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Política

Eduardo Bolsonaro publica vídeo em defesa ao aumento na cota para importação de etanol [atualizado]

Vídeo publicado pelo deputado federal traz valores incorretos sobre o consumo brasileiro do biocombustível


novaCana.com - 01 out 2019 - 14:53 - Última atualização em: 02 out 2019 - 08:15

Atualização (02/10, às 8h): Uma nova versão do vídeo foi publicada pelo deputado e incluída ao conteúdo abaixo. O texto também foi alterado para tratar sobre os dados apresentados nas duas versões.

Deputado federal por São Paulo, Eduardo Bolsonaro divulgou um vídeo nesta terça-feira (1º) em que defende o aumento da cota brasileira para a importação de etanol sem tarifas. A publicação foi retirada do ar pouco tempo depois. Na manhã de hoje (2), o vídeo foi republicado com alterações.

O deputado – que foi o escolhido por seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos – já participou de alguns encontros com o presidente norte-americano, Donald Trump. Em uma dessas reuniões, acompanhado pelo chanceler brasileiro Eduardo Araújo, ele participou das negociações que resultaram no aumento da cota.

Em setembro, o governo brasileiro elevou este volume para 750 milhões de litros anuais, ante os 600 milhões de litros vistos nos dois últimos anos. A medida vale por 12 meses. “É uma tarifa totalmente condizente com o que o mercado brasileiro pode competir”, afirma Bolsonaro em vídeo. “Não existe qualquer tipo de alarde a ser feito, ou dizer que empresas vão falir devido a essa cota de etanol americano que entra com 0% de tarifa aqui no Brasil”.

A medida, entretanto, recebeu críticas de parlamentares brasileiros, especialmente da região Nordeste. Por conta disso, a Câmara chegou a aprovar urgência para votar um projeto que pede a suspensão da decisão. E essa é a motivação do vídeo publicado pelo deputado: “Eu apelo aos parlamentares para que a gente rejeite esse projeto”.

No vídeo, Eduardo Bolsonaro afirma que a cota ajudaria os setores de carne e açúcar, além de influenciar um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Além disso, ele cita o apoio dado pela União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) ao aumento da cota: “A negociação foi tão exitosa que a Unica soltou uma nota elogiando o governo Bolsonaro”.

O deputado também relata que o etanol que ultrapassar a cota de importação será taxado em 20%, enquanto o biocombustível brasileiro exportado aos Estados Unidos pagaria, no máximo, 3% de impostos.

“Nós estamos desconsiderando uma medida que o governo Trump está prestes a editar, que é o chamado E15, ou seja, 15% de etanol na mistura [à gasolina]”, argumenta. “Se isso vier a se concretizar, os Estados Unidos vão precisar importar [o biocombustível] brasileiro para abastecer seus postos de gasolina”.

O deputado, entretanto, não menciona o fim das restrições ao E15 e que não há uma obrigação da mistura de etanol na gasolina nos EUA. Inclusive, no país, os produtores de etanol têm se mostrado descontentes com o presidente por conta de decisões que restringiram o mercado internacional do produto e pelas isenções dadas a diversas refinarias, que não precisarão atender às regras da política de combustíveis renováveis do país.

Bolsonaro também demonstra desconhecimento dos números do setor. Na primeira versão publicada do vídeo, ele afirma que o Brasil consumiu 2,5 bilhões de litros de etanol em 2017. Porém, segundo números da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), foram 25,56 bilhões de litros – ou seja, 10 vezes mais que o número apresentado.

A partir do número errado, Bolsonaro afirma que a cota de 600 milhões de litros de etanol importado representa 24% do mercado. Considerando os números corrigidos, no entanto, essa participação cai para 2,35%.

Na segunda versão do vídeo, o deputado afirma que o volume de 2,5 bilhões é referente apenas ao mercado da região Nordeste. Porém, os números da ANP apontam que esse consumo seria de 3,23 bilhões de litros. Neste contexto, a cota de 600 milhões de litros representaria uma participação de mercado de 18,58%.

Além disso, do volume consumido em 2017, 2,41 bilhões de litros seriam de etanol hidratado – um valor bastante próximo ao apresentado – e 860 milhões de litros seriam de anidro. A princípio, o etanol exportado pelos Estados Unidos para o Brasil seria anidro, porém, este produto pode ser transformado em hidratado, em um processo que também amplia o volume do combustível.

No vídeo, o deputado também afirma que a perspectiva para o consumo de etanol em 2019 é de 3 bilhões de litros. De acordo com ele, nesse contexto, a cota de 750 milhões de litros anuais representaria 25% do consumo no Nordeste.

De janeiro a agosto de 2019, o consumo de etanol na região Nordeste somou 2,54 bilhões de litros. Deste volume, 1,48 bilhão de litros são de hidratado e 1,07 bilhão de litros são de anidro – em relação ao segundo, há um crescimento de 113,85% em relação ao mesmo período de 2017. Na mesma comparação, o consumo de hidratado caiu 7,97%.

Renata Bossle – novaCana.com