Falta de chuva nas principais regiões produtoras influenciou estimativas, que agora estão ainda mais cautelosas
A safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul já completou três meses e quase todos os relatórios de acompanhamento divulgadas pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) demonstraram um aumento na moagem em comparação ao mesmo período do ano passado.
Uma entressafra positiva e um clima favorável, somados a um bom número de usinas em funcionamento, fizeram com que houvesse bastante cana disponível. O direcionamento dessa matéria-prima foi focado na produção de etanol, com ênfase no hidratado, conforme mostram os relatórios quinzenais.
Ainda assim, o clima que facilitou a colheita não é bom para o rendimento futuro da temporada e a perspectiva para os próximos meses não é positiva. Para o diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues, “o clima seco observado desde o início da safra tem favorecido a colheita da cana, mas deve impactar o rendimento da lavoura a ser colhida nos próximos meses”.
O mais recente levantamento realizado pelo NovaCana, finalizado em 25 de julho, traz as estimativas de 18 consultorias e empresas especializadas para o resultado da safra 2018/19 e, em comparação com a sondagem feita no início da temporada, o novo cenário é ainda mais cauteloso.
O levantamento do NovaCana ainda reuniu projeções para quantidade total de ATR, qualidade da cana, mix de produção das usinas e produção de açúcar e etanol. Ao todo, são apresentados 10 gráficos e tabelas comparativas.
Um novo gráfico foi desenvolvido para esta reportagem especial, mostrando como as estimativas de cada empresa especializada evoluiu, da primeira previsão até a mais atualizada.
Atualização: A estimativa de moagem da MB Agro apresentada incialmente estava equivocada. A empresa nos informou que houve um erro de digitação e o número, que era de 515 milhões de toneladas, na verdade deveria ser 551 milhões de toneladas. O texto e os gráficos correspondentes abaixo já encontram-se atualizados.
A safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul já completou três meses e quase todos os relatórios de acompanhamento divulgadas pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) demonstraram um aumento na moagem em comparação ao mesmo período do ano passado.
Uma entressafra positiva e um clima favorável, somados a um bom número de usinas em funcionamento, fizeram com que houvesse bastante cana disponível. O direcionamento dessa matéria-prima foi focado na produção de etanol, com ênfase no hidratado, conforme mostram os relatórios quinzenais.
Ainda assim, o clima que facilitou a colheita não é bom para o rendimento futuro da temporada e a perspectiva para os próximos meses não é positiva. Para o diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues, “o clima seco observado desde o início da safra tem favorecido a colheita da cana, mas deve impactar o rendimento da lavoura a ser colhida nos próximos meses”.
O mais recente levantamento realizado pelo NovaCana, finalizado em 25 de julho, traz as estimativas de 18 consultorias e empresas especializadas para o resultado da safra 2018/19 e, em comparação com a sondagem feita no início da temporada, o novo cenário é ainda mais cauteloso.
Moagem vai cair – resta saber quanto
Em relação à produção de cana-de-açúcar, as estimativas vão de 551 milhões a 585 milhões de toneladas. A média, de 568,51 milhões de toneladas, é 2,65% menor que a esperada no último levantamento – 584,01 milhões de toneladas.
Se este valor se confirmar, ele seria 4,66% menor que o total moído na safra passada: 596,31 milhões de toneladas. Considerando a maior e a menor estimativas, a queda pode ser de 1,89%, no caso da primeira, e chegar a até 7,59%, no caso da segunda.

Aliás, a elasticidade entre as previsões aumentou 33,85%: em maio, a diferença entre a maior e a menor estimativas era de 25,4 milhões de toneladas; agora, ela é de 34 milhões. Isso acontece graças à menor previsão, da MB Agro, que reduziu em 5,32% a sua estimativa entre os dois levantamentos – em maio, ela era de 582 milhões de toneladas.

Por outro lado, o maior número é o previsto pela Job Economia, que manteve sua previsão de 585 milhões de toneladas moídas entre os dois últimos levantamentos.
Quanto às outras consultorias que aparecem em ambos os levantamentos, quase todas reduziram suas estimativas. A exceção é a Conab, que aumentou em 200 mil toneladas, enquanto a Safras & Mercado não estava na pesquisa anterior.
A Green Pool, por exemplo, diminuiu sua expectativa de moagem de 590 milhões para 574 milhões de toneladas, uma queda de 2,7%. O analista de commodities sênior Eder Vieito explica que o outono seco pelo qual o Centro-Sul passou teve grande impacto nas previsões da consultoria.
“Estamos esperando uma produtividade agrícola muito ruim na segunda metade da safra, que é quando as usinas devem passar a colher a cana que dependia do clima do outono para o seu desenvolvimento. Por enquanto, esse efeito ainda não se manifestou, porque a colheita está se concentrando nos cortes menos afetados”, explica.

Já a previsão da FG/A diminuiu menos, graças ao clima seco observado até então, passando de 579 milhões para 573,5 milhões de toneladas moídas – mas este número ainda pode mudar. João Henrique Rissi, analista da consultoria, explica: “Nosso cenário pode ser afetado por uma quebra de produtividade ainda maior e também pela decisão do setor de bisar uma quantidade de cana superior à que estimamos”.
“As expectativas de meio de safra são ajustadas conforme as tendências acontecem. O volume de cana não foi determinado pensando que as usinas, em outubro, podem preferir bisar. Se isso acontecer, a estimativa pode acabar diminuindo ainda mais – e não ponderamos isso na previsão. Ainda estamos trabalhando com o máximo de produto que pode vir”, acrescenta.

A alarmante falta de chuvas
O Rabobank, em seu último relatório, determina o impacto da falta de chuvas no resultado de 2018/19: “O clima seco que ajudou a acelerar a colheita lançou uma sombra sobre as perspectivas para a safra, especialmente no estado de São Paulo”.
Segundo o documento, é esperado um declínio na produção total de cana, principalmente no terço final da colheita. Fontes consultadas pelo banco em São Paulo citam uma variação de 10% a 15% para o impacto projetado. “Como resultado, a visão consensual sobre o tamanho da safra Centro-Sul foi revisada para baixo, com a maioria das projeções atuais caindo para uma faixa entre 560 e 570 milhões de toneladas, com um possível novo potencial de queda”, justifica.
O sócio-diretor da Archer, Arnaldo Luiz Correa, ainda acrescenta que o longo período com chuvas insuficientes nas principais regiões produtoras de cana no Centro-Sul tem provocado estresse no canavial, que está seco e começa a preocupar os produtores. “As quebras em algumas regiões pontuais são alarmantes.”
De acordo com pesquisa realizada pela consultoria, há uma quebra média de 2,85% no volume a ser processado este ano, embora o número não seja ainda conclusivo.
A consultoria Safras & Mercado apresentou dados do Thomson Reuters Agriculture Weather Dashboard, que aponta chuvas entre 150 e 160 milímetros abaixo da média em algumas importantes áreas de São Paulo, principal produtor nacional, nos últimos quatro meses.
“A situação é ainda mais grave no Paraná, onde as precipitações estão mais de 300 milímetros aquém do esperado em certas regiões. Assim, embora o tempo seco tenha contribuído para o avanço consistente da colheita, há a perspectiva de produtividade reduzida nos canaviais colhidos tardiamente”, Mauricio Muruci, Safras & Mercado
O analista de mercado da INTL FCStone, João Paulo Botelho, acrescenta: “Entre os meses de fevereiro e junho, a precipitação sobre o cinturão canavieiro registrou 378 mm, 31,4% abaixo do ano passado e 33,4% abaixo da média histórica. Com as chuvas escassas, o nível de umidade no primeiro 1,6 metro de solo também caiu para 346,8 mm no mês de junho, 16,6% abaixo da média de 10 anos”.
O indicador de saúde da vegetação, que usa imagens de satélite para analisar a situação das lavouras, também mostra declínio significativo nas condições das principais áreas canavieiras do Centro-Sul. Na média dos principais estados produtores, este índice registra 44,8 pontos – em uma escala na qual 0 é altamente estressado e 100 é altamente saudável –, queda de 25,1% ante o ano passado e 19,9% a menos do que a média dos últimos 10 anos.
Porém, Botelho pondera quanto ao impacto do clima sobre a totalidade das regiões produtoras. Isso porque, assim como ocorreu em 2014, o estresse hídrico não está espalhado de maneira uniforme por toda a região canavieira do Centro-Sul.
“No estado de Minas Gerais, responsável por 11% da área esperada, as chuvas no acumulado do ano superam o mesmo período no ano passado”, ele avalia. Além disso, o índice de saúde vegetal do estado no começo de julho é maior que o registrado no ano passado, assim como ocorre em Goiás, responsável por 12% da área.
Clima seco, ATR em crescimento
A contrapartida da diminuição na moagem é que o tempo seco também favorece o acúmulo de sacarose na planta. A frase de Eder Vieito, da Green Pool, demonstra a expectativa geral de aumento na quantidade açúcar total recuperável (ATR) por tonelada no final da safra. Em comparação com o último levantamento, a média das previsões cresceu 1,62%, chegando a 136,98 kg/ton.
“Nas últimas quinzenas, o ATR já vem marcando os seus melhores níveis desde o começo da era da mecanização, e isso deve continuar, levando o ano a terminar com um resultado de ATR acima da média”, Eder Vieito, Green Pool
João Henrique Rissi, da FG/A, explica que a estimativa da consultoria é baseada na média histórica das últimas safras. “Para o ATR, adequamos nossa estimativa para refletir a tendência de incremento até junho deste ano (em torno de 4,5%) nos demais meses da safra 2018/19. Com isso, o esperado final é de 140,3 t/ha”, afirma, prevendo o maior valor dentre as consultorias pesquisadas.

“Quem está moendo, está otimizando. As usinas estão moendo conforme podem, não adianta reduzir o ritmo agora – podiam ter feito isso antes, mas já está tarde demais, então, devem seguir moendo”, Rissi conclui, explicando que o único mês que teve menor ATR total foi maio, pois, como consequência da greve dos caminhoneiros, as usinas moeram menos.
“No cenário atual, de muito sol e com os preços baixos para o açúcar, a safra está adiantada e a moagem só será menor em outubro. Por isso, esperamos um ATR alto nesta safra”, João Henrique Rissi, FG/A
A Sucden concorda que o crescimento do ATR e da moagem estão acelerados nestes primeiros três meses da safra, beneficiando-se do baixo padrão de chuvas. Porém, a trading acredita que o ATR final da safra 2018/19 ficará em 135 kg/t, abaixo dos 136,6 kg/t da temporada anterior.
Por outro lado, a FCStone estima o contrário: “A falta de chuvas tem efeito positivo na qualidade da matéria-prima, resultando em aumento do ATR médio, estimado em 139,1 kg/t – o maior nível desde 2010/11”.

Etanol segue em alta
Em relação às médias das estimativas, e comparando com o levantamento anterior, as principais diferenças estão na previsão de produção de açúcar, que caiu 3,45% – de 31,02 para 29,95 milhões de toneladas – e de etanol hidratado, que cresceu 8,69% – de 16,51 para 17,94 bilhões de litros –, consequências da queda de 4,18% no mix de açúcar – de 41,47% para 39,74%.

A Sucden afirma que o mix pouco açucareiro é a principal característica desta safra. “Esperamos que ele se mantenha drasticamente baixo, com o etanol pagando melhor do que o açúcar e a demanda de biocombustível permanecendo forte graças à baixa taxa de bombeamento”, aponta.
A paridade entre os dois produtos da cana-de-açúcar continua favorecendo o etanol, mesmo em uma época do ano em que o açúcar normalmente remunera melhor em função da sazonalidade de preços do biocombustível.
“Estimamos que as usinas do Centro-Sul destinarão 60,1% do mix produtivo para o biocombustível e apenas 39,9% para o açúcar. Esta seria a maior concentração da produção canavieira no etanol desde a safra 2008/09”. João Botelho, da FCStone.
O analista da Safras & Mercado, Maurício Muruci, explica que o etanol vem se mostrando mais atrativo para as usinas desde o ano passado, na esteira de mudanças tributárias, da nova política de formação de preços da Petrobras e da queda dos preços internacionais do açúcar. “As projeções de alta no preço do petróleo deverão dar fôlego à demanda para o etanol, com as usinas deixando de lado a produção de açúcar em um momento de grande superávit de oferta em termos globais e de queda de rentabilidade com a commodity”, conclui.
Em relação aos preços, a Sucden lembra que os valores do etanol entraram em colapso em mais de 30% desde o início da safra. De acordo com a companhia, esse é um ritmo mais acelerado do que o usual, refletindo a estratégia das usinas de capturar o prêmio do biocombustível.
No entanto, considerando a taxa de bomba atual abaixo de 70% em São Paulo, espera-se que os preços se estabilizem e mantenham um prêmio em relação ao açúcar. “As usinas devem, portanto, continuar a minimizar a produção do adoçante, e o mix atualmente é de 41%”, explica a companhia, em relatório.
João Henrique Rissi, da FG/A, afirma que o setor está atuando acima do mix esperado inicialmente. A consultoria já projetava que o setor poderia maximizar a produção de etanol, gerando um mix baixo para o açúcar. Porém, a participação do adoçante atingiu um valor ainda menor que o esperado, fazendo com que a consultoria revisse os números e indicasse o menor mix do levantamento: 38%.

“Com a fábrica cheia, o usineiro não tem mais tanta flexibilidade e, assim, surge uma tendência. O foco é na destilaria, para poder investir no etanol, e fica ainda mais fácil lidar com o superávit global de açúcar”, afirma o analista.
Em relação ao consumo, o consultor afirma que o mercado pode absorver esse excesso de etanol, considerando a frota de carros flex. “É importante seguir com essa demanda. O consumidor está mudando para o etanol – veja a relação entre os combustíveis em São Paulo, por exemplo”, afirma e conclui: “Assim, o estoque vai começar a enxugar, mesmo que esteja maior do que o do ano passado. Com a gasolina seguindo no patamar em que está, o etanol vai reagir. O aumento do consumo e essa dinâmica faz o preço reagir”.

A Conab, por outro lado, espera o menor volume de etanol entre as 18 empresas consultadas. Ou seja, a visão apresentada é que o mix de produção não deve variar tanto quanto o esperado. A companhia sinaliza um mix de 43,2% para o açúcar, o maior de todos.
Por sua vez, Green Pool e FG/A estimam as maiores quantidades de etanol total para o fim da safra, e ambas aumentaram suas previsões em comparação ao levantamento anterior. Enquanto a primeira estima um total de 29,05 bilhões de litros, contra 27,32 bilhões em maio, a segunda tem a maior estimativa: 29,3 bilhões de litros, contra 27,9 bilhões na última pesquisa.

As duas consultorias justificam esse aumento pelo fato de que as usinas demonstraram ter um pouco mais de flexibilidade no mix do que acharam possível. A FG/A ainda afirma que “as usinas tinham maior capacidade de etanol que o demonstrado historicamente ou até mesmo realizaram uma expansão recente”, o que influenciou na maior produção do biocombustível.

Já em relação à produção de açúcar, a menor estimativa é a da MBAgro, com 27,6 milhões de toneladas, contra 31,2 milhões esperados pela consultoria em maio. Se essa previsão se confirmar, o resultado do Centro-Sul seria o menor desde as 26,75 milhões de toneladas de açúcar em 2008/09, tendo por base o histórico da Unica.
Rafaella Coury – NovaCana