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Etanol

Etanol de milho e o dilema norte-americano


Exame - 14 nov 2012 - 12:54 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
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A safra de verão norte-americana de cereais e oleaginosas foi fortemente impactada por severa seca, que reduziu drasticamente as previsões de colheita, levando as cotações de produtos como soja, milho e trigo a níveis estratosféricos, tanto nas Bolsas de Commodities (Chicago e Kansas City), como nos mercados físicos. Apesar de que o verdadeiro desastre esperado tem sido minimizado pelas últimas previsões, resta um grande dilema, no caso do milho, para o Governo norte-americano resolver: o que fazer com a produção de etanol e a manutenção da obrigatoriedade de misturar combustíveis renováveis na gasolina consumida pelos norte-americanos?De um lado, algo que é muito sério nos EUA: a questão da regulação! O RFS (Renewable Fuels Standard) ou seja, o Padrão dos Combustíveis Renováveis, é administrado pela poderosa EPA -  US Environmental Protection Agency, a agência estatal de proteção ao meio ambiente, que carrega a responsabilidade de ter que atingir até 2022 o fabuloso volume de mistura de combustíveis renováveis em 36 bilhões de galões (algo como 136,26 milhões de metros cúbicos). Estes números englobam, é bom que se diga, a mescla de biodiesel e o uso de outros combustíveis renováveis de segunda geração.

Identificados com os critérios que a EPA não quer abrir mão estão os produtores de milho, que obviamente querem ver disputa por seu produto para atingir maiores preços (em particular em ano de safra pequena) e a RFA,  associação que congrega as indústrias produtoras de etanol de milho. Em posição diametralmente contrária, o forte lobby das indústrias de petróleo e os produtores de ração animal e de carnes, que estão sendo obrigados a ter sua mais importante matéria prima competindo com o interesse de compra da indústria de etanol de milho. Volta a velha discussão em torno do alimento versus o combustível.

Alguns Governadores de Estado pediram oficialmente à EPA para que suspenda temporariamente esta obrigatoriedade da mistura. A EPA se faz de rogada mas tem um prazo para responder, que está por se extinguir. Neste meio tempo o preço de milho vem caindo, tanto pelas indicações de safra maior e com produtividade melhor do que se imaginava, como com baixos números de exportação (o mercado internacional está se abastecendo de grandes volumes de milho brasileiro que estão sendo exportados).

A impressão que se tem neste momento, quando se aproxima o término da colheita da safra de milho, é que o órgão regulador vai manter a obrigatoriedade vigente. Mesmo sabendo-se que os estoques de passagem do milho nos EUA vão ser bem apertados, a reeleição do Presidente Obama avaliza em parte esta expectativa. Verdade que algumas indústrias produtoras de etanol pararam sua produção, outras estão trabalhando com margens de lucro mínimas e as importações de etanol de cana-de-açúcar do Brasil devem diminuir, o que justifica que acompanhemos de perto os próximos capítulos.

Paulo Costa é especialista em agronegócios e bionergia, consultor senior de AgropCom. Possui mais de 37 anos de experiência nos setores agro, energia e logística, tendo ocupado cargos de direção em grandes empresas.