Etanol: Preços

[Opinião] Quebra da produção e maior demanda elevam preços do etanol em 2021/22


Cepea/Esalq - 27 set 2021 - 12:20

Por Ivelise Rasera Bragato Calcidoni*

Se na safra anterior a demanda fragilizada pela covid-19 pressionou os valores do etanol, mesmo diante da menor produção, na atual temporada (2021/22), o clima desfavorável e a quebra de produção vêm impulsionando os preços dos biocombustíveis no segmento produtor no Brasil.

Levantamentos do Cepea mostram que os preços médios dos etanóis hidratado e anidro no estado de São Paulo fecharam os cinco primeiros meses desta safra (de abril a agosto de 2021) com fortes altas, em termos reais, frente aos registrados no mesmo período da temporada 2020/21.

O valor médio (considerados os Indicadores Cepea/Esalq mensais de abril a agosto) do etanol hidratado subiu 38,6% na comparação com o mesmo período de 2020, em termos reais (os valores foram deflacionados pelo IGP-M de agosto de 2021). No caso do etanol anidro, a valorização foi ainda maior, de fortes 41,7% no mesmo comparativo. Na B3, os contratos futuros também avançam nesta safra, acompanhando o mercado físico paulista.

Dados do Cepea mostram que, em conformidade com a menor oferta, na parcial desta safra 2021/22, as vendas de etanol hidratado por parte das usinas do estado de São Paulo, nos mercados spot e por meio de contratos, caíram 15,5% em relação ao mesmo período de 2020. A consequente perda de competitividade do etanol hidratado frente à gasolina C ajustou a demanda a tal redução de oferta.

Quanto ao etanol anidro – atualmente 27% da gasolina C é composta por este biocombustível –, o volume negociado nos mercados spot e por meio de contratos cresceu nesta safra. No caso das vendas spot, o incremento foi de 17,9% entre 2020 e 2021 nas usinas paulistas (de abril a agosto de cada ano); na modalidade sob contrato, o aumento foi de 23,2%, no mesmo comparativo.

Evidenciando o cenário de baixa oferta, um levantamento do Cepea junto às usinas mostra que a moagem de cana-de-açúcar na safra 2021/22 pode ser finalizada com mais de um mês de antecedência em algumas regiões do Centro-Sul, devido ao fator clima – seca e geadas. Assim, com menos matéria-prima a ser processada e a baixa produtividade por hectare, o período de entressafra deve ser mais longo do que em anos anteriores.

No acumulado da temporada 2021/22 (de abril até 1º de setembro), a média de produtividade no Centro-Sul está em 72,9 toneladas de cana-de-açúcar por hectare, contra 85 t/ha em igual período da safra passada, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica).

Também na parcial da atual safra, a qualidade da matéria-prima – medida pela concentração de açúcares totais recuperáveis (ATR) na cana-de-açúcar – chegou a 140,26 kg de ATR por tonelada, aumento de 0,65% em relação ao observado no ciclo passado. No entanto, na segunda quinzena de agosto, houve redução frente ao período equivalente de 2020, passando de 155,95 kg de ATR/t para 154,85 kg de ATR/t.

Ainda conforme dados da Unica, nesta safra, houve necessidade, inclusive, de colher a cana de áreas atingidas pela geada, alterando significativamente o cronograma de colheita nas unidades produtoras.

Outro fato bem comum nesta temporada tem sido a entrada de etanol de outros estados do Centro-Sul em bases paulistas, especialmente de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Além da modalidade rodoviária, o combustível chega também via ferrovia em volumes expressivos.

Na safra 2021/22 (de abril a agosto), a participação das vendas de etanol hidratado (spot e contratos) de Mato Grosso para as bases paulistas está em 50,4%. No caso de Mato Grosso do Sul, o percentual atual está em 70%, contra 68,9% na temporada anterior.

A expectativa de agentes de mercado é de preços firmes até o início da próxima safra 2022/23, que, ressalta-se, também deverá sentir os efeitos do clima desfavorável sobre os canaviais e, consequentemente, sobre as cotações dos etanóis. Mesmo que a entrada de etanol de outros estados continue, um reaquecimento da demanda por biocombustíveis pode ser observado, intensificando o já persistente movimento de alta.

* Ivelise Rasera Bragato Calcidoni é pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP


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