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Os desafios da mecanização da cana


NovaCana - Publicado: 16 Ago 2013 - 09:35 | Atualizado: 27 Ago 2014 - 17:24

Conforme já discutido, a lavoura de cana-de-açúcar, em âmbito mundial, com extensão de 26 milhões de hectares, é pequena se comparada com outras culturas predominantes, em especial a de cereais, que ocupa área plantada de cerca de setecentos milhões de hectares. Pode-se até constatar que os padrões de mecanização no setor agrícola são ditados pelos cereais, com a cultura da cana, vindo, grosso modo, a reboque das práticas adotadas nessas outras culturas. Saliente-se o fato de que a mecanização adotada na cultura de cereais já tem, ao menos, 150 anos de adaptação e aperfeiçoamento, ao passo que, no caso da cana-de-açúcar, essa evolução tem cerca de cinquenta anos, ou seja, ainda se encontra em estágio inicial de adaptação e aprimoramento.

Cabe ressaltar que a cana-de-açúcar, além de ser uma planta muito complexa, tanto biologicamente como geneticamente, em comparação aos cereais, envolve desafios importantes no que tange às operações de plantio e colheita, em função, sobretudo, das elevadas quantidades de massa envolvidas nesses processos.

No caso dos cereais, o plantio é feito por meio de sementes, muito mais fáceis de serem manipuladas, por serem pequenas esferas, muito leves e numerosas.  No caso da soja, por exemplo, são necessários 15 kg de sementes para o plantio de um hectare. Todavia, o plantio da cana-de-açúcar é feito por meio de toletes, que são porções do colmo da cana, com dimensões de 20 cm a 45 cm, contendo de duas a três gemas, que têm de ser distribuídos no solo, exigindo o uso de plantadoras com capacidade de 6 t cada. Nessas condições, são necessárias 16 t a 20 t de cana para o plantio de um hectare.

A situação, comparada à dos cereais, agrava-se ainda mais quando se trata da colheita. Para se ter uma ideia, enquanto nos cereais a colheita de um hectare corresponde à retirada, em média, de cerca de 2 t a 3 t de massa, na cultura da cana-de-açúcar envolve a retirada de cerca de 70 t, em média, podendo chegar a 120 t. Por esse motivo, as colhedoras de cana e, subsidiariamente, as plantadoras precisam ser máquinas bem mais robustas do que as utilizadas em cereais, pois estão submetidas a um ambiente muito mais adverso.

No caso das colhedoras de grãos, a demanda mundial chega à ordem de 65 mil a 75 mil máquinas por ano, enquanto as colhedoras de cana alcançam apenas 1,6 mil a 1,8 mil colhedoras por ano; e o Brasil é responsável por mais de dois terços da demanda. Portanto, para a indústria de fabricantes de colhedoras, o mercado de cana-de-açúcar é, de fato, pequeno comparativamente.

Diante dos dados expostos, é possível inferir que a lavoura de cana-de--açúcar encontra-se em situação de desvantagem em relação à alocação de recursos de P&D se comparados aos que são alocados no desenvolvimento da mecanização para a cultura de cereais, pois não se consegue diluir tais gastos por uma escala grande de produção. Mas é a cultura da cana-de-açúcar, quer seja por ser mais complexa, quer seja por exigir mais das máquinas no processo de plantio e colheita e ter menos tempo de evolução em relação à cultura de cereais, que exige um nível de investimento muito mais alto, a fim de se reduzir a defasagem tecnológica que hoje existe. Em razão disso, pode ser necessário que sejam disponibilizados incentivos governamentais para gastos em P&D, a fim de minorar essa situação de desvantagem da cana-de-açúcar. Se o setor vier a depender exclusivamente de recursos de mercado, pode ser que eles não venham nos volumes e no tempo que o desenvolvimento da cultura canavieira hoje exige.