Os gastos agrícolas foram de R$ 11.496,31/ha contra os R$ 9.184,60/ha do ciclo 2020/21, aumento de 25,2%; despesas industriais e com bioeletricidade também aumentaram
Preços elevados, mas custos também. Ainda que a pesquisa do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) sobre os gastos com a produção de cana, etanol, açúcar e bioeletricidade na região Centro-Sul não tenha focado nas margens das usinas, fica claro que, apesar das despesas consideravelmente elevadas em 2021/22, as unidades se beneficiaram de ganhos mais favoráveis em relação aos observados em temporadas anteriores.
Mas isto não quer dizer que as sucroenergéticas não tiveram que enfrentar desafios na temporada: desde a redução da produtividade devido a problemas climáticos à elevação no preço do diesel, que impacta nas despesas com maquinários, passando pelo aumento dos dispêndios com insumos agrícolas. Para completar, os gastos com mão de obra e arrendamentos também cresceram.
Em um setor caracterizado por seu elevado custo fixo, estas circunstâncias reduziram a capacidade de diluição dos gastos na área industrial, que também foi onerada pela alta dos insumos químicos e dos materiais de manutenção. Com isso, o custo agroindustrial total aumentou em 41%, conforme o Pecege.
A análise foi feita para incluir desde os gastos da entressafra 2020/21, que foram amortizados de acordo com a curva de moagem da safra que se seguiu, até o período de colheita de 2021/22. Assim, os custos da entressafra mais recente serão alocados na análise do ciclo seguinte.
Em outras palavras, a usina modelo teve a entressafra contabilizada entre novembro de 2020 e março de 2021 e a safra entre abril e novembro de 2021. Conforme o economista João Rosa, que atua como gestor de novos projetos do instituto, as partes administrativa, de comercialização e formação de preços ainda não foram captadas.
“Esta foi uma das melhores safras em 15 anos em termos de margens”, João Rosa (Pecege)
A amostra contou com dados de 27 grupos econômicos, representando 56 usinas localizadas em oitos estados. As unidades em questão moeram cerca de 125,9 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, o equivalente a 24% da moagem do Centro-Sul no acumulado até dezembro da safra 2021/22.
São Paulo é o estado com maior número de participantes, com 23 usinas, seguido de Minas Gerais, com 17 unidades.
Na reportagem completa (exclusiva para assinantes), o NovaCana irá trazer detalhes da pesquisa realizada pelo instituto, relacionando os indicadores técnicos e os custos agroindustriais da região Centro-Sul durante o ciclo 2021/22. Os dados de levantamento e de acompanhamento de safra são feitos pelo Pecege Projetos e demonstram uma média dos indicadores da região.
Todos os detalhes são apresentados também por meio de infográficos:
- Custos de produção da cana-de-açúcar em 2021/22 e comparativo com 2020/21
- Custos de processamento industrial em 2021/22 e comparativo com 2020/21
- Custos de produção da bioeletricidade em 2021/22 e comparativo com 2020/21
- Custos com CBios em 2021/22 e comparativo com 2020/21
- Desempenho das usinas em cada etapa produtiva
- Custos para produzir e moer uma tonelada de cana
- Detalhes agrícolas e operacionais da pesquisa
Preços elevados, mas custos também. Ainda que a pesquisa do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) sobre os gastos com a produção de cana, etanol, açúcar e bioeletricidade na região Centro-Sul não tenha focado nas margens das usinas, fica claro que, apesar das despesas consideravelmente elevadas em 2021/22, as unidades se beneficiaram de ganhos mais favoráveis em relação aos observados em temporadas anteriores.
Mas isto não quer dizer que as sucroenergéticas não tiveram que enfrentar desafios na temporada: desde a redução da produtividade devido a problemas climáticos à elevação no preço do diesel, que impacta nas despesas com maquinários, passando pelo aumento dos dispêndios com insumos agrícolas. Para completar, os gastos com mão de obra e arrendamentos também cresceram.
Em um setor caracterizado por seu elevado custo fixo, estas circunstâncias reduziram a capacidade de diluição dos gastos na área industrial, que também foi onerada pela alta dos insumos químicos e dos materiais de manutenção. Com isso, o custo agroindustrial total aumentou em 41%, conforme o Pecege.
A análise foi feita para incluir desde os gastos da entressafra 2020/21, que foram amortizados de acordo com a curva de moagem da safra que se seguiu, até o período de colheita de 2021/22. Assim, os custos da entressafra mais recente serão alocados na análise do ciclo seguinte.
Em outras palavras, a usina modelo teve a entressafra contabilizada entre novembro de 2020 e março de 2021 e a safra entre abril e novembro de 2021. Conforme o economista João Rosa, que atua como gestor de novos projetos do instituto, as partes administrativa, de comercialização e formação de preços ainda não foram captadas.
“Esta foi uma das melhores safras em 15 anos em termos de margens”, João Rosa (Pecege)
A amostra contou com dados de 27 grupos econômicos, representando 56 usinas localizadas em oitos estados. As unidades em questão moeram cerca de 125,9 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, o equivalente a 24% da moagem do Centro-Sul no acumulado até dezembro da safra 2021/22.
São Paulo é o estado com maior número de participantes, com 23 usinas, seguido de Minas Gerais, com 17 unidades.
Na reportagem a seguir, o NovaCana traz detalhes da pesquisa realizada pelo instituto, relacionando os indicadores técnicos e os custos agroindustriais da região Centro-Sul durante o ciclo 2021/22. Os dados de levantamento e de acompanhamento de safra são feitos pelo Pecege Projetos e demonstram uma média dos indicadores da região.
Também foram feitos comparativos com o fechamento do ciclo 2020/21, embora os dados da temporada mais recente ainda não estejam consolidados; ou seja, poderão sofrer correções no futuro.
Gastos no campo
De acordo com os cálculos do Pecege, o custo de produção da cana própria em 2021/22 foi de R$ 160,67 por tonelada, 42,1% acima de um ano antes. Considerando o valor por hectare, os gastos atingiram R$ 11.496,31 contra os R$ 9.184,60/ha do ciclo 2020/21, aumento de 25,2%; uma variação menor por conta da queda de produtividade.
Ainda que todas as áreas tenham sido impactadas, a pesquisa observou que a formação de canavial foi a que teve elevação de custos mais evidente, especialmente por conta do aumento do diesel, uma vez que essa etapa necessita de maquinários pesados.
Por outro lado, o Pecege aponta que o custo de produção de cana própria teve uma variação abaixo da cana de terceiros. Assim, as usinas com maior produção da matéria-prima puderam capturar os preços elevados dos produtos em 2021/22 com uma menor pressão sobre os gastos.

Outro destaque foi o custo com arrendamentos. Com o aumento do valor do Açúcar Total Recuperável (ATR), esta categoria, que representava 17,8% dos custos agrícolas totais, passou a ocupar 22,6%, superando a parcela da formação de canavial, de acordo com a pesquisa.
O aumento do custo do ATR, aliado à redução da produtividade agrícola, fez com que os gastos com arrendamentos subissem 76,7%, para R$ 33,21/t. Já os valores por hectare passaram de R$ 1.525,75/ha para R$ 2.376,18/ha, alta de 55,7%.
As despesas com os tratos culturais da cana soca aumentaram 12,3%, para R$ 2.912,28/ha, no ciclo mais recente – dentro desta categoria, a etapa que teve maior elevação foi a de royalties, com 49,1%, seguida de irrigação e fertirrigação, que subiu 40,9%. Conforme o relatório, o primeiro item se refere à expansão da área plantada com variedades protegidas, algo recorrente em períodos de crescimento da rentabilidade do setor, além de reajustes no pagamento dos royalties acompanhando a inflação.
Já a etapa de colheita, transbordo e transporte (CTT) saiu de R$ 2.252,03/ha para R$ 2.528,39/ha, incremento anual de 12,3%. Nela, a categoria de corte aumentou 24,1% entre as duas últimas temporadas, no maior incremento da etapa. Ela foi seguida de perto pela operação de apoio, que subiu 23,4%.
Desempenho agrícola díspar
O Pecege destaca que a avaliação dos custos de formação do canavial e de tratos culturais da cana soca tem grande influência do período de análise da pesquisa. Como a coleta de dados foi feita a partir da entressafra de 2020/21 para uso em 2021/22, alguns insumos não estavam com preços tão elevados como teriam ao longo de 2021. “Assim, quanto mais próximo do final da safra um insumo foi adquirido, maior terá sido seu aumento frente ao ciclo 2020/21”, completa o relatório.
Ao longo do segundo semestre de 2020, os preços dos insumos agrícolas, com foco nos fertilizantes, estavam em uma recuperação progressiva. Contudo, a elevação de diversas commodities fez com que os grandes produtores globais buscassem mais insumos. Com isso, o Pecege pontua que o início de 2021 foi de antecipação de aquisição pelos produtores brasileiros de soja, elevando o preço dos fertilizantes.
Assim, mesmo que a alta tenha se seguido em 2021, a concentração da aquisição de insumos agrícolas no início do período fez com que o impacto das elevações nos custos do ciclo 2021/22 não fosse tão evidente.
João Rosa também destaca que a relevância dos insumos no bolso do produtor dependeu do momento da compra. “Muitas empresas estavam com o estoque comprado e aproveitaram os bons preços. O problema provavelmente será para a safra 2022/23”, prevê.
Por outro lado, a formação do canavial tem uso relevante do diesel e, neste caso, a aquisição de grandes quantidades de forma antecipada não é uma prática comum. Além disso, o custo do produto teve grande influência da recuperação do mercado global de energia.
Com isso, a formação de canavial teve aumentos mais relevantes do que outras etapas, saindo de R$ 1.856,24/ha para R$ 2.291,80/ha, crescimento de 23,5%.
Dentro da formação do canavial, os gastos médios com plantio cresceram 25,6%, já com preparo de solo ampliaram 16,6% e os com tratos culturais de cana-planta aumentaram 27,2%, considerando os valores por hectare.

Além de detalhar os gastos médios das usinas avaliadas, o Pecege também dividiu a amostra estudada em grupos de desempenho, a fim de visualizar o quanto os custos poderiam variar dentro de cada etapa. O grupo A é o das usinas mais eficientes e, portanto, o que alocou menos capital na fase em questão; já o D é o das companhias menos eficientes. Os grupos B e C representam desempenhos intermediários.
Com isso, no estágio de preparo do solo, o valor variou de 1.563,45/ha a R$ 6.865,36/ha – os resultados são ainda mais dispares do que os evidenciados no ciclo 2020/21, conforme o relatório. “Nesta operação, em particular, percebe-se uma grande diversidade de estratégias empregadas pelas usinas sucroenergéticas, o que se reflete em uma grande amplitude de custos, abrangendo desde o preparo mínimo até técnicas mais intensivas, envolvendo gradagem pesada”, observa.
Outra questão que ampliou a dispersão dos custos dentro da amostra foi a volatilidade dos mercados dos insumos agrícolas e do diesel, pois cada usina tem uma estratégia específica para a aquisição destes itens.
Além do aumento do preço do diesel, a categoria de preparo do solo foi impactada pelo maior custo da mão de obra. O plantio com meiosi, por exemplo, foi um dos fatores que fizeram esses gastos crescerem por conta da adoção de desdobra manual. O custo com mudas também teve alta no período.
Deste modo, as despesas com plantio no período variaram de R$ 3.541,57/ha a R$ 9.898,99/ha entre os grupos de desempenho categorizados pelo Pecege. “Os valores correspondem à média ponderada dos tipos de plantio convencional, mecanizado e por meio de meiosi”, acrescenta o relatório.
A dispersão entre os valores de 2020/21 e 2021/22 também cresceu, motivada especialmente pela alta volatilidade de preços em etapas anteriores da cadeia produtiva.
Já nos gastos com tratos culturais de cana planta, a amplitude foi de R$ 1.104,20/ha a R$ 6.023,76/ha, também impulsionada pelos dispêndios com maquinários e insumos agrícolas.
Na categoria de tratos culturais da cana soca, em que a média de gastos foi de R$ 2.912,28/ha, apenas um dos seis itens que compõem a etapa apresentou queda no montante gasto, a parte administrativo-agrícola. Nos grupos de desempenho, também houve incremento da dispersão entre os melhores e piores em relação ao ciclo 2020/21, conforme o Pecege. Os valores variaram entre R$ 1.525,86/ha e R$ 5.024,22/ha.
Na etapa de corte, transbordo e transporte (CTT), o gasto administrativo-agrícola novamente passou por redução entre as duas temporadas. Além disso, houve retração na catação de bitucas, que possuía um valor irrisório em 2020/21 e foi zerada em 2021/22.
Se os custos da categoria haviam caído no ciclo anterior devido à queda do diesel decorrente da pandemia, o inverso ocorreu em 2021/22. Além disso, embora a retração da produtividade tenha sido um fator altista, a elevação foi atenuada pela redução do raio médio e pela manutenção do ritmo acelerado na operação, devido à estiagem.
“Na safra 2021/22, a usina mais eficiente teve um custo de 2,5 vezes superior ao da menos eficiente, evidenciando a diversidade de contextos operacionais presentes na atividade do setor sucroenergético”, aponta o documento. Portanto, a variação entre o melhor e o pior desempenho foi de R$ 21,07/t a R$ 53,18/t.
Por fim, os arrendamentos tiveram grande relevância nos gastos, acompanhando os preços da matéria-prima. “Somando-se ao acentuado crescimento do preço do ATR – 52,2%, segundo o Consecana-SP –, a manutenção de elevadas cotações nos mercados de grãos, ao aumentar o custo de oportunidade da terra, pressionou os requisitos de pagamentos em termos de toneladas de cana-de-açúcar por hectare”, pontua o documento.
“Os produtores fizeram um colchão na safra passada que deve ser convertido em investimentos para melhorar a produtividade”, João Rosa (Pecege)
Assim, os gastos com arrendamento foram ainda maiores do que os com formação do canavial na composição dos custos com cana própria. Dentre os grupos de desempenho, os valores oscilaram entre R$ 1.433,30/ha e R$ 3.757,82/ha.
Rosa complementa que há fatores positivos no aumento do arrendamento. “Os valores em toneladas por hectare comprometidos no arrendamento cresceram, principalmente em função da competição com a soja, mas não foi algo tão grande. Esta subida foi impactada sobretudo pelo preço. É um custo relativamente bom, pois quer dizer que o cenário de preço também está aumentando”, explica.
Elevação também na indústria
O custo com processamento industrial das usinas analisadas pelo Pecege fechou em 31,82/t, valor 47,5% acima de um ano antes, quando a média era de R$ 21,57/t. Esta cifra abrange as despesas para produção de açúcar e etanol.
Segundo o instituto, o aumento dos gastos foi motivado pela redução do uso da capacidade instalada das usinas devido à retração da moagem de cana – como os custos fixos da indústria são elevados, a diluição ficou prejudicada. Além disso, insumos químicos, combustíveis e lubrificantes e materiais de manutenção também pesaram na conta, pois ocorreram aumentos nos preços internacionais.

De acordo com o documento, as altas destes produtos foram causadas especialmente, “pela ruptura nas cadeias de suprimento, com o colapso na logística global e forte pressão nos custos de movimentação de cargas. Adicionalmente, a manutenção de um câmbio desvalorizado não atenuou a pressão na mensuração dos dispêndios em moeda nacional”.
A operação industrial, por sua vez, gerou gastos de R$ 21,75/t, aumento de 46,3% ante o ciclo anterior. Dentro desta categoria, o incremento mais relevante foi com a mão de obra, que subiu 73,78%.

Além do acréscimo do salário nominal dos funcionários, o Pecege explica que a redução da moagem influenciou na diluição dos custos médios de folha de pagamento; com isso, a mão de obra foi uma das rubricas com maior elevação percentual na composição dos custos industriais. Olhando para os grupos de desempenho, o valor variou entre R$ 2,36/t e R$ 14,88/t, oscilando conforme os níveis de automação das plantas, produtos finais e escala de moagem.
Na ala dos insumos industriais, a alta foi de 68,7% entre os dois anos analisados, puxada especialmente pelo aumento dos insumos químicos. O melhor desempenho registrado pelo Pecege foi um gasto de R$ 2,05/t com esta categoria e o pior, de R$ 9,33/t. A disparidade é motivada especialmente pelo período de compra dos insumos e o mix de produção de cada unidade.
Cal virgem industrial, ácido sulfúrico e soda cáustica – os principais químicos aplicados pelas sucroenergéticas – aumentaram consideravelmente em 2021. O ácido sulfúrico, em especial, teve a produção impactada pela queda na oferta de enxofre obtida a partir do refino do petróleo.
Neste sentido, combustíveis e lubrificantes também aumentaram de custo devido a elevação do preço internacional do ouro negro.
A manutenção foi a segunda categoria mais cara para as empresas dentro do custo de operação industrial. A alta de 29,4% no comparativo com 2020/21 foi causada pelo aumento dos principais itens usados nesta etapa, especialmente o aço. Após a pandemia, a retomada na demanda pelo produto foi mais veloz que o crescimento da oferta, resultando em alta. O custo logístico também cresceu e, em menor escala, os serviços terceirizados de manutenção.
Os desempenhos das usinas variaram entre R$ 2,04/t e R$ 12,03/t para o item. Segundo o Pecege, a variação ocorreu por conta da diferença nas idades das plantas e nas políticas em relação à manutenção preventiva.
Já as despesas industriais foram as únicas que reduziram ano contra ano, com queda de 23,1% devido especialmente à terceirização das atividades administrativas industriais. O valor inclui a gerência industrial e toda estrutura administrativa de apoio à produção. Neste caso, os gastos das plantas oscilaram entre R$ 0,54/t e R$ 3,26/t.
Bioeletricidade rentável
Conforme o Pecege, na média, as usinas do Centro-Sul apresentaram produtividade de 61,83 quilowatt-hora por tonelada, uma retração de 6,18 kWh/t em comparação com 2020/21.
Assim como aconteceu em outras áreas, os custos fixos da bioeletricidade foram menos diluídos devido à retração da moagem, especialmente em relação à mão de obra e manutenção. Isso desembocou na necessidade de compra de biomassa de terceiros por alguns grupos e expansão de recolhimento da palha no campo.
“Tais movimentos, somados à elevação das rubricas industriais de insumos químicos e manutenção de caldeiras, resultaram em uma elevação média de 18% dos custos de geração de bioeletricidade”, detalha o relatório.
O custo total com bioeletricidade foi de R$ 5,11/t, crescimento de 10,9% em relação aos R$ 4,61/t de um ano antes.
Por outro lado, o preço para a comercialização desta energia também subiu, mais do que compensando os gastos. O Pecege destaca que, em 2021, houve alteração na remuneração da energia no mercado à vista e o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que era calculado em base semanal, passou a ser feito em base horária para refletir elementos como as condições de produção e nível de consumo.
“A safra 2021/22 se iniciou em um contexto de retomada da demanda de energia elétrica aos níveis pré-pandemia, assim como em um período de estiagem e, por conseguinte, redução do nível dos reservatórios (principal fonte de energia da matriz elétrica brasileira)”, aponta o relatório.
Os dois fatos pressionaram o PLD nos dois primeiros trimestres da safra. Com isso, o índice atingiu o teto estrutural de R$ 583,88/MWh em julho e agosto.
Deste modo, o preço no mercado à vista subiu, aumentando a margem das usinas, especialmente no segundo trimestre da safra. Em outubro, o PLD recuou com a retomada das chuvas.

Na amostra do Pecege, 18,3% do volume de energia foi comercializado no mercado à vista. Na média, o preço foi de R$ 395/MWh, conforme o instituto. Já as usinas com contratos de longo prazo no mercado regulado obtiveram um valor médio de R$ 271/MWh. Considerando todas as modalidades de venda, a receita média com bioeletricidade foi de R$ 420,53/MWh.
Desta forma, houve uma margem de 66,3% nas usinas do Centro-Sul analisadas, tornando a cogeração de eletricidade mais atrativa.
“Ainda que seja uma atividade rentável na observação da média, é essencial que se analise a dispersão de custos na amostra Pecege. O maior vetor explicativo da disparidade é justamente a variação da eficiência energética entre as plantas”, pondera o relatório. As usinas exportaram, considerando os grupos de desempenho, de 10,64 KWh/t a 98,72 KWh/t. Com isso, os custos variaram de R$ 31,16/MWh a R$ 173,81/MWh no período.
Os dados dos custos de produção da bioeletricidade excluem os valores referentes à energia consumida pela própria usina para produção de açúcar e etanol.
Custos com CBios
Em relação aos créditos de descarbonização (CBios), as usinas tiveram breve redução em suas receitas, caindo de R$ 31,22 por crédito em 2020/21 para R$ 29,58 em 2021/22.
“Deve ser notado que, em função da redução da produção e das vendas de etanol, a receita líquida média aferida por litro do biocombustível se elevou entre as safras, mantendo o papel dos CBios como fonte adicional de geração de caixa das usinas sucroenergéticas”, complementa o estudo.
Os custos operacionais foram menos relevantes na determinação do lucro com os créditos. Assim, as deduções tributárias foram as que mais pesaram.

Em relação aos grupos de desempenho, o valor oscilou de R$ 0,80 a R$ 7,46 por CBio. A dispersão se deu especialmente por conta de ganhos de escala no processo de certificação, com usinas maiores podendo diluir mais os seus custos.
Perspectivas para 2022/23
Os custos do ciclo 2021/22 foram marcados por problemas operacionais, com efeitos climáticos que geraram a retração da produtividade e desembocaram em dificuldades na diluição dos custos. Além disso, fatores mercadológicos, como a recuperação das commodities agrícolas e energéticas, pressionaram o preço dos insumos agrícolas e industriais em um contexto de oferta ainda restrita devido a efeitos da pandemia de covid-19.
Para completar, eventos geopolíticos extremos também pesaram na conta. “Dessa forma, as consequências observadas foram aumentos generalizados de custos agrícolas e industriais”, destaca o estudo.
A visão do Pecege para o próximo ciclo é de que, apesar de uma esperada melhora na produtividade agrícola e na moagem, as elevações consideráveis nos preços dos insumos agrícolas e industriais devem gerar novas altas dos custos.
“Na área agrícola, os fertilizantes a serem usados durante o ciclo 2022/23 terão sido adquiridos em um momento de alta. De maneira semelhante, excetuando a ocorrência de alterações significativas no âmbito tributário ou de precificação do diesel, o preço desse combustível deve permanecer elevado em meio ao pico histórico de preços do petróleo no mercado global”, apresenta o relatório.
O relatório destaca que os valores médios não correspondem à realidade exata de cada unidade sucroenergética. Ainda assim, o Pecege considera seguro afirmar que o aumento contínuo dos gastos deve começar a reduzir as margens de lucro das usinas, afetando as estratégias que vinham sendo aplicadas com o arrefecimento da pandemia.
Com isso, as empresas devem seguir investindo em diversificação, aplicando o caixa gerado com os preços elevados das últimas duas temporadas em ações que garantam um aumento da rentabilidade da atividade nos próximos ciclos.
“Como fator de atenção, é necessário notar que a capacidade de financiamento do setor pode se reduzir em meio a alta das taxas de juros no Brasil em um ambiente inflacionário”, apresenta o estudo.
Custo subiu, mas preço subiu mais
Ainda que os números não estejam consolidados, o Pecege estima que os preços dos produtos tenham subido quase 57% na temporada por conta da recuperação do mercado global de energia e da manutenção do real desvalorizado. “Foi uma safra maravilhosa em termos de formação de margem”, completa Rosa.
O gestor fez um resumo do quanto custou moer uma tonelada de cana em 2021/22 no comparativo com o ciclo anterior. Do ponto de vista operacional, em 2021/22, o valor foi de R$ 143/t – acrescentando depreciação e capital, o valor total foi de R$ 161/t. Um ano antes, o gasto operacional era de R$ 103/t passando para R$ 114/t considerando o custo total.

As etapas mais onerosas foram os tratos culturais da cana soca seguidos do arrendamento.
Já o custo de moagem de uma tonelada de cana, levando em conta operação e bioeletricidade, subiu de R$ 18/t para R$ 25/t – o valor total, por sua vez, saiu de R$ 27/t para R$ 37/t. Neste caso, as etapas mais onerosas foram mão de obra e capital.

Indicadores técnicos
Dentre os aspectos técnicos da pesquisa do Pecege, o instituto destaca a redução da produtividade entre os ciclos 2020/21 e 2021/22, saindo de 81,22 toneladas por hectare para 71,55 t/ha, queda de 11,9%.
Os principais motivos foram, conforme o relatório, “as condições climáticas adversas vigentes, com restrição hídrica no período de desenvolvimento vegetativo e baixas temperaturas nos meses de julho e agosto, levando a ocorrências de geadas em muitas áreas dos Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná”.
As intempéries exigiram uma colheita antecipada da cana em diversas regiões, fator que reduz a produtividade e aumenta os custos das operações de apoio, segundo o documento. Foi necessário, ainda, antecipar reformas em algumas áreas com falhas devido aos incêndios terem danificado as soqueiras.
Já a concentração de ATR teve breve queda, tanto na cana própria quanto na de fornecedores, de 0,57% e 0,94%, respectivamente.
O direcionamento desta matéria-prima no ciclo 2021/22 foi de 45,1% para o açúcar, ante os 46,7% de um ciclo antes. O aparente aumento para o etanol, entretanto, se deu em um cenário de restrição de matéria-prima e de alta no preço do petróleo no mercado internacional, o que gerou redução da produção total, mas acréscimo na de anidro.
O relatório também informa que o aumento de custos incentivou o uso de técnicas manuais, como a meiosi, que cresceu de 20,5% para 25,5% entre os ciclos – por consequência, o plantio mecanizado caiu de 69,4% para 53,23% no mesmo comparativo.
“Dadas as características deste método de plantio [meiosi], reduziu-se também a dose média utilizada de mudas, a qual passou de 13,16 t/ha na safra 2020/21 para 11,69 t/ha na safra 2021/22”, aponta o relatório.

O custo da compra de cana de terceiros também teve altas consideráveis. O preço de referência divulgado pelo Conselho dos Produtores de Cana de Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana-SP), no acumulado até dezembro, subiu de R$ 0,7292 por quilo para R$ 1,1846/kg, crescimento de 62,5%. Com isso, o custo do arrendamento também aumentou, em 55,7%.
Ainda conforme o documento, os arrendamentos foram impactados pela competição por terras para produção de grãos; o número de toneladas de cana exigidas por hectare arrendado, portanto, aumentou. Como o preço dos grãos estava elevado, houve crescimento de áreas destinadas à soja, incrementando o volume de cana própria na moagem das usinas em 4,9%.
Na área industrial, houve queda relevante do chamado Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci), saindo de 90,5% para 74,1% entre os dois ciclos, uma consequência da retração da produtividade agrícola e da pequena redução da área plantada de cana. Conforme João Rosa, em média, um quarto das usinas analisadas ficaram ociosas e tiveram uma safra mais curta por conta da falta de cana.
Já em relação às perdas industriais houve um acréscimo – de 10,6% para 11,6% – consequência dos problemas nos canaviais. Ao mesmo tempo, as paradas por conta de fatores diversos, como as chuvas, caíram devido ao clima mais seco e ao aumento da velocidade da colheita.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana