Consultoria internacional examinou as variáveis do mercado de combustíveis no Brasil para os próximos dez anos e determinou como o etanol deve influenciar e ser influenciado pelo mercado
O incessante pleito da indústria sucroenergética por uma política de longo prazo ganhou reforço com a publicação de um trabalho de uma consultoria internacional no início do mês. A análise traz mais argumentos e fundamenta várias perspectivas de produção, oferta e consumo de etanol.
O trabalho, divulgado no início do mês, deve animar o pleito da indústria sucroenergética que pede incessantemente por uma política de longo prazo. Ele traz mais argumentos e fundamenta várias perspectivas de produção, oferta, consumo.
Veja a seguir:
· O cenário para o etanol de 2013 a 2021
· Como caminhará a oferta e demanda: dois cenários
· A previsão oficial do governo para a frota de veículos flex em 2021
· A capacidade de produção de etanol em instalação e anunciada para os próximos anos
· A evolução do refino de gasolina e de diesel para os próximos 10 anos
· Porque será necessário investir US$ 28 bilhões para ampliar a moagem das usinas de etanol até 2018
· As duas saídas para garantir a oferta de combustível

Os próximos dez anos da oferta e demanda de etanol foram analisados pela Bloomberg New Energy Finance e condensado numa análise publicada no dia 4 de abril. Intitulado "Mind the gap: Brazil's looming transport fuel shortage" (em tradução livre: "Preencha a lacuna: a iminente escassez de combustível no Brasil"). O documento faz uma análise da situação de abastecimento e consumo de combustíveis no Brasil nos próximos dez anos e mostra a influência do etanol.
Considerando que a economia brasileira deve retomar o ritmo de crescimento, os especialistas da Bloomberg concluíram que pode haver um déficit de combustível, em energia, de 0,46 exajoules até 2021. Esse déficit representa 13 bilhões de litros de gasolina ou 20 bilhões de etanol anidro. Isso deve acontecer porque, neste período, a demanda por combustíveis para veículos leves deve quase que duplicar, as novas refinarias da Petrobras vão priorizar a produção de diesel em vez de gasolina e, se a ampliação do setor ficar apenas no que está planejado, a capacidade de etanol aumentará em apenas 2,4 bilhões de litros.
O relatório apresenta ainda algumas opções para que esta lacuna de combustíveis seja preenchida sem que o país passe por problemas, como o aumento no preço da gasolina, o aumento na mistura de etanol à gasolina para 25% e a eliminação de US$ 0,06 por litro das taxas sobre o etanol. Além disso, o setor deverá operar, na projeção mais otimista, como reconhece a Bloomberg, com 90% de sua capacidade de moagem entre 2013 e 2016 e os produtores devem priorizar o etanol em detrimento do açúcar.
Apesar do foco em atitudes do governo, a consultoria alerta que as empresas também têm importante papel nessa mudança de cenário e recairá sobre elas, no longo prazo, a construção de novas usinas.
Confira a seguir os principais argumentos da Bloomberg para mostrar as perspectivas do etanol no mercado brasileiro de combustíveis.
A perspectiva para o etanol e para a gasolina até 2021
Para construir o cenário de demanda e oferta, a análise da Bloomberg utiliza as últimas projeções feitas pelo governo brasileiro de vendas de veículos em 2021, que indicam um aumento no número de veículos flex dos atuais 18 milhões para 42 milhões e uma diminuição no número de veículos à base exclusivamente de gasolina de 12 para nove milhões.Segundo a empresa de informações financeiras e de negócios, a demanda e a oferta caminham em direções opostas, já que o governo incentiva pesadamente as vendas de veículos flex, mas não investe no aumento da capacidade de refino de gasolina e deve usar a nova infraestrutura de refino para a produção de diesel.
De acordo com as perspectivas colocadas no relatório, a produção de diesel, que em 2012 equivalia a 36% da capacidade total de refino, vai representar 46% desta capacidade em 2021. Por outro lado, a produção de gasolina vai cair de 20% para 16% da capacidade de refino. Na prática, porém, o volume de gasolina que pode ser produzido por ano deve crescer de 26 bilhões de litros para 37 bilhões de litros.
Enquanto isso, tomando por base a infraestrutura existente, a que está em construção e a anunciada, a capacidade de produção de etanol deve chegar a 40,5 bilhões de litros em 2021, 2,4 bilhões a mais do que a atual. Este crescimento está planejado para acontecer até 2016 e a infraestrutura para novos 400 milhões de litros já está em construção. Para os outros dois bilhões, houve apenas anúncios de projetos e, de 2016 a 2021, não há previsão de novas plantas.
Vale lembrar que capacidade de produção não é revertida totalmente em produção. Atualmente, é possível produzir cerca de 38 bilhões de litros por ano (11 bilhões de anidro e 27 bilhões de hidratado). Contudo, com o uso de 50% da cana colhida para a produção de etanol e de apenas 75% da capacidade de moagem das usinas, o balanço da safra 2012/2013 deve fechar em 9 bilhões de anidro e 13 bilhões de hidratado.
Demanda doméstica de combustíveis até 2021
Com o aumento previsto na quantidade de veículos para passageiros, a demanda para combustíveis para veículos leves deve dobrar de 2012 a 2021. O consumo anual de gasolina no país é, hoje, de 30 bilhões de litros, de etanol hidratado, 10 bilhões de litros e de anidro, 8 bilhões de litros. Em energia, isso corresponde a 1,4 exajoules. Considerando que um carro leve consome, em média, 47 mil megajoules por ano, que o país terá cerca de 51 milhões de carros leves e que a frota deve ganhar 0,2% de eficiência, o consumo de combustíveis, em energia, deve ser 2,4 exajoules em 2021. A gasolina deverá fornecer 1,3 exajoules. A dúvida é: a produção de etanol conseguirá dar conta do restante?O relatório faz duas projeções com relação à demanda de etanol no Brasil. Na primeira, bastante otimista, coloca-se que, para o país não ter que importar combustível este ano, a oferta de etanol (e consequentemente o consumo) deve aumentar 33%, o que é improvável, já que requer que a indústria utilize 90% de sua capacidade de moagem (em 2012 foi 75%) e que as usinas usem 54% da cana para a produção de etanol (em 2012 foi 50%) – como o resto dos analistas, a Bloomberg acredita que o mix de etanol será mais alto nesta safra, mas, para isso, as margens precisam ser positivas e os preços do açúcar precisam ficar muito baixos.
A segunda é a projeção mais realista – e também otimista – e prevê um aumento na oferta de etanol de 17%. Nesse cenário precisarão ser importados mais de 2 bilhões de litros de gasolina.
Como preencher a lacuna
Com um déficit de energia que pode chegar a 0,46 exajoules até 2021, o governo brasileiro tem duas saídas, segundo o relatório: importar mais gasolina ou encorajar agressivamente a produção e o consumo de etanol de cana.Se ficar com a primeira opção – e a capacidade de produção não crescer além do planejado, será necessário importar de 18 a 40 bilhões de gasolina pura entre 2012 e 2021. Se a Petrobras, única empresa autorizada a vender gasolina pura (ainda não misturada ao etanol), mantiver a política de vendê-la a um preço US$ 0,10 mais barato do que a comprou, como em 2012, a perda para a empresa será entre US$ 3 e 7 bilhões.
Uma saída para isso seria o governo zerar as taxas de venda da gasolina pura, que hoje são de US$ 0,12 por litro, permitindo que os preços para os distribuidores sofram um aumento no valor dos tributos pagos, sem afetar o preço da venda na bomba. Esta política tributária poderia custar ao governo entre US$ 2 e 5 bilhões nos próximos nove anos e economizar o mesmo tanto à Petrobras.
A alternativa à importação de gasolina é aumentar em pelo menos 14 bilhões de litros a capacidade de produção de etanol anidro até 2020. Considerando que uma tonelada de cana produz 80 litros de etanol anidro e que uma usina pode usar 60% da sua capacidade de moagem para esta produção, a capacidade de moagem em todo o país precisa aumentar em pelo menos 287 milhões de toneladas para evitar o déficit. Hoje, a capacidade de moagem, incluindo as unidades paradas, é de 750 milhões de toneladas por ano, segundo a Bloomberg.
Atualmente, o CAPEX médio para um greenfield, incluindo a terra, é de cerca de US$ 100 por tonelada de cana capaz de ser moída. Para aumentar essa capacidade de moagem em 250 milhões de toneladas até 2021, o investimento necessário seria, no mínimo, de US$ 28 bilhões (entre 2013 e 2018), considerando que uma usina demora 36 meses para começar a operar.
Como o investimento é alto, é necessário que o governo incentive uma maior produção em usinas existentes e a construção de novas plantas. A primeira atitude já foi tomada: em janeiro, o governo aumentou o preço da gasolina nas refinarias em 6,6%, o que resultou num aumento de aproximadamente 5% por litro equivalente de etanol na bomba. Os especialistas do Bloomberg apostam ainda numa nova elevação até o final de ano.
Além disso, o governo deve eliminar ou diminuir de US$ 0,06/litro para US$ 0,01/litro o PIS/Cofins. A Bloomberg utilizou os números de 2012 para projetar que essa mudança na política tributária pode fazer o etanol chegar ao consumidor US$ 0,09 centavos mais barato, mesmo considerando a eficiência de 70% em relação a gasolina. Baseado nas diferenças históricas de preço, esses US$ 0,09 seriam suficientes para fazer o consumo de etanol alcançar o consumo recorde da safra 2009/10, de 15-16 bilhões de litros por ano, quando as margens forem recuperadas.
Outra atitude do governo que vai beneficiar o setor é o aumento da mistura de etanol anidro à gasolina de 20% para 25%, que passa a valer a partir de maio. Deste modo, a demanda por gasolina pura deve cair de 30 bilhões de litros para 28,5 bilhões de litros, enquanto a de etanol anidro deve subir de 7,8 bilhões de litros para 9 bilhões de litros. A demanda total por etanol deve ser de 24 bilhões de litros, ante os 17 em 2012.
O relatório completo pode ser acessado aqui(.pdf).
Vivian Faria – NovaCana
Foto por Captain Kino