O governo decidiu. Em dez dias a gasolina brasileira terá 27% de etanol. Porém, não será toda gasolina vendida no Brasil que receberá a mistura maior. Cerca de 10% do combustível vendido nos postos, a gasolina premium, não terá alteração em sua composição.
A inconsistência na decisão do governo, de mexer apenas na gasolina comum e aditivada, aponta para a polêmica que marcou as discussões e o atraso de mais de um mês entre o anúncio e a sua oficialização.
Como os testes que deveriam confirmar a segurança da nova mistura não foram concluídos e os estoques de etanol estão em níveis recordes, o conflito entre a Anfavea e as usinas sucroalcooleiras se intensificou.
Se tecnicamente uma decisão ainda não poderia ser tomada com total segurança, no campo político a decisão parecia já ter acontecido há tempos.
A ministra da agricultura, Kátia Abreu, indicou que já sabia dos resultados dos testes antes mesmos deles acontecerem: "Nunca tivemos dúvida de que esse porcentual não traria prejuízo, mas a Anfavea tinha o direito de ter as suas dúvidas e querer testes, fazer toda a análise técnica, laboratorial".
No ano passado, quando os testes tinham apenas começado, o técnico do Inmetro, Fábio Real, deixou escapar que a decisão sobre o aumento da mistura seria “mais política do que técnica”. A presidente da Unica, Elizabeth Farina, se manifestou contra a declaração, afirmando que os resultados oficiais deveriam ser aguardados antes que se fizesse qualquer “suposição” acerca do tema.
Com os resultados oficiais incompletos, ontem à noite, após a assinatura da resolução, nota divulgada pelo Ministério de Minas e Energia, não fez qualquer menção ao testes de durabilidade. No entanto, o ministro da pasta Eduardo Braga comentou à Agência Brasil que os estudos indicaram “absoluta tranquilidade para o consumidor”. Para ele, a oficialização da decisão demorou mais de um mês “fruto da segurança que o governo queria ter, com nenhum risco ao rendimento e durabilidade dos motores e ciclomotores com aumento da participação etanol”.
A posição do ministro contrasta com a declaração dada ontem por Elizabeth Farina à Agência Estado. Questionada sobre a posição do presidente da Anfavea, Luiz Moan, sobre a orientação para os consumidores de veículos movidos utilizarem gasolina premium, ela informou: "Não sei explicar o motivo de o Moan ter levantado isso. Foram feitos vários meses de testes de emissões, consumo e durabilidade de peças pela Anfavea e, no último deles, os veículos tinham rodado mais de 70% da quilometragem prevista sem problema algum".
A fala de Farina revelou que os testes de durabilidade — que deram segurança ao MME — não foram concluídos. Como se trata de teste de durabilidade, é de se esperar que a etapa final, os 30% restantes, sejam cruciais para determinar o comportamento dos componentes com a nova mistura.
Luiz Moan também confirmou ontem a falta de conclusão dos testes: “Estamos tentando fazer um teste acelerado para a durabilidade”. Mas manteve o prazo definido originalmente e o resultado será conhecido apenas no final do mês.
A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, classificou esta negociação como um “ruidozinho no meio do caminho”. Segundo o Valor Econômico, ela teria dito que o adiamento da decisão foi responsabilidade das entidades. “Enquanto esse ruído não foi totalmente silenciado, o governo não se sentiu confortável para fazer o anúncio”, completou a ministra.
Ao deixar a gasolina premium de fora, ficou claro que conforto do governo esteve presente mais nas declarações do que em sua decisão.
A pressão da Anfavea, que, junto do consumidor, são os maiores interessados nos resultados dos testes de durabilidade, garantiu uma opção e a inconsistência do governo. “Nós insistimos bastante que a gasolina premium não sofresse nenhuma alteração na sua formulação, de forma que o consumidor tenha uma alternativa de abastecimento para os veículos movidos exclusivamente a gasolina”, insistiu Moan. E, mais uma vez, reforçou a recomendação para que os carros movidos exclusivamente a gasolina optem pela premium. Esta sim, a única escolha segura e tranquila no momento.
Estoques. As usinas, que desde o início dos testes tinham uma sinalização positiva do governo em relação a nova mistura, reforçaram os estoques do produto. Esta ação acabou servindo como mais um elemento de pressão nas negociações. Kátia Abreu exaltou a existência de "1 bilhão de litros de etanol estocados”. “Com essa decisão do governo, nós teremos a condição de tirar esse estoque de etanol.”
Editorial novaCana