Internacional

Fazendeiros do Meio-Oeste dos EUA devem trocar soja pelo milho em 2020

Escolha é motivada pelos efeitos da guerra comercial com a China, mas política de Trump em relação ao etanol gera desconfiança


O Globo - 09 dez 2019 - 07:27
Tim Bartole com o pai, Roy, na propriedade de mil hectares que pertence à família há quatro gerações: ele votou em Trump em 2016 e inicialmente apoiou a guerra comercial com a China, mas agora sofre prejuízo com a queda nas exportações de soja

Nas eleições de 2008, o condado de Greene, em Iowa, escolheu Barack Obama para presidente. A votação foi apertada: uma diferença de 22 votos entre os quase cinco mil eleitores que saíram de casa. Oito anos depois, Donald Trump ganhou o condado com folga e apoio em peso dos agricultores locais, os mesmos agricultores que agora sofrem com a queda nas exportações de soja para a China por causa da guerra comercial do presidente.

É a esses e também aos agricultores de outros grandes estados de produção agrícola, como Ohio, que o presidente se referiu quando acusou o Brasil de desvalorizar sua moeda de propósito, prejudicando os fazendeiros. O tuíte sugere que Trump está disposto a arriscar alianças externas para garantir o apoio da sua base rural em 2020.

Greene é a terra de Tim Bardole e era também a do seu tataravô, que comprou uma parte dos atuais mil hectares (ou 10 km²) em 1901. Nos anos 1950, soja e milho passaram a ser os principais produtos cultivados na fazenda, que passou de geração para geração.

Para os Bardole, a situação ideal é que a plantação seja metade soja, metade milho. Mas a queda na demanda chinesa desde que o país impôs 25% de tarifas à soja americana fez com que tivessem que plantar cada vez mais milho: “Estamos perdendo dinheiro com a soja”.

Ele apoiou a guerra comercial de Trump no início. Diz que a China violava leis de propriedade intelectual e era preciso fazer algo para garantir a segurança dos Estados Unidos. Hoje, admite que ela prejudicou a rentabilidade do seu negócio, e diz que só vai poder responder se valeu a pena quando um acordo com a China for fechado. Questionado se apoiou Trump em 2016, Bardole não responde com um “sim”, mas confirma que votou no presidente

“Eu não podia votar na Hillary Clinton”, afirma. E voltará a votar em 2020? “Sim, se não aparecer nada melhor”.

Bardole diz que que cogita votar em um democrata, embora não fortemente. “Ainda não ouvi falar de um democrata que eu pudesse apoiar até agora”.

Traição no etanol

O fã do cantor country Garth Brooks tem também outras reclamações do presidente que vão além da guerra comercial. “O que o presidente Trump fez com o Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS, na sigla em inglês) e a maneira como o governo abraçou isso e fez promessas que não cumpriu, é isso que o está prejudicando entre os fazendeiros”, aponta.

O Padrão de Combustíveis Renováveis é uma lei federal que impõe quantidades mínimas de etanol de milho a serem adicionados a combustíveis fósseis. Durante a campanha, o presidente havia prometido apoiar os fazendeiros na implementação da lei, mas não cumpriu a promessa.

Desde que assumiu o poder, a Agência de Proteção Ambiental quadruplicou o número de isenções concedidas para que empresas de combustíveis não renováveis não sejam obrigadas a aplicar a mistura. Na visão dos fazendeiros, em meio à rivalidade entre as indústrias do etanol e do petróleo, Trump escolheu a do petróleo.

Para agricultores como Tim, comprar uma briga com outro país é justificável, mas ser abandonado pelo próprio governo “é muito, muito mais difícil de perdoar”. E apesar de Trump ter distribuído bilhões de dólares em ajuda financeira para compensar as perdas com a guerra comercial, é consenso que os agricultores preferem comércio a ajuda: “trade, not aid”.

A coordenadora voluntária do Partido Democrata em Greene, Chris Henning, acredita que muitos fazendeiros dizem não saber em quem vão votar porque não gostam de admitir que cometeram um erro no passado e que, se pretendessem votar em Trump, teriam dito – como fazem muitos deles. A aposta dela é que alguns mudem de lado em 2020.

“Eu não vejo ninguém dizer que se beneficiou disso da guerra comercial. ‘ele foi tão bom para nós’ ou ‘ele foi tão bom para a nação’, eu não vejo muita gente dizendo essas coisas. Eu vejo pessoas que são teimosas ou que não gostam de admitir que erraram que dizem: ainda vou continuar o apoiando”, relata.

'Swing state'

Iowa é um swing state, estado que oscila entre democratas e republicanos. Ao mesmo tempo em que elegeu e reelegeu Obama, deu vitória a Trump com 51,8% dos votos. Cerca de dez dos 50 estados americanos são considerados swing states. São esses estados que acabam definindo as eleições.

Maior produtor de milho e segundo maior produtor de soja dos Estados Unidos, Iowa tem pouco mais três milhões de habitantes. Mas a insatisfação do voto rural pode se espalhar para outras áreas, como Ohio, sétimo estado mais populoso do país, com 11 milhões de habitantes, onde Trump também venceu.

“Grande parte do voto rural vai para os republicanos, mas não tudo. Tenho vizinhos que acham que Trump mereceria ser enforcado. Então, definitivamente não é 100%”, diz Tim Bardole.

A democrata Chris Henning concorda. “Nós temos um terço de democratas, um terço de independentes e um terço de republicanos. E fazendeiros são conhecidos por serem independentes”.

Como Bardole, outros fazendeiros concordam que os preços baixos trazem dúvidas para 2020. Jason Russell, fazendeiro no Leste do estado, diz que a situação é frustrante. “Não estou otimista sobre a possibilidade de um acordo com a China. Não planejo plantar soja em 2020. Vou plantar só milho”, afirma.

Acordo chinês

Se pudesse escolher, Russell continuaria exportando soja para a China. Plantar milho não resolve seus problemas, já que o produto vai para o mercado do etanol, que sofre com a aplicação hesitante da RFS. A indústria do etanol se concentra em diversos estados do Meio-Oeste que apoiaram Trump em 2016, entre eles Iowa, Indiana, Missouri e Nebraska.

Russell apoiou o presidente nas últimas eleições e diz que, para 2020, ainda não decidiu: está “em cima do muro”. Ele acredita que há chances de um candidato democrata ganhar no estado. “Mas a alternativa ao presidente Trump é meio desconhecida com relação a muitos temas. Então nós, como uma comunidade de fazendeiros, ainda não temos certeza do que vai acontecer”, diz.

Apesar da crescente insatisfação do setor, não é possível dizer que os fazendeiros pretendem abandonar Trump. Uma pesquisa do Farm Journal Pulse mostra que 55% deles têm avaliação muito positiva do presidente. O número havia baixado para 43% em agosto, refletindo a insatisfação do setor com a guerra comercial, mas voltou a crescer assim que o processo de impeachment teve início.

O impeachment é visto pela maioria dos republicanos como fabricado para prejudicar um presidente que os democratas não aceitam. Além disso, a proporção de fazendeiros que desaprovam o presidente é pequena: 21%.

Uma das variáveis que pode ajudar o presidente no setor rural é se ele conseguir fechar um acordo comercial com a China, negociação que vem se arrastando desde 2017, quando a guerra de tarifas começou. Há expectativa de que ele seja fechado até o dia 15 de dezembro, quando novas tarifas seriam impostas. Nesta sexta, a China anunciou que iria suspender a imposição para alguns tipos de soja importada dos EUA.

Muitos fazendeiros continuam a apoiar Trump porque acreditam estarem vivendo um momento difícil agora que se pagará no futuro. Eles põem a culpa de suas dificuldades econômicas em situações que o presidente não pode controlar, como a desvalorização do câmbio brasileiro, citada frequentemente por eles. E torcem para que o Brasil não consiga alcançá-los em competitividade.

Tim Bardole fala com orgulho da vocação agrícola cultivada na família há quatro gerações, mas o momento difícil o faz relembrar outras escolhas que poderia ter feito. Ele nem sempre sonhou em ser fazendeiro. Sua ideia inicial era estudar ciências da computação. Mas, ainda nos anos 1980, um professor disse que não havia empregos no setor.

“Eu adorava programação”, diz. Ele se arrepende? “Não, na verdade não. Eu gosto da fazenda. Mas eu não teria U$ 2 milhões em dívidas se eu fosse programador de computador”.

Iowa abre eleições primárias

Do outro lado da rua da fazenda de Tim Bardole, vivem Nancy e Dale Hanaman. Ela é prima distante de Bardole: seu bisavô era o tataravô do vizinho. Mas a proximidade se limita ao parentesco sanguíneo. Ela e o marido puseram em frente à casa três banners em apoio a diferentes candidatos democratas. Assim que se aposentou como pastor, Dale mudou do Wisconsin para o Iowa. Ficou sabendo que a vizinhança era republicana.

“Onde eu vivia, em um presbitério de propriedade da igreja, não podia colocar banners políticos. Então, assim que mudamos para cá, resolvi colocar estes, e nós gostamos deles”, afirma.

A rivalidade entre vizinhos e primos reflete a vocação política de um estado que, além de ser swing state, é o primeiro onde começam a ser decididos os candidatos de cada partido nas eleições presidenciais. São os caucus de Iowa, que acontecem em 3 de fevereiro de 2020.

O resultado é um importante indicador de quem será o candidato de cada partido nas eleições de novembro. A última pesquisa no estado sobre a disputa democrata aponta Pete Buttigieg em primeiro lugar, com 26% dos votos, seguido de Elizabeth Warren (19%), Bernie Sanders (18%) e Joe Biden (18%).

Paola De Orte

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