Açúcar: Mercado

Temporada global de açúcar 2022/23 tem clima indefinido; expectativa é de superávit


Agência Estado - 09 set 2022 - 09:40

O mercado global de açúcar fecha neste mês o ciclo 2021/22 sinalizando para um aumento de produção na próxima temporada. Índia e Tailândia retomaram o ritmo após frustração da safra 2020/21 pelo clima e o Brasil teve desempenho tímido com as geadas do ano anterior, o que fará com que a temporada 2021/22 feche com déficit de cerca de 1 milhão de toneladas.

Mas para o ano-safra 2022/23 (de outubro a setembro), a expectativa é que os países asiáticos surpreendam mais uma vez e que o Brasil mostre reação. Isso só não deve acontecer se o clima, sempre uma incógnita, não ajudar, disseram analistas. Eles avaliam como os principais produtores globais da commodity entram no próximo ciclo.

Algumas das fontes consideram muito otimistas as projeções divulgadas pela Organização Internacional do Açúcar (OIA) na semana passada. A entidade estimou para 2022/23 superávit de 5,571 milhões de toneladas do adoçante no mundo.

O estrategista global de açúcar do Rabobank, Andy Duff, por exemplo, trabalha com saldo positivo de não mais que 3,5 milhões de toneladas ao final da temporada. “Esse excedente pode ser facilmente dobrado ou eliminado com algumas mudanças de produção ou consumo, então sempre temos que entender a vulnerabilidade desse número”, afirma.

A analista de açúcar e etanol da HedgePoint Global Markets, Lívea Coda, avalia que qualquer adversidade climática pode levar o ciclo 2022/23 a fechar no negativo. “Eu ainda acredito em um cenário (de oferta global) mais empatado, mais próximo do zero a zero. Mas o La Niña poderia levar para o déficit”, pontua.

Segundo a analista, o clima seco, causado pelo fenômeno, pode até elevar o nível de sacarose medido pelo Açúcar Total Recuperável (ATR) em algumas áreas, o que seria positivo. Em outras regiões, se a estiagem se prolongar, causará perdas.

Os especialistas ainda alertam que o cenário de instabilidade climática tende a ter efeitos mais permanentes nos canaviais nas safras futuras. Com a devastação das áreas de preservação e maior uso de combustíveis fósseis, principalmente pela crise energética com a guerra na Ucrânia, fica mais difícil ter períodos de seca e chuvas definidos, destaca o diretor da Paragon Global Markets, Michael McDougall. Para a atual temporada, ele afirma que os olhos do mercado estão principalmente voltados “às monções irregulares na Índia e ao clima na Europa e no Brasil”.

Afinal, a Índia foi a surpresa da safra que termina neste mês. Com exportação recorde de 11,2 milhões de toneladas, equilibrou a oferta global sem derrubar os preços na Bolsa de Nova York (ICE Futures US). “A menor disponibilidade de açúcar no Brasil compensou o volume ofertado por eles”, diz Andy Duff, do Rabobank.

Ele e outros analistas consideram difícil os indianos repetirem em 2022/23 o desempenho do atual período. Por enquanto, a sinalização é de que o país mandará açúcar para fora em duas parcelas e a primeira estaria em torno de 4 a 5 milhões de toneladas apenas.

Outro limitador para a oferta indiana é o clima. Lívea Coda, da HedgePoint, cita as costumeiras adversidades em áreas produtoras de cana-de-açúcar. Se as regiões de Maharashtra e Karnataka sofrem com alagamentos, Uttar Pradesh enfrenta o déficit hídrico.

Na análise da HedgePoint, esse cenário adverso poderia colocar em risco a perspectiva de produção indiana de 35,5 milhões de toneladas para a temporada 2022/23, ante safra atual de pouco mais de 35 milhões de toneladas. O volume já considera o direcionamento de 4,5 milhões de toneladas da matéria-prima para a fabricação de etanol.

Duff, do Rabobank, acrescenta que o programa de etanol indiano está ganhando força. “Mesmo que encerrem a temporada com mais cana produzida, a destinação para o etanol será maior do que na safra passada”, considera.

O país quer atingir a meta de misturar 12% do biocombustível na gasolina no próximo ano e 20% até 2025. Atualmente, o porcentual está em 10%. O Rabobank espera, assim, que a produção de açúcar indiana fique em linha com a de 2021/22.

Perdas na Europa

Embora não seja determinante para os preços globais do açúcar, a Europa é observada pelo mercado, principalmente depois de a seca prolongada e as altas temperaturas, neste ano, prejudicarem a produção de beterraba açucareira.

Lívea Coda, da Hedge Point, cita a queda de produtividade na Polônia, Alemanha e França, mas ressalva que o volume desses países ficou, ainda assim, acima da média dos últimos cinco anos.

Michael McDougall, da Paragon Global, por sua vez, menciona números que vão de 15% a 30% de queda na produção europeia esperada, a depender da área. “Isso está elevando o prêmio de açúcar branco (refinado) para níveis que não vejo desde 2010 e 2011”, aponta.

Já Andy Duff, do Rabobank, completa que o açúcar refinado, por ser consumido no final da cadeia, é um sinalizador: “Quando o prêmio dele está acima do açúcar bruto, você deve ter demanda robusta”.

O analista do Rabobank acrescenta que o desempenho agrícola dos países europeus segue sendo um ponto de interrogação para o mercado, devido à dificuldade de acesso a fertilizantes com a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Agora, acumulam-se questões também a respeito do período de processamento da beterraba (de outubro a dezembro) e os efeitos do conflito em commodities energéticas. “É importante destacar que, para uma boa parte da indústria, o combustível principal é basicamente gás natural”, completa, em referência à dependência europeia no produto russo.

Incertezas no Brasil

Por fim, a recuperação da safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul brasileiro é dúvida. O esperado aumento da produtividade média no campo ainda não aparece nos relatórios recentes da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica). “A qualidade da cana foi decepcionante também”, destaca Andy Duff.

Se antes se falava em produção de 551 milhões de toneladas da matéria-prima, analistas hoje estimam entre 530 e 540 milhões de toneladas de cana para o ciclo.

Lívea Coda pondera, no entanto, que ainda há tempo para uma recuperação. “A gente precisa que a chuva venha”, afirma. Segundo ela, a HedgePoint se mantém “conservadora” quando olha para o Brasil e estima fabricação entre 34 e 35 milhões de toneladas do adoçante em 2022/23, ante temporada atual de 33 milhões de toneladas, de acordo com a OIA.

Outra grande pergunta direcionando à produção de açúcar é se a isenção de impostos federais sobre combustíveis fósseis, que influencia na competitividade do etanol no País, continuará em 2023.

“A ausência deles conta para uma boa parte dessa queda (do preço) na bomba e a ideia inicial era que voltariam a operar no primeiro dia de janeiro do ano que vem, mas a gente sabe que não é necessariamente assim”, afirma Duff. “O problema disso é que você está tirando o incentivo de investimento no setor sucroalcooleiro do Brasil. Quem vai investir quando não se sabe qual vai ser o preço do álcool?”, questiona Michael McDougall.

Otimismo na Tailândia

Em oposição às incertezas, os bons ventos da temporada 2022/23 devem vir do sudeste asiático. Tudo indica que a safra da Tailândia vai superar em cerca de 20% a temporada atual, passando de 10 milhões de toneladas para cerca de 12 milhões de toneladas, de acordo com o Rabobank e a HedgePoint.

O resultado está em linha com as 12,33 milhões de toneladas sugeridas pela OIA. “Isso, sim, é visto como um fator que vai aumentar a disponibilidade de açúcar para exportação”, afirma o analista Andy Duff.

O volume ultrapassa de maneira expressiva os resultados das quebras de safra de 2019/20 e 2020/21, mas ainda está abaixo do recorde de 2017/18, de 14,8 milhões de toneladas. “Se voltarem a fazer um volume bem parecido com o que já fizeram no passado, representaria pelo menos 8 milhões de toneladas para exportação”, pontua Lívea Coda.

Apesar do resultado positivo, a guerra na Ucrânia também deixou suas marcas na Tailândia. Michael McDougall afirma que regiões do país devem ter safra menor do que se espera devido à redução no uso de fertilizantes, em função da escassez provocada pela guerra.

Segundo ele, mesmo em nível global, não há, ainda, como quantificar a ausência de insumos nos canaviais. “Se você tem um clima perfeito, a falta de fertilizante não tem tanto impacto, mas, com clima irregular, pode ser maior”, explica McDougall.

Gabriela Brumatti


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