Etanol: Mercado

Mudança na mistura de etanol à gasolina teria impacto mínimo na inflação, diz BTG


Investing.com - 30 set 2021 - 08:49

A alta no preço do combustível costuma ser um assunto polêmico, especialmente por causa do seu peso na inflação. Historicamente, a discussão a respeito costuma estar relacionada ao diesel, mas na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro trouxe o etanol para o centro da conversa, ao especular sobre como uma possível redução na mistura da gasolina afetaria os bolsos do consumidor. Porém, cálculos do BTG Pactual estimam que essa mudança não traria resultados efetivos na redução da inflação.

Desde o começo do ano, os preços da gasolina e do diesel subiram 35% e 29% nas bombas dos postos. Apesar do preço final depender de vários elementos, o presidente sugeriu que uma redução na quantidade de etanol anidro misturada na gasolina poderia diminuir o valor pago na bomba. Isso porque o preço do etanol vem subindo nos últimos meses, por causa do efeito negativo do clima na produtividade da cana-de-açúcar no país. Atualmente, o etanol anidro corresponde entre 18% e 27% da mistura da gasolina.

De acordo com um estudo feito pelo BTG, uma redução de 5 pontos percentuais na mistura de etanol anidro na gasolina levaria a uma redução de 0,4% nos preços da gasolina na bomba, considerando valores e alíquotas de impostos do estado de São Paulo.

Isso quer dizer que, se o governo reduzisse a mistura ao mínimo de 18%, a redução do preço na bomba seria de 0,6%, ou apenas R$ 0,04 por litro. A diferença equivale a uma variação de 2% no preço da Petrobras nas refinarias, algo pouco diferente do que a variação diária do petróleo brent no mercado.

Para o BTG, por mais que haja uma pequena diferença no preço, a mudança exigiria mais trabalho do que valeria a pena. Porém, considerando o impacto da combinação climática de seca, geada e incêndios florestais na safra de cana-de-açúcar, o relatório aponta que o governo poderia estar de olho no risco do fornecimento de etanol durante período de entressafra.

Com base nos dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), a produção de etanol hidratado acumulado no ano até meados de setembro caiu 15% contra um aumento de 26% para o anidro. Assim, o BTG aponta que diante da menor safra de cana-de-açúcar, os produtores reduziram intencionalmente a produção de etanol hidratado para deixar os preços dispararem e forçar o consumidor a migrar para o uso da gasolina, pelo menos até que os preços se acomodem novamente. No caso do anidro, que é o misturado à gasolina, a indústria deve garantir que o abastecimento seja suficiente durante a entressafra.

Açúcar

A mudança na porcentagem de mistura de etanol na gasolina também teria um impacto nos preços do açúcar. O BTG estima que para cada 1% na diminuição na mistura de etanol anidro, haveria um aumento de 700 mil toneladas na produção de açúcar. Na hipótese de uma redução na mistura para 18%, a produção teórica de açúcar poderia subir em 6,3 milhões de toneladas.

Porém, o BTG destaca que esse aumento é uma previsão numérica, já que a capacidade real do Brasil de produção subiria em quatro milhões de toneladas, considerando que a safra de cana-de-açúcar se dividiria em 50/50 para a indústria de açúcar e a de etanol.

Ana Beatriz Bartolo