Números da ANP trazem informações sobre a produção do biocombustível e o processamento de bagaço e da palha; além disso, conheça o histórico das companhias
Atualização (28/08, às 13h45): O texto e os gráficos abaixo foram corrigidos devido a um equívoco nas unidades referentes ao processamento do bagaço e da palha de cana-de-açúcar. Além disso, a palha foi inserida como matéria-prima utilizada pela Bioflex.
A possibilidade de reutilizar o bagaço e a palha da cana-de-açúcar para gerar etanol ainda desperta interesse e curiosidade no setor. O resíduo da produção sucroalcooleira é mais comumente utilizado para a geração de energia, mas, com o auxílio de tecnologias e processos químicos, também é possível produzir mais biocombustível.
No Brasil, atualmente, apenas duas usinas aproveitam essa possibilidade: a Bioflex, usina da GranBio localizada em São Miguel do Campos (AL), que utiliza a palha, e a Costa Pinto, da Raízen, em Piracicaba (SP), utilizando o bagaço da cana.
Ao longo dos últimos anos, desde que as usinas iniciaram sua produção do chamado etanol de segunda geração (E2G) ou celulósico – o que, mundialmente e em escala, aconteceu em 2015 –, as perspectivas para este mercado foram enfraquecendo, especialmente devido a limitações tecnológicas.
De acordo com dados inéditos divulgados pela Agência do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), as duas usinas produziram 6,11 milhões de litros de E2G em 2019. Para chegar a estas quantias, foram processadas um total de 106,36 mil toneladas de bagaço e de palha de cana entre os dois anos, sendo 81,34 mil em 2019 e 25,03 mil em 2020.
Independentemente do resultado individual de cada unidade, com os dados da ANP é possível observar um aumento no processamento do resíduo da cana ao longo dos meses, culminando nos altos volumes no início deste ano – o que poderia indicar uma expectativa positiva para o mercado, não fossem os entraves pelos quais ele normalmente passa.
Com os dados de processamento de bagaço e palha e da produção de etanol de segunda geração, é possível fazer um exercício para calcular uma base do rendimento das usinas ao longo dos meses. Esta informação você encontra no texto complexo, restrito para assinantes, além de:
- Gráficos com as produções de E2G no Brasil
- Histórico da Bioflex e da Costa Pinto
- As perspectivas para o mercado do etanol celulósico
Atualização (28/08, às 13h45): O texto e os gráficos abaixo foram corrigidos devido a um equívoco nas unidades referentes ao processamento do bagaço e da palha de cana-de-açúcar. Além disso, a palha foi inserida como matéria-prima utilizada pela Bioflex.
A possibilidade de reutilizar o bagaço e a palha da cana-de-açúcar para gerar etanol ainda desperta interesse e curiosidade no setor. O resíduo da produção sucroalcooleira é mais comumente utilizado para a geração de energia, mas, com o auxílio de tecnologias e processos químicos, também é possível produzir mais biocombustível.
No Brasil, atualmente, apenas duas usinas aproveitam essa possibilidade: a Bioflex, usina da GranBio localizada em São Miguel do Campos (AL), que utiliza a palha, e a Costa Pinto, da Raízen, em Piracicaba (SP), utilizando o bagaço da cana.
Ao longo dos últimos anos, desde que as usinas iniciaram sua produção do chamado etanol de segunda geração (E2G) ou celulósico – o que, mundialmente e em escala, aconteceu em 2015 –, as perspectivas para este mercado foram enfraquecendo, especialmente devido a limitações tecnológicas.
No caso das duas unidades brasileiras, a GranBio vem registrando uma série de resultados negativos, além de pausas frequentes na produção. Já a usina da Raízen se mantém por também utilizar a própria cana e o melaço para produzir etanol, o que muitas vezes coloca a utilização do bagaço em segundo plano.
De acordo com dados inéditos divulgados pela Agência do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), as duas usinas produziram 6,11 milhões de litros de E2G em 2019. Sozinha, a Bioflex fabricou 2,59 milhões de litros nos primeiros dois meses de 2020.
Mesmo que só a unidade da GranBio tenha aparecido nos dados deste ano, foi a da Raízen que se destacou em 2019: com 4,45 milhões de litros produzidos, ela foi responsável por 72,84% da produção no período.

Para chegar a estas quantias, foram processadas um total de 106,36 mil toneladas de bagaço e de palha de cana entre os dois anos, sendo 81,34 mil em 2019 e 25,03 mil em 2020.
Em todo o período analisado, a unidade da Raízen foi a que concentrou a maior quantidade processada, 55,14 mil toneladas de bagaço, o que se deve à facilidade de acesso à matéria-prima por também ser uma usina que produz etanol de primeira geração. Ela ainda produziu E2G em menos meses do que processou o resíduo, o que indica um armazenamento dele por certo tempo.
Já a Bioflex chegou a processar 51,22 mil toneladas de palha em menos meses, quase metade do tempo da Costa Pinto. Neste caso, a unidade utiliza matéria-prima de terceiros.

Independentemente do resultado individual de cada unidade, com os dados da ANP é possível observar um aumento no processamento do resíduo da cana ao longo dos meses, culminando nos altos volumes do início deste ano – o que poderia indicar uma expectativa positiva para o mercado, não fossem os entraves pelos quais ele normalmente passa.
Com os dados de processamento do resíduo e da produção de etanol de segunda geração, é possível fazer um exercício para calcular uma base do rendimento das usinas ao longo dos meses. É importante reiterar que este cálculo não leva em consideração outras variáveis do processamento e o resultado apresentado serve apenas para fins de comparação.
A Costa Pinto se destaca nos dois meses em que produziu E2G. Devido a uma alta produção do renovável em janeiro e fevereiro de 2019, com quantidades menores de bagaço processado no mesmo período, ela chegou a rendimentos de 325,65 litros por tonelada e 427,27 l/t, respectivamente.

Por outro lado, a Bioflex registrou baixa produção do biocombustível com quantidades um pouco maiores de palha processada, mal ultrapassando os 100 litros por tonelada de rendimento em todo o período analisado. Seu melhor mês foi janeiro de 2020, com 123,65 l/t, e o pior, dezembro de 2019, teve 35,76 l/t.
GranBio: Expectativas frustradas
O histórico da GranBio na produção de etanol de segunda geração, ao mesmo tempo em que é inovador, vem ocorrendo com diversos percalços. A Bioflex foi inaugurada em setembro de 2014, após um investimento de US$ 265 milhões, um feito inédito para o Brasil e para o hemisfério sul, conforme destaque da companhia à época.
A usina, que produz etanol apenas com a palha da cana-de-açúcar, necessita de 400 mil toneladas do resíduo para atingir sua capacidade produtiva de 50 milhões de litros do renovável por ano, conforme recém-atualizado pela companhia diretamente ao NovaCana. Isso fez com que a diretoria procurasse parcerias com outras produtoras e se envolvesse no desenvolvimento de novas tecnologias – como a cana-energia, que prioriza a produção de biomassa em vez do açúcar.
A ambição da GranBio era transformar a Bioflex na maior usina de E2G do mundo, acreditando que ela atingiria sua capacidade plena em seis meses de operação. Os planos da companhia também envolviam o investimento de R$ 4 bilhões para construir outras dez unidades. A segunda, inclusive, estava prevista para iniciar suas operações em 2016. Nenhum destes projetos, porém, se concretizou.
Em relação à segunda usina, um ano após o início das operações da Bioflex, o grupo já tinha definido que só anunciaria a unidade quando “a primeira alcançar produção plena e demonstrar custo competitivo”. O padrão das últimas safras – com diversas interrupções nas operações da unidade – demonstra que este momento ainda não chegou.
Pelo contrário, ao longo dos anos, a GranBio tem registrado diversos prejuízos: em 2014, ele foi de R$ 11,5 milhões – após uma revisão da companhia, que havia anunciado uma baixa de R$ 29,5 milhões em um primeiro momento. Naquele momento, esperava-se uma perda ainda maior em 2015 e lucro apenas em 2016; em 2015, de fato, o resultado foi negativo em R$ 38,8 milhões.
Já em 2016, a companhia suspendeu a produção do etanol e ficou parada por um semestre, retornando com apenas 50% da capacidade total. Desta forma, o resultado foi um novo prejuízo, de R$ 14,81 milhões. Em 2017, ele foi ainda maior e chegou a R$ 58,7 milhões – após uma revisão da companhia – em meio a tentativas de obter a “estabilidade operacional da unidade em escala comercial”, conforme afirmou à época.
Em 2018, ano em que a empresa atuou majoritariamente na geração de energia por meio da palha em vez da produção e comercialização do etanol de segunda geração, o prejuízo da Bioflex foi de R$ 21,77 milhões. Por outro lado, em 2019, a companhia não divulgou o resultado por controladora, mas o grupo teve seu primeiro resultado positivo desde 2014, com R$ 78,56 milhões.
A justificativa da Bioflex para suas dificuldades ao longo dos anos é a etapa de pré-tratamento, terceira fase da transformação da palha em etanol, em que ocorre a quebra da celulose em açúcares e outros materiais. Diversas empresas globais estavam e estão trabalhando no aperfeiçoamento da mecânica e do processo, mas, aparentemente, este é o maior gargalo da produção de E2G da GranBio.
A Novozymes, principal fornecedora de enzimas para as usinas, por exemplo, já acreditava, em 2016, que o desenvolvimento da produção de etanol celulósico a nível mundial seria mais lento, com a primeira onda terminando em 2020. E, dependendo de como seria a conclusão desta onda, existiriam – ou não – expectativas para uma segunda. À época, já havia uma perspectiva de que o processo talvez demorasse ainda mais.
Com estes problemas no pré-tratamento, a GranBio passou a adiar seus planos para a Bioflex ao longo dos anos. Em um ano e meio de funcionamento, ela tinha produzido apenas um pouco mais do que 4 milhões de litros de E2G, menos da metade da capacidade de um mês. Desta forma, a expectativa para o alcance da capacidade total de funcionamento foi adiada para 2018.
Em 2017, a estimativa era que apenas em 2019 a empresa teria um etanol de segunda geração tão competitivo quanto o de primeira. Neste momento, a empresa já havia mudado seu cronograma de investimentos por conta de problemas com as tecnologias e pela crise que atingiu o setor de etanol como um todo.
Este foi o ano em que a companhia suspendeu sua produção de E2G para produzir apenas energia, concorrente pela palha como matéria-prima. Com isso, a meta de produzir 1 bilhão de litros de etanol passou de 2020 para, pelo menos, 2030.
Ainda assim, em entrevista no início deste ano, o atual CEO da GranBio, Paulo Nigro, afirmou que os números de 2019 foram positivos para a Bioflex, que conseguiu manter um regime contínuo de produção, batendo recordes diários. Os planos, agora, envolveriam consolidar o aprendizado, uma vez que o processo tecnológico já estaria validado.
Além disso, a GranBio firmou parceria com a empresa italiana NextChem, que atua na indústria de processamento de recursos naturais, para licenciar sua tecnologia para a produção de etanol de segunda geração. Com isso, a expectativa é que a companhia atraia novos investidores e chegue mais perto de atingir seus objetivos.
Raízen: Evolução cautelosa
Assim como a GranBio, a Raízen iniciou as operações da sua usina de etanol de segunda geração no final de 2014. A unidade Costa Pinto, em Piracicaba (SP), custou R$ 230 milhões e tem capacidade de produzir até 42 milhões de litros do biocombustível por safra. Ela está integrada à usina do renovável tradicional, que fabrica 100 milhões de litros anuais.
À ocasião, o plano do grupo era que a planta atingisse dois terços da capacidade total já em 2015/16, sua primeira safra completa. Além disso, outras sete usinas de E2G estavam programadas para os próximos anos, com investimentos de até R$ 2,5 bilhões, alcançando a produção de até 1 bilhão de litros por ano.
Para lidar com o gargalo do pré-tratamento – efetivamente comum às usinas que trabalham com o biocombustível –, a empresa importou uma máquina canadense, que gerou um custo extra de R$ 1 milhão na operação da planta.
Diferentemente da GranBio, porém, logo em 2015, a Raízen admitiu que não tinha nenhum plano concreto de expansão ou instalação de usinas dedicadas ao E2G em suas outras unidades. A companhia afirmou que a possibilidade era uma “mera expectativa de longo prazo, sujeita a riscos e incertezas”.
Para o vice-presidente da empresa à época, Pedro Mizutani, só seria possível pensar em novas expansões a partir do momento em que o custo de produção e das tecnologias se tornassem economicamente viáveis.
Ainda em 2015, a expectativa de Mizutani era que a produção de E2G só se tornaria competitiva em três ou quatro anos, quando os custos estivessem similares aos do biocombustível comum. Apenas então novos investimentos poderiam ser feitos.
A produção de E2G da Costa Pinto atingiu 1 milhão de litros em 2015, com algumas paradas e ajustes. Já nos primeiros seis meses da safra 2016/17, este volume chegou a 4,5 milhões de litros e a expectativa era que a temporada acabasse com 6 milhões, mesmo que pudesse chegar a até 8 milhões de litros. Em outubro de 2016, o diretor de operações da companhia, João Alberto Abreu, afirmou que o objetivo era alcançar de 15 milhões a 20 milhões de litros na safra 2017/18.
Já em novembro de 2016, conforme fala do diretor executivo da Raízen, Antonio Alberto Stuchi, a expectativa era atingir os 42 milhões de litros da capacidade máxima da usina ainda em 2018, pois a unidade estava trabalhando em regime contínuo.
Este ganho de eficiência – que acarretou o avanço de 380% entre 2015 e 2016 – animou a companhia, que começou 2017 sinalizando que poderia ter novas apostas no etanol celulósico, dependendo dos resultados da unidade. Em 2016/17, foram produzidos 7,1 milhões de litros do biocombustível.
Mesmo com boas perspectivas e resultados, as dificuldades da usina se mantiveram e a expectativa de atingir a capacidade máxima de produção foi adiada para 2019/20. Desde então, o grupo não tem divulgado informações específicas sobre a unidade produtora de etanol de segunda geração de Costa Pinto.
Um mercado de promessas
O mercado do etanol de segunda geração, a nível mundial, ainda está engatinhando. As questões tecnológicas e a necessidade de grandes investimentos impedem que o número de usinas cresça, especialmente considerando o cenário de crise que impera no setor sucroenergético.
Em um estudo de 2016, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), divulgou que só seriam vistos volumes consideráveis de E2G a partir de 2023 e que só em 2030 a produção anual brasileira atingiria 2,5 bilhões de litros.
À época, a EPE afirmou que haveria uma competição entre a geração do etanol de segunda geração e a de energia pelos resíduos da produção de cana-de-açúcar, visão reforçada pela opinião do diretor executivo da Raízen, Antonio Alberto Stucchi. Segundo ele, é uma questão estratégica para as usinas decidirem o que produzir – inclusive dizendo que o ideal, no momento, seria investir em energia.
Por outro lado, o vice-presidente de negócios da GranBio, Alan Hiltner, comentou que há bastante matéria-prima desperdiçada, permitindo que as usinas façam as duas coisas.
Em 2017, um novo estudo elaborado pela EPE estimou que a produção de etanol de segunda geração chegaria a 634 milhões de litros em 2026, sem esperar a abertura de novas usinas e não mencionando as expectativas para 2030.
Independentemente destes fatores, existem cada vez mais pesquisas para aumentar e facilitar a produção do etanol celulósico, sejam elas químicas ou tecnológicas. Neste ano, por exemplo, o Laboratório Nacional de Biorrenováveis, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), vem estudando a linhagem do fungo Trichoderma reesei pela sua capacidade de digerir celulose e hemicelulose, o que facilita na segunda extração da cana.
Já o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e a Embrapa Agroenergia estão trabalhando em um projeto para desenvolver um coquetel enzimático CMX, com enzimas produzidas a partir de três diferentes microrganismos. Segundo os estudos, a enzima demonstrou alto desempenho na desconstrução da biomassa, facilitando a retirada do açúcar para posterior produção de biocombustível.
Por sua vez, a professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Sharline Melo, disse ao G1 que estes estudos são relevantes por aumentarem o aproveitamento de resíduos da produção de etanol e açúcar, reduzindo o impacto ambiental e o custo na produção de enzimas para serem utilizadas em processos assim. “São benefícios e características assim que fazem do etanol celulósico uma fonte de energia promissora e renovável no setor de combustíveis”, conclui.
A UFPB também realiza estudos na área, abordando a hidrólise enzimática da palha de cana-de-açúcar usando enzimas produzidas por fungos.
Rafaella Coury – NovaCana