2ª Geração

Com avanço do etanol celulósico, Raízen quer passar a exportar tecnologia

Maior produtora brasileira quer convencer outros países a comprar a tecnologia do E2G, desenvolvido no Brasil, e produzir seu próprio combustível


Exame - 14 ago 2020 - 10:22 - Última atualização em: 25 ago 2020 - 11:56

A indústria sucroenergética tem um problema com a Índia. O contratempo se dá no mercado global de açúcar, no qual o Brasil é o maior produtor e exportador. O governo indiano mantém constantes subsídios à exportação do adoçante. Na safra 2019/20, o incentivo chegou a 10.448 rúpias, o equivalente a 138 dólares, por tonelada. O valor deve aumentar no próximo ano em função do crescimento esperado de 12% na produção – a Índia produz mais açúcar do que consome e precisa dar um destino ao excedente.

O objetivo dessa medida é manter o emprego no campo mesmo que, para isso, seja necessário perder divisas. “Atrapalha toda a cotação internacional”, afirma Ricardo Mussa, diretor-presidente da Raízen, joint-venture entre a brasileira Cosan e a anglo-holandesa Shell, que é a maior produtora de etanol e açúcar do país. “Isso não aconteceria se a Índia, em vez de vender a produção excedente com prejuízo, a usasse para produzir etanol de segunda geração”.

Conhecido pela sigla E2G, o etanol de segunda geração foi desenvolvido no Brasil. Diferentemente do etanol comum, obtido por meio do refino da cana-de-açúcar, o E2G pode ser produzido a partir de qualquer biomassa, ou seja, toda matéria orgânica utilizada na produção de energia, como bagaço de cana, resíduos agrícolas, sobras de eucalipto, entre outras. A Raízen trabalha no desenvolvimento da tecnologia há sete anos.

O produto resolve dois problemas para a companhia. Primeiro, incentiva os indianos a não interferir na cotação do açúcar com seus subsídios; segundo, elimina uma importante barreira para a exportação do etanol brasileiro.

“Muitos países relutam em substituir a gasolina pelo etanol por entender que ficariam dependentes do Brasil”, afirma Mussa. “Nossa proposta é vender a tecnologia. Assim, todos ganham: nós em função dos royalties e eles por trocar um combustível fóssil por um renovável”, afirma.

Vender tecnologia é coisa de país desenvolvido. Para um emergente exportador de commodities agrícolas e minerais, como o Brasil, parece um sonho distante. Mas a forma como as peças do xadrez global estão se movendo, em função da pandemia, pode abrir espaço para um peão derrubar a rainha. Isso porque os esforços para recuperar a economia global devem incluir, nos planos de retomada, a transição para uma economia de baixo carbono.

A tendência está especialmente evidente na Europa, que irá destinar cerca de 40% do pacote de 750 bilhões de euros de fomento econômico para as chamadas “tecnologias verdes”. Mas também está presente nos planos da China, muito em função das demandas europeias, e de diversos estados americanos, notadamente a Califórnia.

Para um país que tem boa parte do seu território coberto por florestas, abriga a maior biodiversidade do mundo e tem quase 20% das reservas globais de água doce, caso do Brasil, este momento de mudança é uma enorme oportunidade. É o que afirma um estudo inédito, obtido com exclusividade pela Exame, conduzido pelo World Resources Institute (WRI), entidade conservacionista americana, em parceria com outras seis instituições.

O trabalho mostra que o Brasil, com suas dificuldades históricas, tem uma chance única de dar um salto de desenvolvimento caso se enquadre nessa nova realidade mundial, priorizando os setores e as tecnologias de baixo carbono. As possibilidades de ganhos para o País são expressivas: um acréscimo de 15% no PIB, na próxima década, o que significa um ganho extra de 2,8 trilhões de reais e um aumento líquido superior a 2 milhões de empregos na economia.

Os pesquisadores mapearam um total de 10 mil tecnologias relacionadas à economia de baixo carbono e analisaram as políticas econômicas, industriais e agrárias em curso ou a serem implementadas pelo governo. A partir de modelagens econômicas, traçaram dois cenários com níveis crescentes de intensificação das medidas de transição e os compararam com o “business as usual”, ou seja, uma retomada pós-pandemia puxada por tecnologias antigas, como o petróleo.

Há enorme potencial para aumentar investimentos e incentivos em energia renovável. Apesar da matriz elétrica limpa, a indústria brasileira ainda depende fortemente do uso de combustíveis fósseis. “Essa dependência, em alguns casos, é desnecessária e alternativas podem gerar impacto positivo sobre a economia e o desenvolvimento local”, conclui o estudo.

Entre essas opções estão o uso de gás natural para o transporte marítimo e o biojet, combustível de aviação produzido a partir do etanol – no melhor cenário, em dez anos, o biojet chegaria a uma participação de mercado de 20%.

A Raízen também trabalha no desenvolvimento do combustível de aviação a partir do etanol. “Mas esse é um plano de mais longo prazo”, afirma Mussa. Por enquanto, a meta é exportar tecnologia mesmo. Na recente visita que fez à Índia, o presidente Jair Bolsonaro levou o pleito da companhia para os ministros indianos. “É um processo de convencimento, leva tempo”, afirma o executivo. A paciência é uma virtude para quem trabalha no campo.

Rodrigo Caetano