Política

Biagi Filho: “Nosso setor cometeu um grande erro com Dilma”


Brasil Econômico - 13 mar 2014 - 09:39 - Última atualização em: 13 mar 2014 - 20:34
biagi-filho-site-120314
Integrante do Conselho Econômico e Social da Presidência da República, o empresário paulista Maurílio Biagi Filho tem sido um importante interlocutor do ex-presidente Lula para assuntos relativos ao etanol, ao agronegócio e ao meio empresarial em geral. Para o empresário, o setor sucroenergético criou problemas no planejamento estratégico da Petrobras ao não cumprir promessas de aumento de produção e errou ao pressionar o governo por aumento de preços. "Os produtores até hoje não reconhecem isso", afirma.

Como o sr. vê a crise no setor sucroalcooleiro?
Eu tenho uma holding. Na época do boom do setor sucroalcooleiro, naquele ano em que foram construídas 30 novas usinas, percebi que os custos de produção estavam crescendo muito para nós. Uma série de exigências nas áreas ambiental e trabalhista, por exemplo, passaram a influenciar. Nós tínhamos uma perspectiva de competitividade do etanol em relação à gasolina. Quando a paridade foi quebrada, em 2010, escrevi uma série de artigos em que dizia que aquela era a sentença de morte do etanol. Hoje, o setor sucroenergético está à deriva.

biagi-filho-2b-site-120314

E quem é responsável por isso?
A questão da Petrobras, que é responsável por 10% das compras internas, tem uma repercussão enorme na questão de compra, prazo e financiamento. A partir do momento em que foi quebrada a paridade econômica com a gasolina, o etanol se tornou inviável. O que irrita o governo é quando os produtores de álcool passam a dar palpite sobre o preço da gasolina, pedir que a Petrobras aumente o preço. As usinas vão se recuperar porque produzem açúcar também, mas vai demorar.

O atual governo tem culpa?
Eu tenho uma posição muito crítica em relação ao sistema produtivo. Faltaram medidas mais drásticas que os produtores podiam e deviam ter tomado, para fazer valer sua importância. É um setor que não vem a público. Podia convocar os formadores de opinião no Brasil, que não são tantos, e ter feito uma explanação. Não gastamos nada em propaganda e em mídia em geral. Você pega o setor de petróleo, se somar os gastos de todas as companhias, é um quadro bastante diferente. No sucroalcooleiro, a comunicação não é vista como investimento.

Porque o senhor deixou o setor?
Quando estava no auge, eu percebi que você não tinha dinheiro suficiente para bancar aquela expansão toda. O negócio não tinha rentabilidade para sustentar o investimento. Achei que íamos marcar passo, mas não imaginei a crise como está agora.

biagi-filho-3-site-120314

Houve uma mudança no perfil dos produtores?
Era um setor de grandes famílias e a minha era uma delas. E tínhamos uma participação relevante também na construção de equipamentos e no desenvolvimento de tecnologia. Em uma época que você tinha a bandeira do meio ambiente, o mundo inteiro vinha aqui em busca de um combustível mais limpo. E era um projeto inteiro brasileiro, você não precisava importar uma arruela.

Porque o senhor fala desta questão no passado?
Falo no passado porque o Brasil é mestre em perder chances extraordinárias. Trata-se de um legado, uma tecnologia desenvolvida aqui dentro. Hoje, todas essas empresas internacionais que vieram para cá estão amargando prejuízos. Isso vai demorar para voltar. No ápice, já não era um bom negócio, mas atraiu todo mundo. Agora, virou mico. Quando ficar bom, vai demorar muito para alguém querer investir outra vez.

O presidente Lula sabe disso?
Não sou só eu que tenho um bom relacionamento com Lula. Ele se entende bem com o setor como um todo, que o respeita muito. O Lula foi um embaixador do etanol no mundo. Durante o seu governo foi descoberto também o petróleo no pré-sal e ele sempre deixou claro que um projeto não eliminava o outro. Ele está absolutamente informado sobre a situação do setor.


"Com a mudança do perfil dos donos de usina, ficou mais difícil [o contato com o governo]. Cada uma dessas empresas tem um interesse"


E a relação do setor com a presidenta Dilma Rousseff?
O setor cometeu um grande equívoco de não se desculpar com a presidenta Dilma. Os produtores erraram e até hoje não reconhecem isso. Estive em uma reunião com o ministro Padilha e líderes de diversos setores do agronegócio. E ele ficou horrorizado de ver como a agricultura brasileira está insatisfeita com o governo. Quando a presidenta ainda era ministra da Casa Civil, nós estávamos discutindo com ela o preço da energia renovável. Nós a desagradamos muito pleiteando um preço de energia que era inaceitável pelo governo. Tínhamos chegado a um valor muito bom. E haviam nos alertado a não passar disso, mas acabamos nos excedendo. E ela ficou muito irritada quando o setor ameaçou não produzir por aquele valor.

Ela está informada sobre a situação?
Antes, quando era ministra das Minas e Energia, ela chegou a visitar Ribeirão Preto. Saiu impressionada com as vantagens do negócio, a geração de energia a partir do bagaço e todas as vantagens do álcool. Ela quis apoiar a cogeração de energia.


"[Dilma] ficou muito irritada quando o setor ameaçou não produzir"


Como surgiram as divergências?
Depois, ela já era presidenta e o preço do etanol começou a subir muito e a impactar na inflação. Fomos chamados, um grupo ligado à Unica (União da Indústria da Cana de Açúcar), Dilma reclamou do preço e respondemos que era por causa da entressafra. Perguntou sobre produção e dissemos que tinha o suficiente. Mais para frente, a presidenta chamou o pessoal de novo, e foi reiterado que não haveria problemas de abastecimento durante a safra. Foi feito um planejamento junto com o Sergio Gabrielli (ex-presidente da Petrobras) no qual o álcool seria responsável por 80% do fornecimento de combustíveis líquidos para o mercado interno. A Petrobras fez duas ou três refinarias onde não estava previsto produzir gasolina, só diesel. A gente se comprometeu com ela de que haveria uma produção suficiente e, de repente, não teve. Depois disso, a presidenta não quis falar com o setor. Quando falamos que teria, já sabíamos há anos que não era possível. Por isso, ela diz de vez em quando que não é um setor sério.

E é possível retomar este contato?
Com a mudança do perfil dos donos de usina, ficou mais difícil. Cada uma dessas empresas tem um interesse. Uma é mais trading, outra é mais produtora. Algumas delas, por exemplo, estão importando etanol, o que não era necessário. Importam para fazer caixa extra. Se você me perguntar como ganha dinheiro, não sei nem quero saber. Mas ganha. Produzir não é o mais importante para essas empresas, o DNA delas é outro. O negócio é ganhar dinheiro como der.

Como o sr. avalia o governo Dilma?
A Dilma tem credibilidade, nunca conseguiram envolvê-la em nada. Tem uma maneira própria de ser. O pessoal compara demais com o Lula. São pessoas completamente diferentes, inclusive na maneira de agir. Tem um ar ruim hoje no Brasil, que não tem a ver com o governo. É uma descrença, um ambiente pesado nas manifestações. E a comunicação do governo é ruim às vezes, você não consegue domar o brasileiro se não apontar também seus próprios erros.

Como surgiu o convite para ser vice na chapa de Alexandre Padilha em São Paulo?
Eu recebi um convite, no final do ano passado, do então ministro Alexandre Padilha, depois reiterado pelo presidente estadual do PT de São Paulo na época, o deputado Edinho Silva, e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Padilha é meu amigo. Tivemos muito contato e desenvolvemos alguns projetos juntos. Quando ele me chamou, fiquei surpreso, mais ainda com a ideia do presidente Lula de trazer alguém do agronegócio, que tenha um relacionamento mais forte com o interior. Pedi um tempo para pensar. Demorei a responder em função dos desencontros no final do ano, queria encontrá-los pessoalmente. Isso acabou acontecendo só agora, em fevereiro.

Porque declinou do convite?
Tenho diversas razões acessórias: 1) a política não faria bem para a diabetes e hoje ela é minha melhor amiga; 2) se não entrei na política até a idade em que estou, acho que não seria inteligente ir agora; 3) meus afazeres e minha família, que é contra. A razão fundamental é que, nestes três ou quatro meses, eu cheguei à conclusão de que não tenho vocação para esta política, para falar coisas que você não pensa. Mas estou à disposição para ajudar.

O fato de o presidente da Fiesp ser candidato pelo PMDB influenciou na sua decisão?
Não. Quando o presidente Paulo Skaf venceu a eleição interna, até me convidou para fazer parte de sua equipe, mas eu recusei em razão da minha proximidade com o antecessor dele. Há questões de ética, eu faço parte de alguns conselhos da Fiesp.

O sr. atua politicamente no PR?
Nunca militei no PR. Minha filiação foi em função de eu ter recebido o convite e precisar de um partido para o caso de aceitar ser vice. Minha carta de desfiliação está pronta, mas ainda não entreguei. Já fui convidado há alguns anos para ser deputado e prefeito de Ribeirão Preto, disseram que financiavam minha campanha, mas não aceitei.

Como vai atuar na campanha do Padilha?
Acho que não terei um papel. Quero estar liberado. Tive uma conversa recente aqui com o presidente Paulo Skaf sobre a agricultura. Tenho um encontro daqui a alguns dias com o governador Geraldo Alckmin. Eu transito. Sempre brinco que fiz mais pontes do que a Odebrecht. Você precisa estar liberado para fazer essas ligações.

Mas o ex-ministro não conta com o senhor para a articulação com o agronegócio?
Fui convidado pelo Padilha para participar de um conselho para discutir ideias e campanha. Estou disposto, já participo de uns doze conselhos e pretendo estar em mais. Conheci o Padilha em um conselho e considero que o nosso trabalho lá ajudou muito o presidente Lula.

Gilberto Nascimento e Leonardo Fuhrmann