O setor sucroenergético tem um problema estrutural grave: está preso ao uso de variedades antigas de cana. O maior censo sobre os canaviais do Brasil revela ainda como os baixos investimentos no campo têm influenciado na produtividade do Centro-Sul

novaCana.com 15 jan 2019 - 12:34 - Última atualização em: 06 set 2019 - 11:57

Para as usinas de cana-de-açúcar, a produtividade da plantação é essencial, porém, nem sempre recebe a devida prioridade dos produtores. Uma planta jovem e saudável pode ser a garantia de maior produção e, consequentemente, maior receita. O contrário também é verdadeiro, e a idade avançada do canavial é uma ameaça para os rendimentos.

É notório que a região Centro-Sul tem feito poucos investimentos na renovação da plantação, envelhecendo o canavial e perdendo produtividade. Como se não bastasse, a atualização varietal – ou seja, o investimento em novas variedades – vem acontecendo de forma insatisfatória, o que deixa a plantação sujeita aos impactos do clima, pragas e outras ameaças.

Falta investimento em inovações tecnológicas e nos tratos culturais. Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de 2013 já ressaltava que os canaviais brasileiros estavam defasados nestes temas, evidenciando o descompasso da evolução da cana-de-açúcar em comparação com os ganhos de produtividade em outras culturas.

No estudo, o banco apontava a necessidade de novas variedades para ganhos substanciais de produtividade nos canaviais e novas soluções tecnológicas e de manejo para o plantio e colheita mecanizados.

Ainda assim, não houve muito interesse no assunto e os avanços foram poucos e tardios. Fábio Meneghin, sócio-analista da Agroconsult, durante o NovaCana Ethanol Conference de 2018, mostrou que o setor não lida muito bem com suas dificuldades.

“O setor de cana parou nos últimos 15 anos em termos de inovações. A última grande inovação foi a mecanização e, depois, nada – bem diferente das outras culturas. Só agora que estamos voltando a pensar em diferentes tipos de plantio, por exemplo, para tentar retomar a produtividade”, afirmou durante o painel que participou.

O cenário pintado pelo BNDES e afirmado por Meneghin no ano passado é confirmado com a divulgação do Censo Varietal realizado pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, referente à safra 2018/19.

Lançado anualmente, o Censo tem como objetivo levantar informações sobre as áreas de variedades no maior número possível de unidades produtoras (usinas, destilarias, associações de fornecedores,dentre outras) de cana-de-açúcar no Brasil. É o maior censo de variedades do país, reunindo dados de 216 unidades e 5,9 milhões de hectares no ano passado.

Os dados trazidos tratam justamente daquelas que deveriam ser as maiores preocupações dos produtores: o envelhecimento dos canaviais e a diversificação de variedades plantadas, além da sua influência na produtividade. Em resumo, é um panorama do setor e o cenário não é positivo.

Renovação em baixa

Não é novidade que os investimentos na renovação dos canaviais brasileiros têm sido mais baixos do que o necessário nos últimos anos e os dados mais recentes do Censo confirmam isso. Conforme explica Rubens Braga, consultor do IAC responsável pelo estudo, a relação entre plantio e cultivo demonstra se está havendo a introdução de novas plantas no campo, o que indicaria uma renovação.

Na última safra, essa relação seguiu a curva de melhora que vem sendo observada desde 2016 – quando teve uma grande queda e atingiu o segundo menor índice desde 1986 – e a expectativa para a próxima temporada é que siga melhorando – porém ela ainda está abaixo do nível médio.

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“Quando plantamos menos do que 17%, estamos envelhecendo o canavial. Como fazemos cinco cortes, o valor que mantêm o canavial com a mesma idade seria 16,7% ou até 16,5%. Como nos últimos quatro anos (desde 2014), nas últimas cinco safras, tivemos valores menores do que esses, o canavial do Centro-Sul está ficando cada vez mais velho”, lamenta Braga.

Analisando o estágio médio de corte, este dado fica ainda mais claro. “Nas últimas três safras, batemos o recorde de idade de canavial. A relação entre o estágio médio de corte e a tonelada de cana por hectare é direta, e o gráfico diz que cada ano a mais de estágio de corte, se perde 8,5 t/ha. Como estamos meio ano acima do histórico, que é 3,3, nosso canavial já está rendendo quatro toneladas a menos por hectare. E piora ano a ano”, confirma o consultor.

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Braga ainda comenta da importância que esses dados têm, e que eles devem ser levados em consideração na hora de analisar a produtividade de uma plantação.

Os produtores, em geral, costumam culpar a colheita mecanizada pela piora na produtividade vista nos últimos anos, mas é importante saber que ela não é a única responsável.

“A colheita mecanizada teve um impacto grande na produtividade, mas a idade também está sendo um forte fator, especialmente agora, para diminuí-la ainda mais. Essa nova forma de colheita trouxe um prejuízo porque ela compacta muito o solo, há muito mais perdas do que a colheita manual, e assim por diante. Mas, hoje em dia, todo mundo joga o peso nisso, mas não é o único fator. Precisamos analisar as outras influências, aquelas que conseguimos solucionar mais rapidamente”, conclui.

Variedades e produtividade

Outro fator que tem impacto na produtividade da lavoura, e acaba sendo negligenciado pelos produtores, é a escolha das variedades que são plantadas. O IAC mantém um histórico da análise da atualização varietal, que demonstra a quantidade de diferentes tipos de cana presentes no Centro-Sul, e o resultado das últimas safras está muito aquém do satisfatório.

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Calculado de acordo com o número de diferentes variedades presentes no canavial em relação ao ano de cruzamento das espécies plantadas, o índice de atualização varietal do Centro-Sul começou a melhorar nas duas últimas safras. “Após um pico de variedades muito antigas, em 2017, a expectativa é que na próxima safra ocorra uma inversão na inflexão, de acordo com a intenção de plantio prevista”, explica Braga.

Ainda assim, o consultor reitera que as variedades plantadas no Brasil ainda são muito antigas.

“Quanto mais nova é a variedade, mais produtividade ela tem. Então, se o produtor segue plantando variedades antigas, ele não consegue obter o ganho de melhoramento desejado.”

Um dado que comprova isso é a incidência da RB867515 no Centro-Sul. Ela ainda corresponde a 23% de toda a plantação da região, sendo que já tem 21 anos de lançamento. As variedades com mais de 15 anos são consideradas antigas e sofrem com produtividade inferior.

“A porcentagem da concentração da RB867515 aqui é muito alta, mas ela está sendo retirada do campo. Deve levar ainda uns três ou quatro anos, pelo menos, para ela sair de vez. Mas esperamos que ela já perca a primeira posição na próxima safra”, consola Braga. A insistência nessa variedade é complicada especialmente por ela ter uma dificuldade de adaptação com a mecanização, já que ela foi desenvolvida para que fosse colhida queimada. “Assim, hoje, ela rende menos e tem menos produtividade”, reitera.

Por outro lado, a CTC4 tem apenas seis anos de cruzamento e é a segunda maior em concentração no Centro-Sul, com 8%. Ela teve um bom crescimento na última safra, o maior dentre as variedades, e é bem adaptada à mecanização justamente pelo seu número de perfilhos, que é muito maior por metro, de acordo com o consultor. Ela teve um forte incremento no cerrado, onde já é um dos principais tipos plantados, mas está crescendo em todo o país.

Essa já é uma mudança. Quando a cultura da cana-de-açúcar ganhou destaque a nível nacional e foi para o cerrado, conta Braga, a RB867515 teve um crescimento muito forte, o que culminou na sua alta concentração de hoje. “Como ela tinha um ganho de plantio alto, e se adaptava à região, os produtores de lá cresceram plantando só ela. Ela entrou muito forte em todas aquelas novas áreas de plantação, e isso fez com que ela tivesse uma ampliação exagerada, maior do que deveria ser” explica, indicando que reverter esse processo é complicado, mas está acontecendo.

Nos estados analisados pelo censo, por exemplo, ela ainda é a que possui maior concentração da área cultivada no Espírito Santo, em Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul e no Paraná – onde, inclusive, está aumentando. Mas em São Paulo, a expectativa do IAC é que ela não seja a mais cultivada já na próxima safra, já que caiu para a terceira variedade mais plantada no estado, que corresponde a mais da metade da área cultivada no Centro-Sul. “No Paraná, a situação é mais crítica, pois a concentração da RB867515 é exagerada, mas devemos ter uma mudança significativa nos outros estados no próximos anos”, conclui Braga.

Quanto mais variado, melhor

Com a análise da produtividade dos canaviais brasileiros e com os dados observados pelo Censo, o que o IAC mais defende é a importância do produtor ter diferentes variedades de cana-de-açúcar plantadas.

A principal influência da variedade no campo é na questão da segurança. “Os programas de melhoramento recomendam que não haja mais do que 15% da área com a mesma variedade, garantindo proteção em casos de riscos biológicos. Caso apareça uma nova doença, por exemplo, será possível substituir a variedade danificada rapidamente se ela estiver ocupando uma área menor”, afirma Braga.

A questão do manejo, no fim das contas, influencia muito no impacto que cada variedade pode ter na produtividade da plantação. “Hoje, para lucrar com a cana-de-açúcar, é preciso ser bom na alocação dessas variedades. Todas as empresas têm vários ambientes dentro da sua área de produção e aí é preciso escolher a variedade certa para cada local. Desta forma, é possível ter um ganho de produtividade e ganhar dinheiro. Mas se a alocação de variedades não é bem feita, você pode até ter um prejuízo”, alerta o consultor.

No fim, essa escolha cabe a cada empresa. Os programas de melhoramento de canavial oferecem as informações sobre as variedades para os produtores, mas a aplicação delas não é tão direta, afirma Braga, completando: “A informação existe, mas nem sempre ela é executada da forma que deveria ser. E isso é o que poderia influenciar na produtividade dos canaviais hoje. Se o manejo fosse feito corretamente, a gente teria um ganho significativo na produtividade”.

Rafaella Coury – novaCana.com