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Cana: Plantio

Meiosi ganha força como alternativa para aumentar produtividade dos canaviais

Evolução das tecnologias e utilização de mudas pré-brotadas facilitam implementação da técnica


novaCana.com - 30 abr 2019 - 09:58 - Última atualização em: 06 set 2019 - 07:56
Pesquisa do IAC demonstra que a técnica dos anos 1980 está ganhando espaço nas plantações de cana-de-açúcar

No setor sucroenergético, tudo depende da produtividade do canavial. Para as usinas, não adianta investir em outras áreas se o campo não está sendo bem cuidado, pois ele é o melhor caminho para aumentar o rendimento dentro das indústrias e reduzir custos.

Porém, os investimentos nas plantações têm sido baixos nos últimos anos. Em 2018, por exemplo, dentre os R$ 2,8 bilhões em financiamentos feitos via Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pelo setor, 70% foram direcionados para expansão e modernização industrial, enquanto apenas 11% foi para o plantio de cana-de-açúcar.

Além disso, mesmo quando há investimento no canavial, ele nem sempre é feito da melhor forma. A pressa pela expansão – a fim de aumentar a produção – pode levar à falta de cuidado com o campo, o que aumenta a chance de disseminação de pragas e doenças, levando a danos na plantação como um todo.

Cientes dessas possibilidades, alguns produtores de cana-de-açúcar estão trazendo de volta uma técnica de plantio que não só busca evitar essas consequências negativas como também pretende revertê-las: o Método Interrotacional Ocorrendo Simultaneamente, ou, simplesmente, meiosi.

Conforme descrito pelo professor José Emílio de Barcelos, na década de 1980, “o método consiste em plantar de forma intercalar um percentual da área de reforma, e sua própria produção será utilizada como muda para o restante da área. Neste período, a área pode ser utilizada com outras culturas de ciclo curto”.

Em outras palavras, um hectare do canavial é dividido de forma que as mudas de cana-de-açúcar sejam plantadas em linhas e, no vão entre elas, sobra espaço para que outra cultura possa ser cultivada. Para isso, são utilizados especialmente soja e amendoim, que proporcionam retornos econômicos, ou adubo verde, que garante um retorno agronômico.

Passados de seis a sete meses do plantio da muda de cana, cada planta é desdobrada para a região central do hectare, onde a outra cultura já teve seu ciclo completo e foi colhida. O índice de desdobra varia, dependendo das condições de tratamento e consequente crescimento das mudas plantadas.

Com a evolução das tecnologias no início dos anos 2000, a técnica foi relativamente abandonada. Porém, ela está sendo retomada por usinas em diversas regiões.

Conforme uma pesquisa sobre práticas de plantio realizada pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, em 2019, espera-se que 76,6% das unidades questionadas utilizem a meiosi nos canaviais.

A pesquisa levantou informações de 137 unidades produtoras na região Centro-Sul do Brasil nos meses de janeiro e fevereiro de 2019, totalizando uma área de renovação superior a 650 mil hectares.

O retorno da prática

De acordo com um estudo do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), além do barateamento do custo da muda, dois fatores foram importantes para a ressurgência da meiosi: “O uso de GPS (Sistema de Posicionamento Global) em equipamentos agrícolas – antes, havia uma dificuldade em marcar as linhas de plantio da cana-de-açúcar, hoje o GPS ajuda – e a utilização de mudas pré-brotadas (MPB)”.

Ana Paula Bonilha, especialista de Desenvolvimento de Produtos e Mercados de Cana-de-açúcar da Ourofino Agrociência, concorda com a ideia de que, hoje, o plantio mecanizado pode ser associado à meiosi, trazendo retornos positivos. “O plantio mecanizado busca diminuir um dos entraves da meiosi, o baixo rendimento da implantação da técnica”, afirma.

De acordo com ela, atualmente, há empresas de maquinários voltadas “fortemente” para melhorias do plantio de MPB, visando aumentar o rendimento e a qualidade da atividade. “Hoje, o plantio de MPB pode ser realizado por meio de máquinas específicas. Já pequenos e médio produtores, que possuem áreas menores operando no sistema de meiosi, estão realizando a atividade com auxílio de matracas e equipamentos menores”, explica.

Além disso, a especialista afirma que a prática vem ganhando espaço nos canaviais brasileiros: “[Isso ocorre], principalmente, devido à necessidade de se produzir mudas com alta sanidade livre de patógenos e pragas que possam vir a interferir no novo plantio de áreas de cana-de-açúcar”.

Meiosi x Cantosi

A alternativa à meiosi, em geral, é a cantosi, modelo que mais se aproxima de um viveiro tradicional. Nele, o canavial é considerado como um todo e, na hora da reforma, apenas um canto dele – com 20% a 30% da área total – recebe novas mudas de cana-de-açúcar. Os outros 70% a 80% são utilizados para plantio de grãos ou leguminosas.

A principal diferença com a meiosi é que, na cantosi, a área de reforma que receberá a desdobra pode ou não estar próxima da fileira plantada inicialmente, o que pode acarretar em maiores custos de multiplicação, com corte, carregamento e transporte.

meiosi 1 contexto

Bonilha afirma que a cantosi é uma alternativa vantajosa quando não é possível planejar a realização da meiosi. Por ser realizada normalmente em época seca, a técnica requer investimentos em irrigação, especialmente de pegamento, somente na linha das mudas. “Já na cantosi, o plantio é feito em época úmida (dezembro), então essa irrigação de pegamento torna-se menor ou, em alguns casos, desnecessária”, complementa.

A escolha do método também depende das tecnologias e da mão de obra disponíveis. A desdobra da meiosi pode ser manual, que é a opção mais comum – de acordo com a pesquisa do IAC, 87,6% das usinas a utilizarão em 2019 –, ou mecanizada, que depende de maquinário específico. A cantosi requer equipamentos considerados padrão por parte das empresas, sendo preferida em alguns casos por causa disso.

O gerente de desenvolvimento de produto Mauro Violante, do CTC, conta que a meiosi demanda um maior planejamento das operações, pois exige maior cuidado no controle de pragas e plantas daninhas, além da necessidade de irrigação para minimizar os riscos climáticos.

“Um mal planejamento, aliado aos riscos climáticos, pode impactar o atingimento da taxa de multiplicação, podendo gerar custos adicionais ou plantio de má qualidade”, alerta. No fim das contas, o método é desafiador e requer planejamento, ou o retorno pode ser menor do que o esperado.

Ainda assim, Bonilha, da Ourofino Agrociência, considera que o investimento é válido, pois as vantagens compensam. “Dentre elas, destaco a redução do consumo de muda, permitindo que mais cana seja enviada para a usina, o que aumenta a produção; a sanidade das mudas com relação a pragas e doenças; o ganho de produtividade; o benefício agronômico para o solo e o aumento da renda com a rotação de cultura; e a possibilidade de preenchimento de falhas”, enumera.

Além disso, o sistema de rotação de culturas também é considerado benéfico, pois reduz os custos de implantação do canavial, melhora o sistema de logística e traz benefícios para o campo, tratando das condições químicas, físicas, biota e microbiota do solo, de acordo com estudo do CTC. O sistema ainda protege o solo contra a erosão no período de canavial e o material orgânico remanescente da cultura intercalar colhida serve como adubo.

Violante, do CTC, afirma que a prática vem ganhando maior relevância no setor por apresentar um custo significativamente menor na formação dos canaviais. “Além de melhorar a qualidade da muda a ser utilizada e permitir maior velocidade de multiplicação de uma variedade de interesse”, completa.

Por outro lado, o gerente explica que alguns fatores são determinantes para que a meiosi não seja adotada. Entre eles estão a falta de conhecimento da técnica, a necessidade de um planejamento mais complexo, a disponibilidade de mão-de-obra e a necessidade de GPS.

“Para implementação do sistema meiosi, planejamento é palavra-chave para uma boa experiência”, Mauro Violante (CTC)

“A escolha da época de plantio da linha mãe (evitando épocas de maior déficit hídrico e garantindo equipamentos para irrigação), o tipo de variedade, de plantio e de colheita, o manejo de linha mãe (evitando áreas com alta incidência de pragas e daninhas), a escolha da cultura intercalar e a modalidade de cultivo (seja ele próprio, por meio de parcerias ou de arrendamento) são as principais variáveis a serem consideradas no planejamento e implementação”, enumera e continua: “Além disso, o monitoramento e a contagem periódica dos perfilhos e gemas é fundamental para obtenção das taxas de multiplicação esperadas na área”.

A influência da MPB

A utilização de mudas pré-brotadas – e seus benefícios no plantio – foi condicionante para o retorno da meiosi. O pesquisador Mauro Alexandre Xavier, do Programa Cana do IAC, afirma que a meiosi com MPB é um “exemplo de integração”.

“Ela está sendo adotada com bastante intensidade não apenas no Centro-Sul, mas também em outras importantes regiões de produção de cana-de-açúcar no Brasil. Ela tem sinergia com práticas conservacionistas e está alinhada com a agricultura sustentável”, garante.

O estudo do IAC demonstra que a utilização de MPB vem aumentando nos últimos anos, o que repercute na maior incidência da meiosi. Em 2018, 78,2% das usinas pesquisadas pretendiam utilizar essas mudas, enquanto, em 2019, 92% do total pretende aumentar o plantio com elas.

meiosi 2 especificidades

Os benefícios das mudas pré-brotadas consistem especialmente na diminuição de doenças e pragas, já que o uso da tecnologia no desenvolvimento de mudas sadias em viveiros contribui para reduzir as ocorrências de danos na implantação do canavial.

Além disso, o sistema possibilita a introdução de novas variedades mais rapidamente, também reduzindo custos de produção, seja de transporte ou na quantidade de mudas que vai para o campo, e permitindo o replantio de falhas com muito mais eficiência.

“Essa associação reduz o consumo de material de propagação no início do processo, agrega qualidade na operação e transfere com intensidade e de forma acelerada os ganhos genéticos e tecnológicos dos programas de melhoramento de cana-de-açúcar”, explica o pesquisador, que complementa: “Desta forma, o produtor transforma potencial em realidade e inclui rapidamente as novas tecnologias no seu dia a dia”.

“Meiosi, MPB e novas cultivares formam o tripé tecnológico do canavicultor moderno e contribuem para a produtividade de três dígitos”, Mauro Alexandre Xavier (IAC)

Em relação à escolha das variedades para o sucesso do método, ele afirma que os critérios devem ser estritamente técnicos: “Devem ser priorizados atributos como hábito de crescimento ereto, capacidade de perfilhamento intenso, uniformidade de emissão de perfilhos, crescimento inicial acelerado, internódios curtos, alto potencial de acúmulo de sacarose e período de utilização industrial longo”.

Mauro Violante ainda é mais específico e afirma que o CTC possui diversas variedades que apresentam maior perfilhamento, maior número de gemas por colmo e maior velocidade de crescimento, sendo mais adequadas ao sistema. Dentre elas, ele cita a CTC9005HP, a CTC20BT e a CTC 9003.

Rafaella Coury – novaCana.com