Etanol: Mercado

Raízen declara força maior para cancelar compra de etanol; BR fala em flexibilizar volumes

As empresas alegam que a venda de combustíveis teve queda devido à quarentena para o combate ao coronavírus


Reuters - 30 mar 2020 - 15:41 - Última atualização em: 31 mar 2020 - 07:28

A Raízen, uma das maiores distribuidoras de combustíveis do Brasil, declarou força maior em contratos de compra de etanol de usinas locais, em um mercado impactado pelos efeitos do coronavírus, enquanto a BR Distribuidora, a maior do setor, disse que identificou a necessidade de flexibilizar volumes.

A Raízen confirmou informações de fontes do mercado, que relataram mais cedo o movimento.

A empresa, joint-venture entre Cosan e Shell, enviou uma carta a todos seus fornecedores de etanol na última sexta-feira afirmando que não vai cumprir contratos para compra de etanol devido à queda no consumo de combustíveis no Brasil, causada pelo isolamento relacionado à pandemia de coronavírus, afirmaram as fontes.

“Em razão da queda na demanda por combustíveis verificada por conta das medidas de ‘lockdown’ para combate à pandemia de coronavírus, a Raízen começou a sinalizar aos seus fornecedores de etanol a necessidade de revisão dos volumes originalmente programados”, disse a companhia, em nota à Reuters.

A Raízen, além de distribuidora de combustíveis, também tem uma divisão que atua na produção de etanol, açúcar e bioenergia.

“Embora ainda não estejam claros, neste momento, todos os impactos que esta crise trará para as suas operações, a Raízen está focada em fortalecer suas parcerias estratégicas com fornecedores de etanol”, acrescentou. “Neste sentido, optamos, como outras empresas do setor, por dar a notícia sobre o evento de força maior em curso o quanto antes possível, de maneira a permitir que os fornecedores possam planejar suas operações com base nisso”.

“Nós recebemos a carta”, disse um corretor de São Paulo que pediu para não ser identificado, uma vez que as negociações são privadas. Ele afirmou que o mercado de etanol no Brasil está desordenado em meio ao isolamento, com apenas alguns negócios ocorrendo, uma grande diferença entre as ofertas das usinas e das distribuidoras, e muita incerteza para os próximos dias.

“A pandemia levou a uma queda imediata e expressiva da demanda pelos produtos comercializados pela Raízen em todo país, caracterizando-se, portanto, como um evento de força maior. A Raízen se vê impedida de cumprir com as obrigações decorrentes dos contratos”, aponta uma carta enviada pela empresa, a qual a Reuters teve acesso.

“Não iremos retirar a integralidade dos volumes apontados para o mês de março, bem como faremos a revisão dos volumes aplicáveis aos meses subsequentes que forem necessários para a compatibilização das compras da Raízen com a efetiva demanda do mercado pelos seus produtos”, completou a companhia.

A notícia foi divulgada inicialmente pela Bloomberg.

Já a BR Distribuidora afirmou, após ser procurada, que o cenário atípico fez com que a companhia identificasse a “necessidade de flexibilizar o percentual de variação de volume assegurado em contrato até que todo o mercado se normalize”.

Mas, ressaltou a empresa, isso não representa cancelamento de contratos de etanol. O movimento da BR visa “somente reduzir o volume mensal de aquisição em percentual superior ao previsto em contrato, sem que isso implique em descumprimento do mesmo”.

“Ressalta-se ainda que contratualmente há uma cláusula que exclui a responsabilidade das partes contratantes em caso fortuito ou de força maior”, complementa.

Paralelamente, a BR disse que também tomou algumas medidas junto a sua revenda, prorrogando, por exemplo, o prazo para cumprimento do volume contratado, “entendendo que o momento é de espírito colaborativo, unindo forças para minimizar o impacto da crise em todos os atores envolvidos”.

Queda no consumo

O consumo de combustível nos postos caiu 50%, em média, em uma semana, com algumas quedas de 60%, enquanto os motoristas ficam em casa para ajudar a retardar a disseminação do coronavírus, disse Paulo Miranda Soares, presidente de um grupo da indústria que representa postos de gasolina, à Bloomberg.

A ANP disse em nota que a queda “abrupta” no consumo de gasolina só piorará nas próximas semanas.

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A maioria das usinas de etanol no Brasil já iniciou a colheita e a moagem de cana-de-açúcar, enquanto em meados de abril ainda mais unidades entram em operação, elevando a oferta de etanol. Como a cana já está amadurecendo, as usinas não têm opção de interromper a colheita e a produção, disse uma pessoa. Eles estão refazendo as contas e se preparando para estocar praticamente tudo o que devem produzir até pelo menos o mês de junho, disse uma das fontes.

De acordo com a Unica, as usinas do Centro-Sul, a maior região produtora de cana do país, têm capacidade suficiente para estocar 60% da produção anual total de etanol em tanques. O principal problema é o custo para manter esses grandes estoques sendo que, sem vender, as usinas não têm receita, disse o diretor técnico do grupo industrial Unica, Antonio de Padua Rodrigues.

O coronavírus e o petróleo barato estão atingindo o setor de combustíveis em todo o mundo. A Valero Energy Corp. dos EUA, a segunda maior refinaria de petróleo dos EUA, está fechando temporariamente duas plantas e não cumprirá alguns contratos. A Andersons Inc. está suspendendo as operações em suas fábricas e a Poet “cessou temporariamente as compras de milho em vários locais”. A Pacific Ethanol Inc. está reduzindo a produção em até 60%.

Enquanto a queda no preço do petróleo e o bloqueio da economia no Brasil devem prejudicar a frágil indústria de etanol no Brasil, na Ásia, os esforços para usar mais biocombustível estão sendo comprometidos. Na Europa, os produtores estão cortando ou produzindo matéria-prima para desinfetante para as mãos.

Marcelo Teixeira e Roberto Samora
Com reportagem adicional da Bloomberg