Distribuidoras

Queda na demanda por etanol foi de 50%, diz presidente da Raízen

Grupo viu demanda por combustíveis cair e transformou lojas de conveniência em minimercados


O Estado de S. Paulo - 06 abr 2020 - 12:18

Uma das maiores distribuidoras de combustíveis do País, a Raízen (joint venture entre Cosan e Shell) está com uma campanha para combater o coronavírus. Um dos focos é proteger o time de caminhoneiros que trabalham para o grupo.

Ricardo Mussa, presidente da companhia, afirmou ao Estado que o grupo teve queda de demanda por combustíveis, sobretudo gasolina de aviação, mas registrou aumento de demanda por açúcar. A companhia está com uma campanha nas ruas que tem como foco principal os caminhoneiros. "No nosso caso, estamos tomando medidas internas de cuidados para proteger a nossa tropa", diz Mussa.

Como a pandemia está impactando a demanda do grupo?
A demanda teve uma queda muito brusca, não muito diferente de outros países. A gasolina e o etanol caíram muito mais que o diesel, por exemplo. Foi uma queda, na média, de 50% da demanda. O combustível para aviação teve uma queda enorme. Uma queda maior em regiões como São Paulo e menor na região de Mato Grosso, onde a atividade agrícola é muito forte. Depende de cada região. O consumo de açúcar não está tendo queda. Países estão priorizando a produção de alimentos. Tivemos muita procura pelo álcool 70%, mas é muito menor que o volume de combustível.

A Raízen enfrentou problemas de logística para distribuição de seus produtos?
Tivemos. A cadeia de combustível no Brasil é muito otimizada. Não se trabalha com muito estoque. Ninguém está preparado para uma queda de 50% a 70% do consumo de etanol. Nesta freada brusca, você não consegue retirar produto, há problemas de tanque e de logística. E tudo foi muito de repente. Ninguém imaginava isso.

A companhia alegou força maior para tentar renegociar contratos com fornecedores, certo?
Estamos dos dois lados. Como produtores, obviamente muita gente vem aqui rever contrato. A gente fornece para várias distribuidoras e muitas vieram pedir revisão de contrato. A gente tem de atender. Do mesmo jeito que a gente está fazendo para nossos clientes também. A Petrobras se prontificou a conversar e liberou de pagar multa. Com a nossa revenda, sabíamos que eles não conseguiriam honrar os contratos e também conversamos pró-ativamente. A indústria inteira está fazendo isso. É hora de a indústria inteira sentar e discutir.

E o grupo enfrentou problemas nessas renegociações?
Na grande maioria, não. Nos bastidores, está conversando e vendo como faz readequações.

A Raízen já tem previsão de como será o ano?
É difícil falar de projeção agora. É difícil prever o que vai acontecer nos próximos meses. Nos comprometemos a não reduzir quadro de funcionários, e isso é muito importante para dar tranquilidade (à equipe). Achamos que não é hora de fazer grandes revisões. Temos de olhar o curtíssimo prazo. Estamos cortando custo de marketing. Agora, os grandes investimentos, não temos o cenário claro para tomar uma decisão mais drástica.

E a compra de refinarias da Petrobras?
O processo foi postergado. É muito mais uma decisão da Petrobras de continuar ou não o processo. Tem muita incerteza ainda.

Como estão as lojas de conveniência?
Mudamos o mix de produtos. Agora tem mais produtos de higiene e limpeza. Tiramos todas as cadeiras. Não se faz mais alimentação nas lojas. Viramos um minimercado. É um lugar mais para o caminhoneiro parar e comprar. Fechamos parceria com o Uber Eats. Aprendemos isso com a Shell da China, que nos ensinou como deveríamos atuar na crise. O posto é um lugar que o consumidor tem confiança de ir. Estamos distribuindo muito álcool gel aos frentistas. Fechamos parceria com a Raia Drogasil – queremos reverter parte da venda de álcool 70% em voucher para dar combustível aos médicos.

Como a empresa está vendo a questão do isolamento?
Não temos posicionamento político. Temos de garantir que a produção essencial – de açúcar, etanol e energia elétrica – vai continuar rodando. Estamos tornando o ambiente seguro para isso. Quem pudemos colocar em home office, colocamos.

Como está o programa de doações?
Fizemos doação de álcool 70% para hospitais e redes de postos de combustíveis. Fizemos parceria em São Paulo fazendo doação de diesel. Doações financeiras para hospital do Rio de Janeiro. Além de parcerias com outras empresas - como Natura e Ypê. Doamos álcool 70%, a Natura deu o envase e vamos distribuir para os caminhoneiros. Com Ypê também distribuímos álcool 70%. O foco inicial da Raízen foi atender primeiro os caminhoneiros. Essa é uma turma que está na linha de frente e muito desamparada.

Há casos de caminhoneiros infectados na rede do grupo?
No nosso mapeamento, até agora não. Temos muitas transportadoras, com cerca de 5 mil caminhões, tivemos poucos casos. Estamos protegendo a nossa rede.

Mas não chegamos ao pico de casos…
Acho que vai ter, mas é uma opinião pessoal. O pior ainda não passou, vão aparecer casos mais para a frente. No nosso caso, estamos tomando medidas internas de cuidados para proteger a nossa tropa.

Mônica Scaramuzzo

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