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O potencial da exportação de etanol para os EUA – e as dificuldades encontradas pelo Brasil

california bandeira 161015O NovaCana ouviu consultores do mercado, traders, técnicos do Carb e selecionou informações de estudos sobre o mercado norte-americanos relevantes para os produtores brasileiros

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EPA, RFS, Carb, LCFS, CI, Iluc, DEQ. São muitas as siglas que fazem a diferença para os produtores brasileiros de etanol que pretendem exportar para os Estados Unidos. Mas até que ponto o que é estabelecido por cada uma delas é capaz de influenciar o mercado?

Ao longo de 2015, segundo números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o Brasil exportou 1,86 bilhão de litros do biocombustível. Esse valor representa 6,8% dos 27,41 bilhões de litros produzidos durante o mesmo período. Considerando apenas as vendas realizadas para o maior mercado comprador – os Estados Unidos – somam-se 915,38 milhões de litros (3,34% de toda a produção nacional).

Para alcançar estes volumes, as usinas brasileiras devem ficar atentas às janelas de oportunidades, que se abrem de acordo com as flutuações do mercado. Mas esta dinâmica é difícil de prever e os comprometimentos com o mercado interno frequentemente impedem ganhos maiores com a exportação.

“Muitas vezes, a janela é boa, mas não temos adicional de etanol, como no período da entressafra. Além disso, temos venda de anidro para mistura à gasolina em contrato obrigatório dentro do país.”

O mercado da Califórnia tem potencial para absorver boa parte do etanol exportado pelo Brasil, no entanto, na prática, não é o que acontece.

O NovaCana ouviu consultores do mercado com sede nos EUA, traders brasileiros, técnicos do Carb e selecionou informações de estudos sobre o mercado norte-americano relevantes para os produtores de etanol de cana-de-açúcar.

EPA, RFS, Carb, LCFS, CI, Iluc, DEQ. São muitas as siglas que fazem a diferença para os produtores brasileiros de etanol que pretendem exportar para os Estados Unidos. Mas até que ponto o que é estabelecido por cada uma delas é capaz de influenciar o mercado?

Ao longo de 2015, segundo números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o Brasil exportou 1,86 bilhão de litros do biocombustível. Esse valor representa 6,8% dos 27,41 bilhões de litros produzidos durante o mesmo período. Considerando apenas as vendas realizadas para o maior mercado comprador – os Estados Unidos – somam-se 915,38 milhões de litros (3,34% de toda a produção nacional).

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Para o diretor da SCA Trading, Martinho Ono, esses números de exportação poderiam ser maiores. Ele explica que a ausência de contratos de longo prazo deixa o mercado muito sujeito às chamadas janelas de oportunidade, as quais nem sempre ocorrem em momentos que o produtor brasileiro tem condições de vender.

“Muitas vezes, a janela é boa, mas não temos adicional de etanol, como no período da entressafra. Além disso, temos venda de anidro para mistura à gasolina em contrato obrigatório dentro do país”, complementa.

“No mundo, apenas 5% da produção de etanol é exportada. No Brasil, esse volume é de 7% a 8%”, Martinho Ono (SCA Trading)

Ainda assim, ele classifica como positivos os resultados recentes. “No ano passado, a previsão de exportação era menor, mas a conta começou a ficar interessante com a alta do dólar”, afirma.

Mercado acirrado

O consultor Paul Niznik, da Stratas Advisors – companhia que faz parte da Hart Energy –, observa que o etanol fabricado nos Estados Unidos está sendo considerado barato no momento, o que desestimula as importações de etanol de cana-de-açúcar para o país. Além disso, uma demanda reduzida por etanol faz com que seja feita a troca por biodiesel, equilibrando o mercado de RINs (Número de Identificação de Renováveis, referentes aos créditos por biocombustíveis). O MDIC informou que em fevereiro o Brasil exportou 306 milhões de litros de etanol, destes, 105 milhões de litros foram para os EUA. No entanto, a Datagro contestou estes números, afirmando que apenas 10% desse valor foi efetivamente exportado em fevereiro, em linha com a posição do analista da Stratas.

“Quando teve início a regulação nacional [RFS, em 2005], havia uma vantagem financeira para o etanol de cana contra o etanol de milho por causa preços dos diferentes RINs”, relembra e continua: “Contudo, isso deixa de existir em um mercado apertado para a demanda de etanol. Há apenas uma quantidade de etanol a ser usada e os compradores têm muitas opções”.

“Todos os preços de RIN estão no mesmo patamar e não existe mais vantagem no RFS para o etanol brasileiro de cana-de-açúcar dentro dos Estados Unidos”, Paul Niznik

Niznik ainda observa que a maior parte do etanol de cana-de-açúcar que entra no país por Houston, no Texas, não é destinada ao consumo doméstico, mas processada em ETBE, um aditivo para a gasolina sintetizado pela mistura de etanol e isobutileno.

“Nós não usamos ETBE nos Estados Unidos, mas reexportamos para o Japão, onde há um mandato”, relata e deixa um alerta: “Os compradores do Japão dão preferência para o etanol de cana-de-açúcar por causa da intensidade baixa de carbono, mas sei que produtores de etanol dos Estados Unidos e produtores de etanol celulósico querem capturar esse pequeno segmento de mercado”.

Martinho Ono confirma que a maior quantidade de etanol brasileiro exportado para os Estados Unidos é para a fabricação de ETBE. Esse mercado ainda teria a vantagem de apresentar contratos de longo prazo.

Na sequência, de acordo com Ono, a demanda é pelo etanol como combustível avançado, seguindo as metas estabelecidas pelo Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS), da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Por fim, entraria o etanol dentro das exigências mais severas do Padrão de Combustíveis de Baixa Emissão de Carbono (LCFS), do Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb).

As dificuldades em exportar para a Califórnia

O fato da Califórnia estar em terceiro lugar na lista elaborada por Ono não é totalmente inesperado. Em um estudo elaborado antes da aprovação da nova regulamentação do Padrão de Combustíveis de Baixa Emissão de Carbono (LCFS), pesquisadores do Instituto de Estudos de Transportes da Universidade da Califórnia já ressaltavam a pequena participação do etanol brasileiro de cana-de-açúcar dentro do estado.

De acordo com o estudo, o etanol de cana-de-açúcar correspondia a menos de 0,4% dos créditos gerados em 2014.

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Segundo Dave Clegern, membro do conselho do Carb, 96% do etanol consumido na Califórnia entre outubro de 2014 e setembro de 2015 era feito totalmente com etanol de milho ou a partir de misturas entre milho, sorgo e trigo. Do restante, 3% foi etanol de sorgo e 1% de cana-de-açúcar (não apenas de produtores brasileiros). Na média do programa, essas porcentagens são, respectivamente, 91%, 5% e 4% – números que ressaltam a queda do biocombustível brasileiro nesse mercado.

Cálculos do NovaCana com base em dados do Carb apontam que, quando se observa o volume total de combustíveis, o etanol de cana-de-açúcar encerrou 2014 com uma participação de 0,17%, ou seja, um volume de apenas 2,4 milhões de litros ante um total de 1,4 bilhão utilizados na Califórnia. Até o terceiro trimestre de 2015, essa participação foi de 7,8 milhões de litros, o que representa 0,74% do total de 1,1 bilhão consumido até o fim do período.
Martinho Ono, da SCA Trading, contudo, ainda considera que o Brasil tem poucas usinas credenciadas para exportar etanol para a Califórnia. Atualmente, 115 estão autorizadas a exportar etanol para a Califórnia, embora apenas 39 tenham registrado envios.

Para acessar a relação completa de usinas cadastradas e suas respectivas CIs, clique aqui.

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Além da remuneração, Ono observa que a questão logística e de custos também influencia muito esse mercado. “Levar etanol para a Califórnia é mais caro que para Nova York ou para a Flórida”, argumenta.

Citando Flórida, Texas, Nova York e Havaí como alguns dos principais estados compradores do etanol brasileiro, a própria Califórnia concorda que é custoso levar o produto ao estado. “Esses mercados são mais próximos e evitam a travessia pelo Canal do Panamá”, aponta Dave Clegern, membro do conselho do Carb.

Contudo, ele é esperançoso com relação ao futuro. “Com um Iluc [impacto da mudança no uso indireto da terra] alto e os preços de créditos baixos dentro do LCFS em 2015, pode não ter sido vantajoso enviar para a Califórnia. O recente aumento no preço dos créditos provavelmente deve mudar esse cenário”, afirma Clegern.

Preços na Califórnia já estão melhores

Martinho Ono complementa que, este ano, a intensidade de carbono (CI) para o etanol de cana-de-açúcar deve ficar mais baixa. Esse fator, somado ao preço dos créditos, deve estimular um aumento do volume de etanol comprado do Brasil pelos Estados Unidos.

Isso vai de encontro ao que observa o estudo da Universidade da Califórnia. Segundo o documento, com o LCFS parcialmente congelado — o que motivou as recentes alterações no texto —, o programa, de forma geral, havia gerado uma situação complicada para os combustíveis renováveis já ao longo de 2014. Naquele ano, foram gerados 67% mais créditos que déficits de carbono, prejudicando o mercado.

Paul Niznik também aponta os problemas legais enfrentados pelo programa da Califórnia como uma dificuldade adicional às importações de etanol brasileiro. “Eles congelaram o programa por quase um ano e meio. Os créditos caíram muito, mas, agora, os preços triplicaram em seis meses”, afirma.

Com relação aos preços, ele afirma que a Hart Energy prevê que os preços de créditos atingirão seus limites máximos em 2017 – e, talvez, já neste ano. Até o momento, ele aponta que 65% do caminho já foi percorrido.

Segundo reportado pela edição de fevereiro da revista Agro Analysis, o valor da tonelada de carbono passou de US$ 24 em junho de 2015 para US$ 119. Dessa forma, o prêmio do etanol de cana-de-açúcar com CI de 58,4 g CO2e/MJ chega a US$ 100,94 a cada mil litros (10 centavos de dólar por litro). Essa CI é referente ao caminho padrão ETHS002, um dos mais comuns entre as usinas brasileiras, que considera um processo de produção comum, com colheita mecanizada e cogeração de eletricidade.

Investimentos na indústria local prejudicam produto brasileiro

Além disso, outra conclusão dos pesquisadores da Universidade da Califórnia foi que a média de CI emitida pelos combustíveis consumidos no estado caiu consideravelmente. No começo do programa, em 2011, ela era de 86,4 gCO2e/MJ. Ao final de 2014, esse número caiu 15%, chegando a 73,5 gCO2e/MJ in 2014.

Outra opção encontrada, segundo o estudo, foi o aumento da produção interna. Entre 2011 e 2013, ela correspondia a 18% de um consumo total de 1 bilhão de galões de gasolina equivalente [3,79 bilhões de litros]. No ano seguinte, esse número passou a representar 30% dos 88 milhões de galões de gasolina equivalente consumidos [333,12 milhões de litros].

Esses elementos – queda na média de CI e maior produção doméstica –, estão interligados, segundo a análise de Paul Niznik. Com um crescimento na produção interna de etanol de milho, segundo ele, a competição com o biocombustível brasileiro se dá basicamente por causa do preço. “Nós não temos condições de misturar mais de 10% de etanol em nossa gasolina”, garante.

O consultor também relata que os produtores de etanol de milho dos Estados Unidos perceberam o potencial do mercado da Califórnia e tiveram tempo para investir em tecnologias que reduziram a intensidade de carbono do biocombustível. Além disso, há uma produção doméstica de etanol de cana-de-açúcar e uma fabricação de etanol celulósico já em andamento. “Eles estão registrados no programa da Califórnia e têm uma dianteira por lá”, conta.

Ele também ressalta que a diferença entre o programa da Califórnia e o nacional é que o estado dá créditos considerando a CI de cada planta industrial específica, inclusive diferenciando diferentes combustíveis produzidos em um mesmo lugar, enquanto o restante do país classifica cada combustível com um valor pré-determinado.

“Como o programa recompensa plantas individuais, as indústrias são incentivadas a fazer melhoras. Elas sabem que têm um mercado na Califórnia, então, fizeram bastante para reduzir suas CIs e criar uma vantagem competitiva sobre outros produtores de etanol de milho”, afirma e completa: “Se elas pretendem alcançar as mesmas CIs do etanol de cana, é uma análise que precisa ser feita caso a caso. Mas elas melhoraram bastante e podem tomar uma parcela do mercado do Brasil”.

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Compradores em busca do etanol celulósico

O consultor da Hart Energy também observa que há um interesse pela compra de etanol de segunda geração das duas usinas brasileiras. “Para onde está indo esse etanol? Esse é um combustível com baixos índices de carbono e que teria muitas vantagens tanto no programa da Califórnia quanto no nacional”, questiona. Sabe-se, no entanto, que as usinas brasileiras de etanol celulósico, a exemplo das demais pelo mundo, estão enfrentando problemas para atingir escala e enfrentam desafios que impedem a fabricação de volumes significantes.

“Os compradores não conhecem o etanol celulósico brasileiro. Ele deveria estar chegando ao mercado ao mesmo tempo que o etanol celulósico doméstico. Então, se os produtores correrem, eles não vão se atrasar para a festa”, Paul Niznik

De acordo com Niznik, tanto os Estados Unidos quanto a Europa estão incentivando biocombustíveis celulósicos. “No momento, a diferença de preço entre etanol de cana e etanol celulósico nos Estados Unidos, dentro do RFS, é de US$ 0,60 por galão [US$ 0,16 por litro] e isso é muito dinheiro. Se o Brasil trouxer esse etanol para os EUA, ele teria vantagem competitiva”, aponta.

Dentro do programa da Califórnia, ainda segundo o consultor, essa vantagem seria um pouco menor, de US$ 0,30 a US$ 0,40 por galão [US$ 0,08 a US$ 0,11 por litro]. “Esse número é bastante incerto porque depende da CI”, observa.

Novos mercados à vista

Paul Niznik relata que a Hart Energy já fez consultoria para companhias brasileiras interessadas no mercado dos Estados Unidos. “Nós deixamos bem claro que haveria um período difícil pela frente para o etanol de cana-de-açúcar por causa do consumo limitado”, relembra.

De acordo com ele, não há previsão de um aumento na mistura de etanol na gasolina, que atualmente é de 10%. Além disso, ele prevê uma redução no consumo de gasolina para os próximos anos, o que deve reduzir ainda mais esse mercado.

“Haverá muita competição por melhores preços nos Estados Unidos e todas as conversas sobre misturas de 15%, E85 e até E30 não devem trazer resultados antes de 2023”, projeta e decreta: “Simplesmente não haverá um aumento significativo no uso de etanol nos Estados Unidos”.

Assim, o consultor aponta que outros mercados podem interessar aos produtores brasileiros – que, de acordo com ele, já começaram a explorar melhor as possibilidades na Europa. O próximo passo, dessa forma, seria a Ásia, onde há uma grande demanda em volume, embora não existam muitas políticas que beneficiem combustíveis com baixas emissões de carbono.

“Eles podem usar o etanol como um aditivo na gasolina, mas não devem trabalhar a questão das CIs. A única vantagem do etanol brasileiro terá que ser nos preços, será preciso ser competitivo para atingir esses mercados”.

Renata Bossle – NovaCana

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