Internacional

França se opõe a acordo UE-Mercosul por impactos ambientais

Relatório encomendado pelo governo francês aponta que maior abertura do mercado europeu à carne e cana-de-açúcar pode elevar desmatamento na América do Sul


EPBR - 21 set 2020 - 07:41

O primeiro-ministro francês, Jean Castex, verbalizou nesta sexta (18) a oposição do governo do país ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Em uma postagem no twitter, Castex criticou o desmatamento que “ameaça a biodiversidade e perturba o clima” e afirmou que os compromissos ambientais da França e da Europa impedem o acordo.

Nesta sexta (18), o primeiro-ministro recebeu de Stefan Ambec, economista ambiental da Escola de Economia de Toulouse e presidente da Comissão Independente de Avaliação do acordo com o Mercosul, um relatório apontando impactos ambientais devem ser provocados caso a negociação seja ratificada.

A França é, historicamente, a principal voz contra o acordo entre UE e Mercosul na Europa graças ao forte lobby do setor agropecuário do país, que impõe dificuldades, por exemplo, à abertura do mercado ao etanol brasileiro.

O texto de 193 páginas indica como cenário mais provável que o custo ambiental do acordo seria maior do que benefícios econômicos para a Europa. O desmatamento pode crescer exponencialmente na região como resultado da maior abertura do mercado europeu à carne e à cana-de-açúcar, diz o documento.

A maior abertura do mercado de carne elevaria em 5% as taxas de desmatamento anuais nos países do Mercosul, colocando em risco uma área de 700 mil hectares, dos quais 276 mil hectares estariam no Brasil e 334 mil hectares, na Argentina.

Caso seja considerada a superfície necessária para plantações destinadas à alimentação animal ou aumento da área plantada para o cultivo da cana-de-açúcar, essa taxa pode chegar a 25%.

No cenário mais pessimista, que não é consenso na comissão independente, o acordo seria responsável no futuro por até metade do desmatamento da região.

No total, as emissões adicionais atribuíveis ao acordo seriam entre 4,7 e 6,8 milhões toneladas de CO2 equivalente. O custo ambiental medido a partir dessas emissões – com base em um custo unitário de 250 euros por tonelada de CO2 – seria maior do que os benefícios econômicos, conclui o documento.

Em resposta, o vice-presidente Hamilton Mourão criticou a Guiana Francesa – “lá, temos mineração ilegal e desmatamento também, mas ninguém fala disso” – e afirmou que o acordo Mercosul-UE será bom para todas as partes.

Resistência

O texto entregue nesta sexta é o resultado de um ano de trabalho da Comissão Independente de Avaliação, criada por determinação do próprio primeiro-ministro em julho de 2019. Durante a reunião do G7 no ano passado, o presidente Emmanuel Macron já indicava resistência à assinatura do acordo nas circunstâncias atuais, dados os rumos das políticas públicas ambientais vistas na América do Sul que vão contra os compromissos do Acordo de Paris.

Macron mirava o governo brasileiro, que naquele mês enfrentava uma onda de críticas internacionais graças ao avanço das queimadas na Amazônia.

Também em julho daquele ano o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, cancelou de última hora uma audiência com o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, para cortar o cabelo. A reunião trataria justamente da pauta ambiental. Na época, Bolsonaro afirmou que não aceitaria imposições de países estrangeiros.

A Comissão Europeia estuda a possibilidade de separar o acordo comercial do restante das negociações entre os blocos.

A estratégia seria o caminho para acelerar a queda de barreiras comerciais dos dois lados sem o entrave de outras negociações, como as ressalvas ambientais que vem sendo feitas por líderes europeus desde o ano passado, informa o Valor Econômico.

Guilherme Serodio


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