Alianças entre fabricantes de etanol para pressionar por políticas favoráveis ao setor e brigas para assumir o controle de empresas familiares são algumas das histórias por trás da consolidação dos impérios do etanolDois empresários de prestígio dominam o setor de etanol, cada qual em um dos principais polos de produção do continente: Patricia Woertz e Rubens Ometto. Woertz é a americana que comanda a ADM e é considerada a terceira mulher mais poderosa do mundo dos negócios. Ometto é brasileiro e o número três na lista mundial dos bilionários da indústria verde.
Quinze empresas alcooleiras controlam o Império do Etanol nas Américas. As quinze estão no topo de uma lista de 288 empresas, situadas nos dois principais países produtores, Estados Unidos e Brasil, e também nos mercados emergentes de Colômbia e Peru.
Dois empresários de prestígio dominam o setor de etanol, cada qual em um dos principais polos de produção do continente: Patricia Woertz e Rubens Ometto. Woertz é a americana que comanda a ADM e é considerada a terceira mulher mais poderosa do mundo dos negócios. Ometto é brasileiro e o número três na lista mundial dos bilionários da indústria verde.
Quinze empresas alcooleiras controlam o Império do Etanol nas Américas. Esta é uma das descobertas de uma investigação conduzida pelo New England Center for Investigative Reporting/Connectas. As quinze estão no topo de uma lista de 288 empresas, situadas nos dois principais países produtores, Estados Unidos e Brasil, e também nos mercados emergentes de Colômbia e Peru.
O primeiro lugar da lista é ocupado com folga pela Archer Daniels Midland (ADM), que tem capacidade produtiva para 1,72 bilhão de galões por ano (6,5 bilhões de litros) nos Estados Unidos. No Brasil, o outro principal eixo da produção, a liderança é da Copersucar, com 1,26 bilhão de galões por ano (4,82 bilhões de litros).
Na sequência da linha sucessória ao trono do Norte estão Poet Biorefining e Valero Renewable Fuels. No Sul, Odebrecht Agroindustrial (ETH Bioenergia) e Raízen aparecem como número dois e três da América Latina.
São diversas as histórias dos condutores de cada um desses impérios.
Nos Estados Unidos, Patricia Woertz, de 60 anos, é a primeira pessoa fora da família Andreas a assumir as rédeas do negócio, iniciado por George Archer e John Daniels em 1902 com uma esmagadora de linhaça. Foi a capacidade de liderança de Woertz que lhe permitiu começar como contadora, em 1974, e assumir cargos estratégicos na indústria. Em 2006, ela chegou ao topo da ADM, uma das mais poderosas empresas de comércio agrícola do mundo e dona da maior capacidade instalada de produção de etanol.
Hoje Woertz é presidente do conselho de diretores e diretora executiva. Segundo a revista Bloomberg Businessweek, sua remuneração gira em torno de US$ 10 milhões anuais.
Em 2012, foi eleita uma das 100 mulheres mais poderosas do mundo pela Forbes e a sexta mais poderosa no mundo dos negócios nos EUA pela Fortune. Desde 2000 esteve sempre presente entre as dez primeiras posições da lista.
Woertz não é muito chegada a dar entrevistas para a imprensa, mas costuma falar em eventos ligados a temas empresariais e de liderança. Numa conversa com o coordenador da escola de negócios da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla), para a série Leaders on Leadership (Líderes falando de liderança), a executiva contou como, num esforço de mudar a cultura empresarial, ela procura manter o máximo contato pessoal possível com os funcionários da ADM espalhados por 60 países. Além de enviar e-mails e compartilhar blogs, ela visita as maiores filiais da companhia pelo menos uma vez por ano, além das menores ocasionalmente.
Woertz também pensa em termos globais.
"Os mercados emergentes, muitos na Ásia, alguns na África, na Europa Oriental, no Oriente Médio, às vezes não são convencionais. Mas são eles que estão crescendo. A população crescendo, as demandas progredindo, é lá que estão alguns dos melhores mercados do mundo", afirma.
Reportagens da imprensa em 2006 dão a entender que o que a ADM apreciava em Woertz era sua capacidade de liderança gerencial, assim como sua experiência na Chevron, onde chegou ao posto de presidente da divisão internacional e de vice-presidente executiva da Chevron Texaco. Outro fator mencionado como importante para sua ascensão foi o interesse da ADM no mercado de etanol, biocombustível que a empresa produz desde 1978.
Em 2007, numa palestra sobre fontes alternativas de energia proferida na Ucla, Woertz disse que "as questões que se colocam hoje são a dimensão a que podem chegar os combustíveis renováveis, a velocidade com que podemos chegar lá, e o que será necessário para isso". Na época, considerava-se que produtos como o etanol podiam competir ombro a ombro no mercado de combustíveis, dada a demanda crescente por energia e a situação do petróleo no volátil Oriente Médio. Naquele período, o então presidente americano George W. Bush promovia os biocombustíveis com entusiasmo e a indústria estava expandindo a produção.
No entanto, 2012 foi um ano amargo para a czarina do etanol. No começo do ano, Woertz foi obrigada a cortar mil postos de trabalho na ADM; e mais tarde anunciou que os lucros da empresa haviam sido menores do que o esperado. Foi, na maior parte, culpa da seca que assolou os EUA, prejudicando a produção de milho e consequentemente o setor de etanol.
"As cifras operacionais do processamento de milho caíram de US$ 818 milhões para US$ 261 milhões, graças, especialmente, às margens pequenas do etanol", diz o relatório anual da empresa (relativo ao ano fiscal com fim em 30 de junho de 2012) entregue à Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio dos EUA.
A diferença entre Ometto e alguns dos concorrentes é que o brasileiro amealhou sua fortuna no setor sucroalcooleiro.
A Copersucar nasceu como cooperativa e hoje está nas mãos de 48 usinas parceiras independentes, pertencentes a 25 diferentes conglomerados empresariais. Já a Odebrecht Agroindustrial é uma das empresas geridas pelo conglomerado homônimo, tendo começado com uma firma de engenharia especializada em infraestrutura e diversificando posteriormente seus ramos de atuação, com investimentos em energia, petróleo, gás e biocombustíveis. Ingressou no setor de etanol em 2007 e desde então caminha a passos de gigante para se tornar a número um do Brasil.
A trajetória de Ometto o levou a ser considerado o primeiro multimilionário do etanol. Após algumas desavenças com a família, o empresário assumiu a Cosan e em 2011 formou umas das mais poderosas alianças do mercado de etanol: juntou forças com a Shell para dar origem à Raízen, hoje sétima maior fabricante de etanol das Américas.
A Raízen Energia informou um lucro líquido de US$ 1,06 bilhão nos meses de julho, agosto e setembro do ano passado, 15,7% a menos do que no mesmo período de 2011. O balanço da empresa atribui a queda ao baixo preço do etanol no mercado interno, entre outros fatores.
A Cosan foi criada em 1936, ano em que os avós de Ometto fundaram uma usina de açúcar em Piracicaba (SP), sua cidade natal. Mas a empresa só veio a se interessar na produção de etanol em 1975, quando o governo brasileiro deu início ao programa Proálcool para promover o biocombustível.
Ometto estudou engenharia mecânica em São Paulo e aos 24 anos tornou-se diretor financeiro das Indústrias Votorantim, empresa criada pelo pai de sua então namorada – e futura esposa. Manteve-se no cargo de 1973 a 1980, até assumir a Cosan a pedido do tio, segundo a Forbes. Após tomar as rédeas, teve uma longa querela judicial com a família para obter um controle ainda maior sobre a companhia. Dez anos depois, acabou comprando as ações dos familiares.
O poder de Ometto também tem raízes na indústria açucareira do Brasil, em um empreendimento fundado pelos trisavós do empresário, que vieram da Itália no século 19. Nos tempos do Brasil colonial, Portugal enxergou a oportunidade de plantar cana-de-açúcar no território sul-americano. Escravos eram trazidos da África exclusivamente para trabalhar nos canaviais e produzir açúcar no século 16. Os chamados barões do açúcar estavam associados à classe social mais alta e poderosa da época.
"O mercado de etanol é como uma montanha-russa", disse Ometto à revista Exame em maio de 2012. Talvez por isso sua bússola de negócios comece a apontar para outros horizontes. Com o impacto adverso das cotações do petróleo e do açúcar sobre a produção brasileira de etanol, o multimilionário "verde" está se voltando para o segmento de gás.
A Cosan não foi a única afetada. Biosev Bioenergia (Dreyfus), Odebrecht Agroindustrial, Bunge e Copersucar (Cooperativa de Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo) – as outras quatro companhias brasileiras incluídas na lista das 15 maiores empresas das Américas – também sofreram esse impacto.
Em novembro de 2012, durante o debate Exame Fórum, realizado em São Paulo, Pedro Parente, presidente da Bunge Brasil, pediu ao ministro Guido Mantega, da economia, que levasse a sério a crise no setor de etanol. Na opinião do executivo, a política do governo brasileiro de manter baixos os preços do petróleo estava obstruindo a produção de etanol. Ele pediu que o etanol voltasse a ser prioridade. Antes de ingressar na Bunge, Parente ocupou vários cargos na administração pública, inclusive o de ministro do planejamento no governo Fernando Henrique Cardoso.
Outra empresa que passou por dificuldades foi a Biosev Bioenergia, subsidiária do grupo francês Louis Dreyfus Commodities. Em junho de 2012, em seu balanço provisório, a companhia anunciou prejuízos devidos à "quebra da safra 2011/2012, relacionada a problemas climáticos e a consequente queda na produção".
Mas quem detém a coroa do reino no Brasil é a Copersucar, com uma receita líquida de aproximadamente US$ 5,4 bilhões na safra 2011/2012 – 41% dela oriunda do mercado de etanol.
Sob o comando de Jorge Wolney, a empresa patrocinou Emerson Fittipaldi na F1 nos anos 70. É outra herdeira dos poderosos barões do açúcar de outrora. Líder brasileira nas vendas de açúcar e álcool, a Copersucar começou como cooperativa que reunia os principais produtores de açúcar do país. Tinha um relacionamento direto com o presidente do país, o que ajudou na aprovação de políticas favoráveis para o setor.
"A iniciativa de expandir os interesses da Copersucar para além da indústria açucareira partiu de seu presidente, Jorge Wolney Atalla, homem extremamente rico e bastante conhecido no Brasil. Assumindo a presidência da cooperativa em 1968, após o sucesso de uma campanha pelo aumento da produção de álcool durante a crise de superprodução de 1966/67, Atalla transformou a Copersucar em uma das maiores corporações da América Latina", escreve Michael Barzelay em seu livro The Politicized Market Economy: Alcohol in Brazil's Energy Strategy (sem tradução no Brasil). Oito anos depois, estava em vigência o principal programa brasileiro de etanol.
As políticas agrícolas e bioenergéticas nos Estados Unidos têm ligação com o Cinturão do Milho, que inclui os estados de Illinois, Iowa, Indiana, Michigan, Nebraska, Kansas, Minnesota e Missouri. 28% da indústria americana de etanol está concentrada em Iowa. Depois da ADM, lideram o mercado americano as firmas Poet Biorefining, Valero Renewable Fuels, Green Plains Renewable Energy, Aventine Renewable Energy, Flint Hills Resources, Abengoa Bioenergy (empresa espanhola com usinas nos Estados Unidos e Brasil), Big River Resources, The Andersons Ethanol e Cargill.
Essas empresas não ficaram alheias às dificuldades de 2012. A Valero Energy, criada em 1980, e a Aventine, em 1981, sob o comando de William Klesse e John Castle respectivamente, também surgiram como resultado das políticas do presidente Jimmy Carter para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Juntas, as duas empresas têm capacidade para produzir mais de 1,59 bilhão de galões de etanol (cerca de 6 bilhões de litros) por ano, de acordo com a Renewable Fuels Association.
Contudo, após amargar prejuízo com o etanol no ano passado, a Valero Energy anunciou em junho o fechamento temporário de duas de suas usinas. Na prestação de contas do 1º trimestre de 2012, a Aventine indicou à Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio que "não podemos fornecer nenhuma garantia de que o volume de dinheiro disponível das operações, juntamente com o Novo Crédito Rotativo, será suficiente para financiar nossas operações".
A Poet Biorefining é a segunda maior companhia do setor de etanol nos Estados Unidos, com capacidade para produzir 1,629 bilhão de galões por ano (6,2 bilhões de litros). Surgiu como empresa familiar com o nome de Broin Companies, em 1983, numa fazenda de Wanamingo, Minnesota. Em 1987, os três irmãos que controlavam a firma compraram uma usina de etanol em South Dakota, a primeira do grupo. Permaneceram no ramo.
A cargo da firma desde os 22 anos de idade, quando começou como gerente da usina de etanol que o grupo possui na Escócia, Jeff Broin comprou a participação dos irmãos em 2006. Com cerca de 10 mil agricultores acionistas, assumiu o comando da empresa e em 2007 mudou seu nome para Poet – mudança esta que alardeou como um novo capítulo na história das biorrefinarias.
Jeff Broin, que em 2012 passou de CEO a presidente do conselho de diretores da Poet, também ocupou cargos em associações de produtores de biocombustíveis, como a Growth Energy e o Conselho Americano de Energias Renováveis (Acore–American Council on Renewable Energy), que vêm buscando consolidar a indústria do etanol por meio do apoio e promoção de iniciativas e políticas favoráveis ao setor.
Outra que se destaca no reino do etanol é a família Koch. Gerida por David e Charles Koch e subsidiária da Koch Industries, a Flint Hills Resources figura em 10º lugar no ranking do etanol.
Fundada em 1940, a Koch Industries teve uma receita total de US$ 115 bilhões com seu conglomerado industrial em 2012. Segundo a Forbes, é uma das maiores empresas privadas dos Estados Unidos.
Os Koch viveram uma rixa familiar. A discórdia dividiu os quatro irmãos em dois campos opostos e terminou com Bill e Fred vendendo suas ações para David e Charles Koch, que hoje são conhecidos como os irmãos mais endinheirados dos Estados Unidos. Cada um possui US$ 31 bilhões, o que os coloca na quarta posição do ranking dos multimilionários – atrás apenas de Bill Gates, Warren Buffet e Larry Ellison. Na lista das pessoas mais poderosas do mundo organizada pela Forbes em 2012, eles aparecem em 41º.
Charles e David Koch frequentaram o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e são bastante conhecidos pelo interesse que têm em influenciar os rumos políticos do país. Tradicionalmente, sempre apoiaram candidatos republicanos à presidência dos EUA, e nas últimas eleições deram contribuições substanciais à campanha do candidato republicano Mitt Romney. Antes disso, a batalha pública que mantiveram com o presidente Barack Obama também era de conhecimento geral. Os irmãos criticaram abertamente as políticas do presidente, inclusive as formuladas para o setor de bioenergia.
Para além das disputas políticas, os irmãos Koch gostam de fazer apostas arriscadas no mundo dos negócios. "Jogar no seguro é um lento suicídio", declarou Charles à revista Forbes. Com essa filosofia, conseguiram criar uma empresa de grande sucesso. Contudo, é uma empresa na mira dos ambientalistas. Em 2012, a Koch Industries ficou em quinto numa lista das 100 empresas que mais poluem nos Estados Unidos, organizada pelo Instituto de Pesquisas de Economia Política.
A história colombiana começou em 1864, quando Santiago Eder adquiriu terras no município de Palmira. Tornou-se um dos pioneiros do açúcar e um dos empresários mais importantes da Colômbia no século 19, criando o Grupo Manuelita. Decorridos 142 anos, em 2006 os herdeiros construíram uma usina de etanol, sob o controle de Harold Eder.
Outra a liderar o setor de etanol na Colômbia é a família Lülle. Acionista majoritário dos engenhos de Providência e Risaralda, Carlos Ardila Lülle é o principal produtor do biocombustível no país. Além disso, é dono de fábricas têxteis e da RCN, uma cadeia nacional de rádio e televisão.
No Peru, o ramo de etanol é encabeçado pelo grupo Romero, conglomerado familiar que é considerado o segundo maior e mais influente do país. Entre as empresas do grupo estão o Banco de Crédito do Peru, o grupo Palmas del Espino e sua subsidiária Sucroalcolera del Chira, que começou a fabricar etanol no país em 2008.
O crescimento da indústria ao longo do tempo é acompanhado pelo crescimento das associações setoriais, que juntaram forças e se transformaram em um lobby poderoso, com atuação até no Congresso dos Estados Unidos. A Renewable Fuels Association e a Growth Energy, nos EUA, juntamente com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e a União dos Produtores de Bioenergia (Udop), no Brasil, são algumas dessas associações.
Na Colômbia, lideram o setor a Asocaña e a Fedecombustibles, enquanto no Peru existe a Asociación Peruana de Productores de Azúcar y Biocombustibles.
Essas alianças viraram sociedades que cruzam fronteiras. Depois que o imposto sobre etanol importado deixou de vigorar nos Estados Unidos, ao fim de 2011, as empresas fizeram aquisições internacionais para crescer e manter-se em operação. Em novembro de 2012, a brasileira Copersucar anunciou a compra da americana Eco Energy, tornando-se a maior comercializadora de etanol do mundo, com 12% do mercado global, segundo declarações feitas à imprensa pelo diretor da firma.
Mais do que transpor fronteiras, os czares do etanol lutam para manter suas coroas. Ao mesmo tempo, começam a explorar outras opções além dos biocombustíveis, para ficarem menos vulneráveis a surpresas que o mercado de etanol possa estar guardando para o futuro.
por Emilia Diaz-Struck
Fonte: New England Center for Investigative Reporting
Tradução e adaptação: NovaCana
Quinze empresas alcooleiras controlam o Império do Etanol nas Américas. As quinze estão no topo de uma lista de 288 empresas, situadas nos dois principais países produtores, Estados Unidos e Brasil, e também nos mercados emergentes de Colômbia e Peru.
Dois empresários de prestígio dominam o setor de etanol, cada qual em um dos principais polos de produção do continente: Patricia Woertz e Rubens Ometto. Woertz é a americana que comanda a ADM e é considerada a terceira mulher mais poderosa do mundo dos negócios. Ometto é brasileiro e o número três na lista mundial dos bilionários da indústria verde.
Quinze empresas alcooleiras controlam o Império do Etanol nas Américas. Esta é uma das descobertas de uma investigação conduzida pelo New England Center for Investigative Reporting/Connectas. As quinze estão no topo de uma lista de 288 empresas, situadas nos dois principais países produtores, Estados Unidos e Brasil, e também nos mercados emergentes de Colômbia e Peru.
O primeiro lugar da lista é ocupado com folga pela Archer Daniels Midland (ADM), que tem capacidade produtiva para 1,72 bilhão de galões por ano (6,5 bilhões de litros) nos Estados Unidos. No Brasil, o outro principal eixo da produção, a liderança é da Copersucar, com 1,26 bilhão de galões por ano (4,82 bilhões de litros).
Na sequência da linha sucessória ao trono do Norte estão Poet Biorefining e Valero Renewable Fuels. No Sul, Odebrecht Agroindustrial (ETH Bioenergia) e Raízen aparecem como número dois e três da América Latina.
São diversas as histórias dos condutores de cada um desses impérios.
Nos Estados Unidos, Patricia Woertz, de 60 anos, é a primeira pessoa fora da família Andreas a assumir as rédeas do negócio, iniciado por George Archer e John Daniels em 1902 com uma esmagadora de linhaça. Foi a capacidade de liderança de Woertz que lhe permitiu começar como contadora, em 1974, e assumir cargos estratégicos na indústria. Em 2006, ela chegou ao topo da ADM, uma das mais poderosas empresas de comércio agrícola do mundo e dona da maior capacidade instalada de produção de etanol.
Hoje Woertz é presidente do conselho de diretores e diretora executiva. Segundo a revista Bloomberg Businessweek, sua remuneração gira em torno de US$ 10 milhões anuais.
Em 2012, foi eleita uma das 100 mulheres mais poderosas do mundo pela Forbes e a sexta mais poderosa no mundo dos negócios nos EUA pela Fortune. Desde 2000 esteve sempre presente entre as dez primeiras posições da lista.
Woertz não é muito chegada a dar entrevistas para a imprensa, mas costuma falar em eventos ligados a temas empresariais e de liderança. Numa conversa com o coordenador da escola de negócios da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla), para a série Leaders on Leadership (Líderes falando de liderança), a executiva contou como, num esforço de mudar a cultura empresarial, ela procura manter o máximo contato pessoal possível com os funcionários da ADM espalhados por 60 países. Além de enviar e-mails e compartilhar blogs, ela visita as maiores filiais da companhia pelo menos uma vez por ano, além das menores ocasionalmente.
Woertz também pensa em termos globais.
"Os mercados emergentes, muitos na Ásia, alguns na África, na Europa Oriental, no Oriente Médio, às vezes não são convencionais. Mas são eles que estão crescendo. A população crescendo, as demandas progredindo, é lá que estão alguns dos melhores mercados do mundo", afirma.
Reportagens da imprensa em 2006 dão a entender que o que a ADM apreciava em Woertz era sua capacidade de liderança gerencial, assim como sua experiência na Chevron, onde chegou ao posto de presidente da divisão internacional e de vice-presidente executiva da Chevron Texaco. Outro fator mencionado como importante para sua ascensão foi o interesse da ADM no mercado de etanol, biocombustível que a empresa produz desde 1978.
Em 2007, numa palestra sobre fontes alternativas de energia proferida na Ucla, Woertz disse que "as questões que se colocam hoje são a dimensão a que podem chegar os combustíveis renováveis, a velocidade com que podemos chegar lá, e o que será necessário para isso". Na época, considerava-se que produtos como o etanol podiam competir ombro a ombro no mercado de combustíveis, dada a demanda crescente por energia e a situação do petróleo no volátil Oriente Médio. Naquele período, o então presidente americano George W. Bush promovia os biocombustíveis com entusiasmo e a indústria estava expandindo a produção.
No entanto, 2012 foi um ano amargo para a czarina do etanol. No começo do ano, Woertz foi obrigada a cortar mil postos de trabalho na ADM; e mais tarde anunciou que os lucros da empresa haviam sido menores do que o esperado. Foi, na maior parte, culpa da seca que assolou os EUA, prejudicando a produção de milho e consequentemente o setor de etanol.
"As cifras operacionais do processamento de milho caíram de US$ 818 milhões para US$ 261 milhões, graças, especialmente, às margens pequenas do etanol", diz o relatório anual da empresa (relativo ao ano fiscal com fim em 30 de junho de 2012) entregue à Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio dos EUA.
Czar latino-americano: Rubens Ometto
Na outra ponta do continente, uma das mais proeminentes figuras do setor de etanol é Rubens Ometto, dono de parte da brasileira Cosan – ainda que Copersucar e Odebrecht Agroindustrial (ex-ETH Bioenergia) possuam maior capacidade produtiva. Segundo a Forbes, em março de 2013 a fortuna de Ometto chegava a US$ 2,6 bilhões. A revista também o catalogou como o terceiro homem mais rico do mundo no âmbito da chamada indústria verde. À sua frente figuram Aloys Wobben, líder no mercado de turbinas eólicas, e Elon Musk, campeão no segmento de sistemas solares e carros elétricos.A diferença entre Ometto e alguns dos concorrentes é que o brasileiro amealhou sua fortuna no setor sucroalcooleiro.
A Copersucar nasceu como cooperativa e hoje está nas mãos de 48 usinas parceiras independentes, pertencentes a 25 diferentes conglomerados empresariais. Já a Odebrecht Agroindustrial é uma das empresas geridas pelo conglomerado homônimo, tendo começado com uma firma de engenharia especializada em infraestrutura e diversificando posteriormente seus ramos de atuação, com investimentos em energia, petróleo, gás e biocombustíveis. Ingressou no setor de etanol em 2007 e desde então caminha a passos de gigante para se tornar a número um do Brasil.
A trajetória de Ometto o levou a ser considerado o primeiro multimilionário do etanol. Após algumas desavenças com a família, o empresário assumiu a Cosan e em 2011 formou umas das mais poderosas alianças do mercado de etanol: juntou forças com a Shell para dar origem à Raízen, hoje sétima maior fabricante de etanol das Américas.
A Raízen Energia informou um lucro líquido de US$ 1,06 bilhão nos meses de julho, agosto e setembro do ano passado, 15,7% a menos do que no mesmo período de 2011. O balanço da empresa atribui a queda ao baixo preço do etanol no mercado interno, entre outros fatores.
A Cosan foi criada em 1936, ano em que os avós de Ometto fundaram uma usina de açúcar em Piracicaba (SP), sua cidade natal. Mas a empresa só veio a se interessar na produção de etanol em 1975, quando o governo brasileiro deu início ao programa Proálcool para promover o biocombustível.
Ometto estudou engenharia mecânica em São Paulo e aos 24 anos tornou-se diretor financeiro das Indústrias Votorantim, empresa criada pelo pai de sua então namorada – e futura esposa. Manteve-se no cargo de 1973 a 1980, até assumir a Cosan a pedido do tio, segundo a Forbes. Após tomar as rédeas, teve uma longa querela judicial com a família para obter um controle ainda maior sobre a companhia. Dez anos depois, acabou comprando as ações dos familiares.
O poder de Ometto também tem raízes na indústria açucareira do Brasil, em um empreendimento fundado pelos trisavós do empresário, que vieram da Itália no século 19. Nos tempos do Brasil colonial, Portugal enxergou a oportunidade de plantar cana-de-açúcar no território sul-americano. Escravos eram trazidos da África exclusivamente para trabalhar nos canaviais e produzir açúcar no século 16. Os chamados barões do açúcar estavam associados à classe social mais alta e poderosa da época.
"O mercado de etanol é como uma montanha-russa", disse Ometto à revista Exame em maio de 2012. Talvez por isso sua bússola de negócios comece a apontar para outros horizontes. Com o impacto adverso das cotações do petróleo e do açúcar sobre a produção brasileira de etanol, o multimilionário "verde" está se voltando para o segmento de gás.
A Cosan não foi a única afetada. Biosev Bioenergia (Dreyfus), Odebrecht Agroindustrial, Bunge e Copersucar (Cooperativa de Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo) – as outras quatro companhias brasileiras incluídas na lista das 15 maiores empresas das Américas – também sofreram esse impacto.
Em novembro de 2012, durante o debate Exame Fórum, realizado em São Paulo, Pedro Parente, presidente da Bunge Brasil, pediu ao ministro Guido Mantega, da economia, que levasse a sério a crise no setor de etanol. Na opinião do executivo, a política do governo brasileiro de manter baixos os preços do petróleo estava obstruindo a produção de etanol. Ele pediu que o etanol voltasse a ser prioridade. Antes de ingressar na Bunge, Parente ocupou vários cargos na administração pública, inclusive o de ministro do planejamento no governo Fernando Henrique Cardoso.
Outra empresa que passou por dificuldades foi a Biosev Bioenergia, subsidiária do grupo francês Louis Dreyfus Commodities. Em junho de 2012, em seu balanço provisório, a companhia anunciou prejuízos devidos à "quebra da safra 2011/2012, relacionada a problemas climáticos e a consequente queda na produção".
Mas quem detém a coroa do reino no Brasil é a Copersucar, com uma receita líquida de aproximadamente US$ 5,4 bilhões na safra 2011/2012 – 41% dela oriunda do mercado de etanol.
Sob o comando de Jorge Wolney, a empresa patrocinou Emerson Fittipaldi na F1 nos anos 70. É outra herdeira dos poderosos barões do açúcar de outrora. Líder brasileira nas vendas de açúcar e álcool, a Copersucar começou como cooperativa que reunia os principais produtores de açúcar do país. Tinha um relacionamento direto com o presidente do país, o que ajudou na aprovação de políticas favoráveis para o setor.
"A iniciativa de expandir os interesses da Copersucar para além da indústria açucareira partiu de seu presidente, Jorge Wolney Atalla, homem extremamente rico e bastante conhecido no Brasil. Assumindo a presidência da cooperativa em 1968, após o sucesso de uma campanha pelo aumento da produção de álcool durante a crise de superprodução de 1966/67, Atalla transformou a Copersucar em uma das maiores corporações da América Latina", escreve Michael Barzelay em seu livro The Politicized Market Economy: Alcohol in Brazil's Energy Strategy (sem tradução no Brasil). Oito anos depois, estava em vigência o principal programa brasileiro de etanol.
Os outros gigantes do Norte
A primeira fábrica no mundo dedicada a produzir amido de milho teve origem nos Estados Unidos, em 1844. O país é hoje o maior produtor e exportador do grão, que utiliza como matéria-prima para fabricar etanol. Aproximadamente 40% da safra americana são destinados a esse fim, e é por isso que a economia mundial do milho está atrelada à produção de etanol.As políticas agrícolas e bioenergéticas nos Estados Unidos têm ligação com o Cinturão do Milho, que inclui os estados de Illinois, Iowa, Indiana, Michigan, Nebraska, Kansas, Minnesota e Missouri. 28% da indústria americana de etanol está concentrada em Iowa. Depois da ADM, lideram o mercado americano as firmas Poet Biorefining, Valero Renewable Fuels, Green Plains Renewable Energy, Aventine Renewable Energy, Flint Hills Resources, Abengoa Bioenergy (empresa espanhola com usinas nos Estados Unidos e Brasil), Big River Resources, The Andersons Ethanol e Cargill.
Essas empresas não ficaram alheias às dificuldades de 2012. A Valero Energy, criada em 1980, e a Aventine, em 1981, sob o comando de William Klesse e John Castle respectivamente, também surgiram como resultado das políticas do presidente Jimmy Carter para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Juntas, as duas empresas têm capacidade para produzir mais de 1,59 bilhão de galões de etanol (cerca de 6 bilhões de litros) por ano, de acordo com a Renewable Fuels Association.
Contudo, após amargar prejuízo com o etanol no ano passado, a Valero Energy anunciou em junho o fechamento temporário de duas de suas usinas. Na prestação de contas do 1º trimestre de 2012, a Aventine indicou à Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio que "não podemos fornecer nenhuma garantia de que o volume de dinheiro disponível das operações, juntamente com o Novo Crédito Rotativo, será suficiente para financiar nossas operações".
A Poet Biorefining é a segunda maior companhia do setor de etanol nos Estados Unidos, com capacidade para produzir 1,629 bilhão de galões por ano (6,2 bilhões de litros). Surgiu como empresa familiar com o nome de Broin Companies, em 1983, numa fazenda de Wanamingo, Minnesota. Em 1987, os três irmãos que controlavam a firma compraram uma usina de etanol em South Dakota, a primeira do grupo. Permaneceram no ramo.
A cargo da firma desde os 22 anos de idade, quando começou como gerente da usina de etanol que o grupo possui na Escócia, Jeff Broin comprou a participação dos irmãos em 2006. Com cerca de 10 mil agricultores acionistas, assumiu o comando da empresa e em 2007 mudou seu nome para Poet – mudança esta que alardeou como um novo capítulo na história das biorrefinarias.
Jeff Broin, que em 2012 passou de CEO a presidente do conselho de diretores da Poet, também ocupou cargos em associações de produtores de biocombustíveis, como a Growth Energy e o Conselho Americano de Energias Renováveis (Acore–American Council on Renewable Energy), que vêm buscando consolidar a indústria do etanol por meio do apoio e promoção de iniciativas e políticas favoráveis ao setor.
Outra que se destaca no reino do etanol é a família Koch. Gerida por David e Charles Koch e subsidiária da Koch Industries, a Flint Hills Resources figura em 10º lugar no ranking do etanol.
Fundada em 1940, a Koch Industries teve uma receita total de US$ 115 bilhões com seu conglomerado industrial em 2012. Segundo a Forbes, é uma das maiores empresas privadas dos Estados Unidos.
Os Koch viveram uma rixa familiar. A discórdia dividiu os quatro irmãos em dois campos opostos e terminou com Bill e Fred vendendo suas ações para David e Charles Koch, que hoje são conhecidos como os irmãos mais endinheirados dos Estados Unidos. Cada um possui US$ 31 bilhões, o que os coloca na quarta posição do ranking dos multimilionários – atrás apenas de Bill Gates, Warren Buffet e Larry Ellison. Na lista das pessoas mais poderosas do mundo organizada pela Forbes em 2012, eles aparecem em 41º.
Charles e David Koch frequentaram o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e são bastante conhecidos pelo interesse que têm em influenciar os rumos políticos do país. Tradicionalmente, sempre apoiaram candidatos republicanos à presidência dos EUA, e nas últimas eleições deram contribuições substanciais à campanha do candidato republicano Mitt Romney. Antes disso, a batalha pública que mantiveram com o presidente Barack Obama também era de conhecimento geral. Os irmãos criticaram abertamente as políticas do presidente, inclusive as formuladas para o setor de bioenergia.
Para além das disputas políticas, os irmãos Koch gostam de fazer apostas arriscadas no mundo dos negócios. "Jogar no seguro é um lento suicídio", declarou Charles à revista Forbes. Com essa filosofia, conseguiram criar uma empresa de grande sucesso. Contudo, é uma empresa na mira dos ambientalistas. Em 2012, a Koch Industries ficou em quinto numa lista das 100 empresas que mais poluem nos Estados Unidos, organizada pelo Instituto de Pesquisas de Economia Política.
Novos czares
O setor de etanol também tem seus czares na Colômbia e no Peru, países em que a indústria começou mais tarde do que no Brasil e nos EUA.A história colombiana começou em 1864, quando Santiago Eder adquiriu terras no município de Palmira. Tornou-se um dos pioneiros do açúcar e um dos empresários mais importantes da Colômbia no século 19, criando o Grupo Manuelita. Decorridos 142 anos, em 2006 os herdeiros construíram uma usina de etanol, sob o controle de Harold Eder.
Outra a liderar o setor de etanol na Colômbia é a família Lülle. Acionista majoritário dos engenhos de Providência e Risaralda, Carlos Ardila Lülle é o principal produtor do biocombustível no país. Além disso, é dono de fábricas têxteis e da RCN, uma cadeia nacional de rádio e televisão.
No Peru, o ramo de etanol é encabeçado pelo grupo Romero, conglomerado familiar que é considerado o segundo maior e mais influente do país. Entre as empresas do grupo estão o Banco de Crédito do Peru, o grupo Palmas del Espino e sua subsidiária Sucroalcolera del Chira, que começou a fabricar etanol no país em 2008.
O crescimento da indústria ao longo do tempo é acompanhado pelo crescimento das associações setoriais, que juntaram forças e se transformaram em um lobby poderoso, com atuação até no Congresso dos Estados Unidos. A Renewable Fuels Association e a Growth Energy, nos EUA, juntamente com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e a União dos Produtores de Bioenergia (Udop), no Brasil, são algumas dessas associações.
Na Colômbia, lideram o setor a Asocaña e a Fedecombustibles, enquanto no Peru existe a Asociación Peruana de Productores de Azúcar y Biocombustibles.
Essas alianças viraram sociedades que cruzam fronteiras. Depois que o imposto sobre etanol importado deixou de vigorar nos Estados Unidos, ao fim de 2011, as empresas fizeram aquisições internacionais para crescer e manter-se em operação. Em novembro de 2012, a brasileira Copersucar anunciou a compra da americana Eco Energy, tornando-se a maior comercializadora de etanol do mundo, com 12% do mercado global, segundo declarações feitas à imprensa pelo diretor da firma.
Mais do que transpor fronteiras, os czares do etanol lutam para manter suas coroas. Ao mesmo tempo, começam a explorar outras opções além dos biocombustíveis, para ficarem menos vulneráveis a surpresas que o mercado de etanol possa estar guardando para o futuro.
por Emilia Diaz-Struck
Fonte: New England Center for Investigative Reporting
Tradução e adaptação: NovaCana