Quando o setor de etanol recebe informações sobre o carro elétrico, é natural que apareça certo sentimento de insegurança. O desenvolvimento dessa tecnologia está acontecendo em alta velocidade e acaba dominando o ciclo de notícias.
O receio das sucroenergéticas é compreensível, afinal, os negócios e os empregos de uma indústria erguida ao longo de muitas décadas podem se tornar obsoletos.
Porém, apesar disso, o setor de etanol deve se lembrar que, assim como a bateria elétrica, o biocombustível é uma alternativa ambiental largamente superior aos combustíveis fósseis.
Uma nova tecnologia não rompe com o modelo tradicional sem antes passar por uma transição. Graças ao RenovaBio, o biodiesel e o etanol estão muito bem posicionados para florescer neste período de mudanças.
Porém, muitos dentro do setor de biocombustíveis parecem estar confundindo o que está em jogo atualmente. A questão não é o tamanho do mercado do carro elétrico, mas como será feita essa transição.
O domínio do carro elétrico é inevitável, de modo que apostar diferente pode limitar o crescimento do setor de etanol neste período em que o mundo avança para uma nova tecnologia.
Nos últimos dois anos, ouvi e colecionei muitos argumentos de profissionais do setor sucroenergético e da indústria automobilística sobre o carro elétrico. Com alguns deles tive a oportunidade de conversar sobre a visão que possuem desta nova tecnologia.
Selecionei abaixo alguns dos principais pontos, que são frequentemente colocados para justificar porque o etanol será superior ao carro elétrico. Eles estão apresentados por meio das falas de Rubens Ometto, presidente da Cosan, mas refletem o sentimento geral do setor. As declarações, oferecidas para uma plateia majoritariamente brasileira, fazem parte de sua palestra na 18ª Conferência Datagro realizada no mês passado.
“[O motor elétrico] pode ser eficiente, mas não é necessariamente limpo do ponto de vista ambiental. Se a energia não for de fonte limpa e renovável, não contribui para diminuir o aquecimento global”.
Este argumento do empresário virou o símbolo clássico da desinformação para os brasileiros. Esta linha de argumentação foi inteiramente descontruída no texto “A realidade do carro a etanol e o puro elétrico”.
O equívoco desse raciocínio para o Brasil é muito simples de ser compreendido: nós possuímos uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com mais de 80% da eletricidade vindo de fontes renováveis. Essa mesma energia seria usada para abastecer o carro elétrico.
Isto é simples, não tem mistério. A energia que vai para o carro é a mesma que usamos para ligar a luz da sala da nossa casa.
Se o brasileiro esquecer que sua matriz elétrica é limpa, ele pode acreditar que as baterias elétricas são ruins, até mesmo no Brasil. Caso contrário, este é ótimo argumento para que o carro com bateria elétrica cresça no Brasil.
Mas acho difícil o brasileiro esquecer que vive em um país tropical com água (hidrelétricas), sol (energia solar) e vento (energia eólica) em abundância. O Brasil é referência mundial em energia limpa e renovável e essa visão está enraizada na cultura popular. Desconfio que está fadada ao fracasso qualquer estratégia que sugira que a matriz elétrica brasileira, que alimentará as baterias, não é limpa.
Para não deixar dúvida, basta ver o que dizem os dados oficiais consolidados da matriz elétrica.

Com 85% da matriz elétrica brasileira vindo de fontes renováveis, o carro elétrico no Brasil é uma excelente opção ambiental. Melhor inclusive que o etanol, considerando todo o ciclo de vida (mais detalhes sobre as diferenças ambientais entre o carro elétrico e o movido a etanol aqui).
Ometto apresenta mais um argumento: “(...) a bateria tem, para piorar, baixa densidade energética. É preciso muita bateria para substituir a energia de um tanque de combustível líquido, o que limita o alcance do veículo e a sua capacidade de carga”.
O jogo de palavras aqui é interessante. Ometto compara a quantidade de energia de um tanque com combustível líquido com a quantidade de energia da bateria de um carro. Mas você já viu algum proprietário de carro preocupado com quantos megajoules (MJ) cabem no tanque? O consumidor quer saber quantos quilômetros ele consegue rodar com um tanque cheio e com cada real gasto. Neste aspecto, as baterias são superiores em termos de eficiência energética, pois conseguem transformar energia em força motriz com muito menos perda.
Assim, para o carro percorrer 1 km com o motor a combustão, seja com etanol ou gasolina, é preciso 1,68 MJ de energia. Já o elétrico consegue percorrer a mesma distância com cerca da metade da energia: 0,86 MJ.
Então, vamos ao que importa: se eu encher a bateria de um carro elétrico quantos quilômetros ele vai rodar? Se estivermos falando de um carro como o Nissan Leaf versão 2018, essa distância será 350 km a 400 km. Alguns anos atrás, esse número era bem menor que isso e, nos próximos anos, ele tende a aumentar.
A projeção de curto prazo, vista no gráfico abaixo, foi apresentada pela Nissan no Japão.

O importante neste caso é avaliarmos como está avançando a densidade energética das bateiras. Afinal, quanto maior ela for, mais energia caberá nas baterias.
A princípio, a densidade energética das baterias dobra dentro de um período de 10 a 13 anos. Ou seja, a cada ano, as baterias conseguem guardar mais energia mantendo o mesmo peso. Quem já segurou uma bateria de carro, dessas comuns da Bosch, vai perceber como elas são pesadas. Há dez anos, para ter a mesma capacidade de carga, elas pesavam o dobro.
Com essa premissa – que tem se mantido desde 1985 –, os analistas da Bloomberg fizeram uma projeção sobre a densidade energética das baterias até 2030. O resultado está no gráfico abaixo.

Esta tecnologia já avançou muito nos últimos anos e o ritmo de desenvolvimento deve se manter elevado. Assim, até 2030, as baterias conseguirão armazenar praticamente o dobro de energia que conseguem hoje.
Mas, como sabemos, o consumidor não está interessado no quanto de energia cabe no tanque ou na bateria do carro. Ele quer saber quanto vai gastar para rodar 1 km. A conta para isso é simples e foi apresentada em detalhes aqui.
Em resumo, considerando os preços para o consumidor (incluindo os impostos) da energia elétrica, do etanol e da gasolina, além da eficiência das tecnologias, é possível calcular que, para rodar 10 km com uma bateria, um motorista de São Paulo gasta R$ 12. Já com etanol, para percorrer os mesmos 10 km, o paulistano gasta R$ 24. O dobro.
Em outras palavras, uma pessoa que gasta R$ 500 por mês com combustível e decide comprar hoje um carro elétrico, deixaria de dar dinheiro para o posto de combustível e veria a conta de energia aumentar em R$ 250. Para rodar a mesma distância, gastaria metade do dinheiro – uma economia de 50%. Os recursos, no entanto, iriam para outro segmento da economia.
A pergunta que fica é: se a diferença no bolso é tão grande, porque essa tecnologia ainda não está dominando?
A resposta está no custo de produção das baterias, que ainda é maior que o do motor a combustão. É só ver os preços dos carros elétricos que foram lançados semana passada no Salão do Automóvel. O Renault Zoe, 100% elétrico, é um carro popular e está sendo vendido em seu modelo mais básico por R$ 150 mil. É fácil prever que ele ainda não competirá com os modelos tradicionais.
Dessa maneira, para entender se os carros elétricos dominarão o interesse da população, é preciso analisar os custos de produção das baterias. Será que um dia será mais barato produzir um carro elétrico do que um com motor a combustão?
Para responder a esta questão, os analistas da Bloomberg resgataram o passado para projetar o futuro. O resultado está apresentado nos dois gráficos a seguir.


Em 2010, os fabricantes de baterias gastavam mil dólares para conseguir armazenar 1 kWh em uma bateria. Sete anos depois, em 2017, esse valor já havia caído para 200 dólares.
De acordo com especialistas da Bloomberg New Energy Finance, a produção de um carro elétrico ficará mais barata que a de um carro a combustão quando esse custo ficar abaixo de 100 dólares. Assim, como a projeção do gráfico mostra, isso acontecerá em 2025, quando o custo cairá para US$ 96/kWh.
Em função da natureza desta nova tecnologia, os custos continuarão caindo, ano após ano, mesmo após alcançarem a paridade com o carro a combustão.
Apesar disso, alguns profissionais do setor sucroenergético não gostam do carro elétrico à bateria e preferem, em seu lugar, as células de combustível – mas não qualquer célula, só aquelas que aceitam o uso de etanol. Tecnicamente, o que eles sugerem é que o Brasil aposte em uma tecnologia chamada Célula de Óxido Sólido (SOFC).
Porém, o mercado mundial de células a combustível está se movendo para outra direção, a das células de Membrana de Troca de Prótons (PEM). A explicação para este movimento é do especialista Christopher Robinson, da Lux Research, consultoria com base em Boston nos EUA: “Há um motivo para a maior parte do setor de transporte ter optado pelas PEMs: elas são mais duráveis, ligam mais rapidamente e operam em temperaturas mais baixas e mais seguras”, garantiu.
O novaCana, em reportagem publicada no ano passado, resumiu a visão da consultoria, que publicou um report sobre este mercado pelo mundo. Na ocasião, escrevemos: Alimentado pela esperança criada pelas usinas de etanol, o novaCana insistiu em saber das chances para o protótipo [de célula de combustível] da Nissan [movido a etanol] ser bem-sucedido. Pressionado, Robinson concedeu que essa possibilidade pode acontecer apenas dentro de um cenário bem específico. E ponderou: “Ainda assim, é improvável que esse seja o caso devido às limitações da tecnologia SOFC, que impedem uma adoção mais ampla”.
Este estudo da Lux Research está apresentado com mais profundidade aqui.
Sobram, assim, as células de combustível movidas a hidrogênio. Uma das empresas mais avançadas no desenvolvimento dessa tecnologia é a Toyota. Analisando a experiência da empresa, é possível ter uma ideia mais clara da situação desta opção.
Na análise da Lux Research, o ano de 2009 é chave para entendermos os movimentos atuais. De acordo com a consultoria, foi nessa ocasião que a Toyota percebeu que o motor a combustão estava com seus dias contados, decidindo que precisava investir na tecnologia que iria substituí-lo. Na época, duas opções se destacavam, o carro elétrico e as células de combustível. A Toyota avaliou as duas opções e fez sua aposta: células de combustível.
Com o sinal verde decidido em 2009, a empresa apresentou, dois anos depois, o primeiro conceito do carro do futuro: Toyota Mirai, movido à hidrogênio. Em 2015, depois de seis anos de desenvolvimento, o Mirai começou a ser vendido para os consumidores.

Mas, em 2017, a imprensa mundial começa a reportar uma mudança de estratégia por parte da Toyota, direcionando seu foco para o carro elétrico.

A Lux criou um indicador chamado Innovation Interest para ajudar a prever com antecedência as tendências tecnológicas. Este indicador leva em considerações inúmeros fatores, como o número de patentes e os investimentos totais em pesquisa. Com base nisto, em 2009, a consultoria via um crescimento de interesse nas duas tecnologias, ainda que existisse uma distância entre elas.
Avançando os indicadores até 2016, entretanto, é possível perceber um descolamento ainda maior, indicando uma estagnação do interesse nas células a combustível ao mesmo tempo em que há uma atividade mundial vastamente superior com os carros elétricos (mais informações sobre o relatório da Lux Research estão disponíveis aqui).
Depois de conversar com profissionais ligados ao setor sucroenergético sobre este assunto e refletir sobre suas motivações, minha percepção foi semelhante à da consultoria KPMG, que ouviu o setor automobilístico: existe um grande apego à infraestrutura atual.
Imagine se os seus principais negócios estivessem ameaçados de extinção por uma tecnologia nova, mais eficiente, melhor para o meio ambiente e que, em pouco tempo, será até mais barata. Pensar em uma adaptação para este futuro é uma tarefa muito difícil.
O que está acontecendo hoje com parte do setor sucroenergético e com o mercado de distribuição é um caso comum, que se repetiu ao longo da história em diversos setores em vias de um provável novo paradigma.
Os profissionais possuem as mesmas informações que o resto do mercado, mas vendados pelos seus negócios, alcançam conclusões opostas. A situação é natural, pois o custo financeiro e cognitivo para se adaptar as novas tecnologias é alto demais para aceitar o futuro e se adaptar a ele.
Quando, enfim, o modelo antigo percebe que o novo vai dominar, as empresas correm para mudar, mas percebem que pode ser tarde demais, uma vez que as companhias nascentes já dominaram o mercado.
Este é só um resumo de como acontece a ruptura tecnológica nos negócios, amplamente documentada no meio científico. Um dos exemplos recentes mais famosos é o da – antes, poderosa – Kodak, que foi engolida com o surgimento das câmeras digitais.
Como ficará o mercado de distribuição de combustíveis quando o consumidor for comprar um carro e encontrar o modelo elétrico mais barato que a opção movida à combustíveis fósseis – ainda mais considerando que o dinheiro necessário para abastecer o carro será cortado pela metade?
O que acontece quando uma nova tecnologia é superior e torna a anterior obsoleta?
Para começar, a opção mais avançada e mais barata não fica restrita a um nicho de mercado. Com as baterias guardando mais energia no mesmo espaço e a preços cada vez menores, a tendência natural é que o carro elétrico siga o caminho tradicional das novas tecnologias.
O mundo está acostumado a ver inovações. Assim, podemos começar a projetar como a adoção do veículo elétrico acontecerá, resgatando quanto tempo levou para que outras tecnologias disruptivas alcançassem ampla penetração entre os consumidores.
O gráfico abaixo mostra como os consumidores adotaram rapidamente as modernizações.

O próximo gráfico complementa a informação apresentada acima e mostra ainda que a velocidade de penetração de novas tecnologias está acelerando. Enquanto no século passado a televisão demorou quase 30 anos para alcançar 25% de penetração na população, o celular chegou a essa mesma parcela em menos de 10 anos.

Uma visão detalhada dessa aceleração, inclusive com os motivos e explicações para essa tendência, pode ser vista diretamente na análise da respeitada empresa de investimento Kleiner Perkins. Clique aqui para acessar.
É realmente difícil as empresas se abrirem para um futuro que não as inclua. Por isso, é importante que os atores do mercado de etanol considerem a possibilidade de que o carro elétrico continuará evoluindo em um ritmo semelhante ao visto nas últimas décadas e será uma tecnologia superior.
Isso não significa o fim do etanol ou a irrelevância do RenovaBio. Pelo contrário.
Na próxima década, catapultado pela China, o carro elétrico deve ganhar espaço em um ritmo intenso ao redor do mundo. Mas, mesmo quando o Brasil acordar para este futuro inevitável, a transição será gradual. Até 2030, o etanol e o RenovaBio possuem um papel importante para que o país reduza as emissões dos combustíveis fósseis. É desejável que o crescimento do consumo de etanol na próxima década venha através do avanço sobre os fósseis, independente da eletrificação da frota de veículos.
O setor de etanol pode continuar enfraquecendo sua comunicação ao fazer ataques ao elétrico, mas também pode usar a nova tecnologia como aliada para mostrar seu valor. Se a escolha for por não mudar o discurso atual, devemos testemunhar no Brasil uma transição dolorosa para o setor de distribuição e de produção de combustíveis.
O risco é que estes segmentos percam a rota para o futuro, abrindo espaço para opções mais sujas antes da eletrificação.
O RenovaBio não pode ser enfraquecido. O avanço do etanol é sobre os combustíveis fósseis.
Julio Cesar Vedana, diretor de redação do novaCana