Ainda que a crise financeira, os consecutivos prejuízos e o alto endividamento não sejam novidade, o setor de açúcar e etanol se alarma cada vez que são mencionadas palavras como “renegociação”, “reestruturação”, “recuperação judicial” ou “falência”. E não é à toa.

novaCana.com 17 jul 2019 - 09:13 - Última atualização em: 02 ago 2019 - 09:26

Não faz muito tempo que as usinas de açúcar e etanol acreditavam que a situação iria melhor. Após a safra 2015/16, os preços estavam mais favoráveis e a possibilidade de uma diminuição no endividamento era real. Porém, nem todas as sucroenergéticas conseguiram ajustar as contas e o contexto mundial dos preços de açúcar acabou sofrendo uma reviravolta, prejudicando ainda mais quem já estava com a saúde financeira comprometida.

Segundo um levantamento da RPA Consultoria, por exemplo, houve um aumento de 17,6% na quantidade de usinas que entraram em recuperação judicial entre abril de 2018 e de 2019. Em relação às usinas falidas, o acréscimo foi de 8%. De lá para cá, a Atvos – antiga Odebrecht Agroindustrial e controladora de nove unidades – engrossou a lista.

Também de acordo com a RPA, outros nove grupos devem se juntar à companhia até o fim da safra 2019/20. Por sua vez, a agência de classificação de risco Fitch Ratings apontou, em relatório, que o setor deve se preparar para dificuldades.

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Segundo documento assinado pelo analista sênior da Fitch, Claudio Miori, as usinas terão que conviver com uma alavancagem maior neste ano em relação a 2018, especialmente graças aos preços baixos do açúcar e ao real fraco. Além disso, a liquidez seguirá apertada.

“Dependendo dos preços da gasolina, o mercado de etanol pode ser um vetor do crescimento do setor”, detalha. Por outro lado, se os preços do combustível fóssil estiverem baixos, as companhias precisarão realizar cortes de custos, e deixar de investir em expansões, a fim de aumentar a geração de fluxo de caixa livre.

“A lenta recuperação dos preços internacionais do açúcar e a falta de opções de financiamento continuarão representando obstáculos para empresas em dificuldades financeiras”, Claudio Miori (Fitch Ratings)

Miori, que é economista com MBA em agronegócio pela Fundação Getúlio Vargas, será um dos palestrantes da NovaCana Ethanol Conference, evento que acontece em São Paulo nos dias 16 e 17 de setembro. Ele fará parte do painel “Recuperação judicial: caminhos e saídas” e deve falar sobre a crescente pressão dos credores e os recentes casos de reestruturação de dívidas e recuperação judicial, explorando para onde caminha o setor e como as empresas devem se comportar neste momento delicado.

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Rebaixamentos à vista

A princípio, a Fitch projetava uma manutenção de 90% das notas das sucroenergéticas em 2019. Os 10% restantes, contudo, deveriam ser rebaixados devido a seus fracos resultados, acentuados pela falta de investimentos nos canaviais em 2018. Desta forma, mesmo entre as companhias mais bem posicionadas, a agência não previa nenhuma elevação de rating.

“Empresas com estratégia eficiente de hedge do preço de açúcar e baixo custo de caixa devem reportar fluxo de caixa livre (FCF) de positivo a neutro. O acesso a linhas de crédito de longo prazo deve permanecer limitado para a maioria dos produtores de açúcar e etanol”, reitera Miori.

Os únicos rebaixamentos até o momento aconteceram em abril e no final de maio, ambos envolvendo a USJ. Na segunda ocasião, a companhia teve sua nota alterada de C para RD, ou default restrito. Segundo documento disponibilizado pela Fitch, isso significa que a empresa não teria condições de realizar o pagamento de uma obrigação financeira, mas continuaria operando sem a necessidade imediata de um pedido de falência ou similar.

Ainda conforme a Fitch, a queda foi motivada pela troca de notas de uma dívida em situação crítica, com enfraquecimento das condições originais dos investidores. Segundo a agência, o rebaixamento considera o perfil de crédito já pressionado da USJ por conta da volatilidade inerente ao setor, com a troca sendo motivada por uma tentativa de evitar a inadimplência.

Alguns dias depois, porém, a agência voltou a subir a classificação da empresa, refletindo a conclusão das negociações com os credores. Porém, isso não significa que a situação financeira da USJ está resolvida. Atualmente, o grupo tem o rating de longo prazo CCC- para moedas estrangeiras e CCC para a moeda nacional, o que indica que a possibilidade de calotes futuros ainda existe.

“Para a Fitch, a renegociação da dívida representa um alívio apenas temporário em relação aos riscos de refinanciamento persistentemente altos da USJ”, aponta e continua: “A estrutura de capital da empresa permanece insustentável e, na ausência de venda significativa de ativos, sua flexibilidade financeira continuará muito limitada para enfrentar as obrigações até 2021”.

De acordo com os dados apresentados, em 31 de dezembro de 2018, a USJ possuía um fluxo de caixa livre negativo em R$ 156 milhões. Além disso, também pesaria contra a empresa uma alavancagem elevada e índices de dívida ajustada por Ebitdar de 7,6 vezes, o que deixaria sua atuação com “riscos acima da média da indústria”.

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Ao longo do primeiro semestre deste ano, Raízen Energia, Jalles Machado e Biosev tiveram suas notas anteriores reafirmadas.

Perspectivas financeiras

Em relatório divulgado em junho, a Fitch atualizou suas perspectivas para o açúcar, que seguem fracas. A agência espera uma continuidade dos preços baixos e um superávit produtivo global no ciclo 2018/19 (outubro a setembro). Para a temporada seguinte, apesar do déficit esperado, a agência não projeta melhoras significativas no preço.

Em contrapartida, os fundamentos são mais positivos para o etanol. De acordo com o documento, os preços internacionais do petróleo estão relativamente altos e o real está fraco, o que deve manter os preços da gasolina relativamente elevados. Como eles são considerados um fator limitante, este cenário deve abrir caminho para uma demanda constante do renovável.

Assim, a Fitch espera um mix de produção de 63% para o biocombustível brasileiro em 2019. Além disso, a expectativa é que o RenovaBio impulsione a demanda por etanol em 2020 graças ao início da comercialização dos créditos de descarbonização (CBios).

A partir deste panorama, a expectativa é que o fluxo de caixa livre das usinas seja de neutro a positivo. Isso, porém, é válido apenas para as empresas que possuem boa administração na cogeração de energia elétrica e boa flexibilidade para produzir etanol, além de uma estrutura de custos competitiva.

Também conforme a Fitch, a alavancagem das sucroenergéticas deve ser maior do que no ano anterior, por conta da redução da cana moída, dos preços baixos do açúcar e do real mais fraco sobre a dívida expressa em dólar. “A maioria das empresas de açúcar e etanol latino-americanas, com classificação Fitch, possui liquidez fraca e acesso limitado a mercados de dívida e de capital”, pontua o documento.

No Brasil, o real mais fraco pode beneficiar o fluxo de caixa das sucroenergéticas, pois o valor da gasolina nas refinarias é calculado pela Petrobras por meio da combinação entre o preço internacional do petróleo e a taxa de câmbio. Além disso, a receita com a exportação de açúcar será beneficiada, ainda que a correlação dos preços do adoçante e da taxa de câmbio brasileira tenda a ser negativa no longo prazo.

Em contrapartida, quem fica vulnerável com a moeda nacional mais fraca são as empresas brasileiras com muitas dívidas fixadas em dólares, o que traz um efeito negativo sobre suas alavancagens.

Estas e outras discussões sobre as perspectivas para as usinas que enfrentam dificuldades financeiras acontecerão durante a NovaCana Ethanol Conference 2019. A programação completa do evento está disponível aqui.

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