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Cana: Plantio

Mapeamento de intenção do plantio de cana revela atualização lenta; variedades antigas têm preferência

Pesquisa do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) demonstra qual a intenção de plantio na safra 2018/19. Enquanto alguns estados conseguem plantar novas variedades num ritmo melhor, outros continuam presos ao passado


novaCana.com - 24 jan 2019 - 11:02 - Última atualização em: 06 set 2019 - 11:25

No período de entressafra, que ocorre entre janeiro e março de cada ano, as preocupações do setor sucroenergético estão voltadas para os estoques, os preços dos produtos da cana-de-açúcar e os ajustes e as previsões para a temporada seguinte. No campo, o resultado total da moagem e a influência do clima para a plantação, especialmente com as chuvas, são as principais questões dos produtores. Além disso, também é nesta época que ocorre parte significativa dos investimentos no canavial.

Pelo terceiro ano consecutivo, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) realizou uma pesquisa com usinas e destilarias no Centro-Sul do Brasil a fim de mapear quais são as variedades de cana-de-açúcar que serão plantadas na próxima safra.

Nesta edição, foram recenseadas 165 unidades que correspondem a mais de 791 mil hectares de plantação – um novo recorde no levantamento de intenção de plantio no Brasil. As informações foram coletadas entre setembro e novembro de 2018 e o resultado indica um futuro que até pode ser mais positivo, mas ainda não muda o panorama do setor.

As novas variedades antigas

No Centro-Sul, as principais variedades que serão colhidas na safra 2019/20 são a RB867515 (15,2%), a CTC4 (13,2%) e a RB966928 (12,7%). A primeira, atualmente, tem a maior incidência nos canaviais, de acordo com o censo realizado pelo IAC em 2018, e já tem 22 anos.

Quando uma cultivar tem mais do que 15 anos, ela é considerada antiga e o seu potencial de produtividade fica muito distante das variedades novas. Conforme explica Rubens Braga, consultor do IAC e um dos responsáveis pela pesquisa, quanto mais novas são as variedades, mais produtividade elas têm. “Então, ao continuar plantando variedades antigas, o produtor não consegue obter o desejado ganho de rendimento”, afirma.

Observando a intenção de plantio para a próxima safra, mesmo que a RB867515 seja a principal variedade, 53,1% da área de plantio planejada será ocupada por variedades com menos de 15 anos. O dado parece positivo, mas a taxa de renovação do canavial brasileiro tem ficado abaixo do ideal há algumas safras. Além disso, a maior parte da área plantada em 2018/19 era composta por variedades antigas.

Também é importante que exista o maior número de variedades possível na plantação. O recomendado pelos programas de melhoramento é que uma única cultivar não ocupe mais do que 15% da área plantada, especialmente para garantir proteção no caso de risco biológico. Considerando que a intenção de plantio da RB867515 já está acima desta área máxima, a recomendação não está sendo seguida à risca.

Braga explica que, no fim das contas, a escolha de qual variedade será plantada depende muito do gosto das empresas. “É muito mais fácil multiplicar a cultivar que você já está trabalhando do que introduzir uma nova, especialmente pelos custos”, afirma. Porém, a utilização de meiose permitiu que o processo seja mais rápido e barato, o que deveria incentivar o processo de substituição.

As principais escolhas do Centro-Sul

Em 2017, a RB867515 representava 42,8% da intenção de plantio no Centro-Sul para a safra 2017/18 – número que caiu para 15,2% no atual levantamento. A redução entre os dois anos pode ser um alento para o canavial, porém, a variedade não deixará de ser plantada e isso não indica uma redução da sua presença no campo – que ainda é de, pelo menos, 23%.

“Ainda tem muita concentração da RB867515. Ela é muito presente no campo, mas está saindo. Vai demorar um pouquinho, pois sua porcentagem é muito alta, pelo menos uns três ou quatro anos até sair”, estima Braga.

Já a CTC4, que vem crescendo em participação nas últimas safras, é a segunda com maior intenção de plantio em 2018/19, especialmente pela expectativa de maior presença nos estados da Bahia, Mato Grosso e Tocantins, e em algumas regiões de São Paulo.

De acordo com Braga, essa escolha é benéfica por ela ser bem adaptada à mecanização, “justamente pelo número de perfilhos, que é muito maior por metro”. A cultivar teve destaque no Cerrado, onde já é uma das principais, mas está crescendo no Brasil todo. Com sete anos de lançamento, a possibilidade de maior produtividade com ela é maior.

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O pesquisador explica que o que vai influenciar efetivamente nos ganhos na produção de acordo com a variedade é a alocação.

“Hoje em dia não temos mais variedades supercampeãs, como a RB867515 já foi. Para lucrar com a cana-de-açúcar, é preciso ser bom na alocação das variedades”, Rubens Braga, consultor do IAC

Cada empresa possui vários ambientes dentro da sua área de produção e sua função é definir adequadamente qual cultivar vai em cada lugar. “Desta forma, é possível ganhar dinheiro”, conclui.

Manejo eficiente, maior produtividade

No fim das contas, é a escolha das variedades e o manejo que vão influenciar no sucesso do canavial. Assim, as perspectivas de colheita para a safra 2019/20 podem indicar como a indústria da cana-de-açúcar vai avançar – ou não – nos principais estados produtores.

Em relação às variedades disponíveis, os estados de São Paulo, Bahia, Mato Grosso e Tocantins estão deixando de investir nas mais antigas, como a RB867515, e dando preferência para as mais novas – o que é o oposto do que os outros estados farão.

O Paraná, por exemplo, terá 34,6% de sua nova área plantada dedicada a esta variedade, o que indica um atraso nos investimentos na produção. Braga chama essa perspectiva de crítica: “A concentração dela é muito exagerada e será difícil diminuir”. Por outro lado, a CTC4 está crescendo em todos os estados, o que colabora com a expectativa do pesquisador sobre a saída das variedades mais antigas do campo.

Outra variedade que merece destaque é a RB966928, que será a mais plantada em São Paulo na próxima safra. Mais recente que a RB867515, ela tem bom desempenho para plantio e colheitas mecanizadas. Observando a intenção de plantio das principais regiões paulistas, que têm exatamente essas características, ela está sempre dentre as primeiras opções, demonstrando conhecimento e investimento no campo.

No fim, Braga explica que essa forma de cuidar do canavial é a mais inteligente, e a informação de como fazê-la está disponível para os produtores – mesmo que sua aplicação nem sempre seja direta. Ainda assim, ele tem esperança de que, em mais algumas safras, a situação possa mudar e ser mais rentável – pelo menos no âmbito das variedades de cana-de-açúcar.

Rafaella Coury – novaCana.com{