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Financeiro

A disparidade do setor sucroenergético nos indicadores de 44 usinas

O significado de R$1,00 de lucro, R$1,00 de dívida e 1 tonelada de cana para as sucroenergéticas


novaCana.com - 06 dez 2018 - 11:33 - Última atualização em: 06 set 2019 - 09:55
  1. O ‘preço’ de R$ 1,00 de Ebitda: Principal indicador de desempenho operacional das empresas se manteve praticamente estável entre as duas últimas safras, mas sua relação com a moagem escancara disparidade do setor.
  2. O ‘rendimento’ de uma tonelada de cana: Usinas conseguiram lucrar mais com cada tonelada de cana moída, porém, não se saíram tão bem no comparativo com outros indicadores operacionais e financeiros.
  3. O ‘peso’ de R$ 1,00 de dívida: Houve uma piora na relação entre os débitos do setor sucroenergético e a moagem, o Ebitda e o patrimônio líquido das empresas, evidenciando o perfil de endividamento do setor.

A relação entre o lucro e a produção de uma usina é extremamente relevante, mas nem sempre óbvia – especialmente em um setor tão heterogêneo quanto o sucroenergético. Assim, uma análise de diferentes indicadores econômico-financeiros traz o real significado de R$ 1,00 de Ebitda, R$ 1,00 de dívida e da moagem de 1 tonelada de cana na situação de cada grupo, independente do seu tamanho.

Os dados foram obtidos a partir de um levantamento da consultoria FG/A, que apresentou uma série de indicadores para a compreensão da já conhecida disparidade do setor sucroenergético. A amostra completa envolve 57 empresas, que representam cerca de 62% da moagem do Centro-Sul – destas, 44 tiveram os dados individuais apresentados.

De acordo com os resultados da safra 2017/18, duas questões são certas: a diferença entre as companhias que estão melhor e pior posicionadas de acordo com seus indicadores, e a grande falta de investimentos no setor, que já vem sendo vista há alguns anos. Ainda assim, houve uma melhora em alguns números.

O sócio da FG/A Willian Orzari Hernandes explica que, em comparação com 2016/17, as usinas viveram um cenário “de faturamento líquido por tonelada parecido com a safra anterior”. Segundo ele, isso seria o resultado de uma recuperação do preço do etanol durante a temporada toda, frente a uma deterioração do preço do açúcar.

Enquanto em 2016/17 a média do faturamento líquido entre as companhias analisadas pela consultoria girava em torno dos R$ 166,11, em 2017/18 ela ficou com R$ 164,70. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) e o resultado financeiro líquido também atingiram uma certa estabilidade entre as duas últimas safras, de acordo com Hernandes.

Além disso, ele adianta que não são esperadas grandes mudanças no resultado financeiro do setor em 2018/19, pelo menos não enquanto não houver melhor geração de caixa. “Tivemos menos investimento que no passado, quando muita gente fez expansão de fábrica de açúcar, investindo em canavial e aumentando levemente as plantas industriais. Este ano não ocorreram novos investimentos relevantes”, reitera.

Para o final desta safra e para a próxima, a expectativa segue a mesma: “De maneira geral, os investimentos não tendem a voltar, mesmo com essa visão geral de continuidade do preço do combustível, indo de acordo com o mercado, e do açúcar voltando a entregar um equilíbrio no balanço mundial”, afirma e acrescenta: “Nós entendemos que temos uma situação de alavancagem um pouco menor do que as dos dois últimos anos, mas suficiente para quase zerar a dívida de um quarto do setor. O pessoal olha e volta a investir nesses players não críticos”.

Dessa forma, considerando a disparidade do setor, essas condições podem ser um alívio que só algumas companhias conseguem aproveitar.

O ‘preço’ de R$ 1,00 de Ebitda

A partir dos indicadores da FG/A, o novaCana calculou quanto de cana-de-açúcar uma empresa precisa moer e qual é a receita necessária para as empresas atingirem R$ 1,00 de Ebitda, que envolve os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização.

Com base nos resultados de 57 empresas, a resposta para a média setorial de 2017/18 seria de 16,72 kg de cana e R$ 2,73, respectivamente. Em comparação com a média da safra anterior – que correspondia a uma amostra de 42 empresas – o número se manteve praticamente o mesmo.

A maior diferença está em relação à posição da dívida das companhias no fechamento do balanço de cada safra. Em 2017/18, a média setorial das sucroenergéticas apresentou R$ 2,40 de débitos para cada R$ 1,00 de Ebitda – na temporada anterior, este valor era 24,35% menor, com R$ 1,93.

comparativoFGA 2018 1 ebitda

Em relação às empresas que tiveram seus dados expostos, há grandes diferenças que reforçam a disparidade do setor e a situação de cada uma. Por exemplo, enquanto companhias como Raízen, São Martinho, Atvos, Bunge e Biosev precisam moer menos de um quilo para gerar R$ 1,00 de Ebitda, a Unidade Jatiboca precisa de 108,38 kg de cana para atingir a mesma quantidade de lucro.

No caso da receita necessária para gerar o Ebitda de R$ 1,00, excetuando-se novamente a Jatiboca, a variação entre as companhias é menor, assim como no caso da dívida.

O ‘rendimento’ de uma tonelada de cana

Outra forma de olhar para os indicadores é entender o quanto cada tonelada de cana-de-açúcar moída pode indicar de Ebitda, faturamento, custos e despesas administrativas – seja diretamente com a fabricação de açúcar, etanol e energia elétrica ou externos – e em relação à dívida.

Na safra 2017/18, a média das 57 empresas analisadas pela FG/A melhorou quando se trata do lucro e do custo de produção, porém piorou em todos os outros. Assim, uma tonelada de cana rendeu menos – ou seja, gerou menor faturamento – além de representar uma posição de dívida maior no balanço das companhias.

comparativo fga 2018 v2

Dentre as empresas, a São Manoel se destaca por ter registrado a maior eficiência operacional por tonelada, enquanto a Alta Mogiana teve o maior faturamento médio da safra 2017/18, com R$ 198,25, 20% acima da média do setor.

Em relação ao custo-caixa, a Energética Morrinhos foi a que menos gastou com a fabricação dos produtos oriundos de uma tonelada de cana-de-açúcar – R$ 45,62, um valor 130% abaixo da média do setor.

Nas despesas administrativas, a disparidade é menor, já que a Biosev gastou R$ 18,91/t e a Ipiranga Agro, R$ 4,10/t, fazendo a média do setor ficar em R$ 11,60/t.

Por último, em relação à posição da dívida das companhias no fechamento do balanço da safra, a Energética Morrinhos, a Bazan, a Monte Alegre e a Santa Lúcia tiveram dívida líquida negativa, o que indica que possuíam dinheiro em caixa suficiente para pagar os débitos.

O ‘peso’ de R$ 1,00 de dívida

Já quando se trata da posição das dívidas no encerramento do ano-safra 2017/18, os indicadores destacam que os débitos das empresas, suas capacidades de produzir riquezas e seus portes totais pioraram entre as duas últimas temporadas.

Na média, as companhias conseguiram um Ebitda de R$ 0,41 para cada R$ 1,00 de dívida, além de terem registrado um patrimônio líquido de R$ 0,55. Esses números implicam uma alta alavancagem e demonstram a dependência do setor em investimentos externos.

A questão, porém, segundo Hernandes, é que o cenário atual não está possibilitando novos investimentos e tampouco a desalavancagem. “Tivemos ciclos de bons preços do açúcar e agora estamos vivendo um do etanol, o que, combinado com produções boas, poderia gerar um movimento de desalavancagem”, afirma, e completa: “A princípio, é de se esperar que as companhias menos alavancadas invistam primeiro, enquanto as mais [alavancadas] esperariam o momento seguinte para voltar a investir. Se isso ocorresse, os players menos alavancados tendem a voltar a investir com uma velocidade um pouco maior. Mas este não é o cenário, na prática”.

comparativoFGA 2018 3 divida

Na comparação entre as companhias que tiveram seus números divulgados, grande parte das empresas possuíam um patrimônio líquido inferior a seus débitos ao final da safra 2017/18.

Já a São Luiz, por ter uma dívida de apenas R$ 0,26 por tonelada de cana moída, tem uma moagem, um Ebitda e um patrimônio líquido de destaque em relação a R$ 1,00 de dívida líquida.

Rafaella Coury - novaCana.com