Cana: Safra / Moagem

Unica faz balanço da safra; expectativa é de menor produção de cana em 2021/22

Entidade estima que atual temporada finalize com uma moagem de 605 milhões de toneladas


novaCana.com - 16 dez 2020 - 09:52

Tradicionalmente, a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) faz um balanço da safra no final do ano, com expectativas para o encerramento da temporada vigente e os números de produção, consumo e exportação estimados, além dos principais pontos relevantes do período. Não foi diferente na coletiva de imprensa realizada na manhã da última terça-feira, 15.

Conforme dados já divulgados pela Unica, apurados até 1º de dezembro de 2020, a produção já chegou a 594,88 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na temporada 2020/21, 3,3% acima do ciclo anterior. A expectativa é que ela encerre com 605 milhões de toneladas da matéria-prima esmagada. Atingindo esse patamar, a moagem deve ser a maior das últimas quatro safras.

A quantidade de açúcares totais recuperáveis (ATR) produzidos até o início de dezembro totalizou 86,33 milhões de toneladas, 7,7% acima do ciclo anterior. Segundo a Unica, espera-se um encerramento com 87,54 milhões de toneladas de ATR. Esta condição decorre da maior moagem de cana-de-açúcar e, principalmente, da melhora na qualidade da matéria-prima processada.

A concentração de açúcares na planta alcançou 145,13 kg de ATR por tonelada de cana (+4,24%) até 1º de dezembro. Até o final da safra 2020/21, o índice acumulado deve cair um pouco, seguindo um movimento natural para o período e ficando em 144,70 kg de ATR por tonelada de cana.

“No ciclo 2015/16, a moagem de cana-de-açúcar atingiu recorde de 617,71 milhões de toneladas, mas a qualidade da matéria-prima ficou apenas em 130,51 kg de ATR por tonelada de cana”, relata o diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues. “Neste ano, o volume foi menor, mas a qualidade foi muito superior. A maior concentração de ATR no ciclo 2020/21 equivaleria a um processamento de quase 30 milhões de toneladas de cana-de-açúcar a mais com a qualidade dentro da média dos últimos anos”.

Rodrigues ainda destacou, em relação a São Paulo – maior estado em produção de cana –, a relevância das regiões canavieiras de Ribeirão Preto e Araçatuba, bem como a estabilidade produtiva de Assis e a perda de espaço de Piracicaba.

O gerente de marketing do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Ricardo Faganello Neme, aproveitou para destacar que o ATR médio da safra foi o maior das últimas dez temporadas. Segundo ele, todas as regiões canavieiras demonstraram aumento no indicador.

Em relação à produtividade, ele observa que a safra 2020/21 ficou marcada como uma temporada seca, com sua estação chuvosa abaixo da média. A produção de cana leva esse fator para 2021/22, que deve ter menor produtividade justamente por conta das precipitações abaixo do esperado.

Na atual safra, a produtividade média acumulada até novembro era de 78 toneladas de cana por hectare, com crescimento acumulado de 2,1%, demonstrando avanços pela terceira temporada consecutiva.

Também considerando o acumulado até novembro, o ganho de produtividade mais significativo aconteceu na cana de 12 meses, enquanto a queda mais expressiva foi nos canaviais de terceiro corte.

Neme destaca ainda que o perfil de colheita de 2020/21 apresentou aumento da participação de canaviais mais novos. A taxa de renovação deverá ficar entre 12% e 13% no fim da temporada, porém ele afirma que este indicador caiu no comparativo com a temporada anterior, fato que pode se refletir na produtividade de 2021/22.

Produção de etanol e de açúcar

A Unica estima que 46,04% da cana-de-açúcar processada na safra 2020/21 será destinada à produção de açúcar, ante 34,33% observados no ciclo anterior. Com isso, o resultado esperado para o atual ciclo é de 38,4 milhões de toneladas da commodity, registrando incremento de 43,49% na comparação com a safra passada.

“A qualidade excepcional da matéria-prima neste ano permitiu uma ampliação significativa na produção de açúcar. Para a próxima safra, as indicações de menor oferta de cana-de-açúcar e do restabelecimento da qualidade para o patamar histórico devem provocar retração na oferta do adoçante”, explica Rodrigues.

Já a produção de etanol deve alcançar 30,44 bilhões de litros no atual ciclo, com queda de 8,45% ante o volume observado na temporada passada (33,26 bilhões de litros). Do total produzido em 2020/21, 9,76 bilhões de litros devem ser de etanol anidro e 20,69 bilhões de hidratado.

A produção de etanol a partir do milho, por sua vez, deve alcançar 2,65 bilhões de litros na safra 2020/21, sendo que 85% do volume é proveniente das usinas de Mato Grosso. No total, trata-se de um incremento próximo a 63% em relação ao volume fabricado no último ano agrícola, que teve 1,62 bilhão de litros.

Vendas internas

Desde o início da safra até 1º de dezembro, as unidades produtoras do Centro-Sul comercializaram 20,47 bilhões de litros de etanol, o que representa uma queda de 11,8% na comparação com o mesmo período da temporada anterior. Desse total, 2,04 bilhões de litros foram direcionados ao mercado externo e 18,43 bilhões, ao mercado doméstico.

No mercado interno, as vendas de etanol hidratado alcançaram 12,71 bilhões de litros e as de anidro, 5,71 bilhões de litros.

“A queda de consumo de combustíveis leves foi muito intensa no início da pandemia, mas já começa a dar sinais de recuperação agora no final do ano. Estamos trabalhando com uma queda de 7% na demanda total de combustíveis do ciclo Otto na safra 2020/21”, esclarece o executivo da Unica.

No caso do açúcar, de janeiro a novembro, as vendas no mercado interno ficaram 4,55% acima do mesmo período do ano passado. Segundo Padua, o aumento foi mais direcionado à indústria e menos ao varejo.

Mercado externo

Quanto às exportações, de janeiro a novembro, houve um aumento de 70% no volume de açúcar (passando de 16,44 milhões para 27,98 milhões) e de 67% na receita com a commodity (passando de US$ 4,76 bilhões para US$ 7,94 bilhões). Os principais destinos do adoçante brasileiro seguem sendo China (14,8%) e Bangladesh (8%).

“Tivemos safras menores em grandes produtores, como Tailândia e Índia, e a flexibilidade de produção da indústria brasileira possibilitou que aproveitássemos essa oportunidade. Observamos elevação na demanda e nos preços”, analisa o diretor executivo da Unica, Eduardo Leão de Sousa.

Os envios de etanol no mesmo período também avançaram e atingiram 2,43 bilhões de litros, um incremento de 36%. Com isso, a receita advinda deste volume foi de US$ 1,08 bilhão (+17%).

A atuação do Brasil no comércio exterior foi intensa, conforme a Unica. Em maio, após negociações, a China deixou expirar a política de salvaguarda criada em 2017, que chegou a elevar a tarifa de importação de açúcar a 95%. Com isso, o produto brasileiro voltou a ser competitivo no mercado chinês, com o imposto de entrada de 50%.

Além disso, o painel na Organização Mundial do Comércio (OMC) iniciado pelo Brasil contra a Índia teve sua primeira audiência adiada por conta da pandemia e foi realizada em dezembro, com a participação de representantes da Guatemala e da Austrália, que também têm ações contra os subsídios ao açúcar.

A Costa Rica também passou a ser alvo de retaliações brasileiras devido ao protecionismo ao mercado de açúcar, com a elevação da tarifa de importação de 45% para 80%.

Em relação ao etanol, na ausência de um acordo mais vantajoso na exportação de produtos brasileiros para os Estados Unidos, o governo não renovou a cota para a entrada de etanol importado isento da Tarifa Externa Comum do Mercosul, de 20%, o que beneficiava especialmente os norte-americanos.

Paralelamente, a Unica identificou um crescente interesse de países em relação aos benefícios do etanol para a redução de gases de efeito estufa, poluição local e diminuição do uso de combustíveis fósseis.

“Verificamos em países da América Latina, da África e da Ásia, que possuem clima tropical e subtropical, condições favoráveis para a produção de biomassa de forma competitiva e de uso dessa biomassa para energia”, relata Leão de Sousa.

RenovaBio vigente

O presidente da Unica, Evandro Gussi, destacou a relevância do RenovaBio em 2020. “Mesmo com os desafios deste ano, conseguimos tornar o RenovaBio uma realidade. Entregamos para a sociedade brasileira um novo patamar de transparência e mensurabilidade da pegada de carbono sem paralelo no mundo”, acredita o presidente da entidade.

Gussi considera que o RenovaBio é “motivo de orgulho neste ano” e completa que se trata “de um programa de descarbonização da matriz de transporte, oferecendo modos práticos para entregar os compromissos firmados no Acordo de Paris, em 2015”.

Segundo os dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apresentados pela Unica, atualmente, 65% das empresas produtoras de etanol no país estão certificadas no RenovaBio, representando cerca de 85% da oferta nacional do renovável. Elas foram, ainda, responsáveis pela venda de 20 bilhões de litros em 2019/20. São, portanto, 215 usinas certificadas e outras 22 que já passaram ou ainda estão em processo de consulta pública.

Das unidades em operação em São Paulo, 82% estão certificadas; em Mato Grosso do Sul, o percentual é de 89%; em Minas Gerais, de 69%; e em Mato Grosso, de 21%. Segundo o diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues, isso demonstra o espaço que ainda há para um aumento da produção de créditos de descarbonização, os CBios.

Até 11 de dezembro, conforme os números apresentados, foram registrados mais de 17 milhões de CBios – o montante deve chegar a 18 milhões até o final do ano, de acordo com estimativas da Unica. Além disso, a entidade aponta que mais de 80% dos títulos haviam sido adquiridos para o cumprimento das metas pelas distribuidoras.

Com este cenário, Padua calcula que a oferta de CBios neste ano ficará 20% acima do volume que as distribuidoras precisam comprar, que é de 14,53 milhões de créditos. Considerando a safra 2020/21, que vai até 31 de março, esse número pode atingir 23 milhões, segundo a Unica.

Crescimento da bioeletricidade

A geração de bioeletricidade a partir da cana-de-açúcar deve chegar a 22,6 mil GWh ofertados para o Sistema Integrado Nacional (SIN) em 2020, conforme a Unica, apresentando um crescimento de em torno de 1% em relação a 2019.

O montante equivale a 5% do consumo anual de energia elétrica no país, sendo capaz de atender a 12 milhões de residências. De acordo com a Unica, isso proporciona a minimização da emissão de 7 milhões toneladas de CO2.

“Em setembro, a Lei nº 14.052 foi aprovada com o objetivo de resolver a judicialização do risco hidrológico nas liquidações financeiras mensais no Mercado de Curto Prazo, que se arrasta desde 2015 e afeta bastante a bioeletricidade, com uma dívida judicializada R$ 10,3 bilhões”, destaca o gerente de bioeletricidade da Unica, Zilmar de Souza. A estimativa é que setor sucroenergético tenha a receber em torno de R$ 500 milhões desta dívida.

Para 2021, a entidade espera: o avanço do projeto de modernização do setor elétrico no Congresso; o acordo da dívida sobre risco hidrológico, com primeiros pagamentos previstos para abril; a expansão do mercado livre, que passa a incluir consumidores livres com demanda superior a 1.500 quilowatt (atualmente, exige-se 2.000 kW); e oportunidades para comercialização de projetos novos de bioeletricidade e de biogás em quatro leilões de energia.

Doações durante a pandemia

O álcool 70 se tornou um insumo essencial no combate à disseminação do coronavírus. Com o início da pandemia, as empresas associadas à Unica fizeram a doação de 1 milhão de litros para contribuir com o abastecimento das unidades públicas de saúde. Nove estados receberam doações: Ceará, Bahia, Tocantins, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina.

“A doação de grandes volumes às secretarias estaduais é apenas uma ação entre inúmeras desenvolvidas pelas empresas associadas nos municípios e estados onde estão localizadas as unidades produtivas”, garante Evandro Gussi. “Para manter a população abastecida dos produtos essenciais, como etanol, açúcar, bioeletricidade e álcool para assepsia, o setor adotou regras rígidas de sanidade e segurança para garantir a saúde dos colaboradores”, complementa.

Também foi feita a doação de 332 mil litros de álcool 70 para uso durante as eleições deste ano, em uma parceria com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O insumo teve como destino a fabricação de álcool em gel para eleitores e a desinfecção de superfícies.

novaCana.com


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