Desequilíbrio entre as usinas de açúcar e etanol evidencia que as finanças sucroenergéticas não vão bem – e que a média não representa um cenário real
Um setor heterogêneo e com um gap cada vez mais evidente: de um lado, empresas com as contas em dia e de olho em possíveis investimentos; do outro, as companhias com dificuldades extremas nas finanças.
Essa é visão sobre as sucroenergéticas dada pelo gerente sênior de relacionamento do banco holandês Rabobank, Manoel Pereira de Queiroz. Ele faz o diagnóstico do setor sucroenergético pelo prisma dos investimentos – ainda existentes, mas cada vez mais escassos.
Durante palestra realizada no último dia 4 de setembro, no NovaCana Ethanol Conference 2018, Queiroz apresentou algumas conclusões sobre a saúde financeira das usinas brasileiras, levando em conta captação de recursos, financiamento e endividamento das usinas.
O respaldo das informações veio do conhecimento de causa do banco, que tem US$ 4,2 bilhões em ativos no mercado de açúcar e etanol – destes, US$ 2,1 bilhões estão no Brasil, país onde atua há 25 anos.
Segundo o profissional, a dívida líquida do setor desalavancou na média. Em 2017/18, ela foi de R$ 125 por tonelada de cana. O número se refere a um estudo feito pelo banco com uma amostragem de 35 usinas, as quais representam cerca de 50% da moagem brasileira e pouco mais de 300 milhões de toneladas. A análise também foi ampliada para a perspectiva histórica, com valores corrigidos pela inflação.
Na reportagem a seguir, veja um aprofundamento nos tópicos:
- Desigualdade do setor: gap do endividamento
- Capacidade de solvência das usinas
- Liquidez das companhias sucroenergéticas
- Em busca de crédito – financiamentos públicos e privados e emissão de CRAs
- Fusões e aquisições no setor sucroenergético
- Consolidação do setor e perspectivas para o futuro
Um setor heterogêneo e com um gap cada vez mais evidente: de um lado, empresas com as contas em dia e de olho em possíveis investimentos; do outro, as companhias com dificuldades consideráveis nas finanças.
Essa é visão sobre as sucroenergéticas dada pelo gerente sênior de relacionamento do banco holandês Rabobank, Manoel Pereira de Queiroz. Ele faz o diagnóstico do setor sucroenergético pelo prisma dos investimentos – ainda existentes, mas cada vez mais escassos.
Durante palestra realizada no último dia 4 de setembro, no NovaCana Ethanol Conference 2018, Queiroz apresentou algumas conclusões sobre a saúde financeira das usinas brasileiras, levando em conta captação de recursos, financiamento e endividamento das usinas.
O respaldo das informações veio do conhecimento de causa do banco, que tem US$ 4,2 bilhões em ativos no mercado de açúcar e etanol – destes, US$ 2,1 bilhões estão no Brasil, país onde atua há 25 anos.
Segundo o profissional, a dívida líquida do setor desalavancou na média. Em 2017/18, ela foi de R$ 125 por tonelada de cana e, em 2016/17 foi de R$ 124/t, ante indicadores de R$ 138/t e R$ 148/t nas duas safras anteriores.

Os números se referem a um estudo feito pelo banco com uma amostragem de 35 usinas, as quais representam cerca de 50% da moagem brasileira, pouco mais de 300 milhões de toneladas. A análise também foi ampliada para a perspectiva histórica, com valores corrigidos pela inflação.

Por outro lado, Queiroz acredita que a visão da média não oferece o diagnóstico real da situação financeira das usinas. “Não existe apenas um setor, mas vários dentro de um, o setor é muito heterogêneo”, alerta.
Com a amostra dividida em quatro partes iguais é possível observar que 25% dos grupos está bem abaixo da média, com dívidas entre R$ 33 e R$ 107 por tonelada de cana. No outro extremo, há usinas com débitos entre R$ 154 e R$ 245 por tonelada de cana.

Outro ponto que mostra a heterogeneidade do setor é a estrutura de capital. O banco usou como base de cálculo a relação entre o patrimônio líquido e o ativo total, que é quanto do capital do acionista está financiando a usina.
Com isso, a solvência (capacidade de cumprir os compromissos com os recursos do patrimônio) também se recuperou na média, passando de 26% e 28% entre as duas últimas safras fechadas. Porém, a abrangência da solvência também é grande, evidenciando a diferença entre os players do setor e que se amplifica da safra 2013/2014 em diante. No último ano, as usinas registraram resultados no intervalo entre -50% e 50%.

Um terceiro índice, considerado pelo palestrante como um dos mais importantes, é a liquidez. “O que quebra uma empresa é a falta de liquidez”, considera, e completa: “[Uma companhia] consegue liquidez com um colchão de caixa perfeito ou com o alongamento das dívidas, mantendo-as sempre a longo prazo. Se você tiver menos débitos de curto prazo ou mais caixa, tem uma liquidez maior”.
Os números apresentados repetem a conclusão vista nos demais indicadores: nas safras mais recentes houve uma pequena recuperação de liquidez, ficando em 1,3% em 2017/18, mas há uma distância evidente entre o maior e o menor ponto.

“Parte da amostra paga mais do que duas vezes a sua dívida financeira de curto prazo e outra parcela não consegue pagar nem 40% da sua dívida de curto prazo”, pontua Queiroz.
Mercado bancário sem apetite
De acordo com o gerente, o mercado bancário está muito concentrado e parte dos bancos possui limites de investimento setorial. O pensamento geral é manter os ativos, mas melhorar a qualidade com operações de melhores garantias e margens, além de mais seguras.
“Os bancos têm feito provisionamentos nos últimos anos e, com isso, o apetite fica muito mais seletivo”, expressa, e complementa: “Dinheiro no mercado bancário tem, mas ele está para quem pode e demonstra maior capacidade de pagamento”. Dessa forma, o acesso a crédito das sucroenergéticas em piores condições se torna ainda mais restrito.

Além disso, com empresas com alta capacidade de tomar recursos em contraste com outras sem este potencial, surge um cenário de deterioração que pode se agravar a depender dos resultados das eleições, segundo Queiroz.
O subsídio público, conforme o palestrante, também está cada vez mais raro e o Rabobank crê que os investimentos virão de fontes privadas. Por outro lado, o crédito privado também está seletivo, com poucos bancos estrangeiros com apetite de investir no país.
A possível saída é a emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) – papéis que tiverem uma evolução em valor e em número de projetos no setor. Mesmo tendo um leve retrocesso devido à queda da taxa Selic (atualmente em 6,50%, após um pico de 14,25% que durou até outubro de 2016), que fez com que a atração do investidor por renda fixa diminuísse, o banco vê os CRAs como boa alternativa ao longo dos anos conforme o mercado de capitais se desenvolve.
Segundo os dados expostos na apresentação, até agosto de 2018, R$ 1,9 bilhão em CRAs foram emitidos para empresas relacionadas ao setor sucroenergético – o maior valor foi para a BR Distribuidora, que emitiu R$ 961,8 milhões em títulos. Entre as usinas, a São Martinho foi responsável por R$ 500 milhões, enquanto Batatais e Coruripe emitiram R$ 200 milhões cada.
Consolidação do setor
Manoel de Queiroz ainda comenta que não há uma consolidação do setor por meio de fusões e aquisições, ou seja, os ativos têm ficado nas mesmas mãos. Das últimas seis M&A que ocorreram, três foram usinas adquiras como Unidades Produtoras Independentes (UPI) por meio de ativos já estressados e em recuperação judicial – Triálcool, Vale do Paranaíba (ambas do grupo João Lyra) e Unialco.

O gerente ainda cita a compra de duas usinas do grupo Tonon, também em recuperação judicial, realizada pela Raízen. Nesse caso, as usinas adquiridas estão localizadas em áreas próximas a outras unidades da Raízen, que foram desativadas devido à escassez de cana-de-açúcar. Dessa forma, o número de unidades em operação do grupo se manteve o mesmo.

“Constatamos que não tivemos crescimento em moagem no centro-sul, mas tivemos a cana mudando de mão”, aponta Queiroz. De acordo com ele, nas últimas cinco safras, não houve operações de fusão e aquisição, mas sim de consolidação de canaviais, uma tendência que atualmente estaria perdendo a força.
“Ao invés de expansão há uma consolidação silenciosa, o que deve continuar ocorrendo, mas talvez esteja perdendo força. Não nos surpreende se o mercado andar para trás com o pressionamento dos preços”.

Perspectiva de futuro e as dificuldades do RenovaBio
Para o futuro do setor, o palestrante considera a ação regulatória importante, acreditando ser necessária uma política de preços muito clara para a gasolina.
Queiroz, contudo, acha pouco provável que o setor de etanol consiga atingir uma produção adicional de 18,7 bilhões de litros em 10 ou 12 anos, conforme estimado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) para o RenovaBio. “Há uma limitação financeira. Não considerando o ganho com etanol de milho ou novas tecnologias, precisamos de, pelo menos, 230 milhões de toneladas a mais de cana”, considera.
Para isso, segundo o palestrante, seria preciso mais 46 greenfields de 5 milhões de toneladas cada, dentro de um prazo menor que dois ciclos de cana. “Consideramos muito improvável isso acontecer. Acreditamos no crescimento a longo prazo do setor no Brasil, mas temos um problema estrutural no meio do caminho e precisamos encontrar soluções para isso”, conclui.
Neste ponto o governo, através da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), apresentou uma visão diferente recentemente. A perspectiva da EPE é que a produção adicional de etanol necessária para o RenovaBio viria, majoritariamente, de ampliações e reativações de unidades.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana