Um artigo científico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) apontou que a onça-parda pode se adaptar para viver, se reproduzir e manter seu papel ecológico de topo de cadeia em áreas agrícolas dominadas pela cana-de-açúcar.
No entanto, isso só seria possível graças aos trechos de matas ciliares, represas e brejos nos arredores das monoculturas. Os trechos florestais funcionam como abrigo e área de circulação tanto para as onças-pardas, quanto para suas presas.
A pesquisa foi feita durante dois anos em Iracemápolis (SP), onde 76% do território é ocupado pelo cultivo de cana-de-açúcar.
“Décadas atrás, [Iracemápolis] reconstituiu a mata ciliar nas bacias hidrográficas locais e isto precisa ser lembrado. Essas reconstituições de florestas de galeria nas bacias hidrográficas podem ter repercussão positiva para a fauna e flora locais”, explica Eleonore Setz, professora do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenadora do Laboratório de Ecologia e Comportamento de Mamíferos (Lama).
A pesquisadora informou que Iracemápolis representa o interior de São Paulo, com a substituição de grande parte da vegetação nativa por cana. “Precisamos de água. Para produzir água, precisamos de vegetação nativa, florestas e Cerrado. Cuidando disso poderemos manter a onça-parda e seus serviços ecológicos”, complementa.
O estudo mostrou que as onças foram registradas mensalmente, sem diferença entre a safra e entressafra, indicando serem residentes na região, e que os animais de porte médio evitam áreas mais frequentadas pelo felino. Além disso, a análise confirmou a reprodução de onças-pardas no município.
O estudo ainda mostrou que outros 23 animais frequentam os espaços analisados. Entre as espécies estão: lobo-guará, jaguatirica, gato-do-mato, veado-catingueiro e tamanduá-bandeira.
A pesquisa observou que as onças-pardas usam as plantações de cana para ampliar as oportunidades de caça. Nesse cenário, ela se alimenta, majoritariamente, de pequenos roedores.
No entanto, em um cenário ideal, a alimentação da onça-parda é composta por animais maiores, como cateto (porco-do-mato), veado, tapiti e capivara – animais não predominantes em áreas majoritariamente agrícolas.
A mudança alimentar pode comprometer a espécie a longo prazo, explicou a pesquisadora. “[A dieta de pequenos roedores] pode dificultar a alimentação dos filhotes, ela [onça-parda] precisa caçar mais presas, pode emagrecer, reduzir a produção de filhotes, produzir mais filhotes machos”, conta Setz.
A onça-parda é considerada uma “espécie guarda-chuva”. Isso significa que, ao proteger as áreas necessárias para sua sobrevivência, também se preservam o ecossistema e as outras espécies que vivem nesse ambiente.
A pesquisadora alerta para a manutenção da vegetação nativa em espaços dominados por agricultura.
“A onça-parda, como carnívora e de grande porte (maior do que outros carnívoros da nossa região) tem o papel ecológico de predadora de topo, e assim controla a grande área que a sustenta. Em áreas com onça-parda, geralmente tem todos os outros [animais]. Sem ela, eles competem entre si, e se excluem e no final sobra só o gambá”, conta.
Se uma onça cruzar o caminho de um humano, a especialista informou que é preciso evitar movimentos bruscos, dando passagem para que ela possa ir embora livremente.
“Se ficar desconfiado que ela tem alguma presa escondida, ou filhotes, afaste-se devagar sem dar as costas. Se ficar muito aflito pode levantar os braços, ‘blefar’, nunca correr! Ela é um gato, que se sente desafiado pela corrida!”, informa.
A pesquisa foi elaborada por Camila Menezes Siqueira e Eleonore Zulnara Freire Setz, do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenadora do Laboratório de Ecologia e Comportamento de Mamíferos (Lama) da Unicamp.
O estudo foi publicado nesta quinta-feira, 23, na Revista do Instituto Florestal e contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Yasmin Moscoski