De acordo com o analista Thiago Duarte, a parcela de participação do biocombustível saiu de 45% em 2020 para 37% neste ano
O RenovaBio surgiu da necessidade de endereçar as emissões de carbono da matriz de transportes, setor que ainda lança os maiores níveis de CO2 na atmosfera. Desta forma, o programa visa auxiliar o Brasil a cumprir suas metas de descarbonização e ainda incentivar o consumo de um combustível sustentável e abundante no país: o etanol.
Foi com estas afirmações que o analista do setor de agronegócio e sócio do BTG Pactual, Thiago Duarte, iniciou sua palestra a respeito do mercado de créditos de descarbonização (CBios) na mais recente edição da Conferência NovaCana. O evento aconteceu no início de setembro, em São Paulo (SP), e reuniu grandes nomes do setor sucroenergético.
Em sua fala, Duarte sintetizou o início do programa e as variáveis que levam até o momento atual do RenovaBio. Levando em conta o suprimento nacional de combustíveis, o analista do BTG descreve que o principal intuito do programa seria melhorar os níveis de descarbonização do país, utilizando como base os etanóis anidro e hidratado e o biodiesel.
Ele ainda aponta que o RenovaBio funciona em um circuito fechado: “Você tem o emissor de crédito de carbono, o intermediário e o comprador do CBio, que deve passar o custo ao combustível fóssil, de forma a incentivar o consumo do renovável”.
Dentro deste circuito, Duarte ainda aponta que, quanto mais eficiente for a produção dos biocombustíveis, menor será a pegada de carbono no ciclo de fabricação, melhor será a nota da usina e maior será sua capacidade de emissão de CBios.
Este é, inclusive, um dos grandes diferenciais do RenovaBio, na visão de Duarte. Segundo ele, a contabilização do crédito de carbono é uma dificuldade encontrada em outros mercados de carbono. No Brasil, entretanto, toda a cadeia de produção dos biocombustíveis, em particular do etanol, seria rastreável.
Outro destaque para o programa brasileiro, de acordo com Duarte, seria que o regulador, neste caso o próprio governo, estabelece apenas as metas. Com isso, a definição do preço é feita pelo mercado.
Ainda assim, o analista do BTG aponta que o RenovaBio tem algumas adversidades a serem contornadas – além de possibilidades para crescimento.
Confira no texto completo, exclusivo para assinantes, mais detalhes da análise feita por Thiago Duarte a respeito dos obstáculos e próximos passos do programa RenovaBio e o mercado de créditos de descarbonização.
O RenovaBio surgiu da necessidade de endereçar as emissões de carbono da matriz de transportes, setor que ainda lança os maiores níveis de CO2 na atmosfera. Desta forma, o programa visa auxiliar o Brasil a cumprir suas metas de descarbonização e ainda incentivar o consumo de um combustível sustentável e abundante no país: o etanol.
Foi com estas afirmações que o analista do setor de agronegócio e sócio do BTG Pactual, Thiago Duarte, iniciou sua palestra a respeito do mercado de créditos de descarbonização (CBios) na mais recente edição da Conferência NovaCana. O evento aconteceu no início de setembro, em São Paulo (SP), e reuniu grandes nomes do setor sucroenergético.
Em sua fala, Duarte sintetizou o início do programa e as variáveis que levam até o momento atual do RenovaBio. Levando em conta o suprimento nacional de combustíveis, o analista do BTG descreve que o principal intuito do programa seria melhorar os níveis de descarbonização do país, utilizando como base os etanóis anidro e hidratado e o biodiesel.
Ele ainda aponta que o RenovaBio funciona em um circuito fechado: “Você tem o emissor de crédito de carbono, o intermediário e o comprador do CBio, que deve passar o custo ao combustível fóssil, de forma a incentivar o consumo do renovável”.
Dentro deste circuito, Duarte ainda aponta que, quanto mais eficiente for a produção dos biocombustíveis, menor será a pegada de carbono no ciclo de fabricação, melhor será a nota da usina e maior será sua capacidade de emissão de CBios.
Este é, inclusive, um dos grandes diferenciais do RenovaBio, na visão de Duarte. Segundo ele, a contabilização do crédito de carbono é uma dificuldade encontrada em outros mercados de carbono. No Brasil, entretanto, toda a cadeia de produção dos biocombustíveis, em particular do etanol, seria rastreável.
Outro destaque para o programa brasileiro, de acordo com Duarte, seria que o regulador, neste caso o próprio governo, estabelece apenas as metas. Com isso, a definição do preço é feita pelo mercado.
Ainda assim, o analista do BTG aponta que o RenovaBio tem algumas adversidades a serem contornadas – além de possibilidades para crescimento.
As metas do programa
Na lista de obstáculos enfrentados pelo programa brasileiro de descarbonização, Duarte cita a curva de metas de aquisição dos créditos – que foi mudando ao longo do tempo. “No plano original, em 2023 era para estar adquirindo em torno de 60 milhões de CBios. Como todos sabem, a meta para este ano é de 37,47 milhões”, exemplifica o analista do BTG.
A palestra aconteceu alguns dias antes do Ministério de Minas e Energia propor uma nova redução dos objetivos decenais do RenovaBio. Para 2024, a pasta sugere 38,78 milhões de CBios, uma queda de 23,7% ante os 50,81 milhões aprovados ao final de 2022.

Duarte ainda comentou o objetivo de atingir 99,2 milhões de CBios em 2032, o que representaria quadruplicar o valor atual em menos de uma década. Em sua nova proposta, contudo, o MME coloca 68,81 milhões de créditos para o mesmo ano, menos que o dobro do volume fixado para 2023.
De acordo com o analista do BTG, empurrar as metas dificulta a ação de um dos principais pilares do programa, que seria trazer visibilidade para os agentes, emissores e compradores, envolvidos no programa.
Além disso, outro problema surge no horizonte. Duarte aponta que, desde o início do RenovaBio, o etanol tem perdido espaço no mercado de combustíveis do ciclo Otto, saindo de uma fatia de 45% em 2020 para 37% neste ano, segundo estimativa do BTG.
“Desde que inauguramos o programa de incentivo, o biocombustível vem perdendo participação no ciclo Otto, onde ele deveria triunfar”, detalha Duarte.
Para atingir a meta até então estabelecida para 2032, o BTG projeta que o consumo de combustíveis do ciclo Otto deveria ser de 64,5 bilhões de litros, com 7,2 bilhões de litros sendo de anidro e 31,5 bilhões de litros de hidratado. Neste cenário, o banco considera um crescimento de mercado de 2% ao ano e a manutenção de uma mistura de 27% de anidro à gasolina.
“Estimamos que o etanol tenha que chegar a 60% do conteúdo energético do ciclo Otto para que tenhamos 99 milhões de CBios para emitir e adquirir em 2032”, ressalta Duarte.

Apesar de considerar outros biocombustíveis, Duarte reforça que o etanol hidratado tem destaque no RenovaBio por concorrer diretamente com a gasolina. “O consumidor migra muito rápido entre hidratado e gasolina, a depender da paridade na bomba”, explica.
Ele ainda aponta que o CBio cria um ônus para o combustível fóssil, incentivando o consumo do renovável.
Neste contexto, a projeção de preços dos créditos pelo BTG – considerando um equilíbrio de R$ 95 por unidade no próximo ano e a meta até então estabelecida – alcançaria R$ 342 em 2032. “Multiplicando o preço pela quantidade, o mercado chegaria a quase R$ 34 bilhões, em valores de hoje atualizados pela inflação”, expõe Duarte.
“Este é o tamanho do incentivo econômico que o mercado de CBios tem que dar para incentivar o consumo de etanol, em uma quantidade necessária para descarbonizar a matriz de transportes”, complementa.
Oferta de etanol e produção de açúcar
Outro desafio apontado por Duarte em sua apresentação é em relação à oferta de biocombustíveis necessária para as emissões dos créditos. Segundo ele, o etanol a base de cana-de-açúcar ainda é o “carro-chefe” do programa, mesmo que o etanol de milho esteja ganhando cada vez mais espaço na matriz brasileira, e o biodiesel também tenha uma parcela de participação.
O BTG aponta que neste ano o biodiesel e o etanol de milho deverão somar quase 30% das emissões de CBios, com os 70% restantes vindo majoritariamente do biocombustível de cana-de-açúcar.
Segundo Duarte, o problema desta equação é que a sacarose da cana pode ser transformada em combustível ou açúcar. Grande parte das usinas possui flexibilidade para a fabricação dos dois produtos, alterando o mix com base no preço de mercado. “Hoje, o açúcar é vendido a quase 80% do prêmio de etanol equivalente”, observa.
Atualmente, o adoçante pode ser vendido por volta de 26 centavos de dólar por libra-peso, enquanto o etanol, já contabilizando CBios, fica em torno de 14 centavos de dólar por libra-peso, nos cálculos do BTG. “Mesmo se o CBio for mais de R$ 1 mil, ninguém vai deixar de fazer açúcar para fazer etanol”, argumenta Duarte.
Desta forma, ele acredita que não há espaço para uma oferta adicional do biocombustível e, portanto, de CBios. Afinal, segundo o analista, os preços do adoçante devem permanecer em patamares mais elevados.

Duarte ainda aponta que o mercado de commodities está vivendo uma quebra de paradigma. Por muito tempo, a produção de açúcar do Brasil influenciou o saldo global de açúcar, gerando superávits ou déficits. Contudo, ainda que a atual temporada esteja sendo desenhada como maximização da produção do adoçante, a previsão é de que ocorra um déficit mundial.
“Não há construção de estoque de açúcar no mundo, a despeito do maior produtor [Brasil] estar produzindo o máximo que pode e em um ano que, pela disponibilidade de matéria-prima, vai ser muito bom”, afirma.
Ele ainda aponta que há usinas investindo em fábricas de açúcar, ou seja, há cada vez mais sacarose sendo destinada à produção do adoçante. Este cenário pode reduzir a produção do biocombustível e, consequentemente, o potencial de emissão de CBios.
Estoques de CBios
Duarte ainda aponta outro obstáculo dentro do programa RenovaBio, relacionado aos potenciais emissores de créditos. Ele relata que diversas usinas de etanol, biodiesel e biometano ainda não estão certificadas no programa. “Tem muito etanol sendo produzido e que ainda não está emitindo lastro para CBio da forma como poderia”, destaca.
O analista do BTG explica que, em 23 de agosto, o estoque de CBios estava em 32,24 milhões de créditos. A meta, por sua vez, é de cerca de 57 milhões de títulos – somando 20 milhões pendentes de 2022 e 37 milhões da meta de 2023.
“Acreditamos que, de 31 de agosto até o final do ano, será possível emitir mais 19 milhões de CBios com etanol de cana, etanol de milho e biodiesel. Então, vamos terminar com um estoque médio de 8,7 milhões de créditos”, calcula Duarte.

No ano seguinte, a meta seria de 50,81 milhões de CBios. Mas Duarte destaca que, até dezembro de 2024 deverão ser emitidos apenas 35 milhões de créditos. O montante é parcialmente justificado pela prioridade que as usinas de cana darão para a produção de açúcar em detrimento do etanol. O resultado seria um déficit de 6,76 milhões de CBios.
Em 2025, o problema se acentuaria com a meta de 58,91 milhões de títulos e uma possível emissão de até 42,55 milhões. Para as escriturações, Duarte ainda considera um maior número de usinas certificadas e melhores notas de crédito. Assim, em dois anos, faltariam mais de 20 milhões de créditos de descarbonização para fechar a meta estabelecida.
“Se a indústria rodasse em maximização de etanol, não estaríamos longe de bater a meta para 2025”, afirma Duarte, que segue: “O problema é que eu preciso de uma inflação de preço de CBio ou de etanol muito grande para fazer o Centro-Sul alterar o mix de produção”.
Já considerando os valores propostos pelo MME em 14 de setembro, de 38,78 milhões de créditos para 2024 e 42,56 milhões para 2025, a produção e os estoques projetados pelo BTG Pactual passam a ser suficientes para o cumprimento do programa nos dois anos.
Futuro do RenovaBio
Duarte assinala que o grande desafio para o mercado está no ajuste da oferta. Para desincentivar o uso de combustíveis fósseis, que ainda são baratos e abundantes, ele acredita na necessidade de taxar o consumo com o crédito de descarbonização.
“A sociedade precisa definir se quer salvar o planeta para seus filhos e netos ou se quer consumir energia barata hoje”, defende o analista. Ele também aponta que as mudanças constantes nas metas anuais e seus respectivos prazos também dificultam o andamento do RenovaBio.
Entre as questões que podem afetar o futuro do programa, Duarte afirma ser favorável à remuneração do produtor de cana-de-açúcar: “Pelo mesmo motivo que eu remunero o plantador quando faço etanol ou açúcar com essa cana, vou remunerar quando ela me dá CBio”, esclarece. Ele também considera que este incentivo econômico poderia levar até mesmo ao aumento da oferta de biomassa.
O analista ainda considera ser importante impor um custo para os estoques de CBios, da mesma forma como ocorre com a armazenagem de etanol. Segundo Duarte, esta seria uma forma de obrigar o emissor a comercializar o crédito, permitindo uma oferta constante e aumentando a previsibilidade do mercado.
Por fim, o analista do BTG clarifica que, apesar de muitas distribuidoras assim considerarem, o RenovaBio não é uma penalidade. Na visão de Duarte, as partes obrigadas do programa são apenas repassadoras de um custo.
“As distribuidoras são parte mandatória de um ciclo de produção, comercialização e oneração do combustível fóssil na bomba”, conclui.
Giully Regina – NovaCana