A visão de que na próxima entressafra o mercado interno terá pouco etanol começa a ganhar força no setor. E os ingredientes responsáveis por essa perspectiva já foram colocados à mesa
A visão de que na próxima entressafra o mercado interno terá pouco etanol começa a ganhar força no setor. E os ingredientes responsáveis por essa perspectiva já foram colocados à mesa.
Qualquer perspectiva sobre o desenvolvimento da safra 2016/17 exige um volume de cana disponível que, dentro do contexto de moagem esperado, talvez não se concretize.
A visão de que na próxima entressafra o mercado interno terá pouco etanol começa a ganhar força no setor. E os ingredientes responsáveis por essa perspectiva já foram colocados à mesa.
A moagem acelerada no Centro-Sul e a atratividade do mercado global de açúcar são alguns desses atores que delineiam o cenário para o etanol no próximo período entre as safras de cana-de-açúcar no país.

Mesmo sendo difícil prever o que acontecerá até o final da safra, especialmente em relação ao clima, os últimos meses já clarearam alguns caminhos que a atual temporada pode assumir dentro da elasticidade de cenários esperados.
Ainda no início do ano, quando foram lançadas as projeções iniciais para a safra 2016/17, as previsões mais sombrias de moagem eram aquelas que ressaltavam as possíveis consequências da última entressafra, atipicamente curta e apostavam nos problemas gerados pelo prolongamento do tempo seco.
Este mesmo tempo quente e seco está propiciando um esmagamento de vento em popa nas unidades do Centro-Sul brasileiro, principal região produtora do país.
Por um lado, esse aceleramento infla os resultados da primeira parte da safra, por outro, pode prejudicar a reta final da temporada. Devido ao déficit hídrico, a cana que foi colhida fora de época, na entressafra, dificilmente terá condições de ser colhida novamente em 2016/17, já que não teve água nem tempo hábil para crescer.
Além disso, não foi dado tempo para os canaviais se recuperarem, o que deve provocar uma queda na qualidade da cana em relação a este início, o que se refletirá no rendimento das usinas durante os próximos meses.
Foi diante desse contexto que foi realizada a recente redução nas expectativas de moagem para 2016/17 da Datagro – revisão que surpreendeu alguns atores do mercado. O elemento-chave é justamente a seca e a safra “apressada” na região Centro-Sul brasileira.
A questão nessa pressa em moer cana é que o setor tem grande necessidade de gerar caixa. Logo, para continuar operando, as usinas estão colhendo e vendendo em ritmo intenso, buscando seguir o curso dos preços favoráveis.
Como consequência da atratividade do mercado de açúcar, boa parte das usinas segue priorizando a produção do adoçante em detrimento a de etanol, apesar da demanda aquecida das distribuidoras, pressionando a cotação do renovável.
O ritmo intenso de produção também fica visível nas vendas para outros países. Os volumes acumulados de exportações de açúcar até julho, por exemplo, já foram mais de 21% maiores do que no ano passado.
O contrassenso é que, apesar da possibilidade de uma oferta menor de etanol ao longo da safra, o Brasil está batendo recordes nas exportações do produto, aproveitando os preços do mercado externo.Neste ano, até julho, os volumes exportados chegaram a 1,3 bilhão de litros no acumulado de 2016. O volume é 72% maior do que o registrado no mesmo período acumulado de 2015.
Como 2015 foi um ano atípico devido à grande demanda interna registrada pelo etanol hidratado, em relação à 2014, o volume exportado este ano também é elevado, quase 50% maior.
Influência do dólar
O dólar mais valorizado no período contribuiu para esse dinamismo no mercado internacional, além da retomada da política de incentivo ao consumo de biocombustíveis na Califórnia. Esse ritmo de exportações, combinado com a moagem menor na reta final, fazem alguns consultores já enxergarem no horizonte uma entressafra acompanhada de uma volatilidade forte nos preços do biocombustível de cana.
Para a Datagro, o preço do etanol precisa crescer em maior velocidade para que a relação de oferta e a demanda funcione. “Para minimizar os riscos, é fundamental que o preço reflita a situação que vivemos e controle a demanda resistente”, disse o diretor da consultoria, Guilherme Nastari, em recente entrevista.
No entanto, apesar do fôlego adicional nas vendas externas brasileiras, ainda é incerto se o ritmo de exportações de etanol continuará acelerado até o fim da safra. A recente queda do dólar e a continuidade da atratividade do mercado global de açúcar podem provocar até mesmo uma queda dos embarques em comparação com períodos anteriores.
Dentro dessa visão, um dólar desvalorizado pode diminuir o ritmo dos embarques internacionais de etanol e aumentar os de açúcar. Por outro lado, considerando que o açúcar está particularmente exposto à taxa de câmbio, no caso de umreal mais forte, a produção de etanol para o mercado interno ganha uma perspectiva mais tentadora.
Obviamente, qualquer perspectiva exige um volume de cana disponível que, dentro do contexto de moagem esperado – prejudicado pela seca e falta de recuperação dos canaviais –, talvez não se concretize. É essa leitura que traz a percepção de que a necessidade de cana está além da moagem deste ano e que existe a possibilidade crescente do setor atravessar a entressafra mais apertada dos últimos anos.
Marina Gallucci – NovaCana