O governo dos EUA apresentou ontem (08) uma análise das exportações de etanol do país, destacando alguns fatores que interessam as usinas exportadoras do Brasil
O governo dos EUA apresentou ontem (08) uma análise das exportações de etanol do país, destacando alguns fatores que interessam as usinas exportadoras do Brasil.
A avaliação envolve os fatores que propiciam o bom momento para a exportação de etanol e mais:
- Os 3 fatores para as vendas externas terem crescido acima do esperado
- Os desafios gerados pela queda do petróleo e dólar mais alto
- Diversificação dos países compradores
- As mudanças e interesses dos 3 países que foram fundamentais para a diversificação de mercado do etanol
O Serviço de Comércio Exterior Agrícola, do Ministério da Agricultura dos EUA apresentou ontem (08) uma análise das exportações de etanol do país, destacando alguns fatores que interessam as usinas exportadoras do Brasil. O trabalho na íntegra está apresentado abaixo.
Os Estados Unidos exportaram 836 milhões de galões (3,165 bi litros) de etanol em 2015, quase integralmente destinados para uso como combustível. O volume, segundo maior já registrado, manteve-se estável em relação ao ano anterior. Apesar de dois anos com queda após o recorde de 1,2 bilhão de galões (4,5 bi litros) em 2011, as exportações de etanol americano vêm num crescente desde 2009.
Em 2015, o país obteve uma receita de US$ 1,8 bilhão com a exportação de etanol, o que representa um decréscimo de 14% em relação aos US$ 2 bi de 2014, fruto de uma queda nos preços. Os preços mais baixos e a diversificação de destinos ajudaram a sustentar o aumento no volume exportado nos últimos dois anos, num cenário de petróleo em queda e moeda americana mais forte. O resultado comprova os benefícios da diversificação de mercados: as vendas recordes para a China, Coreia do Sul e Índia mais que compensaram a queda nas exportações para o Canadá, principal comprador do produto americano.
A participação dos Estados Unidos nas exportações globais de etanol manteve-se em 50% em 2015. O índice de produção exportada e o percentual da safra de milho destinado ao fabrico de etanol permaneceram praticamente estáveis nos últimos dois anos.

Aumento recorde em 2011
As exportações americanas de etanol vêm numa trajetória crescente desde 2009, com destaque para o salto observado em 2011, quando as vendas alcançaram o recorde de 1,2 bilhão de galões (4,5 bi litros). Três fatores concorreram para as vendas crescerem acima do esperado, proporcionando um resultado adicional de 720 milhões de galões (2,725 bi litros) exportados.
Em primeiro lugar, a quebra da safra brasileira de cana de 2010/2011 em decorrência da seca, paralelamente à elevação dos preços do açúcar, que provocou uma redução no volume de cana destinada ao etanol. O choque diminuiu a disponibilidade de etanol brasileiro para exportação e consumo interno, abrindo um mercado de 360 milhões de galões (1,36 bi litros) para as exportações americanas no Brasil e em outros países.
O segundo fator foi um aumento da demanda de etanol no Canadá, puxado pela adoção de misturas obrigatórias em alguns estados e por um maior consumo de gasolina, excedendo a capacidade de produção nacional pela primeira vez. Como resultado, verificou-se um aumento de 54% nas exportações americanas para o país.
Em terceiro lugar, a União Européia (UE) passou a importar etanol dos Estados Unidos em substituição ao etanol brasileiro, mais caro. O produto entrou na composição do E90 (90% etanol—10% gasolina), usado para cumprir as cotas europeias de mistura obrigatória, que tinham sido elevadas. No total, o continente importou 296 milhões de galões (1,120 bi litros) de etanol americano em 2011, crescimento de 54% em comparação com 2010.
Após o recorde de 2011, as vendas americanas para o Brasil imediatamente retornaram aos patamares normais, com a recuperação do setor de cana após a seca. Paralelamente, e estendendo-se até 2013, as exportações para a União Europeia tiveram uma queda drástica dos inéditos 296 milhões (1,12 bi) para meros 27 milhões de galões (102 mi litros). As causas principais foram uma mudança de estatuto do E90 em 2012 e a imposição de tarifas antidumping sobre o etanol americano em 2013. Em compensação, as vendas para outros países aumentaram, com destaque para Filipinas, Peru e Índia, evitando um resultado ainda mais desastroso nesse período.
Queda do petróleo e dólar mais alto impõem desafios
Apesar da queda na cotação do petróleo e do dólar mais forte, as exportações de etanol americano conservaram-se no segundo melhor patamar histórico em 2014 e 2015, um terço acima das remessas de 2013. Os exportadores beneficiaram-se de um portfólio mais variado de compradores, com ganhos em mercados até então pouco relevantes e um salto nas compras da China.
De 2013 para cá, mais de 96% do etanol americano exportado foi para uso como combustível. O produto americano beneficiou-se de uma relação mais favorável com os preços da gasolina em mercados estrangeiros, o que favoreceu a demanda externa. A cotação do petróleo Brent caiu da faixa de US$ 100—125 de 2011 a 2013 para menos de US$ 40 o barril no final de 2015. O preço do etanol americano também caiu, em função de uma queda na cotação das matérias-primas, mas em proporção bem menor que o petróleo. A variação de tributos incidentes sobre a gasolina e o etanol em cada país dificulta uma comparação mais precisa dos valores, mas a conjunção econômica em vários mercados voltou-se contra os produtores americanos devido a uma redução na demanda espontânea de etanol (induzida pelo mercado, e não por misturas obrigatórias).
As taxas de câmbio também trabalharam contra os exportadores americanos nos últimos dois anos, mas o único mercado externo importante a registrar queda nas importações foi o Canadá. Em 2014, mesmo com uma alta de 8% do dólar, as exportações para este país, maior mercado dos EUA, apresentaram uma ligeira alta. Em 2015, porém, após uma valorização de outros 20% no valor do dólar, as exportações para o Canadá afundaram 25%.
Por outro lado, as exportações americanas para quase todos os outros mercados cresceram nos últimos dois anos, enquanto o dólar valorizou de 7% a 13% frente às moedas locais. Ajudou nisso o etanol mais barato, compensando pelo fator câmbio. Em 2014 e 2015, o preço médio do etanol exportado pelos Estados Unidos ficou em US$ 2,13 o galão (US$ 0,56/litro), uma queda de 15%.
Diversificação de mercados manteve ritmo das vendas no biênio 2014-15
O mercado para o etanol americano diversificou-se bastante nos últimos dois anos. Após o declínio nas vendas para o Brasil e a União Europeia, a participação dos cinco maiores mercados caiu de 79% em 2013 para 68% em 2015. Canadá, Brasil e Filipinas conservaram-se entre os maiores compradores do etanol americano entre 2013 e 2015, mas mercados menores, em especial Coreia do Sul e Índia, ganharam maior importância. Além disso, os Estados Unidos exportaram volumes significativos para a China pela primeira vez, tornando este o quarto principal destino do produto americano em 2015.

Três países foram fundamentais para a diversificação de mercado do etanol americano em 2015:
China: o volume exportado multiplicou-se por 20 em um ano, alcançando um recorde de 71 milhões de galões (268 mi litros) em 2015. Antes disso, as exportações de etanol para a China eram ínfimas e não se destinavam ao uso como combustível. Duas causas explicam a mudança em 2015: o etanol importado passou a sair mais barato que o fabricado no país e os importadores receberam permissão para experimentar o mercado externo. Para fabricar etanol, a China utiliza primordialmente milho. Atrás de Brasil e União Europeia, o país é o quarto maior mercado de etanol do mundo, com programas de mistura obrigatória em 6 províncias e 27 cidades. O programa chinês de subsídio à produção de milho, criado com a finalidade de proteger a receita dos produtores rurais e garantir o abastecimento alimentar, acabou encarecendo o produto, comercializado muito acima do preço internacional. O alto custo da matéria-prima infla o preço do etanol local, tornando as importações mais atraentes.
Coreia do Sul: as exportações para a Coreia cresceram em 55 milhões de galões (208 mi litros) nos últimos dois anos, alcançando o volume recorde de 60 milhões (227 mi litros) em 2015. Mais de 90% desse volume destina-se ao uso como combustível. Trata-se de uma mudança de perfil em relação aos anos anteriores, quando a maior parte era para uso industrial. Não existe mistura obrigatória na Coreia, mas há interesse em implantá-la em vista da enorme dependência de petróleo importado, além do intuito de limitar as emissões de carbono. O Ministério do Meio Ambiente traçou um plano para adotar o E3 e o E10 ainda este ano em um grupo seleto de cidades, e o E10 em escala nacional até 2035.
Índia: as exportações de etanol para a Índia cresceram em 26 milhões de galões (98 mi litros) nos últimos dois anos, atingindo um total de 47 milhões de galões (178 mi litros) em 2015. O produto é empregado no mercado de químicos industriais, liberarando o etanol fabricado no país para uso no mercado de combustíveis. As metas de uso obrigatório são reiteradamente descumpridas na Índia em função de políticas regulatórias e tributárias desfavoráveis e déficits periódicos na produção de cana, decorrentes de problemas climáticos.
Índices de exportação da produção e destinação da safra de milho pouco mudam
Os Estados Unidos processaram 7,58 milhões de toneladas de milho para produzir os 836 milhões de galões (3,165 mi litros) de etanol exportados em 2015. Com a manutenção do volume exportado e um módico crescimento na produção, que alcançou 14,8 bilhões de galões (56 bi litros), o percentual de produção exportada sofreu uma leve redução, de 5,8% para 5,6%. Esses números estão um pouco acima do observado nos dois anos anteriores, mas abaixo do recorde de 8,6% em 2011, quando as exportações escaparam da curva.
A safra americana de milho em 2013/14 foi de 351,3 milhões de toneladas e deve ficar em 361,1 milhões de toneladas em 2014/15, segundo estimativas (WASDE, julho de 2016). Este acréscimo de 2,8% reduz a estimativa relativa ao percentual da safra destinado à exportação de etanol: de 2,2% para 2,1%. Os números estão alinhados com os dos últimos dois anos, mas abaixo do recorde de 3,6% em 2011.
NovaCana