresentou uma visão diferente recentemente. A perspectiva da EPE é que a produção adicional de etanol necessária para o RenovaBio viria, majoritariamente, de ampliações e reativações de unidades.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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