Levantamento exclusivo traz déficit entre 10 milhões e 136 mil toneladas para temporada global que encerra em setembro
O mercado global de açúcar segue diversas variáveis. Uma delas é a produção de gigantes como Índia, Tailândia e Brasil, sendo que o último também possui a interferência do consumo de etanol, que compete pela matéria-prima junto com o adoçante. Além disso, por ser uma commodity, as negociações internacionais tanto refletem quanto impactam a fabricação.
Em 2020, um novo fator – a pandemia de coronavírus – entrou na lista de variáveis. Considerando isso, o déficit esperado para 2019/20 deverá ser menor do que o estimado anteriormente, justamente pela queda na demanda ocasionada pelas recomendações de isolamento.
Oficialmente, o ciclo 2019/20 termina em um mês. Todas as consultorias pesquisadas pelo NovaCana seguem cravando um déficit para a temporada, assim como ocorreu nas duas últimas sondagens, em setembro de 2019 e fevereiro de 2020. O que muda é que, na média, o tamanho estimado para o déficit é menor, passando de 7,19 milhões para 3,42 milhões de toneladas.
Das 17 consultorias analisadas na pesquisa mais recente, a que aposta no maior déficit para 2019/20 é a Czarnikow, com 10 milhões de toneladas; na outra ponta, a Organização Internacional do Açúcar (ISO, na sigla em inglês) estima que apenas 136 mil toneladas serão produzidas a menos em relação ao consumo.
A entidade que, no início de junho, havia previsto um déficit de 9,3 milhões, o maior nos últimos 11 anos, mudou totalmente a sua perspectiva em agosto, para um saldo neutro.
“Nossa visão fundamental da situação global de oferta e demanda mudou após a inclusão do impacto da covid-19 nos números de consumo nacional, uma redução no crescimento do consumo de açúcar subjacente e uma maior produção no Brasil nos últimos meses”, detalha o documento.
Além disso, com a aproximação da temporada 2020/21, as consultorias têm mais firmeza para arriscar números. No total, 14 companhias apresentaram dados para o ciclo que se inicia em outubro. No levantamento anterior, feito em fevereiro, apenas sete empresas haviam expressado suas estimativas, e todas elas traziam um déficit.
Porém as alterações no cenário global – não só de produção de açúcar – levaram a uma mudança nos números para a próxima temporada, que oscilam de um déficit de 3,6 milhões de toneladas, apontado pela Green Pool, a um superávit de 10,29 milhões de toneladas, estimado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Por sua vez, empresas como BP Bunge, StoneX e Agroconsult têm uma visão de equilíbrio entre oferta e demanda. Elas projetam, respectivamente, 700 mil toneladas de déficit, e 500 mil e 900 mil toneladas de superávit.
Com isso, a média das estimativas passou de um déficit de 1,75 milhão de toneladas para um superávit de 1,53 milhão de toneladas.
De acordo com a ISO, uma maior alocação da matéria-prima para a produção de açúcar no Brasil, juntamente com uma redução de 2,7 milhões de toneladas no consumo do adoçante em vários países, motivam uma visão de déficit menor do que a entidade esperava anteriormente.
Além isso, a quantia também é parte de uma grande revisão do histórico de crescimento do consumo nos últimos anos. O órgão reavaliou sua perspectiva de uma demanda de 6,9 milhões de toneladas abaixo da produção para apenas 724 mil toneladas deficitárias.
Já o diretor comercial da BP Bunge, Ricardo Busato Carvalho, pontua dois motivos possíveis para este cenário equilibrado das empresas entre o déficit e o superávit. Um deles é a estimativa das perdas no consumo global de açúcar devido aos impactos da pandemia e o outro é a estimativa de produção no Centro-Sul brasileiro, especialmente na primeira metade da safra 2021/22.
Além disso, como de costume, algumas empresas atualizaram seus dados referentes ao fechamento da temporada 2018/19, que terminou em outubro de 2019. Foram 12 números, que variam entre 1 tonelada de déficit (reafirmada pela MB Agro) e 7,04 milhões de toneladas de superávit, estimadas pelo USDA. Assim, a média subiu de 2,59 milhões para 3,12 milhões de toneladas.
Confira, na reportagem completa, gráficos comparativos das projeções, a evolução das médias, perspectivas de preços e análises do mercado global de açúcar feitas pelas seguintes empresas e consultorias:
- Abares
- Agroconsult
- BP Bunge
- BTG Pactual
- Cogo
- Czarnikow
- FG/A
- Green Pool
- ISO
- Itaú BBA
- LMC
- MB Agro
- Platts
- Rabobank
- StoneX
- TRS
- USDA
O mercado global de açúcar segue diversas variáveis. Uma delas é a produção de gigantes como Índia, Tailândia e Brasil, sendo que o último também possui a interferência do consumo de etanol, que compete pela matéria-prima junto com o adoçante. Além disso, por ser uma commodity, as negociações internacionais tanto refletem quanto impactam a fabricação.
Em 2020, um novo fator – a pandemia de coronavírus – entrou na lista de variáveis. Considerando isso, o déficit esperado para 2019/20 deverá ser menor do que o estimado anteriormente, justamente pela queda na demanda ocasionada pelas recomendações de isolamento.
Oficialmente, o ciclo 2019/20 termina em um mês. Todas as consultorias pesquisadas pelo NovaCana seguem cravando um déficit para a temporada, assim como ocorreu nas duas últimas sondagens, em setembro de 2019 e fevereiro de 2020. O que muda é que, na média, o tamanho estimado para o déficit é menor, passando de 7,19 milhões para 3,42 milhões de toneladas.
Das 17 consultorias analisadas na pesquisa mais recente, a que aposta no maior déficit para 2019/20 é a Czarnikow, com 10 milhões de toneladas; na outra ponta, a Organização Internacional do Açúcar (ISO, na sigla em inglês) estima que apenas 136 mil toneladas serão produzidas a menos em relação ao consumo.
A entidade que, no início de junho, havia previsto um déficit de 9,3 milhões, o maior nos últimos 11 anos, mudou totalmente a sua perspectiva em agosto, para um saldo neutro.
“Nossa visão fundamental da situação global de oferta e demanda mudou após a inclusão do impacto da covid-19 nos números de consumo nacional, uma redução no crescimento do consumo de açúcar subjacente e uma maior produção no Brasil nos últimos meses”, detalha o documento.

Além disso, com a aproximação da temporada 2020/21, as consultorias têm mais firmeza para arriscar números. No total, 14 companhias apresentaram dados para o ciclo que se inicia em outubro. No levantamento anterior, feito em fevereiro, apenas sete empresas haviam expressado suas estimativas, e todas elas traziam um déficit.
Porém as alterações no cenário global – não só de produção de açúcar – levaram a uma mudança nos números para a próxima temporada, que oscilam de um déficit de 3,59 milhões de toneladas, apontado pela Green Pool, a um superávit de 10,28 milhões de toneladas, estimado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Por sua vez, empresas como BP Bunge, StoneX e Agroconsult têm uma visão de equilíbrio entre oferta e demanda. Elas projetam, respectivamente, 700 mil toneladas de déficit, e 500 mil e 900 mil toneladas de superávit.
Com isso, a média das estimativas passou de um déficit de 1,75 milhão de toneladas para um superávit de 1,53 milhão de toneladas.
De acordo com a ISO, uma maior alocação da matéria-prima para a produção de açúcar no Brasil, juntamente com uma redução de 2,7 milhões de toneladas no consumo do adoçante em vários países, motivam uma visão de déficit menor do que a entidade esperava anteriormente.
Além isso, a quantia também é parte de uma grande revisão do histórico de crescimento do consumo nos últimos anos. O órgão reavaliou sua perspectiva de uma demanda de 6,9 milhões de toneladas abaixo da produção para apenas 724 mil toneladas deficitárias.

Já o diretor comercial da BP Bunge, Ricardo Busato Carvalho, pontua dois motivos possíveis para este cenário equilibrado das empresas entre o déficit e o superávit. Um deles é a estimativa das perdas no consumo global de açúcar devido aos impactos da pandemia e o outro é a estimativa de produção no Centro-Sul brasileiro, especialmente na primeira metade da safra 2021/22.

Além disso, como de costume, algumas empresas atualizaram seus dados referentes ao fechamento da temporada 2018/19, que terminou em outubro de 2019. Foram 12 números, que variam entre 1 tonelada de déficit (reafirmada pela MB Agro) e 7,04 milhões de toneladas de superávit, estimadas pelo USDA. Assim, a média subiu de 2,59 milhões para 3,12 milhões de toneladas.

Déficit incerto para 2020/21
Faltando um mês para o início da safra global 2020/21, as empresas consultadas já começam a arriscar com mais intensidade números para a temporada, inclusive fortalecendo os seus argumentos.
Carvalho relata que os países do Hemisfério Norte terminaram a sua produção de 2019/20 com uma redução no superávit por dois principais motivos: segundo ano consecutivo de margens ruins, seja no mercado interno ou no externo; e clima adverso em quase todos os principais países produtores, como Estados Unidos, México, União Europeia, Índia e, mais notavelmente, a Tailândia.
“Estes fatores foram responsáveis por enxugar o excesso de açúcar nos estoques globais e, assim, levar o açúcar a quase a 16 centavos de dólar por libra-peso no início do ano, quando os números estavam mais claros e a região Centro-Sul do Brasil ainda não havia iniciado a sua safra”, destacou o diretor.
Para ele, estes países terão dificuldades de se recuperar para a temporada 2020/21, especialmente diante de margens pequenas que não devem estimular o aumento da área plantada. O diretor enxerga até mesmo uma retração, assim como uma diminuição do rendimento no campo, já que o clima não tem colaborado na maioria dos países analisados.
“A única exceção, que deve apresentar aumento, é a Índia, mas o seu fornecimento não fica disponível livremente no mercado, pois só consegue ser enviado com subsídios e cotas de exportação”, pontua Carvalho.
Por sua vez, o relatório de agosto da StoneX (antiga INTL FCStone) afirma que os olhos seguem voltados para as safras indiana e tailandesa. De acordo com o documento, as condições climáticas dos próximos meses serão determinantes para a consolidação das expectativas, em termos produtivos, para a próxima temporada.
O aumento das chuvas deve marcar a retomada de uma produção de açúcar mais intensa na Índia em 2020/21 e, portanto, a consultoria elevou sua expectativa para o país em 300 mil toneladas ante as estimativas publicadas em junho. Com 30,5 milhões de toneladas, o volume é 12,1% maior do que o esperado para o fechamento de 2019/20. A FG/A vê volume semelhante para a Índia, atingindo 30 milhões de toneladas.
Conforme a StoneX, a safra indiana tem se beneficiado com o avanço das monções. Segundo o instituto meteorológico do país, as chuvas acumuladas desde o início de junho até o início agosto tiveram ligeira retração (-1,6%) ante a média histórica, um fenômeno climático considerado normal. Além disso, os principais estados produtores – Uttar Pradesh, Maharashtra e Karnataka – registraram aumentos nos índices pluviométricos.

A companhia também reforça que as monções estão excessivas em alguns distritos de Maharashtra, estado que mais sofreu com as condições adversas em 2019. Ainda assim, os registros indicam que os volumes foram bem distribuídos, gerando uma umidade positiva para os canaviais.
“Pondera-se que o fenômeno climático é extremamente dinâmico e os meses de agosto e setembro são determinantes para a consolidação da maior produtividade agrícola do estado”, completa o relatório da StoneX.
Com uma visão de produção de 33,5 milhões de toneladas para o país, o Rabobank destaca que o replantio irá depender fortemente das restrições aplicadas no combate ao coronavírus e da disponibilidade de mão de obra.
Enquanto isso, na Tailândia, a safra deve ficar em um patamar similar ao de 2019/20, segundo a FG/A. A consultoria estima uma fabricação de em torno de 8 milhões de toneladas, enquanto a StoneX tem uma visão um pouco mais baixista, de 7,6 milhões – 300 toneladas a menos que na análise anterior. O volume também é 10,1% mais baixo que o visto na temporada passada.
Conforme o Rabobank, o tempo seco tem impactado negativamente a produção do país, com precipitações abaixo do usual. O banco holandês espera uma fabricação de 8,15 milhões de toneladas do adoçante na Tailândia, o que representa uma retração de 5% frente ao visto um ano antes e de 47% no comparativo com 2018/19.
Na China, a StoneX estima uma produção de 10,5 milhões de toneladas em 2020/21, mantendo a posição do relatório anterior, o que significa um crescimento de 0,8% ante 2019/20. A consultoria cita o relatório de Origem e Destino oficial do país, que aponta que a área de cana deve se manter e a produtividade deve crescer 5,4%. No ciclo 2019/20, porém, o rendimento agrícola dos canaviais chineses teve reduções devido ao clima mais seco.
Um ponto que justifica a manutenção da estimativa é a ligeira ampliação da área plantada de beterraba com produtividade estável. Entretanto, a StoneX alerta que há riscos agroclimáticos vinculados aos rendimentos dos canaviais, por conta de chuvas abundantes em Gaungxi, província responsável por 70% da produção da matéria-prima.
“Ainda que nenhum impacto negativo tenha sido registrado até o momento, vale notar que os próximos meses também costumam ser caracterizados por elevada umidade, e condições excessivas podem pesar sobre a produtividade da lavoura”, completa o documento.
Já a União Europeia seria responsável por 16 milhões de toneladas da commodity, de acordo com a FG/A. A expectativa é a mesma que a apresentada pela StoneX e representa uma redução de 4,2% ante o ciclo que se encerra em setembro.
Além disso, as expectativas para a temporada são consideradas negativas, com menor área plantada e condições climáticas mais secas durante a primavera, o que limita o desenvolvimento inicial da beterraba.
Outro problema foi a infestação de pulgões. Até 2018, o bloco europeu usava uma classe de inseticida, os neonicotinoides, que foram proibidos, fator que provavelmente impactará no rendimento do tubérculo.
Em junho, o Rabobank pontuou que o rendimento médio da beterraba teve ligeiro aumento em comparação com maio, devido a algumas chuvas observadas no início de mês; porém, elas precisariam persistir para reverter os danos causados pela seca e pelo ataque de pragas. Já a StoneX coloca que as chuvas em agosto e setembro, importantes para o desenvolvimento da cultura, devem ser abaixo do esperado.
Tal qual na União Europeia, a área plantada na Rússia também não deve aumentar na temporada 2020/21. Um ponto negativo é o clima mais seco. Há, além disso, “atraso expressivo” em relação ao mesmo período de 2019, de acordo com entidades locais. Com isso, são esperadas 6,3 milhões de toneladas de açúcar no país, uma queda anual de 19,2%.
Por sua vez, as expectativas para a produção de açúcar nos Estados Unidos são positivas. A StoneX espera 8,3 milhões de toneladas, 13,3% a mais que um ano antes. Após a quebra da safra no ciclo passado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) acredita em um aumento de área colhida de cana e beterraba. A umidade nos solos, necessária para desenvolvimento do tubérculo, está positiva em algumas regiões dos principais estados produtores, especialmente Minnesota e Dakota do Norte.

No país vizinho, o México, houve uma queda nas expectativas produtivas pela StoneX por conta da má distribuição das chuvas nas principais regiões produtoras, reduzindo a disponibilidade de cana para 2020/21. Ainda assim, a consultoria aposta em um aumento de 9,2% ante a última temporada, atingindo 5,9 milhões de toneladas.
Visões altistas para o Brasil
Para o Brasil, a perspectiva é de aumento na produção do adoçante. “Olhando para frente [para a safra 2020/21], as principais premissas do país levam a uma fabricação de em torno de 36,6 milhões de toneladas”, relata a FG/A.
Por sua vez, a trading Alvean projetou, segundo divulgado em 1º de abril, uma produção um pouco menor, de cerca de 36 milhões de toneladas. O volume representaria um salto de mais de 35% em relação à temporada 2019/20, chegando perto de nível recorde.
Além disso, segundo o presidente da companhia, Paulo Roberto de Souza, caso a produção supere 36 milhões de toneladas, o mercado global de açúcar passaria de déficit a superávit.
Já a Job Economia, segundo divulgado no fim de abril, tem uma estimativa mais ousada: 41 milhões de toneladas. A consultoria também acredita que a produção brasileira de açúcar em 2020/21 pode levar o mundo ao superávit.
Um volume menor, de 34,8 milhões de toneladas, é esperado pela StoneX para a região Centro-Sul do Brasil entre outubro de 2020 e setembro de 2021. O volume representa uma queda anual de 2% ante as 35,5 milhões de toneladas previstas para a safra anterior. Neste caso, o relatório destaca que o país deve seguir em destaque em termos de produção da commodity, acompanhando o grande volume de açúcar com preços fixados.
Com isso, o direcionamento da matéria-prima para a fabricação do adoçante deve permanecer em patamares relativamente elevados. Entretanto, a recuperação na demanda por combustíveis do Ciclo Otto, prevista para o próximo ano, pode fazer com que a participação da commodity seja ligeiramente menor que a projetada para 2020. Além disso, o clima seco também pode pressionar a disponibilidade de cana no próximo ano.
Para o Rabobank, neste ano, o Brasil voltou à liderança do mercado mundial de açúcar. “Com o mercado debruçado sobre o ritmo das exportações, há um coquetel de fatores (como consumo de combustíveis, preços do petróleo e câmbio) que podem influenciar o mix entre açúcar e etanol nesta temporada”, aponta o documento.
O Bureau Australiano de Ciências e Economia Agrícola e de Recursos (Abares) acrescenta que espera que as perspectivas atuais de preços baixos do petróleo e um real fraco continuem a impulsionar a alta produção de açúcar no Brasil em 2020/21.
Déficit garantido para 2019/20
Considerando a revisão das produções em Brasil, Índia, União Europeia, Reino Unido e Rússia, a fabricação de açúcar estimada pela StoneX para a temporada 2019/20 é de 181,7 milhões de toneladas, o que representa uma retração de 2,1% ante o ciclo anterior.
Em relatório lançado em maio deste ano, o Itaú BBA pontuou que as cotações do produto em Nova York estavam pressionadas até meados do terceiro trimestre de 2019, pois os estoques globais estavam elevados. Porém, a partir de setembro, as visões de transição para um déficit global começaram a ganhar força devido à redução produtiva asiática.

Ainda segundo o Itaú BBA, as perdas de produção na Tailândia e na Índia na safra global 2019/20 são estimadas em 40% e 20%, respectivamente, quando comparadas ao período anterior. Já a StoneX, prevê reduções de 42,95% para a safra tailandesa e de 17,33% para a temporada indiana, também no comparativo com 2018/19.
Na mais recente análise da consultoria, houve um aumento na previsão da produção da Índia em 200 milhões de toneladas, totalizando 27,7 milhões de toneladas de açúcar. O pequeno aumento se deu porque algumas usinas em Tamil Nadu e Karnataka processaram cana em setembro.
Conforme o Rabobank, as restrições resultantes da pandemia de coronavírus levaram a uma queda no consumo de 3,4%, após vários anos de crescimento consistente. “Embora uma queda acentuada nas vendas e no consumo em serviços de alimentação seja antecipada no segundo trimestre de 2020, o período também marca um período-chave para as vendas de sorvetes, bebidas e outros petiscos açucarados”, detalha o relatório.
Ainda de acordo com o banco holandês, na China, a produção esperada é de 10,4 milhões de toneladas, mesmo volume projetado pela StoneX. Para o Rabobank, haverá uma queda de até 1 milhão de toneladas no consumo, mas ela será seguida por uma melhora gradual da demanda.
Além disso, as tarifas de importação da commodity fora da cota foram reduzidas, o que deve ampliar as entradas do produto no país. Já em relação à produção, os rendimentos a longo prazo devem melhorar após o anúncio de um subsídio pelo governo de Guangxi, que lançou um apoio direto para os produtores que optarem por melhores variedades.
No México, outro país de destaque na produção, as condições climáticas mais secas impactaram a fabricação de açúcar ao reduzirem a disponibilidade da matéria-prima para 49,3 milhões, uma retração anual de 14,3%. Com isso, a projeção para a commodity ficou em 5,4 milhões de toneladas, queda de 20,6% ante 2018/19, de acordo com a StoneX.
A virada no mix brasileiro
Conforme o Itaú BBA, como os preços voltaram a ganhar força no mercado internacional em 2019/20, isso abriu espaço para que as usinas brasileiras, que carregaram estoques, obtivessem valores pelo açúcar vendido em patamares bem superiores aos observados no primeiro semestre do ano.
Além disso, de acordo com o banco, o cenário favorável também trouxe oportunidades para as usinas fazerem fixações de preço mais atrativas para safra nacional 2020/21.
Logo, o aumento da produção brasileira de açúcar – motivado pela perda de atratividade do etanol e pela desaceleração no consumo de combustíveis – sugere um déficit menor do que se esperava, afirma o Itaú BBA. A estimativa da entidade é de uma produção de 36 milhões de toneladas.
O banco ainda assume um direcionamento de 46% da matéria-prima para o adoçante, ou seja, quase 10 milhões a mais do que o registrado um ano antes. “[Este] volume praticamente pode anular o déficit que era estimado para o ano-safra global 2019/20”, afirma o documento.
Por sua vez, a StoneX espera uma produção de 35,5 milhões de toneladas de açúcar no Centro-Sul em 2019/20 (setembro a outubro). Segundo a consultoria, houve uma melhora na concentração de açúcar total recuperável (ATR) nas lavouras ao mesmo tempo em que a menor umidade propiciou um firme avanço da moagem.
“Mesmo que as precipitações mais escassas na primeira metade do ano pesem sobre a produtividade agrícola, os impactos deverão recair sobre a produção que será contabilizada no ciclo internacional de 2020/21”, pontua o relatório da consultoria. Além disso, a reversão do mix de produção das usinas para o etanol deve ser mais branda em 2020, já que o açúcar segue mais atrativo para as empresas.
O diretor comercial da BP Bunge, Ricardo Busato Carvalho, considera que a mudança no mix brasileiro foi necessária para cobrir a redução na produção global em 2019/20. “Porém, com a perda de consumo daqui para frente, o incentivo que o Centro-Sul do Brasil recebeu para fazer açúcar se mostrou um pouco acima do que o necessário”, afirma, ponderando que o real desvalorizado frente ao dólar também incentivou a produção.
Por outro lado, Carvalho afirma que não há, necessariamente, uma visão baixista para daqui em diante, pois a relação entre produção e consumo deve estar balanceada em 2021/22. “O fluxo comercial de açúcar é deficitário e o consumo de etanol será bem melhor que este ano, levando ambos os produtos a competirem novamente pelo uso do ATR”, pontua.
Desta forma, o executivo acredita que o país poderá cobrir boa parte da lacuna deixada pelas nações que produzirão menos, chegando a 36,8 milhões de toneladas em 2020/21 – um avanço ante as 32 milhões de toneladas estimadas em fevereiro. Considerando a safra brasileira, ele acredita que esta produção deva reduzir os déficits estimados inicialmente para os ciclos globais 2019/20 e 2020/21.
Preço – da estabilidade à queda
Pela visão do Rabobank, os preços do açúcar negociados em Nova York devem ficar limitados entre 10,5 centavos de dólar por libra-peso e 12 centavos de dólar por libra-peso. “No entanto, os mercados em geral permanecem agitados e os preços da energia, câmbio e especuladores ainda podem influenciar o cenário”, afirma o banco, em relatório, completando: “É amplamente aceito que a covid-19 terá um impacto negativo no consumo global de 2019/20, mas a extensão total é muito desconhecida”.
Já segundo o Itaú BBA, a alta no preço do açúcar deve ficar limitada por conta da queda nas expectativas de déficit para 2020/21, com o maior “preenchimento das lacunas” pelas produções brasileira e indiana. Conforme os especialistas do banco, o Brasil pode se beneficiar tanto da entressafra asiática quanto das menores produções tailandesa e indiana para ganhar espaço com “importadores cativos” destes países.
Já de acordo com o Abares, o preço mundial para o açúcar bruto deve continuar a cair, com uma projeção de baixa para 10 centavos de dólar por libra-peso em 2020/21. A queda seria justificada principalmente pelo aumento da produção de açúcar no Brasil e pela contração da demanda no varejo devido à redução do consumo fora de casa e da diminuição da renda familiar.

“Esses fatores representam uma reversão dos eventos vistos durante o primeiro semestre de 2019/20, quando o consumo crescente e as quedas de produção na Índia e na Tailândia levaram a um aumento nos preços”, pontua o Abares.
Já o diretor comercial da BP Bunge, Ricardo Busato Carvalho, enxerga pouca redução dos preços do açúcar daqui em diante, ainda que o Brasil tenha recebido um “grande incentivo” para produzir. Ele considera que, com o cenário de déficit, o Centro-Sul precisará seguir com um mix voltado para o adoçante, ainda que de forma menos intensa do que a atual.
“A relação entre oferta e demanda de etanol vem melhorando e isso irá elevar ambas as curvas de preço. As questões relacionadas ao subsídio e à exportação indiana estão precificadas pelo mercado e funcionarão como um teto”, completa o diretor. Ainda assim, ele pondera que ainda há muito tempo para o desenvolvimento da safra 2020/21 no Hemisfério Norte, o que adiciona risco.
Ainda de acordo com Carvalho, a fixação de preço feita pelas sucroenergéticas brasileiras avançou tanto na safra atual quanto para 2021/22, “muito mais por conta do carrego do dólar do que pelo preço em si”. Desta forma, a volatilidade do real frente ao dólar pode afetar o mercado no futuro.
De acordo com o executivo, porém, nem sempre a volatilidade de preços é negativa para as empresas sucroenergéticas. “Ela é boa para grupos com um gerenciamento de risco robusto, como é o caso da BP Bunge, com ampla experiência em trading e um controle de risco que usa pesquisa e instrumentos financeiros (como hedge, por exemplo) para se proteger quando há risco e se beneficiar quando as oportunidades aparecem”, destaca.
Por enquanto, a perspectiva é que o mix da safra siga voltado à maximização da produção de açúcar. Já para o ano que vem, dada a projeção da BP Bunge de melhores preços para o etanol, uma porcentagem um pouco mais baixa de matéria-prima deve ser direcionada para o adoçante.
Mudanças no consumo
A FG/A aponta que, do ponto de vista de consumo, deve haver queda de 2% durante as safras 2019/20 e 2020/21, retomando patamares vistos em 2018/19. Por outro lado, o USDA visualiza um aumento de 3,6% na demanda entre as temporadas 2019/20 e 2020/21, totalizando 177,8 milhões de toneladas.
A StoneX também elevou sua perspectiva para o consumo de açúcar no mesmo comparativo, ficando em 185,1 milhões de toneladas. A principal justificativa é a demanda mais firme, com a normalização antecipada da procura pelo adoçante em certos polos consumidores como a China e alguns países europeus.
Desta forma, os estoques globais estimados pela StoneX devem ficar em 75,8 milhões em 2020/21, com uma relação estoque/uso de 41% – queda de 0,9 ponto percentual no comparativo anual. Enquanto isso, o USDA espera estoques globais menores, de 43,55 milhões de toneladas.

Apesar destas perspectivas, a Green Pool pontua, em relatório lançado no final de julho, que os reflexos da pandemia de coronavírus estão começando a se manifestar no consumo da commodity, levando a rebaixamentos das estimativas. “Com a safra de cana do Hemisfério Norte agora (finalmente) terminada, o bastão está verdadeiramente nas mãos dos produtores de cana do Hemisfério Sul, enquanto a cultura da beterraba do Hemisfério Norte está na lavoura”, aponta.
A consultoria ainda considera que o aumento de consumo ocorrido nos primeiros dias da pandemia, impulsionado por um pico no uso doméstico, agora diminuiu, com uma perspectiva de demanda muito mais pessimista à frente “Estima-se agora que o consumo de 2019/20 tenha caído 0,47%, enquanto projetamos que o consumo cresça 0,88% em 2020/21, mas isso inclui uma suposição sobre algum retorno à normalidade”, pondera o documento.
Já o Rabobank espera que o consumo se recupere em 2020/21, ao passo em que estima um aumento de quase 5% na produção, especialmente por conta da recuperação nas colheitas da Índia e América do Norte.
Para 2019/20, o banco holandês enxerga uma queda de 1% no consumo devido aos impactos da pandemia, em especial na China, Índia, Indonésia e Brasil. Por outro lado, países como os Estados Unidos e o México devem sofrer impacto mínimo graças ao maior consumo de bebidas, como o refrigerante.
Conforme a StoneX, a demanda deve ser de 184,3 milhões de toneladas em 2019/20, com produção de 181,7 milhões de toneladas do adoçante. Para a consultoria, o consumo no início da pandemia do novo coronavírus foi, de fato, prejudicado em alguns países, como a Índia.
“No entanto, os fundamentos têm mostrado recuperação da demanda: a China, por exemplo, tem importado volumes significativos nos últimos meses; a União Europeia já sinalizou que a procura por açúcar está se sustentando de forma antecipada”, apresenta o relatório.
NovaCana DATA
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana