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Usinas vão parar e o setor sucroenergético vai encolher, prevê Itaú BBA

Para Figliolino, usinas deixarão de funcionar e a capacidade de moagem no centro-sul deve ficar entre 570 e 530 mi/ton. “O que o mundo diz hoje para o açúcar e para o etanol é ‘reduza a produção’”


novaCana.com - 23 mar 2015 - 10:32 - Última atualização em: 23 mar 2015 - 14:15
Excluindo as empresas em estado mais crítico e que podem responder pela queda na capacidade de moagem, "o pior já passou" (Foto: Jorge Rosenberg)

Reconhecido como uma das principais autoridades do mercado financeiro quando o assunto é o setor sucroenergético, o diretor do Itaú BBA, Alexandre Figliolino, tem em sua carteira de relacionamento companhias que respondem por cerca de 70% da moagem de cana-de-açúcar no centro-sul.

É sob o peso dessa bagagem que o executivo assegura: “o setor está no caminho do encolhimento”. Em entrevista exclusiva ao portal novaCana, ele estimou que, na região, a capacidade de moagem será reduzida para algo entre 570 e 530 milhões de toneladas.

Em estimativa recente, a Unica considerou que o limite industrial de moagem de cana, havendo condições favoráveis ao processamento, esteja na casa das 600 milhões de toneladas.

Dois fatores apoiam a previsão de Figliolino: unidades com grande dificuldade em manter a operação e a sinalização do mercado com preços baixos para os principais produtos das usinas.

“O que o mundo diz hoje para o açúcar e para o etanol é ‘reduza a produção’”, afirma. Segundo avalia, será inevitável tirar do mercado uma parte da oferta para colocar os preços em um nível mínimo de rentabilidade.

O que sustenta a produção de etanol é o anidro – com a mistura na gasolina ampliada de 25% para 27% –, embora a demanda potencial do hidratado seja enorme e crescente no mesmo ritmo da frota flex. Contudo, sem preço remunerador, esse mercado teórico não dá suporte à indústria, analisa o diretor.

“Não existe demanda a preço sustentável para o hidratado. A tendência é encolhimento de oferta. Isto é necessário para possibilitar, no futuro, uma recuperação de margem, de forma que volte a ser sustentável [produzir etanol hidratado]”.

Já o mercado de açúcar fará com que o Brasil e também outros players internacionais diminuam a oferta. “Certamente [a bolsa de] Nova York abaixo de 13,5 [centavos de dólar por libra-peso] vai dar um sinal forte para o mundo reduzir a produção de açúcar”, reforça.

E o sinal é de pisca alerta, com preços batendo os menores níveis em seis anos. Veja gráfico abaixo.

Limite de 13,5 cents/libra peso: preço do açúcar em NY

Quanto à viabilidade das usinas, “vai haver um número grande de grupos, até com relevante importância, que vão estar com sua sustentabilidade totalmente comprometida”, alerta o executivo que tem em seu portfólio negócios com mais de 60 companhias do setor.

A avaliação de Figliolino, que não menciona nome de empresas, é reforçada pela ameaça à continuidade de uma sucroalcooleira tradicional, o Grupo Virgolino de Oliveira (GVO), com quatro usinas e uma capacidade de moagem de 12 milhões de toneladas. Conforme reportagem do novaCana, fontes que possuem relacionamento com a empresa consideram pouco provável que ela consiga operar nesta safra.

“Os grupos bem estruturados estão conseguindo passar relativamente bem, mas tem empresas cuja situação é tão crítica que não moer pode ser uma realidade. Existe empresa que não tem um litro de diesel, não tem material [...] e isso pode levá-la a paralisar suas operações”, considera.

“Esta safra não foi um desastre”

Na visão de Figliolino, a quebra de safra em 2014/15, o aumento dos pedidos de recuperação judicial e o maior número de usinas paralisadas, não fazem desta temporada que termina uma calamidade.

“No ano passado a dívida do setor cresceu, mas a safra não foi um desastre total e completo, as empresas pisaram forte na redução de investimento. Só se investiu absolutamente o necessário, por falta de crédito, mas também por total falta de expectativa de um cenário melhor”.

Essa necessidade de trabalhar em condições adversas nos últimos anos, vem tornando as usinas mais eficientes. Em 2014, apesar da inflação dos custos ter ficado muito próxima ao IGP (índice geral de preços), com as medidas de economia, o aumento de custos verificado foi de apenas 1%, aproximadamente, “o que é muito abaixo da inflação”.

Com o controle rigoroso, diz o gestor do Itaú BBA, a geração operacional de caixa cresceu um pouco. Aliado a isso, o aumento dos preços, gerou impacto positivo para a receita por tonelada de cana, que teve pequeno crescimento, de 2%.

“O setor tem trabalhado fortemente em um enxugamento de custos, enquanto os preços foram ligeiramente superiores, 2% acima da safra anterior [2013/14]. Houve certa melhora nos preços do etanol, a desvalorização cambial permitiu uma liquidação do açúcar em reais um pouco superior e tivemos ainda a parte de energia que ajudou muito”, explica.

Por outro lado, com a desvalorização do real e o aumento da taxa de juros interna, a dívida ficou mais cara. Ainda não existe uma análise definitiva do banco sobre o atual endividamento do setor, mas o número preliminar do Itaú BBA aponta um crescimento de 9% a 10%. Assim, a atual dívida sucroenergética estaria, em média, em R$ 115/tonelada, ante os R$ 105/tonelada registrados em março de 2014.

“Mas média é aquela coisa, a cabeça está na geladeira e os pés estão no forno”, brincou sobre as assimetrias existentes no setor.

Evolução da dívida média por tonelada de cana moída

Na estudo mais recente do Itaú BBA, do segundo semestre do ano passado, Figliolino já destacava o abismo que separa os grupos mais bem posicionados daqueles em situação mais crítica.

A desigualdade pode ser ilustrada com o nível de custos para a produção de açúcar. No ano passado, enquanto os nove grupos mais eficientes registraram custos de R$ 700/ton, os quatro piores ultrapassavam os R$ 1.100/ton da commodity. Mesmo no quesito receita por tonelada de cana (R$/ton) a diferença entre as primeiras e as últimas colocadas era de 33%, segundo a análise do banco.

“O pior já passou”

Não é todo mundo que vai poder comemorar, mas quem conseguiu resistir bem às tempestades dos últimos anos, pode se preparar para uma boa colheita. Mas isso não necessariamente vai reverter em maior lucro líquido.

“No agregado vamos ter uma safra muito parecida, mas, individualmente, algumas empresas vão ter uma recuperação bastante forte em seus rendimentos e isso deve ser muito positivo para melhorar a parte operacional delas”.

Mesmo excetuados os êxitos isolados, a aposta é que a safra 2015/16 seja melhor, apesar de ainda não se tratar de um ciclo de recuperação, uma vez que há “uma parte não desprezível” do setor caminhando para uma condição cada vez mais difícil.

Excluindo as empresas em estado mais crítico e que podem responder pela queda na capacidade de moagem, Figliolino acredita que o pior já passou e destaca o papel do câmbio sobre o setor.

O papel do câmbio

Por mais que uma parte da desvalorização do real tenha sido compensada pela forte queda do açúcar em Nova York, a atual relação de câmbio continua sendo competitiva ao Brasil e ainda pode abrir algum espaço para a exportação de etanol.

Uma espécie de “válvula de escape” para a crescente oferta do combustível no Brasil, a barganha atraiu dois grandes grupos do setor, Raízen e Biosev, que enviarão, nos próximos meses, grandes remessas do combustível a território norte-americano.

Ao mesmo tempo, os preços do açúcar no mercado internacional são ruins para grande parte dos produtores no mundo e isso deve gerar um efeito de redução da oferta “mais pra frente”, mesmo com alguns países contando com ajuda governamental, como Índia e Tailândia, que subsidiam a produção.

Assim, prevê, as usinas devem ter preços médios melhores em real e um aumento de faturamento por tonelada de cana maior do que a safra passada.

Outro efeito da desvalorização do real foi zerar a defasagem da gasolina importada em relação ao mercado doméstico do combustível, o que é positivo, segundo Filiolino. “Começamos o ano com o preço interno 50% acima do externo e isso é um risco muito grande, dava uma fragilidade. Agora, com o câmbio mais alto, estamos defendidos da importação de etanol e teremos preços realistas na gasolina, esse é um cenário importante”.

Também vão ajudar a volta da cobrança da Cide, o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina e o clima mais favorável na principal região produtora.

No polo negativo, como grande parte da dívida do setor é em dólar, o câmbio também trará seu impacto altista e a parte doméstica da dívida terá taxas de juros mais elevadas. Essas variações vão encarecer o custo da dívida. “Então, não sei se no lucro líquido vai haver grandes melhoras”, ressalta o diretor.

“O peso da moeda, da taxa de câmbio entre real e dólar, é enorme e isso [que vemos agora] é muito estimulante, mesmo com toda pressão que tem exercido sobre o preço do açúcar. Isso é até bom a médio e longo prazo”, reforça, sinalizando para a tendência de redução da oferta da commodity.

Nova safra terá moagem similar a anterior

Em termos de moagem, a safra 2015/16, que inicia oficialmente em abril, promete ser muito parecida com a atual ou, no máximo, ligeiramente superior. O executivo do Itaú BBA espera uma moagem de cerca de 580 milhões de toneladas no centro-sul.

O bom tempo registrado para os canaviais da maior parte da região em fevereiro e março, traz um efeito positivo sobre a produção, mas que deve ser abafado pela deterioração dos investimentos no campo.

“O ritmo de renovação dos canaviais vem diminuindo já há dois anos e, alguns grupos em pior situação, estão deixando os tratos culturais de lado, isso vai trazer algum impacto. O clima joga para cima [os números de safra] e a questão dos investimento para baixo”, pondera.

Cogeração

Esta ano, com os preços da energia cortados a menos da metade no mercado spot, o ânimo para lotar as caldeiras de biomassa pode arrefecer um pouco.

Em 2014, o PLD (preço de liquidação da diferenças) de R$ 822 estimulou ao máximo as usinas a produzirem bioeletricidade a qualquer custo, utilizando palha e outras biomassas adquiridas fora do setor. Mas, observa o executivo, o estímulo do mercado spot se restringe ao aproveitamento da capacidade instalada e não fomenta o aumento de potência.

Este ano, o PLD a R$ 338 já não é tão estimulante às usinas e pesa ainda, “uma coisa que influencia muito”, o interesse pela venda da biomassa excedente, uma vez que usinas de São Paulo tem conseguido remunerar muito bem a palha e o bagaço fornecida aos seus pares, observa.

O que pode reforçar o interesse da cogeração é o mercado regulado.“Esse leilão [de fontes alternativas] em abril, que tem bastante biomassa inscrita, deve destravar investimento e alguns pouquíssimos projetos de expansão”.

As oportunidades de contratação de longo prazo deste ano devem colocar o setor “em situação bem melhor do que lá atrás”, quando o governo colocava a biomassa para concorrer com outras fontes, com caraterísticas muito díspares.

Sobre o preço mínimo para viabilizar investimentos do setor, assegura que “acima de R$ 150/MWh a conversa muda e vai depender da associação de cada empresa”.

Figliolino aponta que outros estímulos para ajudar a conexão das usinas ao sistema de distribuição podem ajudar bastante, assim como leilões ainda mais específicos – no de fontes alternativas competem biomassa e eólica – ou regionais.

Ele sugere ainda que há investidores olhando parcerias com usinas, o que ajudaria a elevar a oferta de bioeletricidade do setor.

Na parte de financiamento, observa o diretor, a linha de cogeração do BNDES ainda continua atraente, uma exceção após a redução dos subsídios e aumento das taxas na grande parte dos programas de crédito. “A única linha menos prejudicada foi a cogeração, que continua com taxa de juros interessante e participação de 70% [do banco sobre o valor total do investimento]”.

“Em um futuro não muito distante”...

Em seu mais recente relatório público sobre a saúde do setor, de outubro último, o executivo apostou em três movimentos de retomada: primeiro, ampliação e otimização das usinas existentes, depois a absorção de grupos muito fragilizados pelos pares melhor estruturados e, por fim, a volta do capital estrangeiro.

Por enquanto, as usinas não deram nem o primeiro passo, dos investimentos incrementais. Mas isso tende a mudar em breve.

“Em algum momento no futuro, não sei se no final de 2015 ou em 2016, a gente pode passar a entrar em outro ciclo de preço de açúcar, mais favorável, com real desvalorizado, talvez com algumas medidas adicionais do governo favorecendo o etanol. Não dá pra dizer quando, mas podemos iniciar uma fase de retomada”.

Por enquanto, a situação é apenas “menos ruim do que estava”, enfatiza, “mas, olhando os drivers de preço a gente começa a ficar animado que, em um futuro não muito distante, possamos ter preços melhores e isso passar a fomentar operações de fusão e aquisição”.

Amanda SchArr - novaCana.com