Pesquisa do IAC traz dados de plantio e cultivo das principais regiões do Centro-Sul; há cinco anos, índice de renovação está inferior aos parâmetros recomendados

novaCana.com 13 fev 2020 - 11:00 - Última atualização em: 01 out 2020 - 14:45

Das etapas do processo produtivo de açúcar e etanol, o campo é uma das mais custosas. De acordo com um estudo do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), referente à safra 2018/19, os tratos de cana-soca, a formação de canavial e a colheita representam mais da metade dos custos de produção.

O estudo também afirma que estes custos seguem crescendo ao longo dos anos e que, para reverter essa situação, o produtor precisa buscar maior produtividade, tornando “a cadeia da cana-de-açúcar mais sinérgica e eficiente”. De forma resumida, é necessário que os gastos compensem e gerem um retorno.

Por mais que indiquem um custo extra inicial, os investimentos no campo, especialmente em renovação e novas variedades, poderiam fazer com que este quadro de muitos gastos e poucos retornos revertesse.

O consultor do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Rubens Braga, é categórico ao afirmar que há uma necessidade latente de se investir no campo. De acordo com ele, há a insistência na utilização de variedades de cana-de-açúcar antigas, que resultam em menor produtividade, além de que a mesma planta segue sendo cortada várias vezes, o que também é negativo.

“Em relação ao estágio de corte, tem piorado ao longo dos anos. E a gente tem estudos de que quando mais velha for a cana, menor a produtividade. Não tem nem como contestar esse tipo de informação”, determina.

Os dados utilizados pelo consultor são parte do resultado do Censo Varietal referente à safra 2019/20, realizado pelo IAC, que pesquisou 217 unidades, correspondentes a 5,8 milhões de hectares.

O resultado, comparativamente a 2018/19, demonstra uma certa estabilidade em alguns indicadores, de forma negativa – como o estágio médio de corte, o índice de atualização varietal e até nas escolhas das variedades presentes no campo –, mas também traz um pequeno alento em relação à concentração de variedades.

De qualquer forma, é preciso que haja uma mudança maior no campo, o que não é visto há anos. Braga afirma que o custo de renovação do canavial é muito alto e, “como as empresas estão em dificuldades, elas vão adiar esse gasto enquanto elas puderem”.

“Porém, assim, elas terão cada vez menos produtividade e cada vez mais dificuldades, porque terão menos retorno. Então, eventualmente, elas vão ter que fazer um investimento, senão suas produções vão sumir”, conclui o consultor.

Indicadores em queda

Uma das primeiras informações dadas pelo Censo já não é um bom sinal: a área dedicada à cana-de-açúcar no Centro-Sul caiu entre 2018/19 e 2019/20. Na média, a redução foi de 2,8%, sendo que as maiores quedas foram no Espírito Santo (9,3%) e no Paraná (8%).

Braga explica que, nas últimas cinco safras, estava ocorrendo uma consolidação em relação à área com cultivo de cana. Ou seja, “se uma usina parava de moer, tinha sempre outra que tomava conta daquela área e, assim, a área total era mantida”.

Porém, nesta safra, as áreas que foram deixadas por usinas de cana – no total, aproximadamente 3% – foram substituídas por outras culturas, “tudo por uma questão de rentabilidade, já que estamos vivendo um ciclo bem longo de crise e estamos com mais de 100 empresas em recuperação judicial”, determina Braga.

O consultor ainda explica que a recuperação destas áreas perdidas dependeria do interesse das empresas e da região em que elas se localizam, pois isso define se vale a pena o investimento e o custo com transporte. Porém, em geral, não está compensando, e “chegou a um ponto em que o setor não está mais conseguindo manter sua área”, lamenta.

Por outro lado, em se tratando de incidência das variedades, a RB867515, que, apesar de ser muito antiga e não adaptada à mecanização, ainda é a mais presente nos canaviais brasileiros, reduziu ligeiramente entre as duas últimas safras – passando de 23% para 21%, na média.

Com isso, o índice de atualização varietal, que demonstra a quantidade de diferentes tipos de cana presentes no Centro-Sul, melhorou um pouco entre 2018/19 e 2019/20, porém ainda segue longe do ideal – ou mesmo do que seria considerado intermediário.

censo iac atualizacao historico

Calculado de acordo com o número de diferentes variedades presentes no canavial em relação ao ano de cruzamento das espécies plantadas, este índice começou a melhorar desde o pico observado em 2017, “mas a gente ainda tem muitas poucas variedades novas sendo usadas em grandes proporções, o que é uma falha que o nosso setor tem de uma demanda muito grande do aproveitamento das novas variedades”, explica Braga.

Junto com a grande participação de variedades antigas no Centro-Sul, o canavial como um todo também vem envelhecendo ano a ano, conforme o Censo demonstra, o que influencia ainda mais na produtividade, negativamente.

A relação plantio/cultivo teve um pequeno aumento em relação à safra anterior, mas segue abaixo do limite desejado: 16,5%. A partir deste ponto, quanto menor a relação, mais velho está o canavial, pois, se não há plantio, apenas há envelhecimento, confirma Braga.

censo iac plantiocultivo historico

“Na última safra, o nível foi quase na média, um ponto próximo ao valor histórico, mas estamos com muitos anos de plantios baixos, então, para reverter isso, é necessário plantar acima da média. Se você plantar a mesma coisa, vai demorar uns cinco ou seis anos para atingir um estágio médio”, explica o consultor.

Desta forma, o estágio médio de corte também segue subindo, com plantas mais velhas sendo cortadas cada vez mais tarde. A relação entre o indicador e a tonelada de cana por hectare é direta, e não registra melhoras desde 2015.

censo iac corte historico produtividade

A negativa tradição canavieira

O consultor do IAC responsável pelo Censo, Rubens Braga, disse que, no geral, nas duas últimas safras, “tivemos uma variação muito pequena nos indicadores, então essas questões estão meio estáveis”. Por outro lado, o índice de concentração varietal foi o único que demonstrou alguma melhora real – o que pode ser positivo.

Braga explica que essa melhora está diretamente relacionada com a diminuição da participação da RB867515 nos canaviais, “e acredito que em uma ou duas safras, esse indicador vai se aproximar de uma faixa considerada razoável, o que é uma coisa boa”, completa.

censo iac concentracao historico

“O ideal é que o produtor tenha, no máximo, 15% de cada variedade. Desta forma, as três principais variedades somariam, no máximo, 45%. O índice não considera só a soma das três, ele considera outros itens, então ali entre 45% e 75% seria uma faixa intermediária, e estamos nesta faixa”, comemora Braga.

A importância da multiplicidade de variedades está na proteção da produção. Braga explica que existem exemplos históricos de situações nas quais o cultivo precisou ser modificado devido ao aparecimento de doenças. “As principais variedades saem por conta disso”, explica.

Desta forma, se o canavial tem uma grande porcentagem de certa variedade e ela é atingida por alguma doença, “essa usina vai quebrar. Não dá tempo de renovar. O produtor sequer tem dinheiro suficiente para fazer uma renovação se ele tem uma proporção tão grande da mesma variedade”, determina Braga.

Assim, como a curva da variação está indo para baixo, é um sinal positivo, já que ela está diretamente relacionada a um risco ambiental. “Diminuindo esse risco, você garante o setor. E nós temos opções, não tem por que a gente se concentrar em poucas variedades”, defende Braga.

Mesmo assim, o que é observado no Centro-Sul e nas principais regiões produtoras é a grande concentração da mesma variedade – e, frequentemente, da RB867515, o que é ainda mais negativo.

 

Braga explica que a inserção de uma nova variedade no campo é trabalhosa: precisa testá-la inicialmente, em uma área pequena pré-escolhida, estudando melhores épocas para plantio, colheita e adubação, e verificando o desenvolvimento em cada etapa. Em resumo, é necessário fazer um estudo, aprender como o cultivar se comporta, fazer uma gestão do campo.

“É muito mais fácil se você faz há 20 anos a mesma coisa, porque não precisa nem pensar. Só que é óbvio que você também não terá ganhos com uma variedade dessas”, explica Braga, que acredita que a substituição não ocorre por causa da correria das usinas, já que o “risco com novas variedades é mínimo”.

O consultor diz que, com o Censo, a intenção do IAC é mostrar a importância da utilização de novas variedades e os benefícios do cuidado com o campo. “Temos três programas de melhoramento no Brasil, mas quando você olha os dados, parece que os programas são de ‘pioramento’, porque o pessoal não troca, e não tem lógica alguma nisso”, lamenta.

Para a liberação de uma nova variedade, são feitos vários estudos, que podem levar 15 anos, e diversos testes, para concluir que os novos tipos são melhores que os anteriores. “Só que o pessoal não troca. Os produtores do país são muito tradicionais, arriscam muito pouco. Mas no Brasil, hoje, se você não arriscar um pouco, você não vai a lugar algum. Tanto na economia quanto na área agrícola”, determina Braga.

Variação nos estados

Os indicadores nos estados, em geral, tiveram mais pioras do que melhoras na comparação com 2018/19. Sobre a relação plantio/cultivo, por exemplo, que o mínimo desejado é 16,5% – valor que mantêm o canavial com a mesma idade –, Espírito Santo e Mato Grosso são os piores, ambos com 12%.

Já Araçatuba registrou 20%, demonstrando que foi feito algum investimento na renovação da plantação entre as duas safras mais recentes.

Em relação ao estágio médio de corte, apenas Espírito Santo e Mato Grosso do Sul apresentaram alguma melhora na comparação entre as safras, fazendo com que o índice médio piorasse.

E a atualização varietal demonstra que a novas variedades seguem preteridas a nível estadual. Apenas Mato Grosso do Sul, Araçatuba e São José do Rio Preto demonstraram melhoras em relação a 2018/19 – todos os outros estados e regiões mantiveram seus índices ou pioraram.

O Espírito Santo, por exemplo, aumentou o cultivo da RB867515 entre as duas safras, o que é extremamente negativo para o canavial – já que é uma variedade antiga, pouco adaptada à mecanização e pouco produtiva.

Já Goiás e Mato Grosso aumentaram o investimento na CTC4, uma variedade mais moderna, com vários benefícios para o canavial.

Centro-Sul

São Paulo

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No Centro-Sul, dentre as variedades com mais incidência, não consta mais a SP81-3250 (que tinha 22 anos), tendo sido substituída pela CTC9001, que tem apenas oito anos – as duas, em cada safra, tiveram 3% de participação nos canaviais do país. Isso demonstra uma melhora entre os anos.

Em relação às variedades do IAC, Braga destaca a IACSP95-5094, que foi a mais plantada dentre as desenvolvidas pelo instituto na safra 2019/20, especialmente nas regiões de Minas Gerais, Bahia e Tocantins, e Ribeirão Preto.

“Ela tem apresentado resultados excelentes, é totalmente moderna de acordo com nossos critérios, nasce muito fácil, é ereta, não tomba, é altamente perfilhada”, evidencia o consultor, que completa: “Acho que ela tem condição de ocupar uma área bem significativa na região Centro-Sul”.

E falando de expectativas, Braga ainda acredita que o RenovaBio vá trazer melhoras para as empresas no geral, o que terá efeito nos cuidados com o campo e, consequentemente, na renovação do canavial – tanto em relação aos cortes quanto com as variedades utilizadas.

“A perspectiva é boa, por enquanto. Especialmente para quem está organizado. Quem está estruturado vai ter chance de ganhar bem mais dinheiro do que no ano passado. Mas quem já está quebrado, não adianta a perspectiva ser boa, pois não tem mais solução”, conclui o consultor.

Rafaella Coury – novaCana.com{/viewonly}