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Intenção de plantio de cana para colheita em 2020/21 traz predominância de variedades jovens

Pesquisa do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) demonstra a relação das variedades com a produtividade no campo


novaCana.com - 02 jun 2020 - 09:19 - Última atualização em: 20 jan 2021 - 12:18

Quando o assunto é a produtividade do canavial, muito se fala sobre renovação da plantação e idade média de corte. Especialistas do campo enfatizam estes dois fatores como determinantes para melhorar a qualidade da cana-de-açúcar, o que pode se converter em mais produtos, menores custos e maiores rendimentos para as usinas.

Sozinhos, os tratos do canavial não dão conta de melhorar a produtividade da plantação. Também é preciso atentar para a variedade de cana escolhida, como ela se desenvolve e quais são os benefícios da sua utilização.

Enquanto existem variedades novas, de cruzamentos recentes, mais resistentes e que se adaptaram bem a áreas com colheita mecanizada (predominante na região Centro-Sul), ainda há a presença de cultivares antigas, pouco adaptadas e que conferem menor produtividade aos canaviais do país.

Considerando a importância deste assunto, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) realiza anualmente uma pesquisa com usinas e destilarias no Centro-Sul do Brasil a fim de mapear quais são as variedades de cana-de-açúcar que serão colhidas a partir da safra seguinte.

Esta é a quarta pesquisa já realizada e a amostra tem 162 usinas, que equivalem a 816,58 mil hectares. Na comparação com o levantamento anterior, houve uma redução no número de usinas, que estava em 165, mas um aumento na área, que era de 791,05 mil ha. Segundo o IAC, o estudo atingiu um “recorde para o levantamento de intenção de plantio no Brasil”.

Efetivamente, desde a primeira edição, em 2016/17, o número de empresas que participam da pesquisa veio crescendo, e este é o primeiro ano em que o valor caiu. Porém a área de abrangência também vem aumentando e chegou ao recorde deste ano.

A coleta de dados foi feita entre setembro e novembro de 2019, buscando entender quais variedades estavam sendo plantadas para a safra 2020/21 – ou ainda seriam plantadas, já que a maior parte do plantio ocorreu no verão. Desta forma, é possível analisar o que será colhido na atual temporada.

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O principal resultado da pesquisa, referente ao Centro-Sul como um todo, indica uma mudança na concentração das variedades ao longo dos anos – o que, inclusive, pode sugerir uma melhora na situação dos canaviais.

As principais variedades plantadas em 2019/20 são a CTC4, com 13,4%, a RB867515, com 13,1%, a RB966928, com 12,4%, e a CTC9001, com 10,5%. Após elas, a próxima cultivar mais plantada na região registrou apenas 3,7% de intenção de plantio, a RB92579.

No comparativo com a safra anterior, considerando as idades das variedades, a perspectiva para esta temporada é mais positiva. De acordo com o IAC, uma cultivar é considerada antiga – e, consequentemente, menos produtiva – a partir dos 15 anos. A CTC4, mais plantada segundo a pesquisa, tem apenas oito anos e sua participação nos canaviais aumentou 4,56% entre as duas safras.

Já a RB867515, segunda mais plantada em 2019/20, é a segunda variedade mais antiga entre as que ainda estão sendo utilizadas para renovar os canaviais do Centro-Sul. Com 23 anos desde o seu lançamento, ela representa um atraso no plantio da região. A RB855156, que tem 3,3% de intenção de plantio na pesquisa, é a variedade mais antiga e tem 28 anos.

Na comparação entre as safras, houve um alento nas expectativas para esta temporada, já que a intenção de plantio da RB867515 caiu 11,25%. Ao longo dos últimos anos, inclusive, a perspectiva de aumento da sua participação no Centro-Sul vem reduzindo, especialmente considerando que, em 2017/18, ela ainda representava 42,8% da intenção de plantio.

Mesmo assim, a RB867515 ainda é a variedade com maior incidência nos canaviais da região – de acordo com o censo do IAC, ela ocupa 21% da área, mesmo que seu plantio esteja em queda. Desta forma, sua participação nos canaviais segue frequente e levará alguns anos para que a sua representação diminua. Já a RB855156, com seus 28 anos, ainda ocupa 3% dos canaviais do Centro-Sul, de acordo com a última pesquisa.

Este dado piora quando a renovação do canavial entra em questão. Para que haja a substituição das variedades antigas pelas mais novas, é preciso que mais cana seja plantada. Porém, ainda de acordo com o censo, o canavial do Centro-Sul segue envelhecendo, já que a relação plantio-cultivo está abaixo do limite ideal desde 2015.

Outro índice preocupante para os canaviais é a concentração varietal, que, de acordo com a última pesquisa, pode estar se recuperando. Por questões de segurança biológica, o recomendado pelos programas de melhoramento é que uma única cultivar não ocupe mais do que 15% da área plantada.

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Em 2018/19, a RB867515 ocupava mais do que este limite, representando um risco para os canaviais. Em 2019/20, a maior concentração de uma única variedade foi de 13,4%, valor que pode gerar bons resultados mais para frente.

Ainda em relação às variedades como um todo, as RB985476, RB975952 e RB988082, que não tinham representação significativa na intenção de plantio de 2018/19, corresponderam a 1,7%, 1,4% e 1,3% das intenções em 2019/20. Considerando que as variedades têm apenas cinco anos de cruzamento, o aumento desta incidência nos canaviais da região – mesmo que ainda tímido –, pode resultar em futuras melhoras na produtividade.

Um destaque do Centro-Sul em 2019/20 é a RB975242, que, com cinco anos de cruzamento, teve um aumento de 138,03% na intenção da participação na área analisada e, de acordo com a UFSCar, é uma variedade que garante alta produtividade, rusticidade e ausência de florescimento.

Além disso, apenas três variedades com significativa intenção de plantio em 2019/20 possuem mais de 15 anos de cruzamento, uma a menos do que na safra anterior. Em porcentagem, elas correspondem a 20,1% das intenções, contra 25,6% em 2018/19.

As escolhas de cada região

Os dados do Centro-Sul agrupam as intenções de plantio de cada região produtora que participou do estudo do IAC e demonstram um panorama geral do plantio do país. Porém, individualmente, os estados produtores apresentaram mudanças impactantes na pesquisa em comparação com o ano anterior.

Em Goiás, por exemplo, a IACSP95-5094 estava na 11ª posição em 2018, com 2,7% de intenção, e foi para a terceira em 2019, com 9,9%. De acordo com os dados do IAC, isso é positivo pelo perfil da variedade, que oferta alta concentração de açúcar e tem ótima performance na colheita mecanizada.

Já em Mato Grosso do Sul, como na média do Centro-Sul, a RB967515 perdeu a primeira posição para a RB966928, que é mais nova, graças a uma queda na intenção de plantio da primeira. Em Minas Gerais, por outro lado, a RB867515 segue na primeira posição, inclusive com um pequeno aumento na intenção de plantio.

No Paraná, a variedade mais plantada é a mais antiga ainda presente nos canaviais brasileiros. Porém, na comparação com a safra anterior, a intenção de plantio da RB855156 reduziu de 34,6% para 23%, enquanto a da CTC4, mais moderna e produtiva, aumentou.

Em São Paulo, um dos únicos estados produtores que não têm a RB967515 como principal variedade a ser plantada, a CTC4 e a RB966928 inverteram as primeiras posições e a intenção de plantio de ambas aumentou. Já a RB975242, que tem cinco anos de lançamento, dobrou sua participação dentro da amostragem e ficou em 6º lugar dentre as prioridades.

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O resultado do estado paulista se deve às intenções das suas regiões produtoras. Em Araçatuba, por exemplo, tanto a CTC4 quanto a RB967515 aumentaram suas participações – o aumento da primeira, porém, foi mais significativo.

Já em Assis, a principal variedade a ser plantada é a CTC9001, que estava em terceiro lugar no ano anterior e é mais recente, com alto teor de fibra e ATR e TCH elevados. Ela também passou a ser uma das mais plantadas em Jaú, que vem anualmente diminuindo o uso das cultivares mais antigas.

A CTC9001 também é a mais plantada em Piracicaba – repetindo o resultado do ano anterior – e em Ribeirão Preto, onde cresceu em participação, desbancando a CTC4. Esta, por outro lado, segue sendo a mais plantada em São José do Rio Preto, com 17,8% da intenção.

Rafaella Coury – novaCana.com{/viewonly}