“Esse é um setor intensivo em capital e o crédito ainda está, de forma geral, escasso e caro por conta das incertezas do país. Mas olhamos para frente, com a expectativa de melhores preços para o açúcar”, Giovana Araújo (MB Agro)

novaCana.com 24 jul 2019 - 08:07 - Última atualização em: 31 jul 2019 - 10:01

Em um setor cada vez mais díspar e marcado pela estagnação produtiva, compreender como anda a saúde financeira dos players envolvidos é importante. Buscar caminhos para melhorias na produtividade, nos ativos financeiros e nos investimentos é crucial para manter o bem-estar econômico da empresa.

Em entrevista exclusiva para o novaCana, a economista da MB Agro, Giovana Araújo, traz um pouco da visão dos investidores em relação às companhias do setor, destacando os principais motivos que levaram à disparidade entre as sucroenergéticas.

“Nos últimos cinco anos, em particular, tivemos um expressivo sucateamento dos canaviais, que resultou no declínio tanto da produtividade agrícola quanto da moagem da cana” relata e completa: “Nesse período, que é caracterizado como de estagnação e até de declínio da moagem, observamos que esse comportamento não foi uniforme para todas as empresas do setor. Uma grande parcela, as que estavam mais capitalizadas, com baixa alavancagem financeira e com elevada eficiência operacional, aumentou o volume de cana moída”.

Araújo ainda comenta as principais característica financeiras do setor, apontando saídas possíveis para as companhias menos capitalizadas e rotas de investimentos, trazendo áreas de investimento inteligentes, novas formas de captação de crédito e perspectivas de retorno com o RenovaBio.

O setor sucroenergético é bastante díspar, com companhias bastante capitalizadas em um lado e players com muitas dificuldades financeiras em outro. Quais os principais pontos de impacto nesse cenário?
As dificuldades financeiras de uma parte substancial do setor acabaram gerando oportunidade de crescimento para uma parcela que estava em melhores condições financeiras. O investimento óbvio para esse grupo mais sólido financeiramente passou a ser absorver os ativos disponíveis desse grupo menos sólido, e, dentre esses, ativos de cana-de-açúcar em particular. Essa é a primeira consequência mais evidente. Você tem um setor inteiro que tem ficado estagnado a em declínio e, dentro dessa fotografia generalizada, a gente observou disparidades na dinâmica de crescimento. Empresas crescendo a taxas até expressivas, acima de 10%, e empresas reduzindo substancialmente a moagem.


A NovaCana Ethanol Conference terá um painel para discutir a saúde financeira das sucroenergéticas, desde os seus perfis e disparidades, até como captar e direcionar recursos.

Como palestrantes, já estão confirmados o diretor de agronegócios do Itaú BBA, Pedro Fernandes, o sócio-fundador da FG/A, Juliano Merlotto e a economista da MB Agro, Giovana Araújo. Além disso, o gerente sênior de relacionamento do Rabobank, Manoel Pereira de Queiroz, irá moderar a discussão. O gerente do departamento de biocombustíveis do BNDES, Mauro Mattoso, deve complementar o debate.

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A programação completa da NovaCana Ethanol Conference 2019 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.


Quais as saídas possíveis para os que estão em pior situação?
Vai depender de cada caso. Para as empresas que estão com a alavancagem elevada, mas tem bons ativos do ponto de vista operacional, a solução passa por uma reestruturação da dívida, melhora na gestão financeira, governança e eventualmente um M&A [fusão e aquisição] para melhorar a estrutura de capital. Agora, a saída fica mais complexa para as empresas que, além da elevada alavancagem, não dispõem de bons ativos do ponto de vista da operacional. Esse grupo fica à mercê do ciclo de alta de preços do açúcar e do etanol que, na minha visão, tendem a ser mais curtos daqui para frente do que foram no passado. Então, essa é a situação mais delicada.

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Como os investidores olham para as usinas atualmente? Quais os pontos de otimismo ou pessimismo nesse caso?
Como existe essa dinâmica díspar do setor, o olhar do investidor mais sofisticado também não é uniforme. A média informa cada vez menos sobre o setor sucroalcooleiro. O investidor tende a refletir essas diferentes dinâmicas – no jargão do mercado financeiro, de “botton up”, da empresa para cima. Por exemplo: empresas que estão no ciclo virtuoso têm amplo acesso ao mercado de capitais, então, o olhar do investidor é mais sofisticado. Agora, quando a gente faz uma análise “top down” – país, setor e empresa –, esse momento atual do setor, com preços deprimidos para o açúcar no mercado internacional, tem gerado um sentimento de cautela. E, o fato da fotografia consolidada ser de uma elevada alavancagem, também gera preocupação.

“A dinâmica dos players menos capitalizados acaba afetando também, de alguma forma, o ponto de vista de preços, oscilação, volatilidade; o mercado dos que estão em melhor situação financeira”, Giovana Araújo (MB Agro)

O que é preciso ser feito para haver um aumento no apetite por parte dos investidores nas usinas brasileiras?
Precisaria ter uma perspectiva de melhoria estrutural de preços. Preços que reflitam em uma melhoria de margens operacionais e que mudem essa equação de retorno sobre o capital investido, essas operações tradicionais. Para que isso aconteça, precisaria de melhores preços do etanol, do açúcar e da energia, que são as principais fontes de receita do setor sucroalcooleiro. Estamos em um momento difícil porque os preços do açúcar estão deprimidos. É um setor intensivo em capital e o crédito ainda está, de forma geral, escasso e caro por conta das incertezas do país. Mas olhamos para frente, com a expectativa de melhores preços para o açúcar. Se a gente olhar a médio prazo, existem expectativas de crescimento dos mercados de etanol no mundo e que podem trazer, junto com o RenovaBio, um olhar mais positivo para o setor.

O RenovaBio pode trazer essa mudança?
O RenovaBio traz uma esperança de benefícios econômicos para as usinas, ainda que pairem dúvidas sobre a dimensão desse benefício, que vai depender do valor do CBio. Mas ele traz esperanças. Seria importante, para que de fato tivesse uma mudança de sentimento, a melhoria estrutural de preço. Essa mudança não pode ser pontual, pois o setor tem um ciclo de investimento longo. A cana fica sete anos no campo, então, seria importante que tivesse de fato uma melhoria estrutural.

Quais os melhores caminhos para os investimentos a partir dos lucros vindos com o RenovaBio?
Grande parte da receita do setor está atrelado a commodities, dentre eles o etanol. As opções de hedge hoje disponíveis, são limitadas. O investimento mais óbvio para um setor que tem essa dinâmica é o aumento da competitividade das operações, de forma a produzir mais gastando menos; é isso que melhora a equação de retorno do setor. A agenda de investimento passa por um aumento de produtividade e da eficiência agrícola das operações. Modernização de frotas, das máquinas para o campo, aumento nos gastos com tecnologia – o que chamamos de agenda positiva de produtividade.

Ao menos por enquanto, o capital de investimento está escasso. Quais são os melhores caminhos de investimento que as usinas devem seguir? Onde devem focar?
Grande parte da geração de valor dessa indústria está no campo, então, essa parece ser a alocação mais óbvia de capital. Mas, além disso, têm outras opções estratégicas, como a diversificação dos fluxos de receita e investimentos em cogeração. Você tem também a diversificação de fontes de matéria-prima, que é por meio da produção de etanol de milho, por exemplo, que hoje apresenta melhor retorno sobre o capital investido do que um greenfield de etanol de cana-de-açúcar. São outras vertentes de investimento que não só reduzem risco, mas melhoraram a equação de retorno.

A emissão de debêntures e de outros títulos de dívidas tem sido cada vez mais comum no setor. Quais a sua visão sobre essa forma de arrecadação de crédito e como isso pode influenciar no mercado?
Essas emissões refletem uma tendência de diversificação de fontes de capital que se acentuou após essa crise de crédito que o país viveu nos últimos anos. A produção de açúcar e etanol é intensiva em capital e a diversificação das fontes de capital em si é benéfica – tende a ter um impacto positivo sobre a percepção de risco, da empresa ou grupo e, portanto, sobre o custo de capital das operações.

“Reduzir o custo de capital para um setor que é intensivo em capital, alongar o endividamento, o que tem sido possível por meio dessas emissões, são aspectos fundamentais para a solidez financeira da empresa. É algo benéfico que tende a crescer na nossa visão”, Giovana Araújo (MB Agro)


Estas e outras discussões sobre a saúde financeira das companhias sucroenergéticas acontecerão durante a NovaCana Ethanol Conference 2019. A programação completa do evento está disponível aqui.

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