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Contratos da Atvos com o BNDES traçam o caminho da recuperação judicial do grupo

Os financiamentos da empresa começaram em 2007; de lá para cá, a dívida total da Atvos chegou a mais de R$ 11 bilhões


novaCana.com - 09 jul 2019 - 10:03 - Última atualização em: 06 set 2019 - 07:54

Em maio deste ano, o grupo Atvos apareceu diariamente no noticiário do setor devido a sua situação financeira delicada. O braço sucroenergético da Odebrecht era o que mais estava sofrendo com a crise financeira e de imagem do grupo, que já dura quatro anos.

Com uma dívida total de R$ 11,96 bilhões, a Atvos entrou com um pedido de recuperação judicial no final do mês. O anúncio veio na sequência de meses de inadimplência e uma tentativa de negociação com os principais credores – porém, não houve acordo com Banco do Brasil e com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Conforme a Folha de São Paulo, o BNDES é o maior dos credores, com R$ 4,1 bilhões a receber, em seguida vem Banco do Brasil, com R$ 3,8 bilhões. Na sequência estão a Caixa Econômica Federal, com R$ 530 milhões, o Itaú, com R$ 390 milhões, e o Bradesco, com R$ 260 milhões.

O novaCana faz um acompanhamento dos financiamentos do BNDES no setor sucroenergético e possui um histórico das transações desde 2002. Neles, é possível constatar a relação da Atvos com o banco e entender melhor a dívida que levou à recuperação judicial da empresa.

A relação Atvos e BNDES

Nos últimos 18 anos, foram 973 projetos financiados pelo banco para a Atvos, espalhados em nove anos e que somaram R$ 5,18 bilhões. Em todo o período, a companhia foi a segunda que mais recebeu financiamentos do BNDES – atrás apenas da Raízen, a maior companhia nacional do setor, com R$ 8,4 bilhões.

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Todas as nove usinas do grupo financiaram projetos no período, porém, o destaque fica com a Costa Rica que, sozinha, captou R$ 2,58 bilhões e foi a que mais contratou financiamentos em todo o setor.

Dentre as 20 usinas que mais receberam dinheiro do banco no período analisado, também aparecem outras duas controladas pelo grupo: a Rio Claro, com R$ 768,06 bilhões e a 15ª posição, e a Santa Luzia, com R$ 724,86 bilhões e a 16ª posição.

A maior quantia recebida pelo grupo se concentrou em 2010, com R$ 2,04 bilhões divididos em 38 projetos. Os anos de 2009 e 2011 são os próximos na maior quantidade de dinheiro envolvida. Além disso, o último ano em que o banco financiou o grupo foi em 2017, com R$ 29,23 milhões divididos em 50 projetos.

A maior parte dos financiamentos (63%) recebidos pela Atvos se concentrou na implantação de unidade, e a Costa Rica é a usina que mais investiu nesta área no tempo analisado: R$ 2,36 bilhões em 2009 e 2010 – a Biosev vem em 2º lugar, com R$ 658,6 milhões. O grupo também é o que mais investiu nesta área, seguido pela Raízen.

Além do próprio banco de desenvolvimento, outras 13 instituições financeiras foram envolvidas nas transações, que tiveram diversas condições de pagamento. O BNDES, o Santander e o Banco do Brasil são os credores que envolveram as maiores quantias financiadas para a Atvos.

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A batalha da Atvos

De acordo com o demonstrativo financeiro mais recente da companhia, referente à safra 2017/18, desde a sua criação, em 2007, a Atvos tem “investido no setor por meio de aquisições e construções de unidades, além da renovação e expansão do seu canavial”. Para isso, afirma, “foram aplicados mais de R$ 12 bilhões”, o que envolve as dívidas que a empresa acumula atualmente.

O documento também explica que a empresa tem tentado reestruturar suas dívidas há anos. A última tentativa registrada pelo documento havia sido realizada em 30 de junho de 2016, possibilitando “reequilibrar o capital circulante líquido da companhia e suas controladas”.

Além disso, a Atvos defende que atua de forma efetiva para manter sua saúde financeira, com ações como o “aumento gradual e responsável do nível de investimentos”. Nesse caso, o objetivo seria priorizar a seletividade do plantio, com foco nas áreas de renovação e em ganhos de produtividade. A companhia ainda pretendia aumentar a participação de cana de 15 meses e utilizar novos implementos e equipamentos para aumentar o rendimento médio das colhedoras.

Outro ponto levantado pelo documento era a redução do volume de investimentos industriais. As usinas mais novas do grupo entraram em operação no final de 2011 e a expansão da Unidade de Eldorado, com ampliação da capacidade de moagem de 2,1 milhões para 3,5 milhões de toneladas de cana, foi concluída em julho de 2015.

O documento, porém, é referente a um período encerrado mais de um ano antes do pedido de recuperação judicial da Atvos, demonstrando as tentativas da empresa para acalmar os credores e evitar um desfecho mais drástico para sua situação financeira.

Atualmente, a dívida líquida da Atvos é equivalente a cerca de dez vezes seu lucro anual antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda). Colocando em perspectiva, a dívida das empresas mais bem administradas do setor é apenas o dobro do Ebitda.

O caminho até a recuperação judicial

A Atvos iniciou suas atividades em meados de 2007 com o nome de Odebrecht Agroindustrial. Hoje, a companhia tem nove usinas de açúcar e álcool distribuídas em São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com capacidade para produzir 700 mil toneladas de açúcar e 3 bilhões de litros de álcool combustível. É a segunda maior produtora de etanol do país.

A empresa apresentou dificuldades pela primeira vez em 2016, após a prisão do herdeiro do grupo, Marcelo Odebrecht, por corromper políticos e funcionários públicos. A situação do setor de açúcar e álcool, que sofria com o congelamento do preço da gasolina pela Petrobras, tornando o etanol pouco rentável, agravou o problema.

Na época, a então Odebrecht Agroindustrial promoveu uma primeira reestruturação de sua dívida, transferindo cerca de R$ 2 bilhões de débitos para sua holding e oferecendo em garantia ações da Braskem, até hoje a empresa mais saudável do conglomerado.

Já naquela época, especialistas em reestruturação de empresas diziam que a melhor saída para a companhia era a recuperação judicial, mas os executivos da Odebrecht resistiram, com receio de perder o crédito nos bancos e de que a crise acabasse abarcando todo o grupo.

A empresa, então, mudou de nome para Atvos. Os problemas, contudo, persistiram. No pedido de recuperação judicial, a companhia informa que perdeu R$ 1,2 bilhão de receita com a greve dos caminhoneiros e que sofreu com problemas climáticos na safra de cana de 2018 e 2019. Sua principal dificuldade, ainda assim, segue sendo o endividamento excessivo.

As empresas da Odebrecht já estavam inadimplentes no serviço e na amortização das dívidas há meses, e a companhia estava mantendo conversas com os credores para encontrar uma saída. Segundo o Valor Econômico, no começo do ano, foi feito um plano para cortar pela metade a dívida da Atvos, com a conversão do valor de participação de resultado em debêntures.

A proposta, no entanto, não teria agradado o BNDES e um segundo credor, que teriam alegado só aceitar a estrutura com um novo dono. O controle da unidade sucroenergética inclusive foi oferecido aos credores como forma de reestruturar a dívida, desde que o grupo ainda mantivesse uma participação minoritária.

A troca de dívida pelo controle daria à Atvos mais tempo para se recuperar sem ter de vender usinas – outra potencial alternativa para o pagamento das dívidas. Mas a expectativa era que nem essa possibilidade seria suficiente para limpar o nome da companhia.

O fundo norte-americano Lone Star, a quem foi oferecido o controle da Atvos, entrou com o pedido de penhora dos bens da companhia na justiça, por considerar impagável a dívida, que já estava sendo renegociada a meses.

Foi justamente em maio que o fundo obteve a vitória no pedido. A decisão exigia da Atvos o depósito de cerca de 65% das vendas de etanol em favor da Lone Star e, com isso, o projeto de uma reorganização definitiva das dívidas teve de ser adiado.

De acordo com as fontes consultadas à época, a Atvos não teria dinheiro suficiente para efetuar os depósitos determinados pela justiça e, ao mesmo tempo, continuar operando normalmente. Assim, a companhia ficou bastante próxima de um pedido de recuperação judicial.

Mesmo que essa situação trouxesse riscos à controladora Odebrecht, que deu aval às negociações, a Atvos entrou com a solicitação em 29 de maio. De acordo com o Valor Econômico, o grupo tentou, até o último momento, uma negociação amigável com os detentores das dívidas. Porém, não houve acordo com o Banco do Brasil e o BNDES, os maiores credores da companhia.

Segundo fontes próximas à renegociação, ouvidas pelo jornal O Estado de São Paulo, o tiro de misericórdia para a Atvos foi justamente a falta de consenso entre os bancos, que não aceitaram uma proposta de transformar parte da dívida em capital.

Em nota à imprensa, a Atvos informou que entrou com o pedido de recuperação judicial para “preservar suas operações, garantir o equilíbrio financeiro e reforçar o seu compromisso com os mais de 10 mil empregados”. A empresa está sendo assessorada pelo escritório E. Munhoz Advogados e pela RK Partners.

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Rafaella Coury – novaCana.com