Cana: Safra / Moagem

Job eleva previsão de produção de etanol do Centro-Sul; reduz moagem de cana em 7,5%


Reuters - 27 ago 2021 - 07:49

A moagem de cana do Centro-Sul do Brasil em 2021/22 foi estimada em 533 milhões de toneladas, com um corte de 7,5% na comparação com a projeção de maio por conta do impacto da seca e das geadas, previu nesta quinta-feira a consultoria Job Economia, que por outro lado subiu levemente a estimativa de produção de etanol em meio a preços elevados no mercado interno.

A previsão de fabricação de etanol de cana na principal região produtora do país ficou agora em 25,10 bilhões de litros em 2021/22, aumento de 2,45% ante a projeção anterior, enquanto a produção de açúcar foi estimada em 33,4 milhões de toneladas em 2021/22, versus 37,2 milhões anteriormente (-10,2%), em meio à quebra de safra.

“Foi uma reversão de expectativa. As indústrias estão fazendo mais etanol do que o previsto”, disse o sócio-diretor da consultoria, Julio Maria Borges, em entrevista à Reuters.

Ele comentou ainda que o mercado de gasolina, em um cenário de menor oferta de matéria-prima de etanol, acaba puxando a fabricação do álcool anidro (utilizado na mistura com o combustível fóssil): “A restrição da oferta cai toda no hidratado, como vende mais gasolina, puxa a produção de anidro”.

Na comparação com a temporada passada, no entanto, a produção de etanol de cana do Centro-Sul cairá quase 10%, diante de uma redução da moagem de cana esperada em 12% e com a produção de açúcar recuando 13%, segundo números da Job.

Com a menor oferta, os preços do etanol no estado de São Paulo, maior produtor e consumidor do país, estão nos maiores patamares desde março de 2016, já considerando valores deflacionados, conforme levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP.

O etanol anidro, misturado na proporção de 27% na gasolina, foi comercializado a R$ 3,7583 por litro na última semana, nas usinas paulistas, com um alta de 84% ante o mesmo período do ano passado. Já o hidratado, usado diretamente pelos veículos, subiu mais de 75% na comparação anual, na esteira de ganhos da gasolina e da recuperação do petróleo no mercado internacional.

Tirando proveito

Segundo Borges, no caso do etanol, cuja produção é em grande parte vendida no mercado interno, as usinas conseguem aproveitar mais, já nesta safra, os ganhos dos preços em comparação com o açúcar de exportação – com cotações previamente fixadas.

“Trinta por cento do açúcar é comercializado no mercado interno e praticamente todo o álcool é mercado interno, isso foi beneficiado com aumento dos preços já neste ano”, comentou o analista.

Ele estima que a receita por tonelada de cana vai aumentar entre 60% a 70% em relação ao ano passado, por conta da disparada dos preços.

“O pessoal fala muito de aumento de custo. Claro que está aumentando, mas não chega neste nível de 60% de jeito nenhum”, afirmou Borges, ressaltando a possibilidade de boas margens.

Ele comentou que, no caso do açúcar de exportação, o setor não conseguiu aproveitar os ganhos nos mercados futuros para a safra atual, porque a maior parte já estava fixada.

Somente neste ano o primeiro contrato futuro do açúcar bruto negociado em Nova York subiu cerca de 27%.

Mas as usinas estão aproveitando para fixar vendas das safras de 2022 e 2023, uma vez que os preços “foram muito acima do esperado”.

“Minha expectativa é que, para a safra 2022/23, cerca de 50% a 60% já esteja fixado. É um recorde total, as usinas estão fazendo uma gestão de risco muito competente”, disse e completa: “Por que não fixaram mais? Porque com essa quebra de safra estão com dúvida sobre o tamanho da moagem em 2022/23, mas aproveitaram sim de maneira inusitada, fixando safras futuras”.

Para Borges, o ano de 2021 foi surpreendente em todos os aspectos: “A quebra foi muito maior que a inicialmente prevista, e o aumento de preços foi muito maior do que o inicialmente previsto: surpresa dos dois lados”.

O cenário para a safra que vem não é muito auspicioso porque a seca afetou a cana que foi plantada, concordou ele.

Com uma menor oferta de açúcar neste ano, a Job reduziu a previsão de exportações do Brasil em 2021/22 para 27,10 milhões de toneladas, ante 29,9 milhões na previsão anterior, versus 32 milhões no ciclo passado.

No caso do etanol, os embarques para o exterior foram estimados em 2,2 bilhões de litros, estáveis ante previsão de maio, ante 2,9 bilhões em 2020/21.

Roberto Samora