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Cana: Safra / Moagem

Geada afeta canaviais de Ribeirão Preto, mas reflexos só devem ser percebidos em dez dias

Frio intenso pode danificar parte nova das plantas causando a morte ou reduzindo o acúmulo de sacarose, essencial à produção de açúcar. Produtores estão apreensivos


G1 - 09 jul 2019 - 07:32
Pendão na cana-de-açúcar é sinal de menor produtividade da planta, diz produtor

A geada provocada pela queda da temperatura na região de Ribeirão Preto, em São Paulo, preocupa produtores de cana-de-açúcar. É que o gelo formado sobre as plantas incide diretamente na qualidade da matéria-prima e pode comprometer o acúmulo de sacarose, essencial para a produção de açúcar.

Entre a noite de sábado (6) e a madrugada de domingo (7), várias cidades registraram geada. Em Sertãozinho (SP), os termômetros chegaram a registrar 1,6°C. Apesar da preocupação, agricultores e especialistas só poderão estimar o impacto sobre a lavoura atingida em dez dias.

“É quando o estrago se estabelece definitivamente. Hoje, você tem um amarelamento, um branqueamento superficial, que dá para ver a olho nu. Esse amarelamento pode se reverter ou pode se intensificar dependendo do dano causado”, afirma o produtor Marcelo Ravagnani.

Segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), até o fim da primeira quinzena de junho, as usinas da região Centro Sul moeram 42,37 milhões de toneladas. O resultado indica uma leve queda de 3,92%, em comparação com o mesmo período do ano passado.

A safra 2019/2020 teve início em abril, com previsão de moagem total de 632 milhões de toneladas da matéria-prima.

Ravagnani planta 360 hectares de cana-de-açúcar em Batatais (SP). Ele acredita que o frio intenso possa ter prejudicado a plantação. Se isso se confirmar, previsões feitas por representantes do setor serão impactadas. Um sinal ruim na lavoura do produtor é a presença do pendão na planta, causado pelo estresse do frio.

“Ela acionou o modo emergência. A maneira dela se perpetuar é ela se reproduzir. Então, ela solta o pendão, para de acumular sacarose, para de crescer e começa a se defender, visando a perpetuação. Isso ocasiona perda de peso e de matéria-prima para a usina”, relata.

De acordo com o engenheiro agrônomo Rodrigo Ortolan, o período seco contribuiu para a colheita, mas se a geada afetou a cana que está pronta para ser colhida, a planta entra em um rápido processo de deterioração.

O especialista explica que, em todas as culturas, a geada afeta a parte mais jovem da planta e pode causar a morte dela, dependendo da intensidade.

“Com a cana nova, ela vai matar a gema apical, que fica no começo das folhas [próximo ao chão]. Matando essa gema, a cana para de crescer e começa a necrosar. Ela vai morrer totalmente e vai renascer. Ela rebrota, mas o produtor perde todo o dinheiro investido até o momento”, diz Ortolan, ao se referir a gastos com insumos para a lavoura.

Segundo o engenheiro agrônomo, com a planta já adulta, a área mais nova do caule é considerada a mais frágil.

“É nesses tecidos mais novos que a geada vai agir, matando esses tecidos. A partir disso, a cana começa a se deteriorar e vai perdendo as boas qualidades. Vai perder açúcar, vai aumentar a fibra, pode haver entrada de bactérias e fungos que podem contaminar a usina”, explica.

Ortolan afirma que ainda é cedo para estimar prejuízos, mas diz que, se houver muitas perdas, os reflexos poderão ser percebidos nos preços.

"As usinas vão ter que modificar o programa de colheitas delas para começar a colher essas canas rapidamente, para que não tenha perda por qualidade ou venha a contaminar as suas unidades”, afirma e complementa: “Todo mundo vai querer ter a sua cana colhida para amenizar os efeitos negativos da geada e não tem como colher de todo mundo”.