Biocombustível não consegue abastecer o Brasil inteiro enquanto combustível fóssil domina o mercado. Dinâmica abre espaço para iniciativas que impulsionem o desenvolvimento do carro elétrico

novaCana.com 14 mar 2019 - 09:25 - Última atualização em: 15 mar 2019 - 08:13

Por Julio Cesar Vedana*

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realizou, no final de fevereiro, um evento sobre o futuro da matriz veicular no Brasil, reunindo interessados no assunto como empresários do setor de etanol e da indústria automobilística, analistas e membros do governo. Os carros elétricos, naturalmente, dominaram os debates.

As apresentações evidenciaram um contraste entre o pensamento de algumas lideranças do setor sucroenergético e a visão de profissionais abertos à eletrificação: enquanto o primeiro demostra medo e responde com ataques ao elétrico, o outro lado valoriza o etanol e enxerga os ataques com frustração.

A visão deste último grupo é que a eletrificação pura é inevitável com o mundo avançando para a eficiência energética. E o etanol, acreditam, oferece uma excelente contribuição para o motor a combustão, que continuará sendo utilizado por muitas décadas.

Porém, desde que o carro elétrico começou a mostrar seu potencial, um nervosismo crescente se desenvolve nos setores de biocombustível, especialmente o de etanol. A preocupação é natural, afinal os negócios e os empregos de muitas pessoas dependem das suas vendas.

Apesar da insegurança com o carro elétrico, o etanol tem um grande mercado a conquistar: o da gasolina. O avanço do biocombustível sobre o combustível fóssil é bem-vindo graças às qualidades ambientais que oferece, sendo provável que a indústria cresça nos próximos dez anos por meio de estímulos governamentais a soluções sustentáveis e menos poluentes, como o próprio RenovaBio.

Apesar do etanol ser uma opção superior ambientalmente em comparação com a gasolina, ele possui limitações históricas e não consegue competir com o combustível fóssil no Brasil inteiro

Ainda assim, a estratégia atual do setor sucroenergético é estimular o surgimento de veículos híbridos flex. Na visão das entidades representativas, o carro hibrido é mais eficiente e econômico que o à combustão e, se eles também forem flex, o consumidor poderá usar uma fonte menos poluidora e com menor emissão de CO2: o etanol.

Nesta visão, o elétrico puro não seria uma boa opção para os brasileiros. O argumento é que o etanol já é um combustível tão limpo e renovável quanto a eletricidade usada no Brasil. Além disso, também é um combustível nacional e o país é pioneiro na área – ou seja, nada mais natural que valorizar um produto genuinamente brasileiro.

Para avaliar se a lógica das sucroenergéticas se sustenta, entretanto, é importante olhar para o mercado de combustíveis e entender como é a presença do etanol no Brasil. O carro flex é realmente abastecido com ele? E, com o surgimento do híbrido flex, o biocombustível será a opção utilizada pelos motoristas?

Afinal, o carro flex, ou hibrido flex, por si só não é ambientalmente correto: o que define o nível de poluição é o combustível escolhido para abastecê-lo. Se o consumidor escolhe etanol, o número de emissão de gases nocivos é baixo, mas, se ele escolhe gasolina, o teor poluente cresce.

De acordo com dados oficiais da ANP, no cenário atual, a gasolina possui uma força dominadora. Nos últimos dez anos, a participação do etanol no mercado de ciclo Otto foi de apenas 21%, enquanto seu correspondente fóssil respondeu por 79% das vendas. Isso é o equivalente a dizer que enquanto um brasileiro abastece seu carro com etanol, outros quatro motoristas escolhem a gasolina.

Este quadro é ainda mais crítico em locais onde a produção de etanol é pequena ou inexistente. A maioria dos estados brasileiros é prejudicada por esta dinâmica de mercado, pois o biocombustível não consegue chegar aos consumidores por um preço competitivo.

O Brasil possui 18 estados que, na média dos últimos dez anos, não conseguiram vender nem 10% de etanol na comparação com a gasolina.

Mesmo nos cinco estados onde o etanol é tradicionalmente mais competitivo (São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Mato Grosso), o biocombustível não tem força suficiente para ser uma alternativa dominante. Nestes estados, 68% do consumo permanece com a gasolina. Ou seja, na média dos últimos dez anos, o etanol perde para a gasolina na preferência da população.

No mercado de abastecimento, os dois combustíveis possuem uma relação de dependência, reforçada e estimulada pela tecnologia do motor a combustão. Apesar de ser uma opção ambientalmente melhor, o etanol possui limitações históricas e só consegue competir com o combustível fóssil em alguns lugares do Brasil. Por isso, a flexibilidade que o carro flex oferece é limitada.

Os dois combustíveis, etanol e gasolina, possuem uma relação de dependência, reforçada e estimulada pela tecnologia do motor a combustão.

Esta é uma das principais fragilidades do etanol frente aos olhares do mundo e à crescente preocupação com o meio ambiente. O biocombustível é mais limpo que seu concorrente fóssil, mas não consegue tirar o reinado da gasolina – nem mesmo no Brasil e nos EUA, os dois maiores produtores mundiais.

Seguindo a lógica das sucroenergéticas, seria interessante e desejável que o carro elétrico fosse estimulado nas regiões onde a gasolina domina e o etanol não consegue ganhar espaço. No Rio Grande do Sul, por exemplo, onde os motoristas abastecem praticamente só com gasolina (97%), todas as vantagens do carro elétrico seriam aproveitadas, efetivamente reduzindo o consumo da gasolina.

Mas até mesmo o estado de São Paulo poderia oferecer uma contribuição ao planeta e à população local ao oferecer estímulos para a eletrificação da frota. Afinal, 63% do consumo estadual é de gasolina.

Nestes estados, o carro hibrido flex não alteraria o padrão de consumo quando a escolha é entre gasolina e etanol, e, por consequência, a poluição permaneceria em níveis semelhantes aos atuais. Já os veículos elétricos trariam uma drástica mudança nos níveis de poluição, pois reduziriam as emissões tanto em estados que consomem muito etanol quanto nos que não consomem.

Situação vai piorar

O quadro ficará ainda pior nos próximos dez anos, pois o consumo de gasolina e diesel continuará aumentando. O RenovaBio, na melhor das possibilidades, não conseguirá frear o consumo e nem reduzir as emissões absolutas de CO2 no Brasil. A premissa do programa envolve aumentar a participação de mercado dos biocombustíveis, mas não criar uma virada. Ou seja, o consumo de etanol vai crescer, mas o uso de gasolina também deve aumentar. O gráfico abaixo é do próprio Governo Federal e mostra como as emissões continuarão crescendo com o RenovaBio.

O etanol precisa de um aliado

Entra em cena a eletricidade. O Brasil possui energia elétrica limpa graças a suas hidrelétricas, ao sol (energia solar) e aos ventos (energia eólica) em abundância, podendo movimentar a frota de veículos com tranquilidade.

Além disso, a energia elétrica é muito mais eficiente nos carros que os combustíveis líquidos. Ela também é mais barata, pois um veículo elétrico pode rodar a mesma distância de um flex pela metade do preço. Em alguns lugares, essa conta é ainda mais interessante para o consumidor (veja mais sobre a economia aqui).

Com o crescimento da instalação de painéis solares, a conta para o consumidor fica ainda mais interessante financeiramente. Hoje, com painéis instalados em residências, já é possível encher a bateria de um carro elétrico e gastar menos de 30% do que se gasta com combustível líquido. É o equivalente a alguém que gasta R$ 500,00 por mês no posto passar a gastar R$ 150,00 na conta de luz.

Além disso, a poluição gerada pelos carros elétricos nas cidades é zero. Isso significaria, por exemplo, uma queda drástica nos índices de mortes derivadas da poluição em São Paulo. A poluição sonora também seria reduzida, afinal, os carros elétricos praticamente não fazem barulho.

Diversificação energética

O Brasil possui, hoje, uma rede de 42 mil postos para abastecer os carros com combustíveis líquidos. Tão grande quanto esta capilaridade é a malha elétrica do país, que consegue atender 98% de todo o território nacional, ficando de fora apenas em espaços na Amazônia. Aproveitar as potencialidades nacionais é fazer uso destas duas características únicas. Para isso, é fundamental continuar a estruturação do RenovaBio e, em paralelo, estimular a diversificação da matriz de transporte com o carro elétrico.

O Ministério de Minas e Energia (MME) sabe, melhor do que qualquer outra instituição, que diversidade energética traz segurança para o país. Onde o etanol for competitivo, ele conviverá em harmonia com a eletricidade.

Assim, quando empresários, membros do governo e políticos falam que o Brasil deve valorizar suas qualidades, mas, ao mesmo tempo, enaltecem o etanol em detrimento ao carro elétrico, o que eles estão dizendo é o equivalente a: “O mercado de gasolina e do motor a combustão é muito importante e não queremos dar espaço para uma alternativa que diminua este mercado e traga dificuldades às montadoras e empresas dependentes dele. Os negócios são mais importantes, o interesse da população e o meio ambiente estão em segundo plano”.

Um pensamento estreito, sim, mas a realidade é esta.

Proposta para o setor sucroenergético

É evidente que o etanol de cana-de-açúcar é um produto excepcional e que o Brasil não pode abrir mão desta alternativa à gasolina.

Assim, os melhores prospectos para o biocombustível crescer estão no campo de batalha do motor a combustão. O setor conhece muito bem as forças envolvidas nesta disputa com o combustível fóssil, mas tem pouco conhecimento sobre a rápida evolução da eletrificação mundial e as novas dinâmicas e forças que estão surgindo no mercado.

Em outras palavras, a energia aplicada para fazer ataques aos elétricos poderia ser melhor empregada na retomada da estratégia de avançar sobre a gasolina. As usinas e entidades conseguem encarar o desafio de trabalhar com os estados para alterar o ICMS e estimular o consumo do seu produto, por exemplo.

Aliás, a briga por valorizar as externalidades positivas do etanol frente ao fóssil na esfera federal é um exercício que sempre fez parte das atividades da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica). Além disso, a Petrobras já não exerce o mesmo poder e influência de outrora. E mais: a relação com as montadoras é de longa data e existem estudos envolvendo misturas maiores de anidro na gasolina. As mentes do setor de etanol podem se unir e retomar as discussões sobre como expandir a presença do biocombustível no motor a combustão.

Também é preciso perceber a explosão tecnológica das últimas décadas, que está levando eficiência para áreas que estavam historicamente intocadas. Segmentos da economia vêm e vão enquanto a eficiência avança. A eletrificação dos veículos é inevitável. A pressão mundial por menos emissões de poluentes só está acelerando este processo.

Em resumo, não deveria existir dúvida de que a bandeira do setor de etanol deve ser hasteada no lugar que trará mais benefícios para a população e para o planeta: no campo do motor a combustão, enfrentando a gasolina. Lidar com a Petrobras e com os empresários dependentes dos combustíveis fósseis é uma batalha muito mais digna do que lutar contra a evolução tecnológica e a pressão nacional e mundial por um planeta melhor.

* Julio Cesar Vedana é coordenador de redação e diretor superintendente do novaCana.com